Há quase 60 anos, Valdecir Alfredo Custódio, 71, dedica-se à profissão de alfaiate. A paixão pela alta-costura não passou para os quatro filhos que teve com a amada esposa, dona Marly da Cunha Custódio. Nascido em Itajaí, onde aprendeu o ofício com apenas 12 anos, Valdecir chegou a Tubarão para passar pouco tempo. O destino era Porto Alegre, mas aí… Para a sorte dos prefeitos da cidade nesta metade de século, ele ficou. Simpático, detalhista e com uma memória infalível, Valdecir conta um pouco como era na época em que começou a costurar. Uma época em que não havia loja de roupas como hoje. Uma época saudosa que, em parte, ele até gostaria que voltasse!


"Vejo que as mulheres não perderam a elegância. Os homens sim. Vejo nas ruas mulheres bem trajada e acompanhadas por homens de chinelos e bermuda. Dá até pena de ver as belas mulheres nesta situação".
 

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – Quando o senhor começou na profissão?
Valdecir – Aos 12 anos, em 1952. E até hoje estou na luta. No dia 20 deste mês completo 59 anos de profissão. Serão 59 anos se contar 8 horas de serviço por dia. Antes, eu trabalhava direto. Começava às 4 horas e ia até meia-noite. Trabalhei 18 anos assim. Por isso digo que devo ter 100 anos de profissão (risos). Comecei em Itajaí. Vim para Tubarão em 1960. Aprendi o ofício com um rapaz, o Ulisses Leite Júnior. Ele e o José Pedro Hoffomann me ajudaram muito profissionalmente. Em 1958 dei uma parada porque fui para o Exército, em Joinville. Depois que dei baixa, voltei a costurar. Cheguei em Tubarão no dia 3 de janeiro de 1960.
 
Notisul – E veio fazer o que aqui?
Valdecir – Passar alguns dias. O destino mesmo era Porto Alegre (RS). Lá existia um alfaiate muito famoso, o Wargas. O cara era muito bom e fui convidado a fazer um estágio com ele. Ajeitei-me todo para ir, mas quando cheguei em Tubarão… gostei e fiquei. Hoje são 51 anos de Cidade Azul. Já pensei em voltar para Itajaí várias vezes. Mas na hora H penso nas amizades que fiz e fico. Agora já decidi que não quero mais sair daqui não!
 
Notisul – O senhor tem clientes bem conhecidos em Tubarão. Inclusive prefeitos…
Valdecir – Isso foi uma coisa interessante. Eu abri a primeira alfaiataria em 1967, na rua Rui Barbosa. Nessa época o prefeito que assumiria o cargo seria o Dilney Alves Cabral e eu tive a chance de fazer a roupa para a posse dele. A partir daí fiz a roupa da posse de praticamente todos os prefeitos de Tubarão. Só não fiz para o Genésio Goulart e para o Manoel Bertoncini. Ainda hoje visto os ex-prefeitos. Os vivos, claro (risos).
 
Notisul – Quando o senhor começou não existiam lojas de roupas. Como era na época? 
Valdecir – Era uma época mais farta em trabalho e dinheiro, obviamente. Quando veio este negócio de loja de roupa, muitos alfaiates aposentaram suas agulhas. Mas é a evolução dos tempos. Lá pelos anos 70, uma loja grande, a Alfred, surgiu. Mas sempre havia a necessidade de uma alfaiataria. Quando apareceu essa loja, o cara veio falar comigo para arrumar roupa para ele. Eu disse que não. Afinal trabalharia contra mim mesmo, certo? Combinei com todos os alfaiates de Tubarão de não fazermos conserto para a loja Alfred. Aí eles não puderam vender roupa em Tubarão, porque não tinha quem arrumasse as roupas.

Notisul – (Risos) Que malvado seu Valdecir!
Valdecir – Malvado nada. Esperto (risos).
 
Notisul – Hoje, como o senhor vê as lojas de confecções?
Valdecir – Não tenho nada contra. Bem pelo contrário. Acho importante para o país porque dá muito emprego. Mas que a roupa feita sob medida veste muito melhor, isso não tenha dúvida. Há uns quatro anos, uma pessoa de Criciúma procurou-me para pedir uns conselhos. Ele precisava ajeitar umas partes das roupas da sua confecção. Dei uma pincelada. Ele me contou que antes vendia ternos por R$ 200,00. Entrou outra confecção e ofereceu a peça por R$ 190,00. Em seguida ele baixou para R$ 180,00 e a concorrência para R$175,00. Ele parou no R$ 170,00. E o que ocorreu? O produto dele perdeu qualidade. Para poder vender neste preço, começou a empregar gente que não entendia nada de costura, porque os salários eram menores. Depois  passou a usar aviamentos mais baratos. Este é o problema. Esta é minha crítica. A concorrência é boa entre as lojas, mas é preciso que todos primem pela qualidade. E neste quesito o alfaiate se sobressai, porque o trabalho é sempre único, detalhado. 
 
Notisul – Qual a diferença da roupa pronta para a roupa que o alfaiate faz?
Valdecir – A diferença de roupa pronta para roupa de alfaiate é imensa. Para nós, alfaiates, que entendemos de roupa, quando olhamos para uma peça, logo apontamos o que está errado. Eu tenho visto cada roupa hoje que tenho até vergonha. 
 
Notisul – Na sua opinião, o que mudou nos tempos de hoje?
Valdecir – Vejo que as mulheres não perderam a elegância. Os homens sim. Vejo nas ruas mulheres bem trajada e acompanhadas por homens de chinelos e bermuda. Dá até pena de ver as belas mulheres nesta situação.

"O ex-prefeito Paulinho May mandou fazer uma roupa uma vez. Eu não sabia se ele precisaria de algibeira, que são uns bolsinhos onde a gente põe moedinhas. Aí eu liguei: ‘Alô! Paulinho! Aqui é o Valdecir. Eu estou ligando para saber se você quer algibeira no lado da calça’. Ele respondeu rápido: ‘Algibeira? Se eu quero algibeira? Por que você não põe bolso em tudo que é lugar? Queria eu que colocasse bolso pela perna, braço, em tudo que é lugar. Eles estão dizendo que estou roubando. Então eu preciso de bolso, de muito bolso, para colocar o dinheiro’.  Paulinho May sempre foi brincalhão. Era um carinha fantástico".