Foto:Priscila Loch/Notisul
Foto:Priscila Loch/Notisul

Tudo indica que o prefeito eleito de Imbituba Rosenvaldo Júnior (PT) não terá problemas para acessar todas as informações necessárias para iniciar o seu mandato, em janeiro de 2017. Além da transição amigável e tranquila, a atual gestão deve deixar as contas em dia, e isso é um grande diferencial em tempos de crise, quando a maioria dos municípios está com a ‘corda no pescoço’.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Você tem dimensão da atual situação de Imbituba hoje?
Rosenvaldo –
Temos uma noção de como está a situação econômica da cidade e da prefeitura. Durante a campanha, tivemos contato com pessoas de dentro da prefeitura para levantamento de dados, de receitas, de custos. O atual prefeito, Jaison Cardoso, já se reuniu conosco e com a sua equipe. Vivemos um momento bastante maduro na política municipal e o Jaison tem se colocado dessa forma, bastante aberto, abriu a prefeitura para a gente. Estamos montando oficialmente uma equipe de transição. Temos tido bastante contato com a realidade financeira e acredito que vamos poder começar o mandato sem uma quebra de continuidade, já sabendo dos problemas que estão nos esperando.

Notisul – São muitos os problemas?
Rosenvaldo –
Na verdade, acho que temos muito a investir na cidade, muitas coisas a serem realizadas, mas do ponto de vista atual podemos dizer que a gestão vai deixar as contas em dia. Isso é uma grande vantagem em relação a outros municípios que vivem uma dificuldade para fechar as suas contas. O prefeito Jaison, pelo que tem nos colocado, vai conseguir entregar a prefeitura com as contas fechadas, sem grande poder de investimento e claro que essa crise que assola o país afetou Imbituba também, afetou a arrecadação e se perdeu muito poder de investimento. E, para podermos cumprir aquilo que pregamos em campanha, fazer as obras que a população tanto precisa e tanto cobra, vamos ter que melhorar a arrecadação, diminuir custos, reduzir o tamanho da máquina. É um trabalho que vamos ter que fazer a partir de agora. Mas pelo menos o 13° vai estar pago, vai estar tudo certinho, tudo em dia.

Notisul – Que problemas terão que ser resolvidos já nos primeiros dias de mandato?
Rosenvaldo –
Algumas questões já estão sendo alinhavadas com a atual gestão. Coisas que não podem parar. Por exemplo, na área da educação, tem a colônia de férias nas creches, para as crianças que os pais trabalham no verão. Temos uma demanda grande de postos de trabalho por causa do turismo, precisamos manter abertos hotéis e pousadas. Já temos que definir agora para em janeiro não ter esse problema de continuidade. Tem a questão do hospital, a qual temos que manter o repasse, tem que manter medicações. Muitos dos convênios e licitações de materiais que vamos precisar no início do ano estamos conversando para em janeiro não ter falta, como medicação, combustível para os carros da prefeitura. Esses são os primeiros passos que precisamos dar agora. Temos também a Festa Nacional do Camarão, que tradicionalmente é feita nos meses de janeiro ou fevereiro. Estamos conversando para ver se mantemos nessa data ou postergamos um pouco. Se for mantida a data, provavelmente vai ter que ser feita essa organização antes mesmo de assumirmos.

Notisul – A transição tem ocorrido com tranquilidade? Que informações foram solicitadas à atual gestão?
Rosenvaldo –
Está bastante tranquila, conversei com Jaison algumas vezes já e marcamos uma agenda de transição, já montamos uma equipe. A nossa equipe tem o nosso secretário de finanças conosco. Os primeiros documentos que solicitamos são justamente sobre a questão orçamentária da prefeitura, para ficarmos a par do tamanho de orçamento que teremos a partir de 2017. Tem várias obras que estão em fase de conclusão ou estão paralisadas por causa de atrasos de repasses estaduais e federais. Isso também está entre os problemas que vamos tentar resolver já de início. O Jaison está bastante empenhado nisso, quer terminar as obras que começou. Inclusive, foi a Brasília, já tentando resolver esses atrasos para ver se consegue terminar as obras e entregar com esse problema a menos. Apesar de termos sido uma candidatura de oposição à atual administração, que já está há 12 anos – o Jaison foi sucessor do Beto Martins -, sempre tivemos uma relação respeitosa, diálogo bastante aberto e até de cordialidade. Isso facilita bastante e, como já disse, uma política madura é boa para o município, porque quando o prefeito dificulta as informações para quem está entrando ele está dificultando o trabalho para a comunidade.

Notisul – No que você credita a vitória nas urnas, sendo que a chapa de oposição tinha muito mais partidos coligados e nomes já bastante conhecidos do eleitor?
Rosenvaldo –
Por mais paradoxal que seja, talvez tenha sido isso, o fato de eles terem juntado uma gama muito grande de partidos historicamente adversários. Num momento em que nacionalmente as pessoas pregam por mudanças. Então, acho que isso deixou muito o eleitor imbitubense com dúvida de qual o real motivo dessa junção. O atual prefeito vem seguindo uma sequência de três mandatos do PSDB em Imbituba e, com toda essa onda de mudança que vivemos no país – poucos foram os prefeitos reeleitos -, talvez essa coligação tenha tido esse efeito contrário, das pessoas votarem na mudança, na renovação. Por outro lado, nunca tive mandato, é o meu primeiro. Sou um profissional da área da saúde, sou médico cardiologista, e não represento o político tradicional. Talvez a minha imagem de profissional que não é político tenha ajudado nesse sentimento de mudança, de tentar uma administração que seja diferente, que olhe menos pela veia política e mais pela veia administrativa, técnica, que é o que pregamos na campanha.

