Perfil
Em 16 de outubro do ano passado, Tubarão e os demais municípios da Amurel passaram por momentos de pânico com um vendaval que deixou um grande rastro de destruição. Um ano depois, o coordenador regional da Defesa Civil lembra como foi o trabalho de resposta ao evento climático, as dificuldades encontradas e as lições deixadas, tanto para os gestores dos órgãos de segurança, quanto para a população. Em caso de novas ocorrências, Anderson orienta: “procure um lugar seguro. Se estiver na rua, ninguém vai negar socorro”. E o principal: sair para ver a “desgraça” pode atrapalhar o socorro necessário e tornar o problema ainda maior.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – O vendaval de outubro de 2016 deixou um grande rastro de destruição em toda a região. O que vocês sabiam sobre o evento antes?
Anderson –
Estávamos preparados para água. Nosso Plano de Contingência era para inundação e alguma coisa de escorregamento. Naquele dia, tínhamos uma previsão de rajadas de vento, como ocorreu na semana passada, tempestade convectiva, com raios e granizo isolado, que são pancadas rotineiras de início de verão, com chuva intensa que depois cessa. Não esperávamos o vento naquela magnitude como ocorreu. Como a própria palavra significa, é uma previsão. Santa Catarina é pioneira em várias situações em termos de previsão, de Defesa Civil, gestão e em termos de resposta, e está se tornando referência mundial em virtude dos centros regionais, que criam uma sala de situação autossuficiente. Naquela época, nós não tínhamos isso. Ficamos horas sem comunicação, sem energia elétrica. Hoje, com a formação do Centro Regional, teremos geradores, comunicação via telefonia – ainda temos que aprender ainda a usar o radioamador.

Notisul – Um ano depois, o que ficou de lição, de aprendizado, o que mudou na prática?
Anderson –
O Centro Regional, os radares meteorológicos, hoje funcionando em Lontras (Vale do Itajaí), no Oeste (Chapecó) e no Sul, em Araranguá. Com essa cobertura, teremos 100% de previsão para os catarinenses. Agora, começaram a funcionar também os encaminhamentos de alertas via SMS. Não é previsão do tempo, e sim alertas pontualmente comunicados aos municípios que irão receber fenômenos como granizo, vendaval. A previsão do tempo pode ser encontrada nas plataformas da Epagri/Ciram e outros órgãos. Com o vento, criou-se uma percepção de risco entre a população. O que se deve fazer em situação adversa? Para onde ligar? Para onde se encaminhar? Hoje, com a percepção de risco, a população tem esse entendimento do que pode fazer no primeiro momento para se autoproteger. 

Notisul – Então você acredita que a população evoluiu no sentido de saber como proceder?
Anderson –
Estamos trabalhando para isso. O que ocorreu no dia 16 de outubro foi um circo de horrores. Se a população tivesse um senso de autoproteção, não sairia às ruas. Não sei se você lembra, mas estava intrafegável o centro e demais bairros, porque o pessoal saía de carro para ver a desgraça dos outros. E isso, para o grupo de resposta, composto por Bombeiros, Exército, polícias, resultou na demora nos atendimentos. Dificultou muito. Estávamos eu e o coronel Barcelos (comandante do 8º Batalhão dos Bombeiros) naquele primeiro momento e constatamos que os atendimentos estavam um pouco devagar em virtude da grande circulação de veículos para ver o circo de horrores. Isso tem que mudar. Lembra que tempos atrás as pessoas vinham até o rio para ver como estava o nível? Hoje, são poucas, pois várias outras plataformas que indicam.

Notisul – É uma questão cultural.
Anderson –
Tem que acabar com essa cultura, acreditar no que a tecnologia traz. Todos me perguntam “e se fosse em dia de semana?”.

Notisul – Teria sido um caos…
Anderson –
Iria morrer muito mais pessoas. Tivemos uma fatalidade no dia do vendaval, com a morte da criança, e posteriormente tivemos duas na região, de pessoas que caíram do telhado. Isso que batemos muito na tecla de que o cidadão não subisse no telhado para fazer consertos ou, se subisse, que soubesse o que estava fazendo. E choveu durante aquela semanada toda. O saldo foi três mortes. Ainda falando sobre os cuidados necessários, mas saindo um pouco do assunto vendaval, tempos atrás em Imbituba, apesar de orientarmos para as pessoas não andarem em áreas alagadas, infelizmente, tivemos a morte de uma senhora que caiu em um bueiro. Se choveu e alagou, não transite, pare o seu carro, a sua moto. Isso é percepção de risco. E se tem um buraco aberto. Agora vamos ser alertados via SMS. Se vai ocorrer um vendaval, granizo, eu sei o que devo fazer. Se você seguir a cartilha de orientações dos órgãos de resposta, tem uma probabilidade bem mais baixa de ocorrer algum dano maior, seja físico ou material. No vendaval, para resolver os problemas tinha que desobstruir as vias, e a maioria estava obstruída por rede elétrica caída, postes caídos, árvores, restos de cobertura de telhados. Para chegar até as residências para socorrer os cidadãos, os órgãos precisaram desobstruir vias e aí começamos a fazer a triagem, para ver quais as prioridades. Agora, vamos ter uma cobertura 100% com radares, alertas emitidos via SMS – que já indicarão o que o cidadão deve ou não fazer. E o que mudou de lá para cá em termos de estrutura? Os engenheiros estão mais conscientes sobre as armações, para que essas estruturas suportem ventos mais fortes. Não foi só Tubarão que foi afetado. Num primeiro momento, Tubarão, Capivari de Baixo e Pescaria Brava decretaram situação de emergência. Depois, Tubarão evoluiu para estado de calamidade pública. Mas os 18 municípios da Amurel foram afetados.

