O tubaronense Pedro Lemos, 65 anos, é engenheiro civil, com formação na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), em Florianópolis. Possui 40 anos de atuação na área, com uma trajetória de cargos de alto nível em empresas públicas e privadas de Santa Catarina. Em seu currículo, constam inúmeras participações em cursos e palestras de vários segmentos da engenharia, com profissionais renomados em nível nacional. Também gerenciou obras de grande porte no estado. Hoje, é diretor técnico e sócio da empresa Petrus Consultoria e Projetos, na Cidade Azul. É professor no curso de engenharia civil da Unisul, em Tubarão. Ele é casado, tem duas filhas e duas netas.

"Tenho uma política, embora muitos dizem que neste estágio deve-se aproveitar a vida e descansar, penso diferente. Acho que a vida é trabalho, ação, para se dedicar e se esforçar. Quando vou parar? A hora que não tiver mais condições. Sempre digo que o sono é o que mais se aproxima da morte. Não é por questão “ah, o cara é fominha, quer dinheiro”. Meu trabalho está na cabeça. Acho que, quanto mais o cérebro for exercitado, mais ativo fica, menos sujeito a problemas de saúde que a idade traz. É óbvio que não tenho mais a mesma vitalidade de antes. Nunca parei para pensar: poxa, estou com 65 anos. Ao contrário, sempre penso: o que vou fazer hoje, amanhã, no ano que vem… Então, tenho uma vida ativa, minha expectativa de vida é de mais 20 anos. Até os 85 anos, acho que tenho condição de trabalhar, se não surgir nenhum fato extra. É evidente que há riscos, mas desenhei um projeto para a minha vida."

Mirna Graciela
Tubarão

Notisul – Você atuou no processo de reconstrução de prédios públicos de Tubarão atingidos pela enchente de 1974. Como surgiu este convite?
Pedro
– Após a catástrofe, recebi uma proposta da secretaria estadual de transportes e obras para trabalhar na recuperação destes prédios. Havia um contrato entre o estado e o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (Dnos), que fez, na época, o desassoreamento e a retificação do rio. Eles atuaram daqui até Laguna intensamente, para que não ocorresse novamente a calamidade. Havia uma parte de recursos para a recuperação dos prédios públicos. E precisavam de alguém para administrar o trabalho. A maior parte dos prédios era de escolas. Estavam completamente destruídos. Por exemplo, na escola estadual João 23, no bairro Passagem, metade da estrutura tinha sido completamente demolida. Inúmeras outras, como o Galotti, em Oficinas, a água foi até quase o segundo pavimento, assim como a Visconde de Mauá. A cidade estava um caos. A escola Professor Arno Hübbe, foi completamente destruída, ficaram somente as pedras. E, depois, nós a construímos novamente. Isto tudo ocorreu não somente em Tubarão, mas em Pedras Grandes e São Ludgero. Foram os três municípios mais afetados neste aspecto de prédios públicos.

Notisul – Qual a análise pode ser feita com este trabalho de reconstrução?
Pedro
– Foi uma desgraça para a cidade e região, mas profissionalmente abriu perspectivas. Isso tem dois aspectos. O emocional e o técnico. Deste, aprendi e comecei a aplicar os conceitos que desenvolvo hoje. Então, fui buscar a teoria, que é o gerenciamento de projetos. Cuidar de 30, 40 prédios ao mesmo tempo, todos semi-destruídos ou completamente afetados, e colocá-los em pé exigia muita organização, método e sistema. Eu estava acostumado a cuidar de uma obra de cada vez. Foi um grande desafio. Tecnicamente, aprendi muito, até porque os prédios eram em locais diferentes, alguns afastados e em lugares de menor população, escolas bem isoladas. Tudo era mais difícil, a locomoção, não havia asfalto como hoje. Tem uma situação que quero citar. Os Jogos Abertos de Santa Catarina de 1976. Quando a prefeitura se candidatou, houve todo um movimento do governo do estado para incentivar que fosse em Tubarão, para mostrar à população que a catástrofe não tinha destruído a cidade. Afinal, foi um estrago grande. Nos permitiu mostrar que o município estava de pé. Então, fiz parte do comitê organizador e cuidava dos prédios públicos, dando condições para acomodar os participantes de outros lugares. Esta também foi uma experiência extremamente interessante.