Notisul – Justamente por essa onda de mudança, não tivesse medo de que a situação do PT em nível nacional interferisse negativamente no resultado municipal?
Rosenvaldo –
Claro que sim, e vamos dizer até que atrapalhou na nossa campanha. Muitas vezes, tivemos esse questionamento ao longo da campanha, em debates, do adversário e do próprio eleitor. O que mostramos na campanha é que, acima dos partidos, estão as pessoas e quem vai administrar não é o partido, é uma pessoa, é o Rosenvaldo Júnior, junto com o vice Zaga. Foi isso que tentei mostrar, que sou um cara honesto, trabalhador, não tenho dívida nenhuma com a justiça. Foi nisso que as pessoas acreditaram e esse trabalho vamos manter durante os próximos quatro anos para que as pessoas depois possam acreditar que pode ser diferente mesmo sendo do PT.

Notisul – O que podemos esperar do seu mandato?
Rosenvaldo –
Tenho dito para as pessoas que podem esperar muito trabalho, muita dedicação da minha parte, uma administração absolutamente transparente, com o máximo cuidado e zelo ao dinheiro público, que é dinheiro nosso. Vamos economizar naquilo que pode ser economizado, enxugar a máquina e, como eu disse, para podermos ter investimento. Sabemos que temos que investir em saúde, em educação, e todos os prefeitos sabem que o que a população cobra é uma saúde melhor, melhor atendimento nos postos e hospital, educação de qualidade. Mas só vamos conseguir isso se tivermos recursos para investir. Se não cuidarmos bem da área administrativa, para fazer com que os recursos sejam investidos realmente naquilo que precisa, não conseguiremos cumprir os nossos compromissos de campanha. Então, pode-se esperar de mim bastante trabalho, bastante honestidade, bastante cuidado no trato com o dinheiro e bastante profissionalismo. 

Notisul – O fato de você ser médico pode contribuir para melhorias na saúde. Tem até uma certa pressão dos eleitores. Que investimentos são possíveis e necessários?
Rosenvaldo –
Com certeza, o fato de eu ser médico traz uma responsabilidade muito maior para mim nessa área, talvez a área mais crítica nas administrações municipais. Sabemos que não vai ser possível resolver o problema da saúde em quatro anos e, se nada mudar, nem em oito, nem em 20 anos. Temos que melhorar bastante, as pessoas acreditaram e muitos votos que tivemos foi para melhorar a saúde. Vamos ter que investir bastante nessa área, temos muito a melhorar em Imbituba em duas questões: a nossa saúde básica, os nossos postos de saúde, em que o médico está pouco presente. Temos que valorizar a categoria, conversar com os profissionais da saúde para que possamos fazer com que os postos tenham atendimento melhor. E para isso precisa de investimento, pois precisamos pagar melhor o médico para ele poder estar no posto; e precisamos investir no nosso hospital, o São Camilo, que faz o atendimento de Imbituba e da região, para melhorar a qualidade de atendimento na emergência e para os pacientes internados. É uma proposta de campanha nossa a luta de desenvolver no nosso município uma UTI. Hoje, dependemos de Tubarão e todos sabem o quão difícil, quão superlotada está. Está cada vez mais difícil para nós, a tendência é que cada vez consigamos menos encaminhar os nossos pacientes para Tubarão. Já estivemos inclusive em contato com o vice-governador, Eduardo Moreira, que é da nossa região e vai assumir provavelmente em breve o governo do estado, e ele se colocou bastante disposto a ajudar e a investir para podermos dentro do nosso mandato efetivar a UTI em imbituba. 

Notisul – Você iniciou as conversas com lideranças, incluindo deputados e o vice-governador, com o objetivo de já encaminhar pedidos por recursos para o próximo ano. Alguma boa notícia nesse sentido?
Rosenvaldo –
Até o último dia 20, podíamos solicitar verbas para os municípios por meio de emendas parlamentares. Já temos verbas garantidas dos deputados Décio Lima, Pedro Uczai, do meu partido. O Zaga, meu vice, também fez contato com o Mauro Mariani, Ronaldo Benedet e outros deputados federais do PMDB para garantir verbas para investir na infraestrutura da cidade. Tem bastante coisa encaminhada e vamos entrar em 2017 já com bastante recurso para investir em obras de creches, postos de saúde, estradas e vamos conseguir já iniciar algumas obras.

