Foto: Priscila Loch/notisul
Foto: Priscila Loch/notisul

Perfil
Mesmo aposentada, Marta Parteira ainda recebe muito carinho e confiança de gestantes. Até hoje, aconselha futuras mamães que a procuram em busca de uma opinião técnica da profissional que perdeu as contas de quantas crianças ajudou a trazer ao mundo. O brilho de seus olhos quando se lembra dos anos em que exerceu a profissão não deixa dúvidas de que esta era mesmo a sua vocação. Marta teve três filhos biológicos – a vontade era de ter pelo menos mais três – e muitos outros do coração, que ajudou a criar, como o menino especial o qual tem a guarda provisória há oito anos, desde que era um bebezinho, e trata com um amor que enche os olhos de quem já viu todo o seu zelo por ele. Hoje com 67 anos, ela também participa ativamente da política. Já foi vereadora por um mandato, suplente várias vezes e não perde a esperança de ver uma política mais limpa e um país melhor.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Marta Parteira é bastante conhecida em toda a região por ter feito o parto de muitas crianças. Como iniciou o amor por essa profissão linda?
Marta –
Comecei a trabalhar no hospital em 1969. O hospital para mim é uma extensão da minha casa, eu amo. O meu primeiro trabalho, após os meus 18 anos, já foi no hospital. Trabalhei como auxiliar das parteiras, instrumentadora dos médicos. Tive ótimos professores lá. Eu me apaixonei muito por esse trabalho. E daí, quando casei, precisei sair. Antigamente, o hospital não aceitava funcionárias casadas. Quando a moça estava noiva e ia casar, ela ia no setor pessoal e pedia demissão. Quatro anos depois, fiquei sabendo que o hospital estava começando a aceitar funcionárias casadas, as de confiança, corri lá e consegui meu emprego de volta. Em seguida que voltei, surgiu um curso de parteira prática em Florianópolis. Cada hospital poderia mandar uma funcionária e eu fui premiada, fui convidada pela irmã Lúcia. Fiz o curso e quando voltei fiz estágio monitorado por uma enfermeira obstétrica e pelos médicos. Foi aí que comecei na profissão de parteira. O primeiro parto eu fiz no dia do meu aniversário.

Notisul – Que presentão hein! O que te encantou mais nessa profissão?
Marta –
Desde que comecei a trabalhar no hospital, eu tinha o desejo de que um dia alguém me chamaria para ajudar uma mulher que estivesse para dar à luz. Mas não precisou disso. Deus sondou meu coração e viu o amor que eu tinha pelas parturientes, o amor que eu tinha pelos bebês, o amor que eu tinha pela função de parteira. Foi um presente que Deus me deu. A minha avó foi a parteira da minha mãe e fiquei com ela até meus 13 anos de idade, porque nasci prematura e a mamãe tinha duas meninas – a mais velha não tinha 3 aninhos ainda – e cuidava da minha avó paterna. Minha avó materna me levou para São Martinho, era inverno, e todos achavam que eu não ia sobreviver. Naquele tempo, era tudo muito diferente. Ela ficou cuidando de mim e depois precisava de mim, pois já era idosa e eu a ajudava. Ela era parteira, mas naquela época não se comentava muito. Mesmo assim, eu dizia que ainda queria um dia ter a profissão dela. Acho que esta vocação está no sangue, a vocação da defesa da vida. Sempre fui muito zelosa com os prematuros, com as mães, para que aqueles bebezinhos tivessem condições de nascer e de sobreviver. Quem ama a Deus e quem é apaixonado pelo pai, pelo filho e pelo espírito santo não tem como não amar a vida, não tem como não lutar pela defesa da vida.

Notisul – Tem ideia de quantos partos realizou?
Marta –
Nunca parei para contar. Algumas milhares de crianças. Cinco, seis, sete, oito, nove, dez mil crianças… Trabalhei muito tempo. Foram muitos partos. O que mais marcou para mim não foi a quantidade de partos e sim aquelas crianças que seriam abortadas e que conseguimos acolher, incentivar, amar, orientar e salvar.

Notisul – Eu ia perguntar sobre exatamente isso. Você fala sempre muito em defesa da vida. Qual a sua avaliação sobre o aborto, um assunto que causa muita polêmica, mas está frequentemente em discussão?
Marta –
Em penso assim: se a minha mãe tivesse me abortado porque cuidava da minha avó doente e das minhas duas irmãs pequenininhas? Não estou querendo-me autovalorizar, mas olha o prejuízo que a sociedade teria. Isso vale para qualquer pessoa. Um exemplo você acabou de ver aqui em casa: uma criança que não enxerga, não fala, não tem movimentos voluntários e me dá muitas alegrias (em referência ao menino de 8 anos com necessidades especiais que está sob sua guarda). Como eu amo essa criança. Já pensou se tivesse sido abortada? Eu não teria essa alegria de poder atender Jesus por meio de uma criança especial. Quando o meu filho partiu desse mundo e foi embora para a casa do Pai, há 8 anos, essa criança que está comigo hoje estava sendo gestada. Meu filho que partiu me deixou tantas lembranças lindas e Deus não permitiu que ele saísse sem ter outro já encubadinho no ventre da mãe. Ele faleceu em novembro e o outro nasceu em janeiro. Deus me deu uma criança sob medida, somente para amar, zelar e fazer com que ele viva o máximo que puder. Quem aborta só lamento, mas ainda me alegro pela misericórdia que Deus tem com cada um de nós. Quem pratica o aborto tem as mãos sujas. Eu sempre orientei que as mulheres não sujassem as mãos nesse sangue, nesse crime. Muitas mães eu me dispus a cuidar na minha casa até o bebê nascer e algumas eu consegui trazer. Várias, pela força da palavra, não abortaram. É uma profissão muito linda, muito gratificante. Uma vez, eu estava me preparando para ir a um comício onde eu ia fazer uso da palavra, e recebi a ligação de uma mãe com um pedido urgente. Fui na mesma hora. A filha dela estava grávida de uns quatro meses e queria fazer um aborto. Ela tinha uma menina linda, de 2 aninhos, e eu disse “tira a vida dessa, pois essa já está batizada, e deixa esse nascer”. Eu queria mexer com o emocional dela. Então eu disse pra ela me dar o bebê que eu cuidaria até o dia que ela quisesse ir buscar. Quando eu vi que não tinha mais conversa, ajoelhei e comecei a orar. Coloquei a minha mão sobre o ventre dela. Essa criança começou a se mexer, apesar de nessa fase não ter movimentos tão ativos ainda, como se estivesse pedindo socorro. Pedi que Santa Paulina intercedesse perante Jesus. Enquanto eu estava ali orando, ajoelhada, o telefone tocou. Era o pai da criança, que estava no Rio Grande do Sul e pediu para ela ir embora com ele. O meu maior ganho foi preservar vidas. Deus me presenteou com esse curso de parteira.