Notisul – Como surgiu a ideia de fundar uma empresa de consultoria e projetos?
Pedro
– Quando eu estava em processo de aposentadoria, comecei a pensar o que fazer depois. Então, em 2003, abrimos a empresa, que está fazendo 10 anos. Prestamos serviços a muitas entidades e empresas particulares. A Tractebel e a Votorantin são nossas clientes, somente para citar duas aqui da região. Também executamos serviços para muitos órgãos públicos. Um exemplo é o novo prédio da prefeitura de Imbituba, que será inaugurado em breve. A nossa maior fatia são os órgãos públicos da região da Amurel. Justamente porque nesse período que atuei na administração pública também me envolvi com o Crea, o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, onde fui eleito conselheiro e atuei por cerca de 16 anos. Inicialmente, também representei como conselheiro a Ascea, Associação Sul Catarinense de Engenheiros e Arquitetos, com sede em Criciúma. Depois, criamos a Area, a Associação Regional de Engenheiros e Arquitetos, com sede em Tubarão. Prestamos diversos serviços, é um leque imenso de opções. E hoje focamos muito a parte de gerenciamento de projetos.

Notisul – O que é um gerenciamento de projetos?
Pedro
– Gerenciar projetos é administrar a vida. Porque a vida é isto. O que, quando, como, onde e por quê? Evidente, cada projeto tem suas características. Existem aqueles em que essas cinco perguntas são respondidas e já tens o teu plano, está resolvido. Mas, no gerenciamento de projetos, também ocorrem os riscos. Há vários componentes. Sempre que se faz um projeto, além desses cinco itens, também tem que analisar o tempo que leva, o quanto vai custar, a perda de algo, que é um risco, onde não há como eliminá-lo, mas sim controlá-lo. Cada um tem sua forma de gerenciar. E tem aqueles onde é melhor dizer assim: não vou fazer porque vou colocar em xeque a minha empresa. Então, quando se fala em projeto, tem que pensar nisso tudo. Também entra a área de comunicação, hoje levada muito mais a sério, porque gerenciar projetos também é gerenciar pessoas. Todas têm que estar afinadas com aquele objetivo. É bom deixar bem claro: projeto é um objetivo único que tem que ser concluído em um determinado prazo e custo. Se há uma ação repetitiva, não é mais um projeto, é um processo, um programa.

Notisul – Daria para exemplificar a aplicação deste método?
Pedro
– A gerência de projetos consiste em pegar um assunto ou um problema, achar uma solução e aplicá-la. Vamos falar de um caso clássico, típico, aqui em Tubarão, que sempre repercute. A Ponte de Congonhas. Qual é o problema? O escopo desse projeto é dar condições às pessoas de passarem de um lado para o outro. Tu podes construir uma ponte, uma balsa, há várias opções. Vamos fazer uma ponte. O que vai suportar, veículos grandes? Nesse caso, uma ponte de concreto. Quanto vai custar, uns R$ 200 mil? Falo em um número genérico, sem ligação com a ponte em si. Quem vai pagar? É uma travessia que liga dois municípios. Vamos para o governo do estado, que pode entrar com R$ 100 mil e as cidades dividem o restante. É uma maneira de resolver, é mais ou menos o que foi feito. Bom, agora quem vai administrar esta ponte? Isso é clássico. Cachorro com muitos donos morre de fome. Então, será a prefeitura ‘A’. O município ‘B’ e o estado entregam sua parte do dinheiro. O projeto técnico é executado para atender as perspectivas. A empresa recebe e acabou. Agora, isso precisa ser gerenciado. A questão falha desse procedimento foi a gerência de projetos, como em geral de muitos outros. Foi realizada a concorrência e utilizaram um projeto já existente para fazer no mesmo local da que lá está e tem um problema. Teria que demolir a existente, interromper o tráfego e isso causaria um problema aos usuários. Então, vão fazer ao lado. Se tudo isso fosse tratado desde o início com a aplicação dos conceitos de gerenciamento de projeto, teria se percebido os detalhes antes e evitado a problemática. A comunicação entre os administradores públicos, os usuários e demais interessados é vital. O ideal era ter promovido uma audiência pública para que todos pudessem se manifestar e chegar a um entendimento.

Notisul – Você poderia citar outros empreendimentos que tiveram falhas?
Pedro
– Sim, por exemplo, o Cemitério de Capivari de Baixo, onde teve um problema de comunicação terrível, a Penitenciária de Imaruí, a macrodrenagem da margem esquerda, em Tubarão, são empreendimentos em que o gerenciamento de projeto pode ajudar muito e ser vital para que chegue a uma conclusão. As pessoas envolvidas sabem o que fazem. O que não se dão conta é de que elas têm que ter ou se não tiverem, buscar conhecimento em gerenciamento de projetos para aquele especificamente. Aí a coisa não anda. Outro ponto é a parte ambiental. Hoje, não se consegue fazer praticamente nada em termos de empreendimento sem que envolva esta área. Tem que conseguir as licenças antes de pensar em contratar a empresa, para que não ocorra o que houve no túnel do Morro do Formigão, em Tubarão. Contrataram a empresa e uma impugnou daqui e dali, e quando foram ver as licenças ambientais não estavam concedidas ainda. O gerenciamento pode não eliminar totalmente estas falhas, mas vai evitar a maior parte, muitos entraves e ter a situação sob controle.

