Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Na câmara, a impressão é que o presidente, João Fernandes, “deixou” os tucanos para se aliar ao PMDB, em detrimento a eleição a mesa diretora. Como você vê esta situação inusitada?
Maurício
– Primeiro: faltou habilidade do PSDB para tratar esta questão com o João. A mesma coisa que ocorreu nesta eleição (da mesa diretora da câmara), tinha ocorrido há quatro anos, quando o PMDB uniu-se ao PP. A diferença é que o prefeito da época (Carlos Stüpp – PSDB), deu outro encaminhamento. O PMDB não é inimigo mor de ninguém. Mantemos a mesma postura em todas as administrações: votamos favorável àquilo que acreditamos ser bom para o município. A situação atual é apenas uma questão circunstancial. O PSDB não soube encaminhar nada junto ao presidente do legislativo.

Notisul – Mas quem acompanha as sessões percebe que João fica muito mais a vontade do lado da oposição do que da situação.
Maurício
– Isto é porque tentam atrapalhar a administração dele e o desafiam o tempo todo. Entre nós, há, acima de tudo, respeito.

Notisul – E todo o motivo para tanta discórdia é a eleição da mesa diretora, ainda?
Maurício
– Totalmente. Se o João Fernandes, como presidente do legislativo e como membro do PSDB, tivesse tido esta importância reconhecida pelo seu partido e tivesse sido tratado bem, o PSDB é que ganharia porque tem a presidência do executivo e do legislativo. Ao invés disso, a postura foi a de atrapalhar a gestão do João, de fazer provocações e, em algumas situação, até tentar ridiculariza-lo.

Notisul – Você é visto como “o mestre do aprendiz João”. Inclusive, dentro da própria casa, já surgiram comentários de que o presidente é seu fantoche. Como encara isto?
Maurício
– Como uma tentativa de fazer intriga entre mim e o João. Quem o conhece, sabe que ele tem autonomia. Toma decisões que, muitas vezes, vamos saber um mês, dias depois. E ele tem prerrogativas constitucionais para isso. Claro que conversamos e se posso dar dicas para que conduza bem a sessão, o faço. Qual o problema? É um colega. O João não é bobo não. Ele é alguém que desde muito cedo teve que sobreviver sozinho porque perdeu os pais e hoje é um empresário. Então que ninguém o subestime. Hoje, quem perde é justamente aqueles que o subestimam. Aí inventam mil histórias de que eu enfio coisas na cabeça do João ou coisa parecida. E eu o conheci após as eleições, como todos os outros.

Notisul – Esta falta de entendimento entre os colegas, reflete em quê no legislativo?
Maurício
– A bancada do PMDB continua com uma postura de absoluta responsabilidade. O nosso papel regimental é o de fiscalizar e legislar. Quando temos dúvidas sobre algum procedimento do poder executivo, pedimos informação. Não fazemos este joguinho de pedir vista à projetos para retardar o trâmite…

Notisul – Mas isto ocorre.
Maurício
– Ocorre, mas não da bancada do PMDB. Não pedimos vista de nenhum projeto. Agora estão com essa de reprovar qualquer requerimento encaminhado por um vereador do PMDB. Estou no meu quinto mandado e jamais isso ocorreu. Mas tudo bem. Vamos continuar a exercer a função regimental que é o que nos cabe.

Notisul – Esta briga dá a impressão também de que a oposição nunca foi tão oposição como hoje. E justamente por haver tantas cobranças à prefeitura. Você não acha?
Maurício
– Perguntamos ao executivo aquilo que temos dúvidas ou do que somos cobrados. Como responder à comunidade sem pedirmos informações ao executivo?

Notisul – Desculpe, mas parece que há uma guerra declarada para ver quem pede mais informações.
Maurício
– Se compararmos com o ano passado, houveram mais pedidos de informações. É verdade. Mas na medida que começaram a chegar as dúvidas e pedimos informações à prefeitura, os vereadores que se dizem a base do executivo acham que nos retaliam ao fazerem pedidos de informações à mesa. O João já disse que tudo o que for pedido será respondido. Até porque não há nada para esconder. Os atos da câmara estão todos publicados no site: quanto se ganha, quanto e em quê e gasta. A questão da reforma, cujo gerou mais questionamentos, também estão no site. Qualquer cidadão tem acesso.

Notisul – Após nove meses, os vereadores não conseguiram amadurecer e dialogar. Chovem farpas, sobram projetos não debatidos. Tem jeito?
Maurício
– Espero que tenha. Na verdade, este ano, tivemos um número grande de projetos apresentados. Tanto é verdade que inventaram de criticar o João mais uma vez porque ele é o que mais apresentou trabalhos até agora. Mas o papel (do vereador) é justamente este: dar diretrizes ao executivo. O que tem emperrado são estes deliberados pedidos de vista. Um exemplo foi a lei que disciplina o horários de bares, restaurantes e similares.

