Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Como o senhor está?
Bertoncini
– Ótimo. Melhor impossível!

Notisul – E está conseguindo conciliar a agenda de prefeito com a “agenda de pai e marido”?
Bertoncini
– (Risos) Uma vez escutei uma frase do ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani que é a mais pura verdade. Perguntaram para ele: “Como você consegue conciliar a agenda de prefeito com a família?”. Ele respondeu: “Quando eu era advogado, os outros faziam a minha agenda e aí eu não tinha tempo para a minha família. Quando eu fui prefeito, eu fazia minha agenda e então eu separava um tempo para estar com minha família”. E é a mais pura verdade. Como médico, não tinha tempo para nada. Não almoçava em casa. Chegava à noite e eles estavam dormindo. Saía de manhã e eles estavam dormindo. Agora não. Faço questão de almoçar em casa, é um direito que eu tenho né (risos)!? Hoje consigo conviver muito mais com os meus filhos.

Notisul – O senhor é visto como um modelo de político e de superação. O senhor de considera este modelo?
Bertoncini
– Não (risos). Não. De maneira nenhuma. Não sou nada especial. É uma coisa muito simples. Eu faço para os outros o que gostaria que eles fizessem para mim. Acho que esta é a receita. Se toda hora que você for falar com alguém, tomar uma decisão ou qualquer outra coisa, pensar que aquele alguém pode ser teu irmão, tua mãe, teu pai, não vai errar nunca. Ninguém quer fazer o mal para a mãe, o pai ou o mano. A receita é esta e é bem simples mesmo: se coloque do outro lado do balcão. É assim que procuro levar minha vida. Acho que esta é uma receita simples, que dá certo e não precisa de nenhum esforço.

Notisul – Sentar na cadeira de prefeito era como o senhor imaginava?
Bertoncini
– É uma experiência que dá muitas possibilidades. Tem sido um desafio. Tem as dificuldades, as coisas pequenas que incomodam. Mas ser prefeito é algo que nenhuma faculdade ou curso te prepara. Acho que é uma soma de elementos. Acerta-se e erra-se, como na vida. O principal é ter o objetivo de procurar melhorar a vida das pessoas. Se o objetivo for este, acredito que erra-se menos.

Notisul – Administrativamente, qual a maior dificuldade que o senhor enfrentou este ano?
Bertoncini
– A queda brusca na receita. Logicamente não foi exclusividade de Tubarão, mas foi difícil. O restante foi muito tranquilo.

Notisul – Como está a situação financeira da prefeitura hoje?
Bertoncini
– Cumprimos com todos os nossos compromissos com os funcionários. Tentamos colocar, o máximo possível, dos fornecedores em dia. Ainda há dívidas para saldar. Mas espero que no início de 2010 estejamos com fornecedores, funcionários e terceirizados com pagamento em dia. Este é o objetivo que coloquei lá no início de 2009: sanear financeiramente a prefeitura.

Notisul – E a questão das Certidões Negativas de Débito. Foram totalmente solucionadas?
Bertoncini
– (Risos) Esta pergunta é igual o canil. Sempre vem (risos). E se tiver alguma pergunta do canil, eu já adiantou a resposta: sai em 2010 com certeza. Mas sobre as negativas, tínhamos alguns problemas em relação a Casan, por conta da municipalização da água. É uma questão que está na justiça ainda. Para facilitar, assumi outra postura: fui ver quanto devia, parcelei e estou pagando. Ter as Certidões Negativas de Débito é fundamental para poder administrar. Caso a justiça decida favoravelmente ao município, vamos resgatar o dinheiro. É mais simples e não trava a busca de recursos. Esta parte está resolvida. Na esfera federal, não temos as negativas por conta daquela questão da retirada dos trilhos do centro da cidade. Fomos inúmeras vezes para Brasília e vamos solucionar esta questão em 2010 definitivamente. Temos uma negativa temporária e agora conseguimos estender a validade desta negativa até a finalização da análise deste questão. Hoje, a prefeitura tem todas as negativas e está apta a firmar convênios com qualquer orgão, de qualquer esfera.

