O pecuarista Edésio Oenning, de Braço do Norte, é da terceira geração de alemães no Brasil. O avô veio em 1865 e sempre trabalhou na terra. “Está no sangue. Estive em 20 países sempre com um único objetivo: aprender sobre pecuária e agricultura. Esse negócio de ver museu velho nunca me interessou. Olho o campo porque é dele que a humanidade sobrevive”, complementa, orgulhoso. Responsável pela introdução da suinocultura de corte em Braço do Norte, em 1972 (até então a produção era de banha, principalmente), Edésio sempre foi um visionário. Tanto que começou a apostar, em 1981, na produção de gado Jersey. Deu tão certo que em poucos anos outros produtores seguiram pela mesma reta. “Nosso sucesso é conjunto e vai render para Braço do Norte a proclamação, no próximo ano, como a Capital Brasileira do Gado Jersey. A documentação já é levantada pelo deputado José Nei Ascari. O ato deverá ser durante a Feagro”, antecipa Edésio. Idealizador da secretaria de agricultura na prefeitura, o ‘Rei do Gado no Vale’ também foi responsável por alavancar a produção de tilápia na região. Além do suíno e do gado, hoje o Vale, a terra sem mar, é polo na produção de pescado de água doce.
 
 
Zahyra Mattar
Braço do Norte
 
 
Notisul – A produção de gado Jersey já desbancou a de suíno?
Edésio – Não. A de suíno continua maior. E a região de Braço do Norte tem excelência na produção. Representamos 18% da produção de suínos do estado. É o segundo município brasileiro com maior concentração de suínos. Temos mais porco do que gente. São mais de dez porcos por habitante. Mas aos poucos o gado Jersey começou a ganhar espaço. Hoje, a genética que temos alcançado nos animais tem chamado a atenção de produtores de outros estados e até de outros países. Nossas vaquinhas são um sucesso.
 
Notisul – Esta modificação no foco produtivo na região não pode ser um risco? Criar vaca é mais caro do que criar porquinho, não é?
Edésio – É, mas não é. A produção de gado para tirar leite é mais estável. Não é que o leite dê mais lucro que a criação de suínos, mas a atividade com o gado não quebra o produtor. Na suinocultura e na avicultura, ou se trata bem os animais ou mata tudo e vai fazer outra coisa. Porco e galinha são sensíveis. A vaca de leite não. A bichinha dá 20 litros de leite por dia com seis quilos de ração. Se ocorrer alguma coisa, é só tirar a ração, deixar o bicho desverninado e sem carrapato, que ele não vai ser prejudicado e ainda vai dar dez, 12 litros de leite por dia com pasto. É um produto seu, para a subsistência, não te quebra financeiramente. Deixa uma porca que recém pariu sem ração para ver. A vaca não, se ficar sem a ração, vai produzir menos, mas não vai morrer. É por isso que a produção de Jersey caiu na simpatia do pecuarista do Vale. A segurança financeira é muito maior do que com o suíno. 
 
Notisul – E como o senhor vê este investimento maior em gado do que em suíno?
Edésio – Eu comecei a me dedicar ao gado Jersey para a produção de leite em 2000, quando o custo da produção de suíno já representava um aumento significativo devido ao melhoramento genético feito em outros estados. Criar porco não é tão simples e barato como pensam. Há dois anos, comecei a investir na melhoria do rebanho com a transferência de embriões. Aos poucos, outros foram seguindo o mesmo caminho. Entrar na produção de gado de leite é bem mais barato do que na de suíno. Claro que a atividade não é tão rentável como a suinocultura, mas a segurança é maior. Na suinocultura, você está sempre com a corda no pescoço. Quando está bom, está bom. Quando não está, é sofrimento.
 
