Foto: Priscila Loch/notisul
Foto: Priscila Loch/notisul

Perfil
O prefeito de Capivari de Baixo, Nivaldo Sousa (PSB), admite que perdeu muitas noites de sono depois que assumiu o cargo e, se pudesse, voltaria atrás e não se candidataria. Os problemas encontrados na prefeitura foram muito maiores do que esperava e agora, com dez meses de governo, é que conseguiu dar uma respirada. Em contrapartida, não quer decepcionar os eleitores. Para 2018, Nivaldo espera uma situação mais positiva, inclusive com a execução de projetos importantes, como a duplicação do acesso principal ao município, a revitalização total da avenida de ligação com Tubarão e a reabertura do prontoatendimento.

Priscila Loch
Capivari de Baixo

Notisul – Antes de se candidatar a prefeito, o senhor já sabia que enfrentaria muitas dificuldades. Quando assumiu, os problemas eram maiores que o esperado?
Nivaldo –
Bem maiores. Claro que pela experiência que eu já tinha e pelo acompanhamento das notícias sobre o município, onde moro desde sempre, eu sabia que a prefeitura estava em situação difícil, mas imaginava que algumas coisas não estariam tão graves. Confesso que quando chegamos aqui nos apavoramos. Tivemos que tomar algumas medidas bem difíceis, principalmente se tratando da questão política. O município, nas últimas gestões, sempre teve esse lado político muito forte, tanto com os partidos que participavam da coligação, quanto com a população, que vinha buscar oportunidades na administração. Tínhamos uma prefeitura completamente inchada. Tanto que tivemos que fazer uma reforma administrativa. Executamos já nos primeiros dias. Diminuímos os 20 salários de secretários para seis, e hoje só quatro estão atuando, os outros dois não nomeamos. Pegamos os 226 cargos comissionados e reduzimos para 100, mas colocamos só 50. Só com os comissionados extintos, a economia foi de quase R$ 500 mil por mês. É isso que está nos propiciando investir recursos próprios. Tudo o que fizemos esse ano, como a contratação de especialistas, a compra de caminhões e de carros para a saúde e para transportar a merenda, mais de R$ 1 milhão de compra de asfalto para fazer a operação tapa-buracos, foi gerado por essa economia. Tinham muitas dívidas a serem pagas. Tivemos que nos preocupar primeiramente com as dívidas federais e estaduais as quais estávamos inadimplentes. Cerca de 99% já saldamos ou encaminhamos.

Notisul – Hoje, o município está com todas as certidões negativas de débito?
Nivaldo –
As negativas federais sim. Temos algumas situações estaduais que estão sendo negociadas e pagas mensalmente para poder viabilizar as negativas. Alguns setores já conseguimos firmar convênios. Tem outros que ainda não. Por exemplo, descobri 15 dias atrás que a prefeitura estava indo para protesto em cartório com mais de R$ 200 mil de coisas que não estavam empenhadas. Estamos levantando empresa por empresa, como não estão empenhadas, chamando para comprovar as dívidas para poder pedir autorização para a Câmara e poder pagar. Mas existe protesto em cartório ainda.

Notisul – Pode-se dizer então que colocar a casa em ordem demorou muito mais que o previsto.
Nivaldo –
Sim, em função do que encontramos ser muito mais profundo do que a gente esperava. Tivemos que desembolsar mais de R$ 2,5 milhões na hora para pagar algumas coisas, como cinco multas da Fatma. São R$ 2 milhões e R$ 300 mil tive que pagar porque já estava na dívida ativa, senão continuávamos inadimplentes com o governo do estado. O restante, R$ 1,7 milhão, estou negociando para não ir para dívida ativa. São coisas que não esperávamos.

Notisul – Quando o senhor assumiu e conseguiu listar as dívidas, qual era o valor total?
Nivaldo –
Incluindo o FGTS – em torno de R$ 8 milhões -, mais credores e as dívidas que foram aparecendo, chegava próximo de R$ 20 milhões. De lá para cá, aumentou, mas já negociei em torno de R$ 12 milhões. Estou começando a conversar com os credores, com quem tínhamos uma dívida de R$ 3 milhões. Algumas já estou pagando em condições. Em muitos casos, eu poderia simplesmente dizer que não vou pagar porque não tenho dinheiro. Isso vai gerar um processo na justiça que pode levar de dez a 15 anos. Inclusive, estou pagando dívidas do primeiro prefeito, que são precatórios que estão chegando agora. Mas tudo o que eu puder acertar vou fazer, porque não quero que daqui a dez anos digam “essa dívida é do tempo do Nivaldo”. Só não pago dívidas que não estão empenhadas e não têm comprovação. Daí vão ter que buscar na justiça. As coisas estão se encaminhando. Temos trabalhado bastante. É uma equipe pequena, mas muita gente comprometida junto conosco nessa recuperação do município.

