Natural de Tubarão, Renato Genovez, de 89 anos, é formado em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia do Paraná. “Sou do tempo em que engenheiro era chamado de doutor”, lembra. Casado há mais de 60 anos com Margô tem quatro filhas e quatro netos. Perto de completar 90 anos, Renato ainda sonha com o nascimento de um bisneto ou bisneta. “Não temos nenhum ainda, mas acredito que está próximo”. A carreira na engenharia proporcionou grandes realizações e trabalhos que perduram até hoje. Considerado um dos primeiros engenheiros da Cidade Azul, ele fez obras importantes que gosta de contar. Ao longo da vida guarda grandes amigos e ótimas lembranças. Além de engenheiro, presidente do Rotary Club e fundador do Crea-SC, Renato também era músico nas horas vagas e ainda arrisca algumas notas no piano de cauda que guarda na sala de estar. “Eu tocava violão e piano. Às vezes ainda arrisco alguma coisa, mas estou mais afastado da música”, relata.
 
 
Maria Julia Goulart
Tubarão
 
 
Notisul – O senhor foi um dos pioneiros no ramo da engenharia civil aqui na região, como a profissão era tratada na época?
Renato Genovez – Formei-me em 1951. Naquela época não existiam muitos engenheiros civis aqui na cidade. Muitos insistem em dizer que fui o primeiro de Tubarão, mas isso é um mito. Fui um dos pioneiros, mas na minha época já existiam outros. A profissão esteve comigo por muitos anos, costumo dizer que já fiz até bodas de ouro como engenheiro civil. No passado, os trabalhadores dessa área eram chamados de doutores, visto a importância desta profissão. Éramos igualados a advogados, médicos e tantos outros trabalhos nobres. 
 
Notisul – Como engenheiro o senhor participou de muitas obras importantes, como a construção de hospitais. Quais foram os seus trabalhos nesta área?
Renato – Trabalhei em muitas obras importantes em instituições de saúde. A principal delas foi a construção do Hospital Municipal Henrique Lage, em Lauro Müller. A obra ocorreu alguns anos após a minha graduação, em 1956. Este foi um trabalho muito importante, pois a instituição existe até hoje na cidade e atende toda a população. Durante toda a minha vida, também apoiei o Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Tubarão. Quando eu era jovem, a Irmã Enedina, diretora da instituição na época, criou uma entidade interna, em que moças e rapazes – estudantes da cidade – participavam. O objetivo era que todos pudessem discutir os problemas existentes no hospital e buscassem uma solução para alguns deles. Posteriormente, esta entidade tornou-se uma associação, que perdura até hoje. Eu participei com opiniões, ouvi os entraves e fiz o possível para solucionar os impasses. Esta época foi muito importante, pois, depois de formado, participei de várias reformas na instituição, ajudei na manutenção do HNSC, entidade na qual tenho muito carinho e respeito.
 
Notisul – O senhor participou também da construção da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis? 
Renato – Este é um questionamento muito interessante. Muitos insistem em dizer que eu construí a Ponte Hercílio Luz, na capital do nosso estado, mas existe uma errata neste ponto. Não foi meu o projeto de construção da estrutura e existe uma coincidência muito legal. A obra iniciou no ano em que eu nasci, 1923. Após a graduação, fiz sim alguns trabalhos na ponte. Foram três tipos de serviços. O primeiro deles foi para a retirada do estrado existente, que era de madeira e estava se deteriorando com o tempo. Assim, coloquei um estrado metálico e por cima uma camada de asfalto para que o serviço perdurasse por anos. A terceira e última etapa foram os jatos de areia, que eram lançados nas partes em que a ferrugem já havia tomado conta da estrutura. Esta é uma técnica muito interessante, pois ele limpa minuciosamente toda aquela deterioração existente. Após isso, foi feita a pintura da estrutura, tudo realizado com tintas especiais para que o empreendimento durasse anos. Parece que o serviço não é tão complicado, não é? Porém, foram mais de 12 anos para que todo este trabalho fosse concluído. Eram muitas idas e vindas, de Tubarão a Florianópolis. Deu até gosto de brincar. Neste tempo todo gerei muitos lucros para algumas empresas de ônibus, pois andei muito na estrada para que a obra fosse finalizada. Durante os 12 anos da restauração da Ponte Hercílio Luz foram quatros governos. De fato, foi muito tempo. É uma lástima que um empreendimento tão bonito, hoje esteja desativado.
 