Notisul – Existe algum empreendimento na cidade ou região em que o gerenciamento de projetos foi aplicado com sucesso?
Pedro
– Sim. Um grande exemplo é o Farol Shopping, em Tubarão. Quando o empresário Genésio A. Mendes deu início às tratativas, nossa empresa iniciava nesta área de gerenciamento. O procurei, conversamos e ofertei este nosso trabalho. Mas ele já havia fechado um contrato com uma empresa de São Paulo que tinha executado as pesquisas e todos os procedimentos. Fui a São Paulo, conversei com o pessoal para uma possível parceria, mas eles já possuíam um corpo técnico todo formado. Não realizei o sonho de trabalhar no shopping. Essa empresa veio, empregou a técnica, dando satisfação para a sociedade por meio de mídias, outdoors, jornais e outros meios, e aos lojistas, para que ficassem informados de todo o andamento do processo. A Ponte de Cabeçuda, em Laguna, é outro. Quem executa é um consórcio, mas chefiado pela empresa Camargo Corrêa, que está aplicando na ponte gerenciamento na íntegra.

Notisul – O senhor leciona na Unisul, no curso de Engenharia Civil. Como é este outro seu trabalho?
Pedro
– Dou aula para uma turma do 9º semestre, que está quase em fase final, em uma cadeira que se chama custos e planejamento de obras. Comecei no ano passado e devo continuar este ano. Até porque o meio acadêmico é extremamente estimulante. Aqueles jovens com as perguntas e os desafios que trazem me forçam a estar sempre me atualizando e aprendo muito com eles. É fantástico. Um dos meus objetivos, inclusive, é levá-los até a Ponte de Cabeçuda, para conhecerem o canteiro de obras, que é um negócio maravilhoso. Lá, os cronogramas, organogramas, mapas, entre outros, estão nas paredes com todas as atividades e tarefas a serem cumpridas com os custos, prazos e recursos que dispõem. Isto é tudo muito interessante. Somente o canteiro de obras custa R$ 50 milhões. A ponte é uma obra gigantesca. Sem gerenciamento de obras, os caras ‘morrem’ em seis meses, no sentido técnico, não tem como caminhar para frente. Eles têm equipamentos que são importados e alugados. Há prazo para receber, usar e devolver. A empresa tem interesse de se livrar o mais rápido de tudo. E, para fazer isso, somente com a aplicação integral de gerenciamento de projetos. É uma visão que procuro dar para meus alunos, não é o objeto do curso, mas procuro fornecer instrumentos para que depois eles busquem os conceitos de gerenciamento de projetos. Se quiserem ser bons engenheiros, devem fazer uma especialização neste sentido.

Notisul – Costuma aplicar o gerenciamento de projetos também na vida pessoal?
Pedro
– No ano retrasado, fiz uma especialização, uma pós-graduação em gerenciamento de projetos. Estudei um ano e meio, onde aprendi muito, consegui organizar todos os meus conhecimentos do que já tinha vivido, a minha experiência, agora com técnica, de uma maneira mais racional, me baseando nos ensinamentos que os professores trouxeram. E, em cima disso, fiz um plano da minha vida. Bom, o que vou fazer, qual é o meu projeto, onde e quando eu quero chegar, o que isto vai me custar, o que tenho que fazer. Acho que a pessoa faz o que quiser, desde que tenha realmente vontade. Até o planejamento de um fim de semana, por exemplo. Tem gente que acha que isto tira a graça da vida, não, em absoluto. Eu deixo sempre em meus projetos, quando falo em gerenciamento, ter sempre uma parcela daquilo que não está escrito, que não pode ser anotado. Isso é fruto daquilo que já se viveu, da experiência, que é a sensação de que a sorte vai resolver isso, o tempo vai solucionar. Tipo, isso faz parte do destino, eu tenho uma parcela disso também. Mas não deixo isso dominar o assunto, acho que o inesperado está sempre presente na vida da gente.

"A engenharia civil é gratificante porque tem essa característica de executarmos um trabalho, a parte técnica, isso dá satisfação porque cada obra é um filho."

"A humanidade caminha na base do erro e do acerto, isso é óbvio. A burrice não é errar, mas sim cometer o mesmo erro. A gente tem que aprender as lições."

"Papai sempre dizia: a gente deve sempre, no caminhar, ir plantando a sementinha, porque na volta sempre vai encontrar as sombras geradas pelas árvores.”

“O gerenciamento de projetos é a salvação do mundo? Não é, mas 70% dos projetos no mundo, isto é um dado oficial, falham por falta da aplicação deste sistema. Apenas em 30% é aplicado o gerenciamento.”

Pedro por Pedro

Deus – A vida.
Trabalho – Também a vida.
Família – O centro de tudo, a parte mais importante.
Passado – Um professor que mostra os erros e acertos.
Presente – Muito trabalho.
Futuro – Saúde para viver.