José Irmoto Feuerschuette é médico ginecologista e obstetra. Nasceu em 1941. Tem três filhos. Além da carreira na medicina, a qual exerce há 47 anos, já foi político. Foi prefeito de Tubarão por dois mandatos (1972 e 1992). Também foi vice-prefeito da Cidade Azul, em 1988. Durante o governo de Esperidião Amin, exerceu a função de secretário estadual de saúde (86/87). Como escritor, já lançou um livro sobre a enchente de 74 em Tubarão e agora lança um livro em homenagem a seu pai, doutor Otto Feuerschuette.

Rodrigo Speck
Tubarão

Notisul – Como surgiu a ideia de lançar o livro “Dr. Otto: o sacerdote da medicina”?

Irmoto – Meu pai teve uma história memorável, que não podia ser esquecida ou ficar no anonimato. Doutor Otto Frederico Feuerschuette era um mestre da medicina. Diversas vezes foi premiado. Era um ícone no sul de Santa Catarina. Sempre atendia as pessoa com o mesmo carinho. Nunca fugiu das suas responsabilidades. Além disso, também foi um político respeitado. Ele merecia essa homenagem.

Notisul – Foi difícil escrever esse livro?
Irmoto –
Difícil não foi, porque escrevia a história do meu pai, da minha referência. Convivi com o doutor Otto bastante tempo, embora não na época em que ele exercesse a medicina. Quando eu entrei na faculdade, o meu pai já estava aposentado. Mas me tornei um conhecedor das coisas da medicina por meio dos ensinamentos dele. Ele foi um grande professor. Meu irmão, o doutor Léo, também me ajudou muito na carreira médica. 

Notisul – Como o senhor juntou todo o material da obra?
Irmoto –
Eu guardava muita coisa em casa, que era do meu pai. Coisas do passado dele, da história dele. Além do material que eu tinha, fiz muitas pesquisas. Foram estudos exaustivos, que duraram aproximadamente dois anos. Pesquisei em livros, visitei vários municípios, conversei com pessoas que conheceram o meu pai. Cada uma delas tinha alguma história para contar. Histórias que foram selecionadas e colocadas no livro. Fiz um apanhado bem detalhado. Eu compilei essas histórias, de maneira que foi possível fazer a produção. Nos fim, eram tantas histórias que precisei escolher as melhores. 

Notisul – O que é abordado no livro?
Irmoto –
O livro traz a origem dos Feuerschuette no Brasil. Desde a carreira política dos meus avós até a carreira política do meu pai. Claro que eu não poderia deixar fora toda a vida médica dele, as amizades conquistadas ao longo do tempo em que se dedicou à medicina, até o tempo em que o meu pai foi fazendeiro.

Notisul – Então, quem foi Otto Feuerschuette?
Irmoto –
Meu pai foi um homem muito bom. Pelo que eu ouvi durante as minhas incursões pelos municípios, foi um homem de um coração gigante, de uma bondade imensurável, de uma importância enorme para a medicina. Ele sempre tinha tempo e espaço na agenda para mais um paciente. Meu pai nunca deixou de atender uma pessoa. Afinal, ninguém receberia gratuitamente um título de sacerdote da medicina, de emissário do bem, de apóstolo da caridade, se não tivesse feito algo de importante para a medicina. O doutor Otto ganhou tudo isso porque prestou excelentes serviços à comunidade. Trabalhos que marcaram de sobremaneira a passagem dele na vida tubaronense e na medicina. 

Notisul – O senhor falou que ele atendia a todos, sem precedente. Foi então por isso que ele se tornou um exemplo?
Irmoto –
Logicamente, ele tornou-se ícone. Meu pai foi um marco para a medicina do sul de Santa Catarina. Muita gente aprendeu a ser médico por meio dos ensinamentos dele. 

Notisul – O senhor devia esse livro a ele?
Irmoto –
Um cidadão como ele, que representou tanto para uma região, merecia ter a sua história contada em livro. Para quem fez o que ele fez e para quem enfrentou o que ele enfrentou, eu acho que esta é uma homenagem justa. Essa é uma homenagem pelo amor que eu tenho pelo meu pai. 

