Natural de Tubarão, Jony Coelho é um apaixonado pelo desenho. Traçava as primeiras linhas desde criança, quando estudava no Grupo Hercílio Luz. Depois, passou pelo Colégio Henrique Fontes e fez o Ginásio Científico no Dehon. Quando decidiu tornar-se arquiteto, precisou mudar-se para o Rio Grande do Sul, já que não havia a faculdade em Santa Catarina. Depois de se formar na Universidade Federal de Pelotas, voltou para a cidade natal. Trabalhou na prefeitura e montou o seu próprio escritório, mas foi chamado para trabalhar na Unisul, em tempo integral, e lá está desde então. É professor nos cursos de engenharia e arquitetura e urbanismo. Também é responsável pelo projeto de prédios de vários campi da universidade.
 
 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – Como é urbanização em Tubarão?
Jony – Primeiro, tem que diferenciar a caminhabilidade, a mobilidade e a acessibilidade. Por exemplo, a caminhabilidade faz parte da própria infraestrutura, do passeio, da rua. A estrutura que você tem para caminhar. A qualidade dela. O nosso caso aqui é sério. Temos muita pavimentação deteriorada, muitas interrupções e muitos elementos que obstruem a passagem da pessoa, então, a caminhabilidade é prejudicada em Tubarão pela qualidade da pavimentação. A maioria dos passeios da cidade está cheio de buracos e empecilhos ao pedestre.
 
Notisul – E no caso da mobilidade e a acessibilidade?
Jony – A mobilidade é a facilidade que você tem de ir de um ponto a outro da cidade, independente do veículo. Pode ser a pé também. Para ter uma mobilidade eficiente, se for a pé, precisa ter uma caminhabilidade. O pavimento tem que ser bom. A calçada, o passeio tem que ser de boa qualidade. E depois temos a acessibilidade. Na arquitetura, é referente ao acesso no ambiente arquitetônico. Nos prédios, nas casas, no comércio. Em todos os ambientes em que o ser humano tem que entrar. E é para todos. Não apenas para os deficientes. É um termo que também abrange outras áreas. Na informática, por exemplo, é preciso que haja um teclado com acessibilidade, para que um sujeito que tem deficiência visual possa utilizar. A arquitetura fala sobre essa facilidade para entrar em um local, independente de deficiência ou não.
 
Notisul – Como é acessibilidade em Tubarão?
Jony – Os arquitetos estão adequando seus novos projetos. O Corpo de Bombeiros tem uma série de exigências de segurança. A própria prefeitura também tem uma série de exigências. Mas o problema está nos edifícios antigos, que precisam ser adequados. No caso de Tubarão, eu creio que a acessibilidade não é o problema. Isso vai ser resolvido com o trabalho dos profissionais e com a consciência da população. Agora a mobilidade é um problema, porque tem a ver com o trânsito, o automóvel, que é o grande vilão do urbanismo. É uma invenção recente e ele modificou totalmente a cidade. A circulação é complicada por causa do automóvel. Até quando vai ficar esta opção por cada um ter o seu carro, e ir onde quiser, ir e vir achando que está livre e desimpedido? Eu acho que é quase impossível. Aí é com o tempo. Vamos chegar em um ponto em que a coisa vai ficar tão ruim que vai ser preciso ter outra alternativa de transporte. A caminhabilidade entrou em evidência porque tem a ver com a economia de recursos, com a poluição do meio ambiente, porque, se você caminha, não solta CO2 no seu automóvel, e ainda faz exercício físico. Por exemplo, a nossa cidade é pequena. Em um raio de dois quilômetros no centro da cidade, você atinge todas as necessidades básicas. Poderia ser feito a pé. Mas caminhar é muito complicado. É inseguro. O pavimento não é de boa qualidade. Não é sinalizado. O cidadão comum pega o automóvel para andar 500 metros. Ele não é incentivado pela infraestrutura urbana, pela qualidade do urbanismo, para que caminhe. E à noite coloca o carro na garagem e caminha seis quilômetros para fazer exercício. Poderia fazer isso durante o dia.
 
Notisul – Se o carro é o grande vilão do urbanismo, a culpa é de quem? Da frota que está grande demais ou a cidade que foi mal planejada?
Jony – Em Laguna, por exemplo, um amigo me perguntou por que as ruas de lá são tão estreitas, não dão vazão aos automóveis. Veja bem, a cidade de Laguna é anterior à revolução industrial. Ela é correta para a época em que foi construída, em que tudo funcionava a lombo de burro ou do esforço humano. O grande vilão foi depois da revolução industrial. O automóvel entrou em uma estrutura que não estava planejada para ele. A maioria das cidades é anterior à invenção do automóvel. Tubarão também é anterior. É do século 19. Então, a estrutura básica da cidade já estava feita. Com o crescimento, com a renda, ele tornou-se um bem muito fácil de ser adquirido, e a cidade não tem condições de absorver esse movimento. É impossível. Nenhuma cidade do mundo tem. Então, planejamento ajuda. Mas não resolve todo o problema, porque isso já vem de antes, da gênese da cidade.
 