Notisul – De mãos limpas por Imbituba foi o slogan principal de sua campanha. O que isso vai significar na prática?
Rosenvaldo –
Na prática, isso significa, como disse antes, maior cuidado com os gastos públicos. Esse slogan fez parte da nossa campanha pelo fato de eu e o Zaga não termos passado político e não termos nenhuma mácula junto à justiça. Não temos processos na justiça e estamos absolutamente livres de qualquer questionamento jurídico, com relação a corrupção. Assim queremos levar nossa administração. Não há secretários anunciados, a não ser o secretário da fazenda, Jari Dalbosco, ex-comandante da Polícia Militar, que foi o primeiro presidente e fundados do Observatório Social de Imbituba. Fui recentemente a uma reunião com o Observatório e fizemos o convite, justamente para mostrar esse nosso interesse e desejo de mostrar nosso cuidado com o gasto público. Ele já está participando do processo de transição.

Notisul – Em seu plano de governo, foi proposto cobrir 30% do município com saneamento durante os quatro anos de mandato. Como é possível tirar esse projeto do papel?
Rosenvaldo –
Essa é uma outra questão que temos que resolver já de início, a gestão da água e o saneamento em Imbituba. Há alguns anos, o prefeito decidiu romper o contrato com a Casan e municipalizou a gestão da água, acabou terceirizando e hoje é uma outra empresa. Mas nesse período não houve nenhum investimento em saneamento. O contrato é emergencial, que não previa isso, só que previa que esse dinheiro pago pelo contribuinte fosse para um fundo municipal de saneamento, para que o município pudesse investir. Mas hoje não tem dinheiro algum nesse fundo. Temos que rever isso. Como está hoje não vamos conseguir cumprir essa meta de 30% de saneamento. Estamos pensando em outras alternativas. Tem processo de concessão que previa 30 anos, mas foi embargado ou está em vista no Tribunal de Contas do Estado. Temos que ver se vamos retomar isso ou vamos retomar com a Casan. Inclusive, já estivemos na Casan, conversando com o presidente. A companhia está interessada em voltar para Imbituba e, se isso ocorrer, há a previsão de investimento de R$ 60 milhões em saneamento. Esse dinheiro praticamente já cumpriria nossa meta. Buscamos meios para ter recursos para este investimento. 

Notisul – Na educação, de que forma se pode melhorar o atendimento?
Rosenvaldo –
Imbituba até evoluiu bastante nos últimos anos. O Ideb é prova disso, tivemos bons resultados, com escolas que já atingiram a meta de 2024. Mas claro que sempre temos a melhorar. Precisamos muito democratizar o nosso ensino, fazer com que a classe educadora e a própria comunidade escolar possam nos ajudar a gerir a educação. Por exemplo, com eleição para diretor de escola. Existe muita influência política nessa escolha e isso mais atrapalha do que ajuda. Quem é da comunidade escolar sabe quem é o melhor gestor. Temos que democratizar a escolha de material didático, hoje é uma empresa que repassa e isso tem um custo de R$ 1 milhão ao ano para os cofres públicos. Sabemos que tem material do MEC disponível. Queremos discutir essa escolha com os professores, ver se eles estão satisfeitos com o material didático, se vale a pena esse investimento. Existe uma queixa grande dos nossos professores com relação ao seu ganho salarial. Hoje, muitos só recebem o piso nacional dos professores graças a abonos e penduricalhos na folha de pagamento, para poder atingir esse valor, só que aí quando ele está de férias ou se aposenta perde isso e vai refletir no futuro. Temos o compromisso com os professores de rever o Plano de Cargos e Salários para podermos atingir nesses quatro anos o valor real do piso. 

Notisul – A própria Lei de Responsabilidade Fiscal atrapalha de certa forma, pois prevê um limite com gasto da folha.
Rosenvaldo –
Em Imbituba, esse gasto está em torno de 46% da receita corrente líquida e não estamos no limite ainda, mas também não tem muito fôlego. É claro que sabemos da necessidade de enxugar a folha, diminuir número de cargos comissionados. De início, pretendemos diminuir pelo menos 20% dos cargos comissionados e gratificados. É uma avaliação inicial e pode ser até que ultrapassemos um pouco isso.

Notisul – Nessa proposta de enxugamento, deve haver fusão de secretarias?
Rosenvaldo –
Temos a intenção de diminuir o número de secretarias e superintendências, de remanejar algumas. Posteriormente, nossa ideia é criar a Fundação Municipal de cultura, que pode captar recursos externos. Mas tudo isso depende da avaliação do orçamento para cada área.

Notisul – Imbituba, por ser uma cidade portuária, tem tráfego pesado e a mobilidade é um tanto afetada. O seu plano também prevê investimentos nessa área, inclusive com implantação de ciclovias…
Rosenvaldo –
Imbituba hoje já está com o acesso norte sendo pavimentado, está sendo concretado. Estava péssimo. Já devo iniciar o governo com esse acesso resolvido. Uma questão a ser resolvida é a ciclovia no acesso sul, que está inacabada, após mais de um ano de obras. Jaison disse que está empenhado em resolver isso. Nossa ideia é que possamos no centro da cidade, nos pontos turísticos, desenvolver uma ciclofaixa, que possa também ser um atrativo turístico. Temos que pensar de acordo com o tamanho do orçamento e das emendas parlamentares.