Notisul – O pedido de vista foi feito sob a argumentação de que uma grande audiência pública será feita. O que você acha?
Maurício
– Desnecessário. Todas as reuniões que fizemos foram públicas. Em muitos casos, inclusive, participaram populares e proprietários de estabelecimentos afins à lei, como lanchonetes por exemplo. E teve uma reunião exclusiva com os vereadores que puderam, inclusive, aperfeiçoá-la.

Notisul – Você considera uma retaliação?
Maurício
– Não tenha dúvida. É sim uma retaliação e o maior prejudicado não é o vereador Maurício, mas a sociedade. Embora o vereador tenha direito de pedir vista, não tenho dúvida. Tenho certeza de que se trata de uma retaliação por conta da briga na câmara.

Notisul – Todos este desentendimento não te cansa. Não dá vontade de desistir da política?
Maurício
– Não faço meu trabalho de político apenas na câmara. Sou um persistente. Pessoas que atrapalham não existem de agora. Elas sempre estiveram ali. Quando nos dobramos à elas, privamos a sociedade dos seus direitos. Mesmo quando percebo que poderia render muito mais, prossigo com meu trabalho da mesma forma e com a mesma tenacidade que sempre fiz.

Notisul – Como você avalia a gestão do prefeito Manoel Bertoncini?
Maurício
– Ainda é cedo para dizer alguma coisa. Ele administra com o orçamento da gestão passada. Esta é uma resposta que deixo para o próximo ano. No mais, fica a expectativa para que os compromissos de palanque sejam cumpridos.

Notisul – E a suplementação de verba, de R$ 6,6 milhões. Por que não foi aprovada? O prefeito argumenta que o dinheiro é para pagar despesas não previstas no orçamento.
Maurício
– O que mais preocupou, a mim e a bancada do PMDB, é que se retirou R$ 2,7 milhões de investimento importantes em escolas, creches, desenvolvimento industrial, infraestrutura, entre outros. O que queríamos do executivo eram garantias de quando estes investimentos seriam feitos. Tanto que encaminhamos um pedido de informações. A resposta foi evasiva e um tanto desaforada. Queríamos saber do que se tratava o projeto. Como não obtivemos nada esclarecedor, a bancada optou por não comparecer. Mais uma vez faltou habilidade política ao PSDB.

Notisul – Como assim?
Maurício
– Se eu sou o prefeito e um vereador questiona-me sobre uma suplementação de verba, eu responderia pessoalmente ou, antes mesmo de enviar, iria falar com o legislativo: “Pessoal, a situação é essa e está aqui um projeto com este e aquele objetivo”. Faltou habilidade política. Mandaram somente um monte de papel. Quando fui presidente da câmara, em 2006, a primeira visita que recebi, foi a do prefeito Carlos Stüpp. Ele foi lá me explicar qual a situação financeira da prefeitura e pedir para enviar 6% do duodécimo (o percentual é 8%) por que haviam dificuldades. Houve briga? Não. Houve conversa. E é tudo que falta nesta administração: diálogo.

Notisul – O executivo irá mandar este projeto e possivelmente outro, para o corte de salários. Vocês comparecerão desta vez?
Maurício
– Vamos analisar qualquer tipo de projeto sempre com a mesma responsabilidade.

Notisul – Você não acha que está complicado legislar e administrar o município
Maurício
– Não precisava nada disso. Tudo poderia ter fluido tranquilamente. A partir do momento em que passaram a fustigar o presidente da câmara, que é do mesmo partido do prefeito, tudo ficou do jeito que está. No início foi uma briga dentro do próprio PSDB, inclusive isto foi dito pelo líder do governo na câmara em uma entrevista, por não ter absorvido a eleição da mesa da câmara e que daí passou a respingar no legislativo e no executivo.

Notisul – O prefeito já disse que não intervirá. Você acha que ele deveria?
Maurício
– Como o próprio líder do governo na câmara disse, o problema é do partido. Não me atrevo a dar conselhos ao prefeito. Afinal, nenhum deles é novo na político. Devem saber como sair deste imbróglio.

Notisul – E a sua situação dentro do PMDB. Como está?
Maurício
– O partido terá uma convenção no dia 4 de outubro e espero que desta vez caminhemos para o consenso. Em Tubarão, já fiz minha parte junto ao diretório. O que espero é que haja diálogo e união em torno de um bom programa e caminhe para interromper a série de derrotas para a majoritária.

Notisul – Você sai candidato à prefeitura em 2012?
Maurício
– Sempre trabalho com o propósito de servir. Gosto de ver as coisas serem feitas, e bem feitas e para o futuro. Poderia apenas estar na tribuna para cobrar providências. Cobro, mas também coloco a mão na massa. É evidente que se eu for prefeito, não esperarei pela decisão dos outros, eu vou decidir. Já dei uma mostra disso em 2006, quando assumi o executivo. Não tinha dinheiro e ainda assim tive uma dinâmica de trabalho muito boa, produtiva.

Notisul – Certo. Mas você vai se candidatar?
Maurício
– (risos) É uma decisão que depende do partido e do povo.