Notisul – O senhor chegou a fazer um projeto de acessibilidade para a avenida Marcolino Martins Cabral.
Jony – Isso foi há muito tempo. Nos anos 80, eu participei de um projeto, junto com o governo federal, para a construção de uma ciclovia na avenida Marcolino. Projetamos uma ciclovia de acordo com a norma holandesa, mas a coisa não se concretizou. Ela foi construída e ninguém usou como ciclovia. Hoje é usada como passeio de pedestres. Claro, acho que houve um erro. Uma ciclovia não é adequada naquele local. Seria mais correto na margem do rio, onde não tem interrupções a cada quadra. Mas foi feito, de acordo com a norma holandesa, que é a melhor norma do mundo, e está feito. Aquele passeio que todo mundo caminha é uma ciclovia.
 
Notisul – Como o senhor avalia Tubarão no ponto de vista arquitetônico?
Jony – Em relação à arquitetura, houve uma melhoria considerável na qualidade dos projetos, na qualidade da execução dos edifícios. A universidade tem uma grande importância, formando engenheiros e arquitetos. Então, eu acho que foi um avanço positivo. Temos construções de boa qualidade, bem planejadas, bem executadas. Há 20 anos, não era assim. A gente tinha poucos profissionais, e o produto da arquitetura não era de boa qualidade. As pessoas passaram a dar importância para isso, e neste ponto é positivo, a cidade está ficando muito bem. Mas na construção civil estamos com um crescimento enorme. Eu não quero ser interpretado mal, eu não sou contra este crescimento. Ele é fabuloso, é benéfico, gera empregos. Toda uma indústria de base gera riqueza, resolve o problema do déficit habitacional. É uma solução. O problema é que esse crescimento, como nas outras cidades, é desordenado. Então, a cidade está crescendo desordenadamente. Hoje, muitas áreas de risco, de inundação, estão sendo usadas para a expansão urbana. Isso vai ter um custo no futuro. Alguém vai pagar por isso. Como aquelas áreas periféricas de plantação de arroz estão sendo invadidas pela urbanização. E isso temos que levar em conta. 
 
Notisul – E sobre a verticalização?
Jony – Essa verticalização por si só não é maléfica. Construir edifícios verticais, quando em um local planejado, com a infraestrutura planejada, é saudável e muito mais econômico para a sociedade. Agora, quando você verticaliza em uma área que não tem infraestrutura, e que a rua não suporta o trânsito de veículos, que não tem estacionamento, que o esgoto não dá vazão. Que a drenagem não é suficiente. Aí sim temos um problema sério, que é colocar muita gente num espaço pequeno sem a infraestrutura para suportar uma qualidade de vida, e isso deve ser pensado.
 
Notisul – E isto é comum?
Jony – Muito comum. É o que está acontecendo. Ruas estreitas aqui no centro, com edifícios de 20 pavimentos. Outro fator também é que o nosso plano diretor em vigência não tem limite de pavimentos, e isso propicia uma densidade muito boa. Outra questão é a necessidade de um plano diretor aprovado, e que tenha uma equipe que vá adequando esse plano durante a sua vigência. A questão do plano diretor tem a ver com uma só coisa: especulação imobiliária. Em uma cidade sem lei, a especulação imobiliária é enorme. E não pense que a especulação imobiliária fala só sobre o empresário da construção civil ou da imobiliária. Não. Ocorre com todo mundo. Por exemplo, você tem um terreno. Pelo plano diretor atual, podes fazer um edifício de 12 pavimentos. Com dois apartamentos por andar, vai fazer 24 apartamentos. Se vir um plano que diminui essa altura para quatro andares, o seu terreno, teoricamente, vai desvalorizar muito. Então, como cidadão, você não vai gostar. E é este o grande problema do plano diretor, a especulação, o valor excessivo dos terrenos. 
 
Notisul – Outro problema é com relação às pontes. Qual o local mais indicado para construir uma nova travessia em Tubarão?
Jony – Eu propus uma ponte na Rui Barbosa, porque é o único local em que as vias dos dois lados do rio concordam geometricamente. Poderia atravessar toda a cidade transversalmente. Mas tem que cuidar as construções ao longo dessa via, para que não avancem demais. Precisa de uma legislação específica para cuidar desta via e evitar problemas futuros. A ponte Dilney Chaves Cabral é atravessada. Logo que chega na margem, é interrompida pela avenida. Na Rui Barbosa, poderia ir de Humaitá de Cima até Congonhas em uma via única. Uma via transversal que une todas as outras. 
 
