Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Muitos estão lhe conhecendo agora como vereador, mas você também é empresário. Quem é João Fernandes?
João – Eu nasci e fui criado em Tubarão, na Guarda margem esquerda. Fiquei ali até os 6 anos. Na construção do prédio onde é a Bosch, meu pai sofreu um acidente e voltou para Guarda, mas acabou falecendo quando eu tinha 12 anos. Minha mãe casou com um outro homem, que não era daqui de Tubarão, e foi morar com ele em Concórdia. Eu fiquei morando sozinho na roça. Antes, eu trabalhava com meu pai na lavoura de fumo. Continuei trabalhando e morando na casa que era do meu pai. Casei quando tinha 17 anos, a minha esposa tinha 15 anos. Depois de um tempo, fui ser caminhoneiro, vendi o terreno na Guarda. Trabalhei oito anos nas estradas e depois montei a transportadora. Essa é a minha vida, trabalhando na roça desde os 5 anos e depois como caminhoneiro.

Notisul – Você transporta algum produto específico? Como é o trabalho da sua transportadora?
João – Hoje, eu sou administrador da empresa. Quem toca mesmo é o meu filho. A minha empresa transporta piso para o interior de São Paulo. Lá nós temos uma filial com galpão e tudo. De lá, nós levamos piso para Belém, Fortaleza e Brasília. É uma estrutura grande. Tenho 23 carretas e mais de 30 funcionários.
Notisul – Nos oito anos que você trabalhou como caminhoneiro, conheceu o Brasil todo? O sul é mesmo uma maravilha?
João – Conheci o Brasil todo, sim. Eu contei isso no palanque, durante a campanha. Eu estava no nordeste e uma pessoa me perguntou o que tinha em Tubarão. Eu disse: Tubarão tem uma serra bem perto, o mar também e águas termais. Ele me disse ‘ah então é o paraíso’. Se tu andares pelo Brasil, nosso lugar aqui é um paraíso.

Notisul – Como surgiu o interesse pela política?
João – Eu sempre fui ligado à Guarda, fui presidente do time de futebol lá. Moro na rua dos Ferroviários, mas meus parentes e amigos estão lá. Eles queriam eleger um vereador lá para a região e eu participei de uma reunião. Eu nem imaginava, e eles escolheram o meu nome. Na hora não aceitei, depois disse que sim. Assim começou a trajetória de um político. Dentro de todos nós existe um político.

Notisul – Como era o trabalho comunitário que você fazia?
João – Dando apoio à comunidade. Em uma festa, ser festeiro; ajudar quando alguém precisa. O importante é a comunidade saber e ter confiança naquela pessoa, que na hora que precisar poderá contar com ela.

Notisul – Qual é a maior necessidade da Guarda?
João – De imediato, uma creche. Em longo prazo, a ponte para ligar ao Rio do Pouso, a estrada, que é muito requisitada. Outras ruas é preciso calçar também. A Guarda e o Bom Pastor têm muito a crescer, principalmente essa parte dos têxteis, há diversas malharias lá.

Notisul – Por que você optou pelo PSDB? Alguém lhe convidou?
João – Um dia, o Dr. Manoel (Bertoncini – PSDB) me ligou e convidou para um jantar. Estava perto do prazo máximo de filiação, eu não estava filiado. Aliás, estava usando isso para justificar, porque não queria ser candidato a vereador. Ele me convidou, pediu para me filiar. Eu disse que não queria ser vereador e ele disse que tudo bem, mas que eu me filiasse ao partido. Aí acabei me filiando ao PSDB. A partir daquele momento, fui construído, depois fui candidato. É um partido que eu tenho admiração. Confiar no partido? Eu não conheço todo mundo, mas confio nos líderes, Dr. Manoel e Carlos Stüpp (ex-prefeito), são dois homens de confiança. Eles queriam na presidência da câmara Edson Firmino (PDT), mas eu acho que mostrei a minha atitude.

Notisul – Foi a sua primeira campanha como candidato. Mas antes chegou a fazer campanha para alguém?
João – Já ajudei José Luiz Tancredo (PP), em 2004, quando ele elegeu-se com mais de 2,5 mil votos. Trabalhei efetivamente, ajudei mesmo. Tenho admiração por ele. É um grande político, mesmo com os fatos que ocorreram com ele. Não me arrependo de ter trabalhado e dado o meu voto para ele.

Notisul – E em 2008, quando você disse que seria candidato, como ele reagiu?
João – Ele não ficou bravo. Depois, na campanha, teve umas ‘farpinhas’, porque acaba confrontando os votos.