Notisul – Logo no início do governo, o senhor decretou estado de calamidade financeira por 180 dias. O que significou esse decreto na prática?
Nivaldo –
Valeu por seis meses e foi o que nos deu fôlego. Todo mundo imaginou que decretei para buscar recursos do governo federal. Mas isso não existe mais. Decretamos sim para poder arrumar a casa. Só para ter uma ideia, no dia 2 de janeiro já tinha credor batendo na porta dizendo que queria receber o que o ex-prefeito não pagou. Eu não poderia acertar a casa com essas pessoas cobrando e eu tendo que negociar. Eu precisava levantar a dívida para saber o que era para pagar, o que não era. Esse período nos deu fôlego, deu tempo para nos organizarmos e nos planejarmos, tanto que começamos já 90 dias depois a mexer na cidade, que estava completamente abandonada e hoje já está com outra cara. Fomos buscar soluções caseiras. Para a recuperação das estradas, se eu fosse contratar uma empresa, não conseguiria fazer em quatro anos, pois custaria caríssimo. Mas não poderia esperar quatro anos para arrumar dinheiro. Eu disse desde o começo que o primeiro ano seria para recuperar a cidade. O que gastei até agora foi de recursos próprios. Esse ano, não consegui verbas federais. Para o ano que vem, temos muitas coisas encaminhadas. 

Notisul – Então a expectativa é que em 2018 a situação será melhor!
Nivaldo –
Sim. Vão ter obras novas em Capivari. Algumas com recursos externos, outras com nossas economias, que vai continuar. Não vou ter mais essa quantidade de buracos para tampar, então não precisar comprar R$ 1,5 milhão de asfalto e pintura de ligação. Talvez eu tenha que comprar R$ 500 mil e R$ 1 milhão já vai sobrar para investir em uma obra nova. Não nos acomodamos. Estamos com os pés bem no chão. Folha de pagamento para mim é prioridade. Desde janeiro, estamos pagando no último dia do mês trabalhado, apesar de ter até o quinto dia útil do mês seguinte.

Notisul – Qual o gasto com folha de pagamento?
Nivaldo –
Apesar da economia com os cargos comissionados, a folha continua alta. São 780 servidores efetivos. Isso é pesado. Com cargos comissionados, o gasto é em torno de R$ 120 mil, só que a folha de pagamento, com encargos, está em torno de R$ 3,1 milhões. O ex-prefeito me entregou com 65% da receita a folha de pagamento, mesmo com aquelas dificuldades da prefeitura. E hoje, se eu ficasse só com os concursados e os ACTs que tenho que contratar para a educação, a folha já chega próximo a 50%. Felizmente, vou conseguir fechar o ano abaixo do índice que a lei de responsabilidade fiscal permite. Confesso que nunca perdi tanto sono na minha vida. Mas, com certeza, esse novo estilo de governar é o que as prefeituras precisam. A população está reconhecendo. Hoje está bem diferente de três meses atrás, quando eu tinha muita dificuldade, até de caminhar na rua. A população passou a acreditar novamente que é possível recuperar essa cidade e está trabalhando junto. Exemplos disso são as limpezas que estamos fazendo. Tiramos mais de 200 caminhões de entulhos e vamos tirar pela última vez. A população está consciente disso e está nos ajudando, 80% já está fiscalizando junto conosco. Na maioria dos locais onde tiramos não estão colocando mais, e onde estão colocando estamos notificando. Se você me perguntar se eu me arrependi, eu digo que é difícil.

Notisul – Se pudesse, voltaria atrás?
Nivaldo –
Voltaria. Mas a população apostou em mim, foi uma eleição difícil. A minha responsabilidade é muito maior porque venci praticamente sem partido, porque dois partidos grandes sempre mandaram na cidade. Peguei um partido só para me registrar, não tinha expressão política. Em nível federal, por exemplo, não temos deputado. Tenho 20 anos de vida pública e os deputados que conheço são os que me acolhem em Brasília. Eu estou batendo na porta deles. Eu moro aqui, meus negócios são aqui e não quero ir embora de Capivari. Foi isso que me fez voltar à política.