Notisul – Quais as novidades que o senhor trouxe da Austrália e da Nova Zelândia?
Edésio – Ah, foi muito bom! Esta missão empresarial foi uma iniciativa da Marina Barbieri, do Sebrae, e do Airton Spies, adjunto da secretaria estadual da agricultura. Eu gosto de pesquisar, de conhecer como outros fazem. As diferenças na produção são grandes quando a gente compara o Vale, por exemplo. Na Nova Zelândia e na Austrália, o planejamento é impressionante. E isto nos falta. A pastagem deles dura quatro, cinco anos e tem uma qualidade supreendente. A nossa dura quatro meses e ainda tem que complementar a alimentação do gado. A vaca não nasceu para comer milho picado, mas sim capim. E lá eles aproveitam isso. Quase não usam ração. O gado vive no pasto. Aqui, atuamos no sistema de confinamento. Resultado: as vacas deles produzem a mesma quantidade das nossas, mas com um investimento e um custo muito menor.
 
Notisul – O leite deles é melhor por conta disso?
Edésio – Poderíamos dizer isso. Aqui, nós valorizamos a quantidade. Lá, eles prezam a matéria seca do leite (soma do percentual de proteína e gordura), ou seja, o foco é o aproveitamento industrial. A Nova Zelândia é responsável por 30% da exportação de leite do mundo.
 
Notisul – Mas o fato de trabalharmos com o sistema de confinamento não torna tudo mais caro?
Edésio – Ah, sim! Bem mais caro. Mas também temos o problema com nossas terras. Ainda precisamos trilhar um caminho longo. Lá o produtor aprendeu a cuidar do solo, a valorizar o seu campo. Aqui ainda deixamos a desejar neste sentido. Lá as propriedades são grandes, amplas. As nossas são pequenas e com terrenos acidentados. Mas sou otimista no crescimento da atividade e na qualidade que nosso rebanho terá em poucos anos.
 
Notisul – A venda de leite conforme a matéria seca, como é feito na Nova Zelândia, não seria melhor para nós também?
Edésio – Com certeza. Hoje, o foco é quanto mais melhor. A qualidade não precisa da quantidade. Se as duas estiverem juntas, claro que é melhor. Mas antes a vaca produzir 20 excelentes litros de leite do que 25 mais ou menos. Com a normativa 51, acredito que isto vai começar a se tornar realidade. A minha preocupação maior hoje é a manutenção da terra. Este é o primeiro ponto. Depois, melhorar a pastagem.
 
Notisul – Hoje, no Vale, como está a produção de Jersey?
Edésio – Hoje o foco é na genética e não no processamento industrial. As exposições que foram criadas na região, a exemplo da Feagro nos últimos anos, nos proporcionaram uma divulgação muito maior das nossas vaquinhas. Os animais julgados aqui são disputados no país. Os animais premiados em Braço do Norte são também campeões no Brasil, em outros países. Por isso que ganharemos o título de Capital Nacional do Gado Jersey. De uns cinco anos para cá, o que o pessoal de Goiás, Mato Grosso, Paraná tem comprado de novilhas é incrível. Acredito que este será o foco da produção no Vale: o melhoramento genético para a venda de animais, e não de leite. Isso para mim é um sonho. E já vejo este sonho tornar-se realidade. Este melhoramento do rebanho é a chave para o nosso sucesso no futuro.
 
Edésio por Edésio
Deus: Está acima de tudo.
Família: É a coisa mais importante que temos nesta vida. É a sustentação, a base de tudo.
Trabalho: Não consigo imaginar levantar de manhã e não saber o que vou fazer.
Passado: Trabalhoso, mas sou feliz com os resultados. 
Presente: Está tudo bom. Tenho saúde para lutar. O cidadão não veio para o mundo para guardar para si, tem que compartilhar.
Futuro: Vivo o presente, o futuro vai se delineado e a gente vai lutando. O futuro vai ser sempre melhor.
 
"O novo código ambiental preocupa muito. Estamos (os agricultores) um pouco aborrecidos com isso. Esta lei vai inviabilizar as pequenas propriedades. Herdamos assim dos nossos pais, que herdaram assim dos pais deles. Hoje, quando um fiscal chega na casa do homem do campo, ele desmaia, tem que dar água com açúcar. Porque o agricultor, o pecuarista sabem que estão errados. Hoje, o nosso produtor rural vive como um fora da lei".