Notisul – As construções verdes estão ‘na moda’. O que elas têm de benefícios?
Jony – Têm muitos benefícios, mas é algo de técnica muito apurada e o sujeito que projeta precisa ter um grande conhecimento na área. Não é só colocar um telhado de grama. Toda arquitetura é pensada para a economia de energia, e aí por diante. É um assunto complexo, mas é tendência. O teto jardim, a parede sombreada, a ventilação natural…
 
Notisul – Então, para que haja uma explosão destes modelos, é preciso que haja profissionais?
Jony – Exato. O profissional tem que ser especializado nesta área. Não dá para ser feito por qualquer um. Envolve muito conhecimento de construção, de conforto ambiental, de paisagismo. Tem que ser especializado na área.
 
Notisul – Tubarão não tem para onde crescer. O que pode ser feito nesta área?
Jony – Esse é um problema. Um dos motivos da verticalização é que a cidade não tem para onde expandir. Ela é cercada de alagados. Então, a área física é pequena. Tem que ter é uma lei, uma discussão com toda a sociedade para regular isso. Ninguém tem fórmula mágica. A solução se dá através de conversa, de negociação. Eu não tenho fórmula, apenas algumas coisas pontuais, micro, como cidadão. Eu quero caminhar sem buracos, quero esgoto sanitário. Mas a grande solução macro da cidade eu não tenho, e acho que ninguém tem. Essa solução vai surgir da discussão das pessoas. Câmara, cidadãos, arquitetos, engenheiros. É daí que vai surgir a resposta. Claro que temos que resolver o problema do sistema viário, mas aí os automóveis vão desaparecer? Não. Sempre teremos engarrafamentos. Mas não precisa ser tão ruim. As soluções nunca são ideais. Sabemos que precisamos de um transporte coletivo de boa qualidade, mas a cultura local nossa é de não usar o transporte coletivo, ao contrário de outras cidades, como Curitiba. Mas também o nosso transporte coletivo é de baixa qualidade. Não temos pontos de ônibus protegidos, a pessoa fica na chuva. É uma questão cultural também.
 
Notisul – Mudando de assunto, o senhor é professor de desenho. Como é a sua relação com o desenho?
Jony – Sou arquiteto, sou professor. E a minha relação com o desenho vem desde criança. Sempre achei mágico o ato de desenhar, e sempre desenhei. E conforme eu vou ficando mais velho, eu vou desenhando mais. Leciono desenho para os meus alunos na universidade e, além disso, quero tirar o mito de que desenho é algo dado pelos deuses, que o sujeito é especial porque desenha. Nada disso. O desenho é uma linguagem como a linguagem escrita. A gente aprende a desenhar. Agora desenhar e fazer arte é um pouco diferente. Por exemplo, uns têm talento para a literatura, mas quem não tem também escreve. Então, o desenho é como uma linguagem. Também gosto muito de pintar com a aquarela, com as cores pastéis. É uma paixão na minha vida.
 
Notisul – Partindo deste princípio, qualquer um pode desenhar?
Jony – Qualquer um pode. E deve. Um dos motivos do surto da tecnologia no mundo oriental,  na Coreia do Sul e no Japão, principalmente, é que o desenho é ensinado em toda a escola, desde a infância até ele ficar mais velho. Existe uma máxima que diz que todo japonês desenha bem, que é porque ele faz isso sempre. Os próprios ideogramas deles já são uma forma de desenho. Então, o desenho é a linguagem da tecnologia. E nós, no Brasil, esquecemos disso. O desenho a mão livre no colegial desapareceu há muito tempo. Quando foram feitas as primeiras escolas técnicas no Brasil, no século 19, tinham três disciplinas: a língua, a matemática e o desenho. Não se admite crescimento tecnológico sem o desenho.
 
"O novo plano diretor existe. A lei existe. Ela não foi aprovada até agora. No volume, tem mais de 300 assinaturas. Foi feita em comissões da cidade toda. É claro que deve ter falhas, mas um plano não é rígido. É preciso uma equipe para traçar mudanças no rumo. Muito pior é ter uma lei muito ultrapassada, já antiga, que não corresponde às necessidades atuais da cidade. O plano tinha coisas boas, mas que é facilmente corrigível com uma equipe. Sempre que se faz um plano diretor, a prefeitura tem que montar uma comissão para corrigir os desvios. É como a rota de um foguete. Você mira na lua, mas precisa fazer mudanças na rota para acertar o alvo. Se tal parte for errada, muda o trecho. Manda para a câmara, aprova, corrige. Existe uma lei que está engavetada".
 
"O plano diretor é antigo, 
não adequado à realidade 
de hoje. O outro plano 
diretor não foi aprovado". 
 
"O cidadão comum pega o automóvel para andar 
500 metros. E à noite coloca o carro na garagem 
e caminha seis quilômetros para fazer exercício. Poderia fazer isso durante o dia”.