Notisul – Só que alguns em maior e outros em menor intensidade.
Anderson –
Exatamente. Precisamos mudar a cultura das pessoas. Se já foi afetada por granizo ou vendaval, ela vai mudar o tipo de telha, a armação, a cobertura para garantir uma segurança maior. Isso é percepção de risco. Tem que se prevenir. Se você está com dúvidas sobre como está a situação do rio ou das rajadas de vento, ligue para a Defesa Civil, para os bombeiros… Não precisa sair de sua residência para colocar mais vidas em risco. Vi muitos pais com seus filhos no banco de trás, trafegando em locais que não deveriam. Nas últimas rajadas de vento, recentemente, não vi circulação de pessoas, o pessoal ficou mais recolhido.

Notisul – Deixou lições.
Anderson –
Sim. Dentro das áreas de risco, temos o controle. Mas, naquele momento, em 16 de outubro, todo o município de Tubarão se tornou uma área de risco. A maioria das ruas estava intrafegável, por isso bato na tecla de que as pessoas não devem sair de suas casas em situações dessas. A população tem que convir que havia muita gente nas ruas depois do ocorrido, e muita fiação exposta.

Notisul – Então, podemos concluir que tivemos sorte, já que muitas se expuseram ao risco desnecessariamente?
Anderson –
Muita sorte! Destaco aqui o trabalho excepcional da Celesc, da Cergal e de outras cooperativas da Amurel. Imediatamente, as equipes começaram os trabalhos de religação de energia. Trabalharam ininterruptamente. Os órgãos de saúde, de segurança, os voluntários que ajudaram na triagem na Arena Multiuso, a Guarda Municipal também foram sensacionais. Tivemos muitos voluntários trabalhando conosco.

Notisul – Esse senso de solidariedade do tubaronense não se perde com o passar dos anos, felizmente.
Anderson –
Não mesmo. E outra coisa que não se perdeu é que a população foi resiliente. Quando chegávamos com as lonas, muitos já tinham corrido atrás e comprado. Um dos maiores danos foi para o comércio e a indústria. Muitos galpões foram atingidos.

Notisul – Algumas empresas não se reergueram até hoje, outras ainda estão ‘patinando’.
Anderson –
Leva-se tempo. O vento foi de uma magnitude destrutiva imensa. Por isso que destaco a resiliência da população.

Notisul – Nesses 25 anos em que você atua como bombeiro e cinco anos na Defesa Civil, já deve ter vivido momentos bastante intensos. O que mais marcou?
Anderson –
Nesta profissão, não tem como escapar dos atendimentos de ocorrências que resultam em mortes. Pessoas atropeladas, presas em ferragens… Além de danos materiais, é claro. Lembro-me de uma ocasião, quando eu trabalhava em São José, em uma semana bastante chuvosa, e fomos verificar uma situação de risco de escorregamento em uma fazenda. Orientamos a proprietária que não entrasse na residência, porque a qualquer momento o barranco ao lado poderia desmoronar. Isolamos com fita, orientamos os vizinhos para que não deixassem ela entrar, e fomos para uma outra ocorrência com escorregamento também. Quando estávamos chegando, o Cobom nos pediu que retornássemos, pois tinha dado escorregamento e havia vítimas soterradas. Infelizmente, encontramos a mulher lá. Quando começamos e retirar o lodo e os pedaços de utensílios domésticos e de materiais, ela estava embaixo do guarda-roupas segurando os documentos. Essa fatalidade serve de exemplo. Siga a orientação do técnico. Se ele diz para não trafegar, sair da residência porque há risco de desabamento, siga a orientação.
Notisul – É compreensível que as pessoas nestes casos de risco se preocupem com seus bens, principalmente quando são frutos de muito suor. Mas a vida deve estar sempre em primeiro lugar.
Anderson – Não somos um videogame que dá um restart e volta. Felizmente, a situação tem melhorado, evoluído. Muita gente só aprende quando mexe no bolso ou quando sofre.

Notisul – Claro que em menores proporções, mas foram inevitáveis as comparações do vendaval com a enchente de 1974.
Anderson –
Não há como negar que as duas foram de grande magnitude. Foram em épocas diferentes. Em 74, a população era muito menor. Ambas geraram prejuízos e mortes, em diferentes proporções. Hoje, temos tecnologia.

Notisul – E a tecnologia precisa ser usada a nosso favor.
Anderson –
Deveria. Mas não podemos esquecer os fakes. Não tens noção de quantos fakes eu recebia. Depois do vendaval, estavam postando um tornado em Laguna, mas esse tornado havia ocorrido em 2011. Imagens de granizo lá não sei de onde sendo divulgadas como daqui. Quando as pessoas receberem essas “notícias”, confirmem antes de repassar, liguem para os bombeiros, para os órgãos de segurança. Muitas pessoas vão na ansiedade de querer ajudar, mas atrapalham. O anseio de querer ajudar muitas vezes pode ter efeito contrário, prejudicar a si próprio e aos outros.

Notisul – O que a população deve fazer em caso de novo vendaval?
Anderson –
Primeiramente, não sair se estiver dentro de sua residência. Se estiver em um galpão e tiver uma parte de alvenaria, corra para essa área. Sempre dê preferência para alvenaria. Em casa de madeira, o banheiro é o local mais seguro. Feche a porta e espere passar o vendaval. Depois, quando sair, verifique se não há fios soltos, desligue o disjuntor, porque pode ter havido destelhamento e há risco de você levar um choque. Primordialmente, não saia para ver o circo de horrores. Se os telefones de emergência estiverem em funcionamento, ligue. Isso autoprevenção, para que não ocorra nenhum dano futuro, principalmente uma perda humana.