Notisul – Você ‘roubou’ votos dele?
João – (Risos) Acho que sim. Eu roubei votos de outros candidatos também, porque, em eleições anteriores, essas pessoas votaram em outros candidatos. Na próxima, eu terei esses votos. Mas hoje está tudo bem com ele, Zé tirou de letra. É um grande amigo.

Notisul – Você focou a campanha na Guarda e no Bom Pastor?
João – Sim. Porque a gente trabalha melhor nas comunidades onde somos conhecidos, até porque não era conhecido no restante da cidade. Não tinha outra saída se não começar pela Guarda, Bom Pastor, Rio do Pouso e Caruru. A meta era sair de lá com 600 votos e alcancei isso. Até que fiz um pouco mais. Os meus cabos eleitorais, a maioria, eram de lá.

Notisul – Você procurou identificar-se como um candidato jovem, pela idade (tem 39 anos) e por nunca ter concorrido a cargos políticos. Você acredita que ganhou votos por isso, por ser uma ‘novidade’, uma aposta do eleitor?
João – Acho que eu fiz os meus eleitores acreditarem que a política pode ser diferente, não só o jovem, o velho, o homem e a mulher. Mas acreditar que o político pode fazer muito mais do que subir no palanque, dizer um monte de coisa, eleger-se e sumir por quatro anos. Político é tipo um pai e os eleitores, filhos. Nestes quatro anos, o pai trata bem o filho, no caso, a comunidade, os tubaronenses.

<b.Notisul – Você acredita que o número de vereadores deveria ter aumentado para 17?
João – Deveria ter aumentado, mas antes da eleição. Seria melhor, aumentaria a representatividade, cada comunidade poderia ter o seu representante. Creio que, na próxima eleição, o cenário será diferente, que os deputados e senadores aprovem as mudanças.

Notisul – Você disse que fez a sua campanha praticamente sozinho. Não recebeu apoio do PSDB?
João – Eu tive apoio dos amigos e parentes. Eles acreditaram em mim. Não teve estrutura do partido. Teve candidatos que utilizaram essa estrutura partidária para se elegerem. Eu não era um cara do partido. Quem está no meio político sabe quem eram as pedras para se eleger. Eu só me elegi porque trabalhei para isso.

Notisul – Isso quer dizer que nem o Dr. Manoel subiu ao palanque com você?
João – Ele fez isso, sim. Visitou casas comigo também, foi a reuniões. Mas eu digo a estrutura, o dia-a-dia da campanha. O partido tem uma estrutura e alguns usaram isso. Nosso partido estava no poder. Nilton, por exemplo, foi secretário, ele usou a estrutura da secretaria.

Notisul – Em que sentido usar essa estrutura?
João – Eles usam a estrutura, de dizer o que fez na secretaria. Nilton, como ele foi conhecido? Por ter assumido uma secretaria, no caso a de obras. Dura (Haroldo Silva) tinha a Cosip. Tudo é uma estrutura.

Notisul – Você acredita que a sua eleição surpreendeu o partido?
João – Sim. Eles não tinham noção nenhuma quando me convidaram. Acharam que eu faria uns 500 votos. Pode perguntar para qualquer um do partido o que eles pensavam de mim, qual era a minha meta. Achavam que 500 votos era muito.

Notisul – Muitos comentários na cidade dão conta de que você teria gasto mais de R$ 2 milhões na campanha, que teria vendido caminhões para financiar a campanha. Isso de fato ocorreu?
João – (Risos) Eu tenho uma empresa de transportes. Mas, se eu administrasse uma malharia, teriam dito que eu vendi roupas. Se tivesse uma cerâmica, diriam que eu vendi tijolos. É isso que eles têm que inventar, têm que ter algum argumento para justificar que eu ganhei a eleição.

Notisul – Você acha que está incomodando alguém?
João – Não vejo isso. Eu estou procurando o meu espaço, como qualquer pessoa que é batalhadora, que quer fazer alguma coisa e está procurando espaço. Porque eu vou ser cobrado pelos votos que recebi. A população tubaronense quer que alguém vá lá e faça alguma coisa.