Notisul – O senhor construiu a sede da empresa Souza Cruz, em Tubarão, como tudo começou? 
Renato – Costumo dizer que a construção da Souza Cruz, em Tubarão, foi uma das obras mais importantes da minha vida. Teve um detalhe interessante que gosto muito de lembrar: eu era rotariano e fui a uma conferência em Blumenau, em que lá estavam os principais diretores da Souza Cruz. Eles já sabiam que eu era engenheiro civil e que teria a possibilidade de construir uma filial da empresa na Cidade Azul. Na ocasião, o Estelito, que era o gerente-geral da empresa, nos ofereceu um coquetel e me convidou para tomar um ‘aperitivo’ com ele. Ele era muito interessado nas notícias da nossa região e passávamos horas a fio jogando conversa fora sobre o desenvolvimento das cidades. Neste evento, ele me disse a seguinte frase: ‘doutor Genovez, escolha o seu aperitivo’. Ele sempre me chamou pelo sobrenome. Nisso, escolhi a minha bebida e era ‘gim tônica’ e neste ponto houve uma coincidência muito legal. Estelito me disse que esta também era a sua bebida preferida. Após este fato, a nossa amizade que já era grande, consolidou-se ainda mais, a interatividade entre nós só aumentou. Foi então que ele me indicou para ser o engenheiro responsável pela construção da Souza Cruz de Tubarão.
 
Notisul – E como foi realizada a obra?
Renato – Eles queriam fazer da nossa cidade a sede principal da empresa no sul de Santa Catarina. A intenção era abrir um escritório de controle da plantação de fumo. E por este trabalho, passavam muitas etapas, como a época da colheita. Precisei participar de tudo isso para saber como, de fato, era feito este recebimento do fumo. Aqui na região já existiam as pequenas cooperativas dos produtores, mas nesta fase não tive muito contato. Construir a Souza Cruz foi simples. A empresa tinha um padrão muito forte e eram muito firmes, então fiz tudo conforme me foi apontado. Fiz o escritório e a parte para receber o produto na época da colheita. Depois de tudo pronto, eles gostaram tanto do meu trabalho que me levaram para construir outras filiais da empresa. Participei de obras no Paraná, na cidade de Araranguá, mas a principal, com certeza, foi em Tubarão. A construção da Souza Cruz ocorreu na década de 1960. Hoje, ela não existe mais efetivamente em Tubarão. O amigo Genésio A. Mendes comprou o empreendimento e ali foi construído o shopping de Tubarão. Acho importante destacar, pois mesmo passado tantos anos, quando a Souza Cruz foi vendida, fui lembrado e convidado para participar de reuniões sobre as novas obras no local. Sem dúvidas, uma honra, já que mesmo não estando envolvido com o novo trabalho, fui convidado para participar das discussões.
 
Notisul – Quais as outras obras que o senhor fez aqui em Tubarão?
Renato – Foram muitas… Construí as casas da Sotelca, uma termelétrica aqui na cidade. Eram quatro residências ao todo. Todas elas foram feitas no morro, na rua Doutor Otto Feuerschuette. Quem morava nessas casas eram os engenheiros que trabalhavam na termelétrica. Quando iniciei a obra já existia um projeto que todas as três primeiras casas fossem iguais, mas, no decorrer da construção, as casas que seriam feitas de concreto, foram feitas de pedra. A última residência é a mais importante, era onde morava o presidente da Sotelca e é onde hoje está a Câmara de Vereadores de Tubarão. Lembro-me desta obra com muito carinho. É um dos trabalhos em que gosto de falar, pois me marcou muito. No projeto original existia uma escada de pedras muito bonita. Era tão marcante que, quando as pessoas estavam no pé do morro, já podiam enxergar a beleza daquela escadaria bem em frente ao prédio. Depois de a casa virar a sede do poder legislativo, esta parte da obra foi retirada e hoje, se não me engano, dá lugar a uma rampa, mas o restante ainda permanece muito semelhante ao que era no passado. Um fato muito engraçado desta época é que quando estava construindo as casas o presidente não queria que a morada dele tivesse janelas. Era um fato curioso, mas ele sempre dizia que se colocasse um ventilador à residência não precisava ter nenhuma janela. Levou um bom tempo até ele aceitar que as estruturas fossem colocadas.
 
