Fabrício de Souza é uma pessoa simples, de origem humilde, casado com Márcia e pai de Nicolas. O karateca é filho do pedreiro Arilton e da costureira Ana Maria. Desde cedo Fabrício teve uma vida de muito trabalho, começou no ofício muito cedo, ainda criança, para ajudar o pai. Com isso, o trabalho lhe proporcionou muitas virtudes, como valorização, determinação, disciplina, respeito e vontade de vencer. Na sua educação, o pai sempre o incentivou a ser o melhor possível, em tudo. Um termo que o seu Arilton sempre dizia era: “Se alguém conseguir ir até a lua, você também consegue”. O nosso karateca sempre foi muito competitivo, querendo ser o melhor no que puder, seja no trabalho, na família, nos estudos, na relação com os amigos. Iniciou no karatê muito jovem, treinou com muita dedicação e empenho. Fabrício estreou na carreira como professor de karatê aos 16 anos, e conquistou a faixa preta as 17 anos. Atualmente, o profissional é graduado em faixa preta quatro Dan, é formado em Educação Física, Especialista em treinamento desportivo e mestrando em ciências da saúde. É professor no curso superior de educação física da Faculdade Esucri, em Criciúma.

 

Jailson Vieira
Tubarão
 
Notisul – Você entrou para a história do karatê tubaronense há um bom tempo, como foi conquistar a medalha de bronze no Campeonato Mundial de Karatê Goju-kai?
Fabrício – Para mim, foi algo incrível e de certa forma inesperado, porque 2013 foi um ano de muitas incertezas. Em junho, sofri a lesão mais séria da minha vida, onde rompi totalmente o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Foi um grande trauma, os médicos diziam que eu teria que operar e que não poderia fazer atividade física antes de seis meses. Não acreditei que levaria tanto tempo para me recuperar, então conversei com o meu fisioterapeuta, Alexandre Zabotti, e ele falou que acreditava que se eu fizesse toda a preparação adequada, eu conseguiria competir a modalidade de kata em torno de quatro meses e meio, então fiquei entusiasmado e corri para marcar a cirurgia. O procedimento foi realizado no dia 15 de julho, depois disso, iniciei uma corrida contra o tempo, até porque, em novembro, eu queria competir o Jasc e em dezembro, o Mundial. Fizemos um trabalho bem planejado, organizado e com os pés no chão, iniciei a fisioterapia e, assim que possível já introduzi exercícios de karatê. Fui acompanhado de perto pelo Xande, traçamos metas de abertura de evolução e constantemente avaliávamos os avanços, a fim de estar pronto nas datas. Paralelamente, a recuperação física, fiz um trabalho psicológico, no qual, além do físico, precisava estar bem psicologicamente, com certeza estava muito inseguro. E no fim das contas, o trabalho multidisciplinar que fizemos foi um sucesso absoluto, com quatro meses e 15 dias depois da cirurgia competi no Jasc e obtive as medalhas de ouro na categoria de kata em equipe, e com cinco meses de cirurgia competi o Mundial e conquistei o maior resultado de minha carreira, que foi a medalha de bronze. Naquele momento, eu também entrei para a história do Brasil, fui o primeiro adulto a conquistar uma medalha kata em campeonatos mundiais IKGA.
 
Notisul – E como você chegou a essa competição? 
Fabrício – Para conquistar a vaga para representar o Brasil no Mundial, havia duas possibilidades, medalhar no Campeonato Sul-Americano, que ocorreu na Argentina em 2012, ou medalhar no Campeonato Brasileiro do ano passado. E consegui ambas as possibilidades. Porque fui bronze no Sul-Americano e vice-campeão brasileiro em 2013.
 
Notisul – Recentemente, você foi um dos contemplados com o troféu Salin Miguel. O que mudou ou que vai mudar de lá para cá?
Fabrício – Esta homenagem foi muito importante para mim, ela coroou todo o esforço e dedicação que tive em 2013. Como atleta, eu havia sido homenageado em 2002, depois fiquei alguns anos competindo por Florianópolis, recebi alguns troféus como técnico e agora voltei a receber a homenagem como atleta. Isso é extremamente motivante, e, com certeza, deu um empurrão a mais para os desafios deste ano.
 