Notisul – Como foram as negociações para a presidência da câmara? O acordo foi rompido?
João – O primeiro encontro foi na casa de Edson Firmino (PDT). Ele me convidou e disse a ele que tinha interesse em ser o presidente da câmara. Eu achava que tinha que ser um por ano. Ele, a princípio, concordou. Dois dias depois da eleição, Dionísio (Bressan Lemos – PP) me ligou e perguntou o que eu pensava da presidência e disse que seria bom um por ano. Ele me disse que assim ficaria ruim. Então eu disse que queria ser presidente, mas Dionísio não falou mais nada. Depois disso, teve um almoço no Masolino e dali fomos para a casa do Dr. Manoel. Ali se desarmou tudo que tinha sido feito na campanha, e Dionísio disse que o Dr. Manoel tinha um compromisso, mas que não tinha prometido, que tentaria compor a presidência da câmara para o PDT. Eu disse que estaria fora, porque queria ser presidente. Ele me pediu que eu estivesse junto com o grupo, só junto. Eu aceitei a proposta do Dr. Manoel.

Notisul – Essa reunião foi logo após a eleição?
João – É, foi por volta do dia 9, 10 de outubro. Aí eu disse que estaria junto com o grupo e perguntei como seriam os outros dois anos. Dionísio levantou e disse que os últimos dois anos não poderiam ser decididos agora. Teria que se pensar, porque tinha ficado mal nas últimas eleições. Eu disse que não, porque a câmara foi bem administrada, até porque presidente que fica um ano tem obrigação de fazer mais coisas, porque ele quer fazer o melhor. Aí, Dionísio discordou e disse que era melhor discutirmos isso daqui a dois anos. Nisso, nós tivemos uma reunião na casa de Evaldo Tonelli (secretário de governo). Eu, Nilton de Campos, João Batista de Andrade e Firmino. Aí, Batista concordou comigo para dizermos a Firmino que tínhamos interesse na presidência da casa nos últimos dois anos. Firmino, meio que enrolou, não sei se ele já tinha o acordo com Dionísio. Perguntei se ele estaria conosco daqui a dois anos se firmássemos com ele agora. Firmino disse que não sabia, mas que tinha afinidade com o PSDB. Mas não acordou nada. Eu disse a Sargento Batista que ele tinha acertado com outro partido, Batista disse que se isso tivesse ocorrido acabaria qualquer compromisso nosso com ele.

Notisul – E depois dessa reunião, ocorreram outros encontros?
João – Sim. Nós fomos ao Masolino novamente. Aí, Deka May (PP) não foi e Firmino ficou bem nervoso. Surgiu um rumor de que Deka teria firmado como PMDB, e Firmino ficou bem nervoso mesmo. No outro dia, eu fui na câmara, e lá estavam Deka, Dionísio, Joares Ponticelli (presidente estadual do PP) e Pepê Collaço (vice-prefeito). Firmino chegou depois. Eles não me viram. O PP, junto com Dionísio, pediu a presidência da câmara. Acho que aí é que Firmino agiu errado em firmar qualquer coisa com eles. Deveria ter chamado nós, do PSDB, novamente e dito que o que nós tínhamos conversado na casa do Dr. Manoel não valia mais. Dali, ele foi na casa do Dr. Manoel e propôs a presidência para o PP em 2011-2012. Ele disse ao Dr. Manoel que seria obrigado a dar a presidência. Da câmara, eu fui falar com Pepê. Ele me confirmou que o PP tinha pedido a presidência a Firmino e ele teria aceitado. Na mesma hora, eu liguei para Firmino e disse que a confiança que tinha nele tinha acabado. Disse para ele que ele estava aberto para negociar com quem quisesse, porque eu não tinha mais compromisso com ele e nem ele comigo. E fui para Porto Alegre, fiquei isolado oito dias.

Notisul – Em que período foi isso exatamente?
João – Fui para lá no dia 9 de dezembro. Quando voltei, dia 18, a primeira pessoa a me procurar foi Ronério Cardoso (presidente do PDT em Tubarão). Ele perguntou como ficaria e eu disse que em Firmino não votaria. Expliquei o que ocorreu e ele disse que tinha mandado Firmino blefar com o PP “porque há quatro anos eles me deixaram fora da presidência e ainda estou magoado, e eu mando neste governo, no Firmino. O que eu pedi ele tem que fazer, porque eu trabalhei para ele na campanha, pedi voto com ele, fui o grande articulador”. Aí eu falei que, se Firmino tinha alguma chance de ganhar a minha confiança, tinha acabado por ali com a fala do Ronério. Se tu blefou com eles, quem me garante que não estão blefando comigo também? Disse que estava fora e fui embora. Teve uma nova reunião na casa do Dr. Manoel. Estava todo o partido, Stüpp, Tony (Bitencourt), Dura, Brunatto (Jefferson), Batista e Nilton. Na conversa, eu perguntei porque tínhamos que votar no Firmino. Disseram que, antes da eleição, Dr. Manoel estava 60% atrás nas pesquisas e, para o PDT vir junto, teria que ter algumas coisas, como secretarias e a presidência da câmara. Eu disse que vim sem nada, o Dr. Manoel também estava atrás nas pesquisas e eu acreditei nele. Será que eu fui menos importante? Eles não deram resposta. Eu disse que a única chance agora é se eles colocassem alguém do partido. Eu perguntei a Batista se ele queria ser presidente, disse que com ele eu iria. Ele disse que não tinha essa pretensão. Quando me disse isso, apertei a mão deles e disse que estaria fora do grupo e que não votaria no Firmino.