Notisul – Como cidadão tubaronense, o senhor também presenciou muitos fatos importantes na cidade. A retirada dos trilhos na avenida Marcolino Martins Cabral foi um deles. O que houve na época?
Renato – Lembro bem desta época. Os trilhos cortavam toda a avenida Marcolino Martins Cabral, em Tubarão. Fui um dos engenheiros que ajudou a retirar a estrutura da ‘Estrada de Ferro’. O pedido na época veio por meio do general Soares, que na época da ditadura foi quem ordenou a retirada dos trilhos. Desenvolvemos um laço de amizade muito forte. Ele acabou participando efetivamente das comemorações familiares aqui em Tubarão e eu na sua casa. O general Soares era um cidadão nota 10. Após a retirada dos trilhos da avenida principal de Tubarão, a ferrovia me convidou para trabalhar em outros pontos por onde os trilhos da ‘Estrada de Ferro’ cortavam as cidades. Trabalhei na linha permanente, fiz serviços como mudança de dormente, melhorias de pontilhão, entre muitos outros. Tive uma bagagem muito grande no que diz respeito a engenharia na ferrovia.
 
Notisul – Outro fato interessante é sobre os pilares do Clube 7 de Junho, não é mesmo? 
Renato – Antes do Clube 7 de Junho ser reformado, havia um trabalho de arquitetura muito bonito no local. Na parte interna existia uma pista de dança e em cada canto que intermediava este espaço havia pilares, no total eram seis. Os pilares vinham do chão e iam até o teto. Eles eram feitos de uma perícia tão bem feita que os chamavam de ‘pilares encanelados’, isto porque corria o friso não bem em cima, mas também não até o chão e era algo muito trabalhado em uma riqueza de detalhes. Quando o Clube 7 foi demolido, esses pilares foram colocados onde hoje está o Banco Bradesco. Existe uma história muito engraçada sobre isso. Depois de um certo tempo em que esta construção era jogada ali, foram fazer uma escavação e descobriram um pedaço do pilar e foi dito que era uma civilização, como os astecas, maias. Ficou aquela marca dos pilares enterrados ali. O jornalista Walter Zumblick dizia: ‘não sei quando, mas um dia ocorrerá, descobrirão uma antiga civilização em Tubarão por causa dos pilares’. Costumamos dizer que o pilar remete a um povo antigo, pois quando lemos em livros de histórias, percebe-se que as construções dessas civilizações tinham esses detalhes, encanelados. 
 
Notisul – O senhor também tinha muitos amigos, como era a sua relação com eles?
Renato – Um dos meus grandes amigos foi Willy Zumblick. Ele era uma pessoa muito boa e meu deu inúmeros presentes. Aqui eu tenho guardado os vários cartões de natal que ele me entregou e guardo todos com um carinho especial. Também recebi uma caricatura feita por ele. Era marca registrada do Zumblick, ele sempre presenteava um amigo com um desenho. A minha sou eu tocando violão. Algo que eu também guardo com muito amor é a bandeira do Divino Espírito Santo. Ele sempre me dizia: ‘Renato, quando tu estiveres atrapalhado, tu reza, porque você é um homem abençoado’.  
 
Notisul – O senhor recebeu muitas honrarias ao longo de toda a sua vida. Conte um pouco para nós.
Renato – Sou o fundador do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Santa Catarina (Crea-SC). O Crea surgiu em 1953 e a partir daí eu acabei recebendo muitas homenagens. Não só pelo conselho, mas também pela carreira de engenheiro. A última homenagem foi há pouco dias, quando recebi a láurea de honra ao mérito, em Gramado, durante a Semana Oficial de Engenharia e Agronomia (Soea). Fiquei muito feliz por ser lembrado. Eram muitas pessoas no local, um evento grandioso.
 
Renato por Renato
Deus – Acima de tudo.
Família – Base de tudo.
Trabalho – Fonte da vida.
Passado – Lembranças.
Presente – Uma vitória.
Futuro – Encarrego às mãos de Deus.
 
"Como engenheiro participei de grandes obras na região: da construção do Laguna Tourist Hotel, que existe até hoje, por exemplo".
 
"Também participei da construção das Casas Fretta, empreendimento tradicional aqui em Tubarão. Fiz as obras em Criciúma e outras pela região".