Notisul – No mês passado, atletas da Impacto participaram de uma competição em Joinville (seletiva) e ganhou 38 das 39 vagas para o Campeonato Sul -Brasileiro. O que ocorreu para a equipe sair tão vitoriosa?
Fabrício – A equipe vem treinando muito, todos entenderam qual é o nosso projeto, que é conquistar o máximo de resultado possível, em qualquer competição, queremos colocar o nome da Associação Impacto e do município de Tubarão entre as potências do esporte. O que ocorreu na seletiva foi que os atletas conseguiram colocar em prática o que estamos desenvolvendo no dia a dia. Foi um resultado muito expressivo, muitos dos nossos alunos eram iniciantes, alguns só havia participado de uma competição, mas todos tiveram muita personalidade, fiquei muito orgulhoso deles.
 
Notisul – A competição valia vaga para qual campeonato?
Fabrício – Para o Campeonato Sul-Brasileiro de Karatê, que será realizado de 6 a 8 de junho, em São Paulo (SP). Falando nesse evento, conseguimos o transporte com a FMCE, mas estamos precisando de ajuda financeira, porque temos gastos com agasalhos da seleção, alimentação, inscrição e hospedagem, então, quem tiver interesse em colaborar, é só entrar em contato na Associação Impacto, ou comigo pelo email: fabriciokarate@hotmail.com, ou pelo telefone: (48) 9950-4004.
 
Notisul – Nesse mesmo mês, a cidade de Tubarão sediou a primeira etapa do Campeonato Estadual de karatê, isso já era um sonho? Por que demorou tanto a ocorrer no município?
Fabrício – Realizamos a primeira etapa do Campeonato Estadual da Série B, para iniciantes no karatê, com a graduação de até faixa verde, e para veteranos com mais de 35 anos. A última vez que realizamos este evento, em Tubarão, foi em 2010. Não trouxemos antes devido às exigências da Federação, pois, para a realização, a cidade sede deve providenciar praticamente tudo (premiação, toda a estrutura, sonorização, alimentação para árbitros, hospedagem para árbitros e transporte para materiais de Joinville). Ou seja, são necessários muitos recursos e muito trabalho e organização. Então, no fim de 2013, a FMCE me procurou para analisarmos a possibilidade de realizar essa etapa e, após uma criteriosa análise, resolvemos fazer. Em fevereiro, levei uma proposta na Assembleia estadual, candidatei o município de Tubarão e vencemos a eleição. Com isso, ganhamos o direito de sediar a primeira etapa. Foi um importante evento, o Estadual B é a competição onde os iniciantes no esporte participam, por isso é tão relevante, já que esses são os que mais precisam de ajuda e incentivo.
  
Notisul – O que falta para o esporte entre eles o karatê ter um salto local, regional, estadual e até mesmo federal?
Fabrício – O município de Tubarão, hoje, é privilegiado, porque possui um programa de incentivo ao esporte, que é referência, o Programa Bolsa Atleta, hoje, temos um cenário inverso ao que tínhamos, antes era difícil manter os atletas competindo por Tubarão, eu mesmo lutei cinco anos por Florianópolis. Hoje, com o Bolsa Atleta, competidores de todos os lugares me procuram, querendo fazer parte da nossa equipe. Os atletas de Tubarão sabem que a dedicação deles vale a pena, porque, com os resultados, eles  ganham o direito a pleitear a bolsa. Acredito que esse foi pontapé inicial para um crescimento esportivo na Cidade Azul, agora penso que o esporte precisa ser massificado, ou melhor, precisamos criar meios de possibilitar o acesso ao esporte em todos os bairros da cidade, esse é o caminho. Em nível de estado e país, acredito que as políticas de incentivo à prática esportiva precisa ser repensada,  precisamos de investimento nas categorias de base, não podemos pensar em ter atletas olímpicos se não pensarmos em formar uma base sólida, com crianças bem desenvolvidas, coordenadas, necessitamos de eventos voltados para a participação de todos. Precisamos também de programas de qualificação para os profissionais que formam a base. Creio que, com o envolvimento e o comprometimento de todos – sociedade e governo -, temos grandes chances de massificar os esportes no Brasil, material humano há de sobra. 
 
