Renata Porto Morais é engenheira ambiental

Perfil
Tubaronense de volta à cidade há meia década, depois de alguns anos no Mato Grosso do Sul, a engenheira ambiental mestre em tecnologias ambientais é representante do Instituto Lixo Zero na área de abrangência do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar. Na organização dos Fóruns Lixo Zero, realizados em Tubarão e Grão-Pará, é enfática quando diz que redução de resíduos significa menos custos. Mudar de comportamento não é uma boa ação com o meio ambiente, mas sim uma forma de sobrevivência. E você, o que tem feito nesse sentido?

 

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – O Fórum Lixo Zero, realizado em Tubarão na última terça-feira e em Grão-Pará na quarta, foi uma excelente oportunidade para falar sobre esse tema tão importante para a sobrevivência. De onde veio a ideia?
Renata – A política lixo zero é internacional. É redução do desperdício, dos resíduos, é tentar reinserir os resíduos nos processos produtivos. Vai desde as donas de casa até as grandes empresas. No fórum de Tubarão, vimos bons exemplos de empreendedorismo, de novos negócios que já vêm dando certo na região usando como matéria-prima os nossos resíduos. Essa política lixo zero existe no Brasil há uns 10, 12 anos, e tem um evento maior, a Semana Lixo Zero, que ocorre no país todo de 20 a 29 de outubro. Em função de ideia de começar a mobilizar as pessoas um pouco antes da semana, pensou-se no que poderíamos fazer para não ter a discussão apenas uma vez por ano. Então, imaginou-se um fórum. Terça, tivemos em Tubarão e em São José, quarta em Grão-Pará, sábado haverá no Rio de Janeiro, no começo de novembro em Curitiba. Queremos sempre levantar a ideia de agenda positiva, para apontar como resolver os problemas. O fórum é uma maneira de manter a discussão o ano todo e destacar algumas questões, como negócios, políticas públicas, eventos.

Notisul – O que dá para tirar de lições e conclusões destes fóruns?
Renata – Minha primeira ida ao fórum foi em Florianópolis. Lá, a discussão já está um pouco mais avançada, há empresas gerando novas ideias, falando de compostagem, de recolhimento de orgânicos e outras políticas públicas. Na capital, foi uma discussão um pouco mais madura do que aqui, mais madura no sentido de não estar tão no brotinho. O nosso foi mais com o conceito de apresentar de fato a política lixo zero. Foi uma grande apresentação, tivemos muito sucesso. Às pessoas e empresas que lá estiveram, que apoiaram, meu agradecimento. O evento teve o apoio da CDL, Clube 29 de Junho, Ferrovia Tereza Cristina, Engmine Bioenergia, Acit, Aequo – Educação para a sustentabilidade, Angeloni, Amurel, Area-TB, Comitê da Bacia do Rio Tubarão e Complexo Lagunar, Empresa Santa Luzia, Encantados Contadores de História, Gtearh9, Ipê Sustentabilidade – Agronomia e Meio Ambiente, Funat, Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCP, Nativos Orgânicos, PMT, Secretaria de desenvolvimento Econômico e Unisul. Lixo zero parece utópico, mas não é tão difícil, basta mudar. Tivemos um grande exemplo do supermercado Angeloni de Florianópolis, onde 95% dos resíduos já são destinados adequadamente. Isso quer dizer que vai para o aterro só aquilo que não tem como aproveitar. É uma coisa bacana que pode servir de exemplo para outras empresas. É preciso se apropriar do conceito. Se deixo de gerar resíduo, deixo de ter custo.

Notisul – Na sua visão, falta informação para a população? Ou vontade?
Renata – É muito cômodo para a maioria das pessoas colocar o lixo na frente de casa, alguém passar para levar para algum lugar e não estar nem aí para como funciona, qual o custo disso. Se ninguém recolher, reclama e pronto. Nas FanPages das fundações de meio ambiente, nas rádios, nos jornais, essa informação está disponível. Se não tiver acesso à internet, as pessoas podem ligar para os órgãos ambientais para se informar. Falta as pessoas começarem a procurar as informações. Se o caminhão passa 7h em determinado lugar e às 9h o caminhão ainda não passou, as pessoas precisam já saber para quem ligar. Uma situação que acontecia muito no verão na época das obras na BR-101 era que os caminhões ficavam na fila e o lixo acumulava. Se a gente tivesse coleta seletiva de fato, segregação, o problema não seria tão grande. Em Tubarão, 16 dos 31 bairros da área urbana e alguns da área rural são atendidos pela coleta seletiva.

Notisul – Falta consciência.
Renata – Falta sensibilização ambiental. Precisa aflorar. Será mesmo que preciso de três sacolinhas plásticas no mercado? Claro, às vezes eu não trouxe a ecobag, mas será que precisa separar a bolacha, do pão e da margarina? Será que não dá pra colocar tudo na mesma sacolinha? Já estou reduzindo lixo só com essa atitude. Não dá também pra querer que mude drasticamente de 20 sacolinhas plásticas para uma ecobag de pano de um dia para o outro.

Notisul – É uma mudança gradativa.
Renata – Sim. Mas precisamos dar o primeiro passo, começar a pensar. Isso que só estamos falando do lixo domiciliar. O ideal é ter um espaço para separar o lixo. Ouvi de uma pessoa no fórum que não daria para compostar em apartamento. Dá sim. Tem composteiras para apartamentos.

