Farmacêutico bioquímico, Daisson José Trevisol está em Tubarão desde 1995. Natural de Itá, no oeste do estado, veio para a Cidade Azul estudar, e nunca mais saiu. Neste tempo, fez a especialização em gestão, o mestrado em saúde coletiva e o doutorado em ciências da saúde. Professor do curso de medicina e do mestrado em saúde, na Unisul, é casado com Fabiana Schuelter Trevisol, que também dá aulas na universidade. É pai de Beatriz e Letícia. Sem filiação política, aceitou o convite do ex-prefeito Pepê Collaço e trabalhou como secretário de saúde e desenvolvimento social até o fim do último ano.
 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – Que avaliação pode fazer do período em que esteve à frente da secretaria de saúde?
Daisson – Foi um período intenso. Não posso dizer que foi fácil, porque em seis meses não se pode modificar tudo que você tem intenção de mudar. Não consegue colocar em prática tudo que se pensa, principalmente em gestão pública, onde as coisas demoram um pouco mais para ocorrer. Elas podem ocorrer, são possíveis, mas é um pouco mais demorado o processo. Esses seis meses foram muito bons! Eu aprendi muita coisa na secretaria neste período. Saio de lá contente de ter conseguido auxiliar alguma coisa para a população, de ter deixado pelo menos a minha marca na secretaria da saúde. Mas digo que fica sempre um gostinho de quero mais. Seis meses é um período muito curto para realizar algumas coisas, mas posso dizer que fiz o máximo possível. O que podia ser feito, o que tinha como resolver foi feito na secretaria.
 
Notisul – O trabalho foi mais difícil do que tinha imaginado?
Daisson – Não é que seja difícil. Os seis meses em que assumimos foram conturbados, pelo pré e o pós-eleição. São momentos conturbados para se trabalhar. Mas que dá para fazer muita coisa pela saúde em mais tempo, dá. Dá para trabalhar muito pela cidade de Tubarão. Mas o que podia ter sido feito, foi feito. Trabalhamos muito nestes seis meses na organização interna da secretaria. Trabalhamos em alguns projetos mais curtos, que vão ter reflexo agora, nesses próximos meses. Estávamos colocando a casa em dia. Claro que não ficou 100%, essa é uma coisa que exige um tempo maior, pelo menos um ou dois anos. Mas acho que foi bem satisfatório.
 
Notisul – Comparando antes de você assumir e agora, o que você mudou na secretaria?
Daisson – O mais difícil é a humanização da secretaria. Que as pessoas preocupem-se um pouco mais com o ser humano. Eu acho que essa é uma característica minha. E acho que deixei um pouco essa marca, das pessoas terem um atendimento um pouco mais humanizado. Você não muda todas as pessoas em seis meses, mas você muda uma parte das pessoas pelo exemplo que se dá. Eu estava na secretaria todos os dias, às 7h30min da manhã. Saía lá pelas 13 horas. Às vezes, à tarde eu também estava lá, ficava presente mostrando para as pessoas como se faz. A porta da minha sala sempre esteve aberta para todo mundo, tanto para a população quanto para os funcionários. Então, esse exemplo que você dá para as pessoas é positivo. É como eu digo: a gente sempre deixa alguma coisa. E a melhor coisa que se pode fazer quando trabalha com o público é mostrar com exemplo. E as pessoas acabam seguindo e fazendo da mesma forma que você faz.
 
Notisul – Você tem alguma pretensão política?
Daisson – Não, nenhuma. Não tenho ligação nenhuma com política. Não pretendo me ligar a partido político nenhum. Eu sou um técnico que tem um conhecimento amplo em saúde, e um conhecimento básico em gestão. E foi o motivo pelo qual o Pepê (Collaço, ex-prefeito) me convidou para tocar esse projeto.
 
