André Fretta May, o Deka, é tubaronense. Filho e neto de políticos, espelha-se nas ações do avô, Idalino Fretta, falecido em 2003, vereador por 20 anos na época em que não havia salário; e do pai, Paulinho May, que administrou a cidade de 1977 a 1981. Advogado e publicitário, produziu inúmeras campanhas eleitorais quando morou em Florianópolis. Vereador de primeiro mandato pelo Partido Progressista (PP), foi o mais bem votado em 2008, com 2.563 votos, a política entrou na sua vida de maneira natural. Hoje, é pré-candidato a prefeito.

 
 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – Por que você é pré-candidato a prefeito?
Deka – Porque eu acho que tenho o dever. Porque acho que tenho esse compromisso com a minha cidade. Eu nasci aqui, minha família toda é daqui. Meu pai e minha mãe nasceram aqui. Eu nasci aqui. Adoro essa cidade. E tenho – aliás, todos temos – esse dever de dedicar parte da vida ao interesse coletivo. Sei da importância de cada um de nós neste processo, e me coloco à disposição. Sei que não depende só do prefeito que tem o mandato, mas de todo e qualquer cidadão. É maior do que eu, é um sentimento que eu tenho convicção, acredito nisso. Só vamos construir a cidade dos sonhos na medida em que as pessoas tiverem esse comprometimento que eu tenho.
 
Notisul – Você entraria na disputa como vice?
Deka – Estou me colocando como candidato do partido. Passei minha vida dentro de uma família em que política era o tema central nas conversas. Sei que as coisas são de um jeito hoje, e amanhã serão diferentes. Sou candidato a prefeito. É o compromisso que o meu partido tem. Desde 2008, firmamos o compromisso de que na eleição de 2012 teríamos um candidato a prefeito. Estou cumprindo com a deliberação partidária. Estou me colocando à disposição do partido. Querermos ganhar a eleição. Eu quero ganhar a eleição. Tenho o sentimento que, se eu for candidato, eu vou ganhar. Mas o que for que o partido defina na frente, internamente, eu vou acatar. Me coloco onde o partido ache que eu deva estar.
 
Notisul – O que levou você a ingressar na política?
Deka – Nada me levou. Eu fui levado. É como a história do cara que é filho do ator de televisão. As pessoas querem te ver ali. Meu pai e meu avô têm histórias bonitas. Carrego dois sobrenomes de pessoas importantes. Prova disso é que os dois estão tanto na câmara de vereadores quanto na prefeitura. Os dois foram presidentes da câmara e prefeitos. Um eleito diretamente, e o outro de forma interina, mas os dois estão lá. Eu fui levado a entrar nesse caminho. E é uma coisa extremamente importante na vida da gente. O fato de abrir mão da tua vida, de questões particulares e ajudar a resolver o que é de todos. A cidade dos sonhos precisa ser construída. Não é só achar que vamos ter um prefeito. A política só me fez bem. Eu me tornei uma pessoa melhor.
 
Notisul – Que exemplos você leva do seu pai e do seu avô?
Deka – Eu estou preso a valores que não me deixam sair do caminho. Tenho uma responsabilidade que me foi dada, que não tenho como abrir mão disso. Eu sei da importância de carregar essas histórias e sei do compromisso que eu tenho. Meu pai nunca usou do poder para beneficiar a família, e esses são valores que eu levo comigo, que são fundamentais naquilo que eu pretendo. Ele me dizia que, no fim da vida pública, a única coisa que sobra é a tua consciência. E, se você não estiver com ela tranquila, a sua vida vai ser um inferno. O que tiver que fazer, dedique o tempo que tiver que dedicar, mas faça sempre a coisa certa, e esse é o meu compromisso. É de dar continuidade nessa história. Estou algemado, preso nisso. E nada vai me fazer sair deste caminho que eu venho trilhando.
 
Notisul – Por que você não quer mais ser vereador?
Deka – Eu acho que cumpri a minha missão. Eu já fui vereador. Tive essa honra de poder receber os votos. Quero sair dessa função de vereador de cabeça erguida como entrei. E vou sair de cabeça erguida, e com a sensação de dever cumprido. Eu nunca faltei a uma sessão da câmara, e nunca vou faltar. Nem no dia que meu pai morreu eu faltei. Sou o vereador que tem o maior número de requerimentos e indicações. Todos os projetos de lei que eu fiz trazem benefícios para a sociedade. Eu não apresento projeto que não tenha sentido. Não apresento projeto por apresentar, e sim porque considero que sejam de fundamental importância para a sociedade. Todos os requerimentos que eu fiz do início do mandato até agora são cobrando do poder público ações, atitudes, posturas.
 
