Rafael Andrade
Tubarão

Notisul – Qual a diferença das aulas de educação física de hoje e as de alguns anos atrás?
Vicente
– Antigamente, havia mais incentivo público e privado, mais didática e vontade dos professores. Hoje, sem generalizar, a maioria dos professores não dá muita ênfase à prática esportiva. O educador não cria, não motiva a criança, não inova. Ou ele tem problemas na escola, ou não tem interesse, ou nota que a quadra esportiva é de péssimo estado ou inacabada, ou não há incentivo do próprio diretor(a). Ano passado, convidamos 35 colégios de Tubarão e realizamos uma competição de atletismo com apenas sete escolas participantes. Perdeu-se a vontade de praticar esportes. É lamentável. Precisamos resgatar a educação perfeita. Hoje, do jeito que está, tira o cavalo da chuva que não haverá produção de nada. Não há um órgão gestor público ligado diretamente à área esportiva, como antigamente. O professor de educação física está sem pai e sem mãe. É uma desgraça. Em muitas escolas, é melhor não ter educação física do que ministrar aulas em quadras rachadas e com bolas murchas.

Notisul – O que é educação física?
Vicente
– É dar aula para uma turma uniformizada, preparar, alongar, prever, planejar, ter flexibilidade, agilidade, preparar o corpo e a mente. Depois, dar um prêmio para a criança, incentivar. Noto os nossos jovens no desfile de 7 de setembro na avenida. Eles não têm postura, os ombros estão inclinados para frente. Isto é falta de preparação através de aulas corretas de educação física.

Notisul – Na área esportiva, porque se investe mais em Cuba, que tem 11,2 milhões de habitantes, do que no Brasil, que tem 200 milhões? Por que eles sempre ganham de nós nas Olimpíadas?
Vicente
– Em todos os países onde impera uma ditadura ou um poder socialista há um investimento mais aprofundado nesta área. É uma imposição do governo. Apesar dos técnicos, preparadores e educadores físicos não serem bem pagos, há uma cobrança para que, de cada mil crianças, 200 sejam preparadas intensivamente no esporte. Varia de quatro a oito horas por dia de treinamentos. Muitas vezes, tirando a liberdade delas para fazer outras coisas. Isto já é cultura dos cubanos, como está sendo dos venezuelanos, foi da antiga União Soviética, é dos chineses e dos colombianos. É preciso investimento na área esportiva, mas de forma ordeira e que não ultrapasse o limite do corpo.

Notisul – Os atletas de Tubarão estão bem preparados para competir na Olimpíada Estudantil de Santa Catarina (Olesc), que, na teoria, será aqui neste ano, depois de ter sido cancelada ano passado em virtude do surto da Gripe A?
Vicente
– Atualmente, trabalho na supervisão das escolinhas esportivas de Tubarão. Não percebo nenhuma preparação específica dos esportes coletivos. Faltam aproximadamente 90 dias para os jogos e não espero nenhum resultado satisfatório para as equipes da cidade, a não ser nos esportes individuais, como xadrez, o karatê, natação, tiro e ciclismo, que podem surpreender na conquista de medalhas. No coletivo, talvez o handebol, e olhe lá. Isto se é que vai ter Olesc em Tubarão. Não há ainda uma resposta definitiva do governo estadual.

Notisul – A prefeitura e os empresários de Tubarão investem no esporte?
Vicente
– Não. Nada. A prefeitura sozinha não tem condições de manter o esporte. A criança que é atleta está bem orientada e não terá problemas no futuro. O esporte, a arte e a cultura mudam a vida das pessoas. Existem leis que proíbem a criança de trabalhar, mas não existe nada que incentive ou mantenha a criança ocupada após o horário escolar. À tarde, por exemplo, temos 15 mil crianças e jovens que estão vagando pelas ruas ou assistindo sessão da tarde sem produzir ou ocupar a cabeça, ou preparar o corpo. Não há uma integralidade no horário infantil. Os nossos jovens cumprem as quatro horas de aula, ‘loucos’ para voltar para casa e ficar sem fazer nada. É lamentável. Hoje, não há nenhuma escola, principalmente pública, que ofereça aulas extras em outros períodos, o extra-classe.

Notisul – Antigamente, as disputas intersséries reuniram milhares de alunos. Isto acabou?
Vicente
– Sim, infelizmente. É preciso integrar as turmas escolares novamente. O Ginásio Salgadão, por exemplo, recebia de duas a três mil crianças há dez, 20 anos, para disputar as modalidades coletivas. O esporte é a massa com que você molda o comportamento, a ordem e o respeito para uma sociedade futura. Cadê essa integração? É preciso aproximar os nossos jovens e ocupá-los com práticas saudáveis. Tenho esperança de resgatar as intersséries e os encontrões entre escolas.

Notisul – Como foi o seu início no esporte e na educação?
Vicente
– Comecei a trabalhar cedo, na roça. Vim de um berço pobre. Ia para a escola a pé. Caminhava por três quilômetros descalço. Tornei-me um educador fisco e tenho orgulho disso. O esporte me fez um homem disciplinado, me educou. Hoje, compreendo muito bem a juventude. Sempre vou lutar por um sistema mais digno aos nossos jovens, pois são o futuro deste país.

Notisul – Qual é o futuro do esporte na região?
Vicente
– Tem que reestruturar todas as praças esportivas das escolas. É lá que começa o nosso esporte. Tudo que é investido no esporte fora da escola é lucro futuro. A arte, a cultura, aliadas às práticas esportivas, ocupando o horário dos jovens, formam um cidadão ordeiro. Se não há este incentivo, os nossos adolescentes irão beber, fumar, praticar sexo precoce, acabar em drogas pesadas e até mesmo tornarem-se infratores. Precisamos investir enquanto crianças. Não adianta investirmos em bandido no futuro.