Notisul – E como foi o convite?
Daisson – O convite já surgiu há tempos, como uma sondagem do Pepê, que a intenção dele quando fosse prefeito era de eu assumir a secretaria da saúde. Mas nós não esperávamos que fosse em um momento conturbado, e em um momento de tristeza para o município de Tubarão, que foi a perda do prefeito Manoel Bertoncini, que era uma pessoa muito boa. E, quando o Pepê me convidou, não é que tenha sido surpresa, mas foram seis meses muito delicados. O meu projeto era trabalhar com ele em um projeto de quatro anos, que seria muito mais fácil de trabalhar. Muito mais fácil fazer um projeto a longo prazo, já que você pode planejar as coisas e colher os frutos lá na frente. Em seis meses, seria mais ou menos uma gestão tampão. Mas, mesmo assim, conseguimos fazer muita coisa. Eu fiquei até surpreso de conseguir fazer algumas coisas nestes seis meses, e deixar este legado para a secretaria de saúde e secretaria de desenvolvimento social.
 
Notisul – Sobre a demora para inaugurar o Centro de Controle de Zoonoses, acredita que houve má vontade por parte de algumas pessoas que trabalharam no projeto?
Daisson – Não acredito que seja má vontade. Essa demora no processo acaba sendo por detalhes burocráticos. Se pensarmos, nos últimos seis meses, o Movimenta-Cão foi muito parceiro nosso. Fizemos tudo tentando resolver esses problemas. Então, se pegarmos no geral, todos os setores da secretaria têm alguns problemas. Isso é natural em qualquer ambiente de trabalho. Ou é problema pessoal ou de equipamento. Isso sempre vai existir. E aos poucos você vai resolvendo. Se fosse uma gestão de um ano, um ano e meio, isso seria resolvido tranquilamente. Todos os problemas da saúde que são macro foram resolvidos. Assumi com nove postos de saúde sem médicos, e entreguei todos com médicos. O atendimento pode não ser o ideal, mas têm médicos. O resto se melhora com o tempo. Eu assumi com dificuldade de medicamentos. Faltava. Tudo isso nós resolvemos em seis meses. Eu entreguei o estoque da farmácia abarrotado de medicamentos. Mas os problemas da saúde são individualizados. Eles não são coletivos. Os coletivos são mais fáceis de resolver, porque faz um projeto e resolve. Os que ficaram faltando foram casos individuais. Pessoas reclamando que não conseguiram exame ou medicamento. É o “eu”, a pessoa. Não é coletivo. As reclamações que existem hoje no município são individualizadas. Isso não vai mudar. As reclamações ocorrem em todo local. E no Brasil nós temos uma situação típica. Se você perguntar para qualquer pessoa qual é a parte mais importante no setor público, ela vai dizer que é a saúde e a educação. E qual é a que mais tem problemas? Saúde e educação. Isso é sempre. Com a expectativa que se tem disso é que tenhamos sempre uma saúde melhor. E é o que tem ocorrido, pelo menos nos últimos dez ou 15 anos no Brasil. Mas nunca as pessoas vão ficar satisfeitas, porque sempre vão querer mais. 
 
Notisul – Que tipo de dificuldades há nesta área?
Daisson – Uma dificuldade que temos na saúde pública é a judicialização da saúde. Quando a pessoa vai ao Ministério Público ou no juiz pedir algumas coisas – exames, medicamentos caríssimos – é bastante complicado. Se não tomarmos muito cuidado e não trabalharmos junto com o judiciário para reduzir essa demanda, a saúde vai ter muita dificuldade nos próximos anos.
 