Notisul – O doutor Otto até hoje é lembrado. Isso significa muito para a família, certo?
Irmoto –
Ele é o patrono do curso de medicina da Unisul. A medalha de honra ao mérito dada aos melhores alunos do curso no fim de casa semestre leva o nome dele. É um orgulho imenso ver que tem gente e instituições que valorizam o trabalho que ele realizou. São homenagens que perpetuam a história do doutor Otto na medicina de Tubarão.

Notisul – Trata-se de um livro só de histórias ou vai além?
Irmoto –
Uns dizem que se trata de um livro de história. E que deveria ser lido por todos aqueles que estudam jornalismo ou história. Outros dizem que é um livro para a medicina. Que todo estudante de medicina, calouro ou não, teria obrigatoriamente que ler esse livro. Seria uma forma de saber como era ser médico no passado ou para saber como os médicos se comportavam naquela época. Seja na medicina ou em outras áreas, o livro diz bem o quanto ele foi importante para a nossa região.

Notisul – Como seria o seu pai médico hoje?
Irmoto –
Meu pai seria um monstro, um profundo conhecedor dos assuntos da medicina.  Porque, se ele fez tudo o que fez, sem nenhum recurso, então, hoje, com toda essa tecnologia, ele daria banho em todos nós. Não há como se contestar uma pessoa que exercia a medicina naquela época. Não existia nada, era tudo no olho clínico, não tinha nem laboratório. 

Notisul – Como o seu pai era conhecido naquela época?
Irmoto –
Há relatos de que a entrada dele no quarto do doente era considerada a metade da cura. Ele era conhecido como um homem que chegava assoviando e saía cantando. Era bem humorado e tratava todo mundo com muita cordialidade. Ele tinha uma maneira toda diferente de encarar a vida, apesar de todos os percalços que a vida lhe pregou. Ele realmente tinha um carisma todo especial. Não tinha uma pessoa que não gostasse dele, na vida pessoal ou no trabalho.

Notisul – É verdade que ele tinha o poder da hipnose?
Irmoto –
Os antigos diziam isso. Durante as minhas pesquisas, eu ouvi de pessoas da época do meu pai que, por meio de um tratamento hipnótico, ele teria curado uma senhora, em uma única visita domiciliar. Sem recursos para tratamento, ela permaneceu acamada por pelo menos um ano. O marido dessa senhora chegou a agradecer o meu pai em um anúncio divulgado em um jornal da época.

Notisul – Qual o sentimento que fica depois de dois anos de pesquisa e, agora, com o lançamento do livro?
Irmoto –
Sentimento de que eu poderia ter feito melhor! Se eu não tivesse facilitado em muitas coisas, se eu tivesse insistido em outras, eu poderia ter feito um livro muito melhor. Como todo estudioso, exigente como eu sou, tenho certeza de que o livro deveria contar mais histórias. Mas sei que um exemplar tem um número certo de páginas e que o escritor não deve ultrapassá-las.

Notisul – Então pode ser que o senhor lance outro livro?
Irmoto –
Ficaram coisas para trás, histórias interessantíssimas a respeito do meu pai que não constam neste livro. Seria importante que elas fossem divulgadas. Ele recebeu muitas homenagens em praça pública, que não foram colocadas nesta edição. São homenagens recebidas por ele durante toda a sua vida como médico e político. Quem sabe saia um novo livro, uma continuação.

Notisul – O que o senhor classifica como destaque no livro?
Irmoto –
O livro traz em destaque a sua carreira de estudante, quando ele esteve na Alemanha, aos 16 anos. Depois, veio o ingresso na faculdade de medicina, com destaque para a defesa de tese. Condecoração que consta no diploma de médico do meu pai. A vida pública também foi levantada. Afinal, meu pai foi prefeito três vezes e deputado estadual. Foi um político respeitado até pelos seus adversários.