Notisul – E o PMDB? A partir disso você começou a negociar com eles?
João – Eu negociei com eles, sim, a presidência da câmara e da Cergal (Cooperativa de Eletrificação Rural Anita Garibaldi). De eu votar na chapa deles e está aí a presidência, votamos juntos e foi isso que aconteceu. Estamos agora fazendo a chapa da cooperativa. Hoje, Batista alega que, se eu dissesse um mês antes que votaria nele, mas eu disse dez, 12 dias antes. Agora tu, com a tua chapa inscrita, e eles chegam com a chapa um minuto depois… na real, o tempo tinha até acabado e Ivo (Stapazzol que presidiu a sessão de eleição da mesa diretora) é que foi sensato e deixou passar. E aí aconteceu tudo isso.

Notisul – E como foi esse acordo com o PMDB?
João – No decorrer da eleição, eu chamei Nilton para fazermos uma chapa para concorrer à cooperativa. Mas ele disse que não tinha intenção. Em seguida, Nilton aparece nos jornais dizendo que seria candidato. Eu disse ué, o que ele não quer é eu junto com ele. Procurei Ivo, e ele me disse que esse ano não iria apoiar Genésio Goulart (PMDB – atual presidente da Cergal). Eu perguntei se poderia estar com ele, e ele disse que sim. Nisso a disposição continuou, esse foi o ponto chave, ele me chamou na casa dele e nós fizemos o acordo também para a câmara. Isso faz parte da vontade que nós temos de administrar bem a cidade e também a cooperativa.

Notisul – Por que esse interesse pela cooperativa?
João – Porque eu tenho muitos parentes em regiões de cobertura da cooperativa e eu quero fazer mais. Eu acho que na cooperativa é possível fazer muito mais do que tem sido feito. Genésio fez, fez, mas acredito que dá para fazer mais. Já que estou na chuva, vou me molhar e quero fazer muita coisa. Alguns projetos vamos propor, ainda estamos avaliando. É preciso renovar, injetar sangue novo. Sou contra a reeleição para qualquer coisa. Como vão surgir novas lideranças se ninguém dá espaço.

Notisul – Você tem receio de ser expulso do PSDB e de perder o mandato?
João – Não. Queiram eles ou não, o PSDB tem a presidência da câmara. Se quiserem me expulsar, expulsem. Agora, o mandato eu vou lutar até o fim. Já conversei com alguns advogados e a chance é de 30% para eles tirarem o mandato e 70% de eu ficar com o mandato. E o processo é longo, inclusive o de expulsão. Vamos aguardar os fatos.

Notisul – Como você pretende fazer o trabalho na câmara, sairá para o vice-presidente, Maurício da Silva (PMDB), assumir?
João – Sim, esse é o acordo. E na próxima eleição, será Maurício na cabeça e eu de vice, aí no último ano, em 2012, nós trocaremos, ele renuncia e eu assumo. Nós fizemos a mesa diretora e cada um irá ouvir o outro e vamos fazer junto. Não terão muitas mudanças na câmara. Em time que está ganhando não se muda. Vou administrar bem e dar estabilidade e governabilidade ao Dr. Manoel. Quero que ele tenha confiança e saiba que a câmara estará junto com ele.

Notisul – Isso quer dizer que Dr. Manoel não terá oposição? Isso não é algo ruim, não ter oposição, críticas?
João – Acho que não. Oposição é uma coisa tão antiga né (risos). Coisa antiga, quando os militares mandavam no país. Acho que pode ter oposição sadia, não aquela que briga. Os políticos têm que parar com isso, de lutar pelos objetivos e interesses próprios. Quero que a câmara lute pela cidade, para melhorar Tubarão.