Notisul – Quais são as prioridades daqui para frente no sentido de recuperar a cidade?
Nivaldo –
Quando falamos em recuperação da cidade, estamos fazendo isso em várias áreas. Nas ruas, além de taparmos os buracos, colocamos várias caixas de drenagem, pintamos as sinalizações, lombadas, faixas de pedestres, estou reformando vários abrigos de passageiros e pintando com as  cores do município.

Notisul – Em muitas estradas, foi feito um paliativo né?
Nivaldo –
O ideal é tirar todo o material e fazer um recape total. Mas o dinheiro que vou gastar vamos recuperar mais de 100 quilômetros de asfalto. Se eu fosse retirar tudo, iria asfaltar uns dois ou três quilômetros. É uma medida paliativa, mas está sendo bem feita. Estamos cortando o asfalto e vai aguentar um tempo maior. Não é duradouro, mas vai dar fôlego para buscarmos convênios. Estou buscando um convênio para fazer a ligação entre Capivari e Tubarão, pela Avenida Nações Unidas. Essa tem que retirar tudo e fazer o recapeamento total. O projeto vai em torno de R$ 2 milhões. Quero ver se consigo fazer no ano que vem, por meio do Fundam. Como também a entrada do município, onde existe um projeto de duplicação, com pórtico e entrada digna para o município, que também deve ser executado no ano que vem, com investimento de R$ 800 mil. Estou tentando buscar recursos federais, mas talvez com a economia da tapa-buracos eu consiga fazer a entrada com recursos próprios. Queremos que as pessoas que aqui vêm saiam levando uma boa impressão. Felizmente, isso já está acontecendo. Se quisermos fazer Capivari crescer, temos que primeiro arrumar nossa casa. A prioridade é revitalizar a cidade. Nossa cidade é pequena em território, mas com uma grande população, com quase 25 mil habitantes. E não ficamos só na questão das ruas. Não tínhamos especialistas em Capivari e contratamos oito. Pagamos por consulta. Liberamos em torno de 120 consultas para cada especialista, cada um atende no local de trabalho. Também mudamos o atendimento dos postos de saúde, que funcionavam até as 13h e hoje funcionam até as 16h. Todos os médicos pegam às 7h e largam às 16h.

Notisul – Falando em saúde, como está o processo de reabertura do prontoatendimento?
Nivaldo –
No meu projeto de governo, está escrito assim: “abertura do prontoatendimento de uma forma planejada”. Porque eu já sabia que teria dificuldade de abrir 24 horas e deixar ele aberto. Agora, os postos funcionam até as 16 horas e depois os cidadãos poderão ir no prontoatendimento depois das 18 horas. Existe um TAC assinado pela administração passada que prevê que o prontoatendimento tem que funcionar 24 horas e a equipe teria que ser toda concursada. Por isso que cheguei em janeiro e nem falei em prontoatendimento. Em março, fui conversar com a promotoria e disse claramente que queria abrir, mas não teria como com aquelas condições. Pedi que repensassem e me autorizassem a abrir só à noite. Pediram que eu fizesse um levantamento de custos, quanto a saúde arrecadava, onde estava sendo gasto. Eu pedi para abrir seis horas porque quando funcionava 24 horas atendia 800 pessoas à noite e duas mil durante o dia por mês. Dessas 800 à noite, 700 eram até a meia-noite. Depois da meia-noite, eram os casos bem mais graves, difíceis até de dar atendimento na unidade. Tenho um convênio com o Hospital Nossa Senhora da Conceição em que pago R$ 28 mil por mês, para atenderem a nossa população em casos de urgência e emergência. Antes não se colaborava com nada e o hospital precisa. Não vou tirar esse convênio, e os casos mais graves vamos transportar para lá de ambulância. A promotoria me autorizou a abrir das 18h à meia-noite, de segunda a sexta-feira. Quero abrir o prontoatendimento para não fechar mais, e depois ampliar o horário, na medida em que tivermos recursos para ir pagando.

Notisul – Qual seria o custo do funcionamento por 24 horas e o de seis horas?
Nivaldo –
O custo de 24 horas deve chegar a R$ 400 mil por mês, gera muitos exames em função da abertura longa. O custo de seis horas estamos avaliando de R$ 100 mil a R$ 120 mil. Isso inclui pessoal, as despesas fixas, os exames. Estamos fazendo um convênio para contratar raio-x e exames laboratoriais, de preferência em Capivari, para não precisar transportar para Tubarão. Pedimos 90 dias para poder reabrir, que encerra no dia 20 de dezembro.