Notisul – Ao longo das pesquisas feitas para a produção do livro, qual foi o pior momento enfrentado pelo seu pai no exercício da medicina?
Irmoto –
Ele enfrentou tempos muito difíceis na medicina, quando surgiu a tal da gripe espanhola, em 1918. Aí foi quando ele recebeu o título de sacerdote da medicina. Na época, com o hospital lotado, não dava para internar ninguém. Chegaram a morrer duas freiras que prestavam atendimento aos pacientes com a doença. A gripe era tão forte que matou até o presidente da república Epitácio Pessoa. Henrique Lage, que era amigo do meu pai, e que tinha condições financeiras, perdeu dois irmãos com a gripe espanhola. Meu pai atendeu os pacientes de casa em casa. Mesmo com a possibilidade de contrair a gripe, ele prestou os atendimentos. Não fugiu ao juramento do médico. Inclusive, fez inúmeras incursões a cavalo para atender as pessoas doentes no interior dos municípios. Foi uma época muito difícil.

Notisul – O senhor é médico, foi político e agora é escritor. Como é o doutor Irmoto escritor?
Irmoto
– Uma cabeça que trabalha sempre, muita ativa e que estuda muito. Sou um pesquisador nato.

 

Notisul – Como prefeito, como foi o seu trabalho?
Irmoto –
Fui prefeito em uma época muito difícil, quando aconteceu a enchente de 1974. Mas eu sempre tive bons relacionamentos, sempre tive acesso aos governos estadual e federal. Nas cheias, alguns nomes foram importantes para nós. Gente que passou por aqui, como o doutor Mário Benjamin, da Companhia Siderúrgica Nacional, e o senhor Henrique Cavalcanti, da extinta Sotelca. Homens que foram secretários nacionais, que nos ajudaram imensamente. Mas eu não posso esquecer do presidente Ernesto Geisel (1974-1979). Ele realizou as obras necessárias para retificar o Rio Tubarão. A retificação do rio é a obra mais importante de todos os tempos para a nossa economia, para a sobrevivência da nossa cidade.

Notisul – Qual a sua avaliação da redragagem do rio que está para ocorrer futuramente?
Irmoto –
A redragagem não tem muita razão de ser. Muito mais importante é a retificação das margens, para que as águas possam correr sem barreiras, mais livremente. As margens estão todas tomadas por árvores, areia e entulhos. A redragagem, dos males, talvez seja o menor. Primeiramente, nós teríamos que perceber o comportamento das margens. Se arrumarmos as margens para o escoamento melhor das águas, aí sim poderemos pensar em uma redragagem do Rio Tubarão. 

Notisul – Qual a sua percepção de passado, presente e futuro?
Irmoto –
O passado passou. O hoje nós temos que viver intensamente. Agora, o futuro a Deus pertence. Eu acho que o mundo, da maneira que está, muda muito rapidamente. A internet colocou o planeta dentro de casa. Eles anunciam uma guerra para começar à meia-noite e a gente fica em casa à espera de notícias sobre o fato. Como foi na guerra do Iraque. Você pode ver o bombardeio em Israel em tempo real. Para quem viu uma estação de rádio há 50 anos e vê hoje um telefone celular, uma caixinha de nada, onde a gente fala com qualquer pessoa do mundo a qualquer hora, é uma mudança muito brusca. Veja como é o progresso. Um avião sai de São Paulo com a orientação de um GPS e chega em Londres, na Alemanha ou na África só por instrumentos. A tecnologia está muito avançada. Mas aí é que está o perigo. Como disse Albert Einstein um dia, “quando a tecnologia dominar o mundo, nós não saberemos o que será do ser humano”.

Notisul – O senhor é uma pessoa muito religiosa. Quanto a religião é importante na sua vida?
Irmoto –
A minha formação foi católica. Fui aluno do Colégio São José. Fui aluno dos padres do Colégio Sagrado Coração de Jesus, que é o embrião da nossa Unisul. Fiz o científico no Colégio Catarinense, uma instituição jesuíta, onde se estudava um pouco de Bíblia. Lá, a missa era diária. Isso me deu uma formação católica forte, que me fez persistir o tempo todo, durante toda a minha vida. 

Irmoto por Irmoto
Deus – O maior.
Família – Tudo.
Trabalho – Realização
Passado – Cumprido.
Presente – Viver intensamente.
Futuro – A Deus pertence.

"Para mim, é sim uma espécie de gratidão 
pelo que ele fez por todos. Para a família, 
era um exemplo. Um pai dedicado". 

"Eu não me sinto 
bem longe da religião. 
Sou católico"!