Notisul – Como você acompanhou a evolução da medicina em torno dos partos e como avalia as escolhas pelas cesarianas?
Marta –
Na minha experiência como parteira, eu sempre pensava em como muitas mulheres conseguiam ter os bebês em casa de parto normal em casos que não tinham condições. Por isso que havia tantos óbitos e nasciam crianças com deficiências. Muitas não tinham condições de passar pelo canal vaginal, a bacia era muito estreita, mas não tinha outro jeito. Essas mulheres sofriam muito. Então, a cesariana foi um presente de Deus. Mas fico triste quando as mulheres têm condições de ter um bom parto normal e vão para a cesariana. Deus fez tudo tão perfeito. Temos saber aproveitar a ciência. São Paulo foi muito claro quando disse que sofremos e gememos como que em dor de parto. Depois que a criança nasce, com a alegria da vida, a mãe esquece o sofrimento do parto. As mulheres têm medo de parto normal porque com certeza não foram bem orientadas. Aquela dor que vão sentir com as contrações são o que vai trazer alegria.

Notisul – Mudando de assunto, você sempre foi muito envolvida com política. É filiada ao PSDB, foi candidata oito vezes a vereadora e eleita por um mandato, além de algumas vezes ficar como suplente. Atualmente, os políticos estão um pouco desacreditados, em decorrência de tantos escândalos de corrupção revelados. Qual a sua avaliação sobre essa realidade?
Marta –
Falo por mim. Os bons políticos não devem prometer, muito menos trocar favores por voto. É humilhante para o eleitor, e para o político. Eu passava de casa em casa pedindo voto, mas sem oferecer nada. Voto não se troca por nada, o voto tem um peso muito grande para o bem e para o mal. Eu gosto de olhar o político quem era antes das eleições, se participava nas comunidades, se tinha um bom coração, se tentava resolver o problema do outro por amor, porque tem essa vocação. Aquele que aparece só algum tempo antes da eleição, com entrevistas bonitas, discursos maravilhosos, não faltam velório e missas de corpo presente, não são políticos. O político tem que ter vocação. Eu sempre disse para as pessoas que antes de pegar qualquer trocado pergunte de onde veio o dinheiro. Quem votou em mim é porque ainda estava indeciso ou me escolheu porque gostou de c0nversar comigo. Muitas vezes, ofereci minha casa para pessoas que estavam no hospital e precisavam ficar na cidade, mas não tinham dinheiro. Teve uma época em que me criticavam, diziam que eu trazia essas pessoas para cá por interesse. Nem de Tubarão eram. Quem compra o voto hoje já está vendendo o direito do eleitor, que depois vai precisar de um exame e não vai ter. Vai ter como se o pote secou? O povo precisa ser politizado. Fico muito triste com a situação que vivemos hoje. O coração da humanidade está sangrando. Estão sugando o sangue das pessoas. Fala-se que o mosquito da dengue está matando muita gente, mas muitos políticos é que são verdadeiros mosquitos da dengue. Esses sim precisam de um forte combate. Quem vende o voto elege ladrão. Hoje, estamos lambendo o fundo do tacho, pois o que tinha de bom já levaram..

Notisul – E a política tem jeito, Marta?
Marta –
Tem, porque quem coloca as pessoas no poder é o povo. A culpa é de todos. Quem pode se corromper grande se corrompe grande, quem pode se corromper pequeno se corrompe pequeno. Os “roedores” estão por aí. Eu gosto de estar envolvida na política, gosto de estar no meio do povo.

Notisul – Por que você acha que a participação da mulher na política está tão pequena?
Marta –
Não basta ser mulher, tem que ser honesta, verdadeira. A mulher de uma forma geral é mais sensata, promete bem menos. E o povo não elege as mulheres porque não elas prometem. O homem tem mais lábia. Eu não quero ter lábia nunca para me eleger a nada. Quero ser eleita para o céu, tenho que saber me comportar para ganhar o voto de Deus. As mulheres precisam mostrar muito mais. Aqui em Tubarão, tivemos candidatas a vereadoras muito honestas. Mas o povo quer discursos inflamados. Nem o dinheiro para comprar uma água eu levava no dia da eleição, para não ter que mexer com dinheiro na frente de ninguém. Nunca teve ninguém fazendo boca de urna para comprar voto pra mim. Acho isso vergonhoso.