Notisul – E o que precisa ser feito para melhorar?
Daisson – Trabalhar junto com o Ministério Público, com os juízes e advogados, para que as pessoas sejam mais conscientes. Tivemos um processo aqui em Tubarão que passa por uma perícia, para ver se a pessoa realmente precisa deste medicamento. Para ver se a pessoa não precisa de um substitutivo deste medicamento. Isso precisa de uma avaliação profissional, porque obriga o município a comprar um remédio que o prescritor exigiu, sem a avaliação técnica de um outro profissional. Você é obrigado a fazer alguns exames que não seriam o melhor para isso. Alguns experimentais, inclusive. O que tem que fazer é treinar. Fazer palestras, capacitações, para que as pessoas entendam a dificuldade do setor público. Entendo que algumas pessoas tenham necessidade de um medicamento específico. Mas há pessoas que não têm essa necessidade.
 
Notisul – Muitas pessoas reclamam que o poder público não dá atenção para a área da saúde… 
Daisson – Quando se fala em SUS, fala-se em atenção básica. No Brasil, evoluímos muito nisso. A atenção básica é fornecida pelo município. No sul, temos a vantagem que o acesso à saúde é maior que em cidades maiores. Em comparação com Florianópolis, o acesso é muito maior. Mas é muito difícil dar um atendimento completo. Eu sei que a Constituição me diz que somos responsáveis por tudo isso. Diz que a saúde é um dever do estado e um direito do cidadão. No momento que se diz isso, tem que garantir pleno acesso à saúde. Mas aqui, por exemplo, por que temos filas? É a cultura que por qualquer problema se vá para o posto de saúde. E o posto serve para uma prevenção, em primeiro momento, para que depois ocorra um acompanhamento dos exames para diminuir os atendimentos na urgência e emergência de um hospital. Hoje, temos uma inversão deste papel. As pessoas só vão para o posto quando já têm este problema. Elas não fazem a prevenção necessária. Fazemos programas para isto, mas nem sempre surtem o efeito que deveriam surtir. A saúde é suficiente para a população. Porque ela tem a atenção básica. Tem uma atenção de média e alta complexidade. Temos o Hospital Nossa Senhora da Conceição, que é um parceiro muito importante, que faz a filantropia. Com isso, temos um atendimento muito grande. E se precisa sair do município a pessoa é levada. O município, o estado e a União trabalham juntos nisso. A tendência é sempre melhorar. Mas as pessoas sempre acham que é insatisfatório, porque, conforme você melhora, maiores ficam as expectativas. Nunca vamos chegar no ideal. Porque o ideal é não ter doenças, não passar mal.
 
Notisul – E esse aumento na exigência aumenta o nível dos atendimentos?
Daisson – Sim, isso é positivo também. Mas temos que tomar muito cuidado para que isso não extrapole. Que não prejudique o setor público. Os recursos são satisfatórios. Se tivesse mais dinheiro, faria mais, mas, se bem empregado, são satisfatórios. Não tem problema exigir mais. Desde que não perca a noção do que é possível e do que não é possível fazer. Vou dar um exemplo para você. Fomos obrigados a comprar um medicamento experimental importado que não estava aprovado pela Anvisa. E o que ocorre é que não posso trazer uma coisa que não foi aprovado. Custava em torno de US$ 60 mil. Um tratamento muito caro. Não que seja dar um medicamento para a pessoa que não precisa. Mas não era naquela situação, o principal para o tratamento. O melhor seria um transplante, outra atividade em saúde, e não um tratamento experimental que nem sabemos se iria fazer efeito. Eu não posso dar R$ 200 mil para o tratamento de uma pessoa, quando temos só R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões para cuidar da população no ano todo.
 
Notisul – Por que na época de fim de ano muitos postos deixam de funcionar?
Daisson – É uma discussão intensa. Conversamos muito sobre isso. Eu acompanhei o tempo todo. Fiquei até o dia 28 de dezembro. A Policlínica fica aberta, e tínhamos uma média de 20 a 30 pessoas por dia. Fechar os postos de saúde era uma necessidade, já que as pessoas que trabalham lá não teriam férias. Além disso, se deixássemos os postos de saúde abertos, e um dos profissionais não fosse trabalhar, a reclamação seria maior. Então, optou-se por dar o recesso no dia 18, para que as pessoas pudessem descansar para voltar no dia 2 com todo o gás. Então, não vejo que há um problema sério. Neste período, elas procuram o médico quando realmente tem um problema de saúde. E o hospital foi muito parceiro. Nestes seis meses, eu repassei o valor de R$ 325 mil, equivalente a 2011, e agora acertamos um valor de R$ 420 mil para auxiliar no atendimento destas pessoas de urgência e emergência. A população ficou com uma cobertura muito boa de saúde. 
 