Notisul – A mudança da câmara de vereadores tranquiliza o senhor? Fecha o capítulo vereador João Fernandes?
Bertoncini
– Na verdade, quero me relacionar com a câmara de vereadores e não individualmente. O relacionamento individual, às vezes, não é saudável. Eu prefiro dividir em executivo e legislativo. O vereador Maurício da Silva (PMDB) é um político com larga experiência, já presidiu a câmara e o próprio executivo. Independente de partido, Maurício tem uma carreira política reta. Ele é muito competente e comprometido com a cidade, o que é o mais importante. Tenho certeza que não haverá nenhuma ruga ou dificuldade.

Notisul – Existe a possibilidade do senhor e o João Fernandes reatarem politicamente? Até onde consta vocês estão de “bico” um com o outro.
Bertoncini
– Acredito que é uma questão de conquista. Confiança não se ganha e não se dá, se conquista. O verdadeiro apoio político segue o mesmo caminho. Não se compra, se conquista. Então acredito que estas coisas são uma questão de relacionamento. E aí só o tempo, o futuro dirá. Estas coisas a gente tem que ir reavaliando e isto se faz um dia após o outro.

Notisul – Como o senhor faz para separar o “Manoel Cidadão”, do “Manoel Prefeito”?
Bertoncini
– É uma batalha diária. Muitas vezes meus sentimentos individuais e de cidadão questionam uma ou outra coisa. Por outro lado, como prefeito, tenho que ter outra postura. Muitas vezes meus sangue italiano ferve (risos). Então respiro fundo e sigo em frente.

Notisul – Esta ida do senhor para Brasília, com bons projetos na mala, surpreendeu. Isto vai ser mais frequente?
Bertoncini
– Temos que dar a paternidade a quem é pai de fato. E este filhinho é do assessor de assuntos interinstitucionais, Felipe Felisbino. Ele planejou toda a ação e não surpreendeu somente a nós, mas também a eles lá em Brasília. A repercussão disso tem sido imensa. Onde os deputados e senadores passam, nos citam: “Façam como Tubarão fez”. E demos muita sorte porque tinham outros prefeitos da região naquele dia em Brasília. Além disso, não levamos somente projetos da cidade, mas também reivindicações da Amurel como, por exemplo, a rodovia Serramar. Para este projeto, existia uma emenda da bancada catarinense de R$ 6 milhões, que conseguimos transformar em R$ 20 milhões porque os deputados viram o projeto e ficaram impressionados. Esta articulação do Felisbino foi ótima e já trouxe resultados positivos. Já estamos com emenda de R$ 800 mil para compra de máquinas. Inclusive o dinheiro já veio e só falta acertar a documentação com a Caixa Econômica. Temos a expectativa, ainda, de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões em emendas, além dos R$ 20 milhões da Serramar.

Notisul – Esta articulação e o resultado dela geraram comparações com seus antecessores. O senhor não acha isso chato?
Bertoncini
– Não, acredito que isso faz parte do ser humano. Sempre comparamos isso com aquilo. Só não pode comparar o Flamengo com o Vasco (risos). Isso não dá (risos). É incomparável (gargalhadas). O restante admito comparação. Estes dias me perguntaram se o próximo ano de governo terá mais a minha cara, porque 2009 tinha a cara dos (Carlos) Stüpp. Eu disse que gostava da cara do Stüpp, que estava muito bom. Como não vou gostar? Ele se reelegeu, depois me elegeu e ainda saiu com 80% de aprovação. Então se for esta a minha cara, que ótimo! Fico muito satisfeito. Estas comparações sempre existiram, sempre existirão e encaro isso com naturalidade.

