José Eduardo Delfino, o Deco, é presidente do Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mocidade Acadêmica de Fábio Silva e da Liga das Escolas de Samba de Tubarão (Liest). O comerciante da comunidade do Fábio Silva faz o Carnaval de Tubarão há ‘só’ 40 anos. Mas o foco dele hoje é os últimos cinco anos da histórica momesca da Cidade Azul. “Vi Momo subir o Morro do canudo, há 40 anos, e descer a ladeira por 25 anos. Agora, já subimos metade do Morro do Canudo novamente. No próximo ano, voltamos ao topo”, valoriza o sambista e pai de família. De opinião firme e própria, Deco antecipa que a Liest conseguiu um pouco mais de verba para a festa deste ano, mas a partir de 2012 ele pretende ir buscar o que as ligas oficiais têm direito. “Temos reconhecimento e credenciamento porque somos hoje referência em prestação de contas. As portas começam a se abrir”, vibra.

Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Quanto tempo você está envolvido no Carnaval de Tubarão?
Deco –
Ah, é mais (gargalhadas). Estou com 52…

Notisul – Ah, então não pode ser tanto tempo assim!
Deco –
Eu comecei a sair em escola de samba com 12 anos, em 1972, na Vila Moema. Faz só 40 anos (risos).

Notisul – Tempinho curto… (risos). Um baluarte do Carnaval!
Deco –
Não. Só quem tem 41 anos para cima é baluarte (risos).

Notisul – As pessoas mais idosas da cidade contam que Tubarão tinha uma tradição carnavalesca ainda maior do que Laguna no passado. O que houve?
Deco –
E tinha mesmo. Fizemos um levantamento histórico, está tudo lá na Casa do Samba, a sede da liga. Quando comecei, em 1972, o negócio era um espetáculo mesmo. Aí teve a enchente em 74. Nem preciso continuar né? Quando retornou, já foi capenga e dali só foi Morro do Canudo abaixo.

Notisul – Como vocês conseguiram retomar a festa e Momo aqui?
Deco –
Não foi fácil porque existe aí um espaço de tempo enorme, cerca de 25 anos. Conseguimos reviver porque adotamos o mesmo molde da festa do passado: um evento familiar. Reativamos a liga definitivamente em 2006 e sempre com o propósito de ser uma festa organizada, segura. Deu certo. O tubaronense ainda voltará a ter orgulho do Carnaval de sua cidade. Disto tenho certeza. Nem que seja na época em que eu me torne mesmo um baluarte (risos).

Notisul – Realmente, há muito elogios na questão organização e segurança. Obviamente, a meta é ampliar. Qual o planejamento?
Deco –
Vixi, são tantos! Acredito que em 2006 aramos a terra, depois plantamos a semente e neste ano a mudinha já está ali. Agora é regar e cortar a erva daninha. Após cinco anos de luta, tiramos o pezinho da lama e subimos o primeiro degrau. Conseguimos um reconhecimento inédito do governo do estado, o que facilitará a captação de verba e a verdadeira retomada do Carnaval de Tubarão: agora integramos, oficialmente, o circuito de Momo em Santa Catarina. No estado, existem somente três ligas carnavalescas organizadas, com documentação em dia: Florianópolis, Joaçaba e, agora, Tubarão. Outras cidades têm ligas, mas não são reconhecidas. Só esta notícia já valeu o perrengue destes últimos cinco anos. Considero que o nosso grande ano da retomada será 2012.

Notisul – Mas tantas outras recebem verba!
Deco –
Sim, a maioria. Mas hoje, em Santa Catarina, existem somente estas três ligas oficialmente. Aqui, por exemplo, mantemos durante o ano a Escola de Aprendizes de Ritmistas. Ensino a molecada a tocar instrumentos. A própria sede foi um passo importante para termos este reconhecimento. O espaço foi cedido pelo prefeito Manoel Bertoncini. Não fosse ele, hoje não teríamos nada.

Notisul – Então isto quer dizer que teremos mais verba para fazer uma festa melhor?
Deco –
Em tese. A promessa de que receberemos R$ 200 mil do governo do estado. Mas o canetaço é deles. Hoje, seja qual for o governo, o relacionamento está ótimo. Temos esta perspectiva e vamos atrás do que é nosso. Acredito que, a partir do próximo ano, com este reconhecimento, teremos equiparação da verba. Além disso, hoje, além de ser uma das únicas três ligas oficiais do estado, somos referência em prestação de contas. Isso me deixa orgulhoso, especialmente porque sei que muitos dizem que a gente está ali para embolsar dinheiro.

Notisul – É verdade, muitos acham que o dinheiro que o governo dá para o Carnaval deveria ser investido em educação, segurança…
Deco –
E eu não discordo totalmente. Assim: existe uma verba cultural, e esta sim pode tranquilamente ser enviada para festas como o Carnaval. Agora, tirar uma escola, realmente não é certo. Dois lados. Uma das nossas metas é promover ações para não depender do poder público para tudo. É o mais correto mesmo. Temos que ser realistas. Hoje, a liga não tem recurso nenhum. Só despesa.

Notisul – Hoje, são quantas escolas de samba em Tubarão?
Deco –
São seis. Mas há apenas três filiadas à liga e com documentação em dia: a Dakota, que é ali da rua São Geraldo, a famosa rua da Farofa, no bairro Oficinas; a Protegidos do Samba, do Morro do Caeté; e a Mocidade Acadêmica, de Fábio Silva. E são estas três que concorrerão este ano.

Notisul – Como será a festa deste ano?
Deco –
Mais enxuta no comparativo com a do ano passado. Não faremos o baile público, somente o desfile no domingo de Carnaval (próximo dia 6), às 20 horas. A arquibancada será coberta para o público. Ano passado, choveu e todos ficaram que nem pintos molhados, menos as autoridades. Deu até vergonha. Justamente quem nos aplaudiu ficou embaixo da chuva. Os camarotes ficaram maiores, haverá mais banheiros e o cercamento da avenida será maior e melhor.

Notisul – Por que não haverá o baile público?
Deco –
Por conta da guerra do tráfico que está instalada na nossa região. Não há como garantir a segurança do público. Construímos a festa de Tubarão com foco na família e queremos que continue assim. É uma questão de prevenção. Cinco anos de sucesso e segurança não pode ir por água abaixo por conta disso. Se tivéssemos uma arena fechada, até poderíamos repensar. Em um ambiente aberto, isto fica impossível. Não podemos contar com a sorte.

Notisul – E a prefeitura?
Deco –
Ah, sempre a parceira número um. O prefeito Manoel Bertoncini já garantiu que nos dará parte da estrutura, como no ano passado.

Notisul – Vocês não pretendem investir na construção de um sambódromo?
Deco –
Sim. Até porque poderemos alugar o espaço e fazer caixa para o Carnaval e para manter a liga. Assim, não ficamos só na dependência de verba pública, o que, sinceramente, como já disse, não é o que queremos. Hoje, ocorrem eventos na Casa do Samba, mas não cobramos nada. Agora já deveremos instituir uma taxa de uso, até porque há despesas, como energia elétrica, por exemplo.