Notisul – Na sua opinião, o sistema público de saúde ainda tem muita diferença em comparação com quem é atendido por meio de planos ou particulares?
Daisson – Eu sou usuário de plano de saúde particular. E fui gestor de um plano público. Eu vejo que o sistema público tem evoluído e o particular tem regredido. Essa é a verdade. Eu não posso medir e dizer em que ponto está cada um. O que eu vejo é que há uma evolução, não só em Tubarão, mas no Brasil inteiro. E temos uma dificuldade maior no particular. Até porque, se fomos comparar, queremos um médico da nossa confiança, e isso torna mais difícil para um agendamento.
 
Notisul – A Unisul forma cerca de 80 a 100 médicos por ano. E por que faltam médicos na cidade?
Daisson – Porque a maioria não tem interesse de trabalhar nos programas de saúde da família. Temos cinco ou seis médicos que são formados em saúde da família. Eles saem da faculdade, procuram um posto de saúde para trabalhar. A maioria fica até passar na residência. E você tenta preencher com médicos novamente recém formados. A dificuldade é essa, as pessoas não ficam muito tempo nos postos de saúde. Tem que ficar oito horas no posto e, como a maioria trabalha em outros locais, esse período acaba ficando extenso. O valor não é o primordial, mas sim o tempo que ocupa dele durante o dia. 
 
Daisson por Daisson
Deus – Ser supremo, grande arquiteto do universo.
Família – Para mim, é tudo.
Trabalho – Não tenho medo de trabalhar. Trabalho bastante.
Passado – Nada que eu me arrependa.
Presente – Satisfeito por ter feito o máximo possível pela saúde de Tubarão.
Futuro – Trabalho, trabalho, família.
 
"Nós pegamos o Centro de Controle de Zoonoses com muita dificuldade e algumas coisas que ainda não estavam preparadas para o atendimento, apesar de já estar funcionando. Esse é um problema bastante grande: pegar um local que não está inaugurado, mas já está funcionando. Faltava o centro cirúrgico, que não estava pronto. Fizemos o processo de licitação dos materiais. Os materiais chegaram. Organizamos o setor e no momento em que nós iríamos inaugurar ocorreu a exoneração de algumas pessoas de lá. Ficamos com um contingente de pessoas muito baixo para inaugurar. Daí a (ONG) Movimenta-Cão, que sempre foi nossa parceira neste processo, se ofereceu para trabalhar junto. E montamos o processo que seria o ideal, mas não deu tempo de inaugurar. Quero deixar bem claro que nesta questão do CCZ nós temos que trabalhar muito mais na conscientização das pessoas que têm animais. O que faz com que o lugar fique cheio? É porque algumas pessoas que têm animais colocaram eles na rua por irresponsabilidade. A primeira coisa que tem que se pensar é toda vez que se adota um animal, deveria colocar um chip e que a pessoa seja responsabilizada por este animal. Senão, daqui a um tempo, teremos lá no Centro de Controle de Zoonoses 500, 600 animais simplesmente porque alguma pessoa foi irresponsável e colocou ele na rua. Nós temos pena dos bichinhos".
 
"As filas nos postos hoje ocorrem porque as pessoas vão cinco, seis vezes no mês. E isso tira o lugar dos outros". 
 
"Eu gosto de animais. Mas não tenho um hoje porque a responsabilidade é como a de ter um filho. Não pode jogar ele na rua.”