Notisul – A situação dos pedintes e dos nômades que começaram a se instalar na cidade o preocupa?
Bertoncini
– Sim, mas não no nível em que as pessoas gostam de pontuar. Para 2010, vamos atuar muito forte na fiscalização dos terrenos baldios. Isto é uma medida que já dificultará a instalação destas pessoas. Áreas como as pontes, por exemplo, já estudamos qual a melhor maneira de cercarmos para que as pessoas não morem mais ali. O mesmo é pensado quanto aos viadutos na BR-101. Além disso, quero colocar para a (secretaria) assistência social a missão de saber quem são estas pessoas e quero um encaminhamento adequado. Agora, a questão dos ciganos não posso fazer muito. Além de ser o modo de vida deles, não posso colocar a polícia na entrada da cidade porque isso é ilegal. O direito de ir e vir é constitucional. O que será feito é a fiscalização dos terrenos para dificultar que eles se instalem. Neste caso posso ir somente onde a lei me deixar ir. E não há muito o que fazer.

Notisul – O desenvolvimento que começa a chegar na Amurel trará uma nova realidade para Tubarão, para a região. Isto não preocupa o senhor do ponto de vista da segurança pública?
Bertoncini
– Preocupa sim. Acho que se a cidade não tiver um crescimento ordenado, teremos problemas como todos os outros municípios brasileiros. É um desafio porque a partir do momento que uma cidade se destaca na questão de investimentos, atrai pessoas em busca de uma melhor condição de vida. E às vezes esta condição não é oferecida para todos. O resultado é a formação de áreas de risco. Mas pretendemos, com o Plano Diretor, cuidar justamente de como cresceremos. E parte desta solução é fazer com que o poder público esteja presente em todas as partes da cidade. Em todos os bairros precisa ter uma creche, um posto de saúde, uma escola, transporte coletivo, áreas de lazer. Hoje não temos nada disso. Na verdade temos uma estrutura muito aquém da que considero a mínima ideal. Planejo um investimento neste sentido. Queremos ocupar a área antes que o traficante a ocupe.

Notisul – Infraestrutura e logística sempre foram áreas deficientes. Quais seus planos nestes dois setores?
Bertoncini
– Espero, primeiro, que a conclusão da BR-101, do Porto de Imbituba e de Laguna, do Aeroporto Regional Sul (Jaguaruna) e a Ferrovia Litorânea, saiam mesmo do papel para que possamos utilizar esta infraestrutura para alavancar o nosso próprio desenvolvimento. Mas nada ocorrerá de bom se nós aqui em Tubarão ficarmos somente à espera destas obras. Então separei metas para este ano. Primeira: a formação profissional. Temos três projetos neste sentido. É de extrema necessidade. Segunda: criação de novos distritos industriais. Queremos uma parceria com a iniciativa privada e já alinhavamos isto também. Além disso, a prefeitura já tem o bem sucedido projeto Santo de Casa, Aqui faz Milagre, que contempla as necessidades de novos investimentos. Infraestrutura também integra este plano: construção de novas pontes, pavimentações, drenagem. São investimentos altos, mas há dinheiro em outras esferas e nós usaremos o ISS para dar a contrapartida.

Notisul – Como o médico Manoel avalia o prefeito Bertoncini?
Bertoncini
– (Risos). A avaliação é boa. Como diz o outro: Eu me gosto! (gargalhadas). Esforço-me para cumprir o que coloquei no plano de governo. Tenho uma cópia na mesa de cabeceira. Pode parecer mentira, mas não é. Leio toda semana, anoto o que não fiz, o que já iniciei, repasso as prioridades. É o mínimo que posso fazer para honrar os votos que recebi. É como acredito que um político deve agir. E para isso há apenas uma maneira: Aproximar o discurso da prática.

Notisul – O senhor não sente saudades de praticar a medicina?
Bertoncini
– Sinto saudades do centro cirúrgico, dos meus pacientes. E se Deus me oportunizar, após estes quatro anos volto com força total.