Amanda Menger
Tubarão

Notisul – O senhor é médico há mais de 50 anos. Como surgiu a vontade de cursar medicina?
Stélio Boabaid
– Não sei porque tinha essa idéia, mas aí cheguei no Rio de Janeiro e não me passou pela cabeça fazer outro curso que não fosse medicina. E o vestibular da Escola Nacional de Medicina era muito difícil – para cada aprovado, tinha quatro rejeitados. E tinha muitos alunos de outros lugares, Minas Gerais, São Paulo e do Rio mesmo. Mas eu tive sorte, porque morava em Copacabana e não ia à praia, ficava estudando o tempo todo. Sabendo que a dificuldade de passar naquele curso era grande, dediquei-me e, graças a Deus, consegui passar já no primeiro exame.

Notisul – E como foi cursar medicina naquele tempo, na década de 40?
Stélio
– Os professores eram todos qualificados, porque precisavam passar em concurso para dar aulas. Eles eram muito dedicados, qualquer coisa eles respondiam. Uma vez, um professor na Santa Casa de Misericórdia estava explicando sobre um caso e, quando terminou a aula, eu disse a ele que não havia entendido algumas coisas. E ele olhou para mim e disse: “Vem cá meu filho”. “Vem cá meu filho…”. Hoje não tem mais isso. Naquela oportunidade, o professor explicou tudo novamente, e isso que era o cardiologista mais famoso da época. Eu presenciei há pouco tempo um caso em Florianópolis semelhante, e sabe o que o professor disse ao aluno? “Ah, em casa à noite você estuda mais”. Em uma outra aula, eu estava muito rouco e o professor perguntou o que eu tinha. Como não conseguia falar, ele aproximou-se e, no meio da aula, olhou a minha garganta, prescreveu uma receita e disse para ir no dia seguinte ao hospital onde ele atendia. Ele diagnosticou que eu precisava de uma cirurgia e, no mesmo dia, acabou fazendo a operação. No outro dia, já estava de volta à aula. Havia, naquela época, uma proximidade grande entre professor e alunos.

Notisul – O senhor veio para Tubarão quando? A estrutura era muito diferente?
Stélio
– Eu vim para cá em 1953 e o doutor Otto Feuerschuette era um médico muito dedicado, a comunidade alemã dos municípios próximos, Rio Fortuna, São Martinho, vinham para ser tratados por ele. Foi ele quem me convidou e disse que eu iria participar das cirurgias com ele. Só que as cirurgias eram marcadas para 6h30min, mas, no inverno, era difícil levantar e eu pedi para ele trocar o horário e passar para 7 horas, e ele concordou. Naquele tempo, os médicos começavam a trabalhar na madrugada… era eu, o Otto e o Luiz Campelli. Aí, eu cheguei para a irmã que administrava (o hospital) e disse que seria melhor fazermos uma equipe para plantão. Neste período, nós fazíamos de tudo.

Notisul – Não tinham especialistas?
Stélio
– Eu trabalhei um ano na maternidade escola do Rio de Janeiro, um ano na Santa Casa, na policlínica de Botafogo. E entrei no segundo ano da escola de medicina como auxiliar, estagiário e fiquei cinco anos. No Miguel Couto, eu fiquei cinco anos, era concursado. Naquele tempo, ninguém era recusado no hospital Miguel Couto, eram atendidos por médicos famosos e professores em universidades, tudo se tratava.

Notisul – O senhor acredita que a medicina, por um lado, evoluiu em técnicas, mas perdeu na relação paciente-médico?
Stélio
– Infelizmente, sim. Hoje, vemos as pessoas morrendo na sala de espera no Rio, em São Paulo. Uma vez, no Miguel Couto, o dom Hélder Câmara veio pedir ajuda, porque ele e outros integrantes da igreja católica estavam realizando um trabalho em uma favela e foi conversar com o diretor do hospital e eu acabei atendendo-o, e, depois, sempre que o dom Hélder aparecia, era eu quem o atendia e os pacientes que ele levava até o hospital. Ele era muito carinhoso com as pessoas, deveria ser considerado santo pelo trabalho que fez. Não recusava ninguém, todos eram atendidos, seja rico, pobre, cristão, ateu…

