Gabriela Silva nasceu como Gesualdo Silva. Em Tubarão, onde nasceu e vive, é reconhecida em especial pelo trabalho que desenvolve em favor da comunidade GLBTT. Aos 50 anos, graduada em letras e mestre em educação, acredita que a escola é o melhor caminho para acabar com o preconceito e o pré-conceito em todos os aspectos da sociedade. A pesquisa feita por ela para seu mestrado confirmou, entre outros pontos, que os professores da rede municipal de ensino não sabem lidar com situações de preconceito, seja associado ao sexismo, à homossexualidade, à raça, à religião ou qualquer outro aspecto social. “Todos focam na homossexualidade como se diversidade fosse apenas isso. O debate é muito mais amplo e, infelizmente, a sociedade tubaronense ainda não está preparada para isso”, lamenta.

Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Que confusão ocorreu na câmara de vereadores?
Gabriela – Na verdade, foi uma confusão de ideias. Foram mostradas fotos da Parada LGBTT deste ano, ocorrida recentemente em São Paulo, e inclusive outras imagens que nem ocorreram no Brasil, mas foram mostradas como se tivessem sido feitas no evento paulistano, e dito que o Plano Municipal de Educação, no que aporta a diversidade, ensinará sexo na escola e deixará o caminho livre para as crianças escolherem se são homens, mulheres ou ‘outra coisa’. Somente por este triste e lamentável episódio, podemos ver o quão fechada é nossa sociedade para debater a sexualidade. Veja bem, falei sexualidade, não sexo. Isso também é confundido. Em contrapartida, ninguém comenta da passeata ocorrida antes da Parada LGBTT, feita por evangélicos, que foram apoiar a diversidade. Todo mundo esqueceu das cenas grotescas de pastores quebrando e urinando em imagens sacras. 

Notisul – Você refere-se ao episódio da modelo crucificada?
Gabriela –
Inclusive. A transexual Viviany Beleboni apenas mostrou o que nós, travestis, transexuais, homossexuais, sofremos todos os dias. É um martírio mesmo. A sociedade, no geral, é muito preconceituosa e discriminatória. Ela fez certo ou errado? Não cabe a mim e a ninguém julgar. Mas é evidente que o episódio serviu para deturpar o trabalho de pessoas e entidades em prol das causas LGBTT. Em Tubarão, alguns vereadores que se dizem cristãos têm, na verdade, um discurso preconceituoso e lutam pela exclusão de algumas pessoas da sociedade. É até contraditório, porque o cristianismo prega justamente a igualdade e o amor entre as pessoas. É interessante analisar isso. Em especial porque o tema gênero, que estava no Plano Municipal de Educação, suscitou este debate.

Notisul – Qual o propósito do Plano Municipal de Educação? A polêmica foi tamanha que o sentido da lei passou despercebido.
Gabriela –
É verdade. Este é o segundo Plano Municipal de Educação de Tubarão. Apesar de toda esta polêmica, considero que a gestora da secretaria de educação da prefeitura foi bastante ousada em convidar a sociedade para discutir esta diretriz. Avalio que a sociedade, e agora falo de forma genérica, descobriu que na sua cidade existe escola e a educação da cidade é gerida por um plano. Apesar de tudo, agora a maioria dos pais sabe que existe uma lei, um instrumento que regula a história e que aquela instituição que vai educar seu filho não o faz conforme a cabeça do prefeito, do diretor ou do professor, mas é reflexo da própria sociedade que esta família está inserida.

Notisul – O que existe no Plano Municipal de Educação que gerou tanta polêmica?
Gabriela –
O plano possui 20 metas e uma delas trata da sexualidade e da diversidade na escola. Esta discussão é em nível nacional e em todas as cidades que iniciaram o debate a maior discussão foi justamente no que diz respeito ao gênero. No fim das contas, a escola saiu, ou sairá, perdendo porque outras metas importantes, como a qualidade do ensino e a valorização do professores, por exemplo, nem chegaram a ser faladas. 

Notisul – Mas este item chegou ma ser modificado?
Gabriela –
Em Tubarão, após muito debate e para não polemizar mais do que já ocorreu nos últimos dias, decidiu-se por excluir a meta ‘sexualidade e diversidade’ e deixar apenas ‘discriminação e preconceito’. É uma pena, porque o professor continuará sem saber o que fazer quando um aluno passar por uma situação desconfortável por ter um jeito diferente ou se vestir diferente, por exemplo. Quem perde é a geração futura, porque o próximo Plano Municipal de Educação será discutido apenas em 2024.

Notisul – Além do gênero, o que mais foi retirado?
Gabriela –
Gênero, orientação sexual e tudo que esteja ligado às questões étnicas e raciais, pois foi considerado que ensinar isso na escola privilegia uma minoria, e privilegiar uma minoria não fomenta a igualdade. Discordo  completamente, até porque 51% da população brasileira é negra, conforme o IBGE. Na verdade, querem empurrar a ideia de que debater em sala de aula o tema discriminação e preconceito vai solucionar todos os problemas do sujeito. Quando se tira a palavra ‘gênero’, também se faz calar a luta antiga das mulheres, dos pobres e dos negros por igualdade de oportunidades e direitos. Isso, para mim, é discriminatório, racista, sexista. Além de ser uma contradição, porque todas as comunidades escolares de Tubarão, refiro-me ao ensino público, o qual pesquisei, estão dentro da realidade da diversidade, com famílias com dois pais e duas mães. 

Notisul – Em resumo: toda a polêmica está na questão do gênero, especificamente.
Gabriela –
Diria que sim. Na verdade, a ala mais conservadora da sociedade disseminou uma ideia de que o Plano Municipal de Educação cria uma ideologia de gênero, o que é absolutamente absurdo. Eles alegam que existe o gênero feminino, masculino e que se o plano for aprovado existiria um terceiro, que nem sei qual é. Além disso, também alegam que isso poderia ser o fim da família nuclear. Outro absurdo. A família está se desfazendo por outros motivos e não porque existem pessoas gays. Basta acompanhar o IBGE. Hoje, o lar é mantido pela mulher, que teve que ir trabalhar fora para sustentar seus filhos. O fim da família é o reflexo da estrutura capitalista, e não porque existem homossexuais.

Notisul – Qual o resultado da sua pesquisa para o mestrado nas escolas públicas da rede municipal de Tubarão?
Gabriela –
O primeiro ponto é que ninguém conhecia, entre professores e gestores, a discussão de gênero e sexualidade na escola, mas gostariam de aprender sobre o assunto. Minha pesquisa abordou as oito instituições municipais que possuem o ensino fundamental 1 (do primeiro ao quinto ano), porque é nesta fase que começam a existir a divisão entre meninos e meninas. Concluí que os professores precisam lidar com a diversidade, e isso inclui gênero, raça, religião, violência, sexismo. E veja, são crianças. Mas já influenciadas pelo preconceito. 

Notisul – Você pode citar exemplos?
Gabriela –
Existem casos comuns em todas as escolas. Mas existe um caso específico, relatado por um diretora, de um menino que estuda em uma escola que fica em uma comunidade mais conflituosa, se é que posso colocar desta forma. Ele é muito educado, tem valores de família e é estudioso. Os outros meninos não querem andar com ele porque ele é ‘viadinho’. E não tem nada a ver com opção sexual. A maioria exclui porque ele é diferente. A maioria o rotula porque ele é diferente. E estamos falando de crianças. Aí como não querem discutir a diversidade e a sexualidade na escola? O mais preocupante é que estas crianças têm estes modelos de pré-conceitos, de que homem é machão e mulher lava louça, formados em casa.

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