Notisul – Pena que a população ainda não se envolve tanto com o assunto.
Renata – Precisamos começar essa mudança de cultura. Tivemos uma participação popular no fórum muito legal. O Plano Nacional dos Resíduos Sólidos fala da gestão compartilhada, que já teve muitos avanços, não é uma legislação tão nova assim, mas está se começando. Temos alguns exemplos. Em Porto Alegre, há alguns meses os carroceiros estão proibidos de passarem no centro para recolher material reciclável, porque o sistema lá já é outro, já tem políticas públicas que cobram, estão alguns passos além. Isso pode gerar redução de custos e aumento de investimentos aos municípios.

Notisul – Na sua avaliação, está havendo uma evolução no sentido de começarmos a ver os resultados?
Renata – Sim. Não adianta só pressionar, tem que envolver todos os setores da sociedade. O fórum é uma agenda positiva para valorizar e dar visibilidade para as boas práticas. Trouxemos apenas duas pessoas de fora. A parte de educação ambiental contou com cinco casos e eu poderia ter colocado 10 ou 15 de Tubarão. Nós temos essas iniciativas e se for pensar regionalmente temos muito mais. Não precisamos trazer alguém lá de Floripa ou de Porto Alegre para falar de educação ambiental quando temos aqui. No último painel, de políticas públicas e desenvolvimento local, tivemos a Amurel apresentando como está essa discussão nos municípios daqui e depois o secretário de desenvolvimento econômico falou sobre o programa Tubarão 180º e a gestão de resíduos. Dei uma olhada no projeto e eles escolheram três macro objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Eles lincaram a questão ambiental de uma forma muito forte. Esses objetivos têm relação com a gestão de resíduos.

Notisul – É um grande avanço.
Renata – Sim, é um link que se abre. Eles vão ter que ser exemplos. E quando falo gestão eu falo de um todo. A Câmara de Vereadores vai ter que ir junto, os empresários, os fornecedores… Vai ter que se começar a criar um ambiente para que tenha valor, não fique só no papel. Lincar meio ambiente com saúde e economia pouca gente consegue, apesar de diretamente relacionados. Um exemplo muito claro disso é o mosquito da dengue. Temos o mosquito porque ele tem lugar para nascer. Na maioria das vezes ele nasce no lixo descartado inadequadamente que recebe a água da chuva. Agora estamos em época de seca, mas o lixo fica lá esperando e na hora que chover pode servir para que mais mosquitinhos nasçam. Eu falo com conhecimento de causa, pois já tive dengue, quando eu morei no Mato Grosso do Sul. A pessoa que teve dengue vai gerar um custo para o posto de saúde. Além de a pessoa ter que comprar remédio, ela vai faltar ao trabalho. Se ela faltar ao trabalho, vai afetar a produção ou o empresário vai ter que pagar hora extra para outra pessoa para cobrir. Isso pode encarecer o produto e diminuir o lucro.

Notisul – É uma cadeia né.
Renata – Tudo é ciclo. Às vezes, a impressão que se tem é que as pessoas esquecem porque têm o ar, porque ele está disponível. Falta nos inserirmos no meio. Não é “eu vou salvar o meio ambiente”. Não! Nós somos parte disso e estamos salvando as nossas vidas. É tão lógico, é simples. A vida depende de água, ar e alimento. E estamos poluindo aquilo que precisamos. O fórum e a Semana Lixo Zero trazem não só essa discussão de valorizar a vida, como também a questão econômica, os novos negócios. O nosso modo de vida em sociedade hoje nos obriga a ter dinheiro para comer, para morar… Então não adianta falar “não faça mais porque você está poluindo”. Tem que dar alternativas. Como é a ideia do fórum, de não apontar sem levantar as soluções. Muitas pessoas já me criticaram por considerar que engenheiro ambiental é aquele que abraça a árvore. Sim, eu abraço as árvores, é bom. Mas tem também todo um conceito de engenharia, inovação, empreendedorismo, de conhecer e conseguir lincar tudo isso e tentar transformar em investimentos, reduzir o prejuízo.

Notisul – No fórum, um dos palestrantes comentou sobre o lixo de estabelecimentos comerciais, especialmente os que trabalham com alimentos, que deveria ter recolhimento diferenciado.
Renata – É uma gestão compartilhada. Falando de Brasil, principalmente quem tem certificações ambientais ou tem que atender alguma norma sabe que não pode arrastar o saco de lixo até a lixeira mais perto. Ele sabe que tem que contratar alguém, geralmente empresas de compostagem, que vêm e coletam. A lei diz que todos têm que fazer, mas as que têm algum tipo de certificação é que de fato estão fazendo. Eles pegam esses resíduos orgânicos e transformam em adubo para vender. Como sabe tem que pagar, ele vai reduzir o desperdício, porque quanto menor o volume menos ele vai gastar. Estamos gerando muitos resíduos e a população está aumentando. No Brasil, a taxa de desperdício de alimentos é muito alta, quase 20%. Estamos gerando lixo e pagando por ele mais uma vez. Nossa coleta seletiva existe, mas precisa de mais participação da população.

Notisul – Que atitudes as pessoas podem ter em casa para começar a se envolver mais com esse assunto?
Renata – O começo pode ser verificar se passa a coleta seletiva em sua rua. Se não passa, por quê? As pessoas podem se perguntar também se não dá de comprar de uma forma que gere menos resíduo. Será que não dá para separar? Temos que parar para pensar “por que não estou fazendo isso?”. Tem condomínios em Florianópolis com locais reservados para que os moradores segreguem. Alguns doam para associações, outros vendem. Eles estão atendendo a legislação, dando valor ao condomínio, pois vai ser um diferencial daquele prédio, e dando o destino adequado. A ‘fórmula’ é começar a pensar e se planejar.