Notisul – O que faz ainda hoje o senhor ter vontade de ser médico?
Stélio
– É ser útil, atender as pessoas. Quando eu comecei a trabalhar aqui em Tubarão, atendia todos. Inclusive porque o doutor Arnaldo saiu para assumir a prefeitura e eu passei a atender os pacientes dele, a maioria ferroviários. Esse pessoal vinha de todos os lugares da região porque não tinha médico e nem hospital. A gente sentia essa satisfação. Acho que até hoje devemos seguir o juramento de Hipócrates, que é atender a todos. É isso, atender a todos. Naquele tempo, no Rio, todos faziam isso, e hoje notamos que é diferente, não há interesse. Além disso, nós sempre tentávamos, fazíamos de tudo para salvar o paciente. Se eu via que era preciso fazer uma cirurgia, fazia. O importante era ver o paciente bem. Se não desse certo, ao menos eu tinha consciência que tudo que foi possível fazer eu fiz. Muitas pessoas em situação difícil eu procedi desta forma, e fico muito feliz de encontrá-las hoje na rua e ver que estão bem.

Notisul – E como o senhor entrou para a política?
Stélio Boabaid
– Ah, foi por acaso. Eu fui indicado. Até hoje, não sei muito bem como, porque eu era até considerado comunista, agitador quando morava no Rio (risos). Em 1964, surgiu a candidatura de Ivo Silveira para governador, em aliança com o PTB da fase Brizola. Eu não era filiado a nenhum partido nesta época. Dotel de Andrade, que era deputado e coordenava o partido em Santa Catarina e eu não sei por que ele disse o meu nome. Em Tubarão, nós indicamos o prefeito e ele chegou para mim e disse que eu seria o prefeito, e da oposição o candidato seria Willy Zumblick.

Notisul – E o senhor venceu. Como foi disputar com Willy, uma personalidade conhecida na cidade?
Stélio
– Acredito que foi pela atividade médica. Não tinha família que eu não tivesse atendido alguém e as pessoas retribuíram com o voto. Mas eu até ficava constrangido de pedir voto, de ‘bater’ a eleição com Willy. E deu certo. Depois, eu fui eleito três vezes deputados, com votos até no oeste, porque eu tinha atendido pessoas que depois foram morar no oeste.

Notisul – Quais foram as suas principais ações como prefeito?
Stélio
– Eu fui o prefeito que retirou os trilhos do trem do centro da cidade. Imagine: hoje, o trânsito é um caos; se não tivesse tirado o trilho, seria ainda pior (risos). Mas também fui o que mais construiu escolas. Uma vez, no Sertão dos Corrêa, eu cheguei para pedir votos, vi uma casa torta e perguntei quem morava lá. Disseram-me que era a escola e fiquei indignado. A escola que tem hoje na comunidade foi construída no meu mandato, de 1966 a 1970.

Notisul – E por que deixou a política?
Stélio
– Acho que cumpri com o meu papel. Fui três vezes deputado e uma vez prefeito. Sempre que pude, ajudei quem me procurou. Uma vez, uma professora pediu ajuda porque tinha um processo parado na secretaria de educação. Eu cheguei lá, pedi para ver o processo, e a funcionária viu o processo e deu seguimento. Ele estava parado por causa da burocracia. Isso impede o bom andamento do país. Tinha vezes também que eu não podia atender as pessoas porque não estava ao meu alcance, e eu avisava.

Notisul – O que mais lhe deixava chateado na política?
Stélio
– Os colegas que faziam de conta que não conheciam as pessoas que os procuraram e recusavam ajuda. Uma vez, eu vi um deputado ligar de um outro gabinete para o seu e perguntar se tinha alguém esperando por ele. Quando a secretária disse que sim e falou o nome da pessoa, ele disse que era para mandar embora e dizer que ele não estava. E não foi para o gabinete. Uma outra vez, um outro deputado disse que não ira atender naquele dia e disse para a pessoa voltar no dia seguinte, porém, a pessoa não podia, não tinha onde ficar em Florianópolis. Eu pedi então ao meu secretário que providenciasse um local para a pessoa ficar à noite, tomar um banho para poder procurar o deputado dele no dia seguinte. Aquilo mostrou que político preocupa-se apenas com o povo quando é eleição.

Notisul – E quando o senhor era político, continuou a praticar a medicina?
Stélio
– Sim. Eu voltava para Tubarão na quinta e atendia sexta, sábado e domingo. Nunca deixei os meus pacientes de lado, em nenhum momento da minha carreira.