Notisul – Quais as chances da equipe nos próximos campeonatos? Quais vocês disputarão?
Fabrício – Nosso calendário anual esta montado, temos campeonatos regionais, estaduais, nacionais e internacionais, além das competições da Fesporte. Nossa equipe está focada e determinada à conquista de muitos títulos. A primeira competição foi um sucesso absoluto, que foi a etapa inicial do Estadual B, em Tubarão, quando conquistamos o troféu de melhor equipe do estado em kata e kumite. Agora, teremos a primeira etapa do ranking da série A, que é o evento  para atletas graduados, acima de faixa roxa, com idades entre 10 e 35 anos, a qual será realizada em Blumenau. Para esse evento, nossa equipe será composta por 19 atletas. Será um campeonato muito difícil, espera-se cerca de 300 atletas, e a equipe de Blumenau terá mais que o dobro de karatecas que o nosso elenco, mas acreditamos em um resultado positivo.
 
Notisul – A equipe faturou grande parte das medalhas nos eventos da Fesporte (Olesc, Joguinhos e Jasc), como é a forma de treinamento? 
Fabrício – Os eventos da Fesporte são todos muito competitivos, porque os grandes municípios de Santa Catarina (Joinville, Blumenau, Florianópolis e Itajaí) investem pesado em contratações. A seleção brasileira está praticamente toda federada em Santa Catarina, com isso, o nível é altíssimo. Mas conseguimos resultados fantásticos em 2013. Fomos campeões gerais na Olesc no naipe masculino, campeões gerais dos Joguinhos no naipe masculino e terceiro lugar no naipe feminino. Nos Jasc, ficamos em quarto lugar geral no feminino e quinto no masculino à conquista de oito medalhas, somos a única equipe de Tubarão entre todos os esportes a ganhar medalhas nos Jasc. Isso mostra que o nosso trabalho e planejamento são bem executados, todos os atletas entenderam a proposta e vestiram a camisa. Esporte amador não é fácil, participamos dele, porém treinamos e nos dedicamos como profissionais.
 
Notisul – Como os alunos e o treinador se preparam para a competição? Há algum ‘ritual’? 
Fabrício – Realizamos um planejamento anual, no qual periodizamos os treinamentos a fim de chegar às competições bem preparados, tanto fisicamente como tecnicamente e psicologicamente. Para isso, fazemos treinos que envolvem todos esses aspectos, e quando chegam perto das competições, os treinos são realizados nas mesmas condições dos eventos, aproximando ao máximo atletas e técnicos da realidade competitiva. 
 
Notisul – O esporte é mais disputado por homens, existe algum incentivo para a mulher nessa modalidade esportiva no município? 
Fabrício – Com certeza é bem mais praticado por homens, é uma proporção de oito para dois, ou seja, normalmente, a cada dez alunos, oito são homens e duas mulheres. O apoio do município é igual para homens e mulheres, existem projetos de iniciação esportiva em escolas. Acredito que, para melhorar ainda mais a adesão, seria necessário um projeto que disponibilizasse o transporte para os destaques nos projetos, para poderem ir até o centro de treinamento, na Associação Impacto, assim podendo lidar com os atletas já experientes e, dessa forma, motivarem-se ao máximo.
 
Notisul – Por parte da academia, há incentivos? Pretendem fazer uma academia itinerante? 
Fabrício – Para mudar essas realidades, de poucas mulheres no karatê, quebrando o preconceito que ainda existe, a Associação Impacto criou um projeto onde concedemos cerca de dez bolsas de estudo para meninas. Esse investimento já deu resultado, pois uma dessas alunas beneficiadas já conquistou quatro medalhas de ouro no Estadual B, em Tubarão.
 
Notisul – Há limitações de idade para a prática do karatê? 
Fabrício – Indicamos o karatê a partir dos 5 anos de idade, e sem limites. Já tivemos alunos com 3 anos e atualmente temos alunos com 53 anos. Ou seja, qualquer pessoa pode praticar karatê. Na Associação Impacto, as aulas são planejadas, respeitando a individualidade biológica de cada aluno. Todos os exercícios são criteriosamente selecionados, dessa forma garantindo a integridade.
 
Fabrício por Fabrício
Deus – Ser superior que nos guia a todo momento;
Família – Base para tudo, estímulo para continuar lutando sempre;
Trabalho – Momento de fazer o melhor para o próximo, tentar contribuir para o desenvolvimento das pessoas;
Passado – Serve de aprendizado, momento de aprender com erros e acertos para ser melhor;
Presente – Uma dádiva, momento único que deve ser aproveitado com toda plenitude;
Futuro – Incerto, momento de traçar metas para aproveitar melhor o presente, utilizando o aprendizado do passado.
 
"Precisamos de eventos para a participação de todos"
 
 "Precisamos também de programas de qualificação para os profissionais".