Notisul – O que poderia ser melhorado nas câmaras de vereadores? 
Deka – Deveria ter mais transparência. Tenho um projeto de lei que se chama Tribuna Livre. Que dá a possibilidade das pessoas poderem participar, do cidadão comum representante de uma comunidade, poder fazer sua solicitação e ir à câmara fazer o seu relato, da sua dificuldade, pois quem é que sabe da realidade do município? O cidadão, o líder comunitário. Eles têm a informação correta. Se o prefeito quiser saber administrar bem, vai ouvir as pessoas que sabem quais são os problemas. Meu pai criou a descentralização, que eram os conselhos comunitários. Cada bairro tinha um conselho. E ele administrava com os conselhos. Eles definiam as prioridades as obras, e junto com o prefeito decidiam a ordem necessária das prioridades. Isso é o fundamental, ouvir as pessoas.  
 
Notisul – Você acha que o salário do vereador é justo?
Deka – Depende. Em um país em que o salário mínimo é R$ 622,00, é injusto. Se comparar o salário de um vereador aqui, que é de R$ 6 mil, que líquido vai para R$ 4,5 mil, é injusto. Não tem que se olhar o maior salário. Tem que olhar o menor. A maior reforma que esse país pode ter é dar para as pessoas um salário digno. Que eles ganhem o suficiente para comprar o seu remédio, pagar seu médico, pagar a escola do filho, e não que o estado seja o tutor, que precise pagar tudo. As pessoas têm que ter condições de ter uma vida digna, de comprar a sua casa, de comprar seus alimentos, de educar bem seus filhos, de fazer uma poupança. Não é o salário do vereador que é injusto. É o do povo. Esse sim é injusto.
 
Notisul – O que Tubarão precisa para crescer?
Deka – Investimentos. Tubarão precisa, acima de tudo, que as pessoas pensem na cidade para o futuro. Um exemplo. Quando meu pai entrou como prefeito, Tubarão tinha apenas uma ponte. Ele saiu cinco anos depois e Tubarão tinha quatro pontes. Isso faz 30 anos, e não construíram mais nenhuma ponte. Tem que ter uma equipe de planejamento. Porque só busca dinheiro em Brasília se tiver planejamento. Hoje, na prefeitura de Tubarão, essa secretaria não funciona. O prefeito sabe disso, ele admite. O grande malefício na política é essa falta de verdade, de comprometimento que os políticos têm de fazer a coisa certa. O meu compromisso é a verdade, fazer a coisa certa. Não deixar de olhar no olho da pessoa por dever alguma coisa. Quero sair da política sem dever nada para ninguém.
 
Notisul – Como é aprovar uma lei e ver ela não ser cumprida?
Deka – É uma desgraça. Talvez todos os problemas que o país tem sejam fruto disso, dessa falta de seriedade, de comprometimento. A violência está descontrolada. E quando surgiu isso? A partir da constituição de 1988. Pode falar o que for dos militares, mas, enquanto eles estavam no poder, nesse país existia ordem e progresso. E o que ocorreu depois, com o sistema democrático? A desordem e o regresso. Porque o progresso veio da iniciativa privada. O governo foi um desastre. O governo democrático nesse país é um desastre. O governo militar foi um exemplo. Eu faço questão de citar um problema imediato. Os 14.700 quilômetros da totalidade da BR-101 foram construídos em 12 anos. E esses 347 quilômetros de extensão de duplicação do trecho Palhoça-Osório já está em 15, vai para 20 anos, e continua essa bandalheira, essa falta de respeito. Esse país só vai dar certo no dia que o cidadão se conscientizar que não são só aqueles que estão lá em Brasília podem construir o país. Temos o dever, como cidadãos, de exigir de nós mesmos uma conduta e depois cobrarmos do político uma lei que não dá certo.
 
Notisul – O que mudou do Deka candidato a vereador em 2008 para o Deka de hoje, pré-candidato a prefeito?
Deka – A política para as pessoas, muitas vezes, faz um mal incalculável. Para mim, fez um bem imensurável. Hoje, eu sou uma pessoa muito melhor do que eu era. A política me fez ter uma visão totalmente diferente do compromisso que eu tenho e da responsabilidade que eu tenho comigo. Perdi meu pai em 2010 e aí eu passei a entender tudo aquilo que ele se dedicou. Passei a entender o quanto é difícil. Quando você assume a responsabilidade, quando está lidando com a esperança das pessoas, quando elas acreditam que você vai melhorar a vida delas. O cidadão, o ser humano tem que estar em primeiro lugar. Os caras pensam que o Deka é hipócrita, que só faz discurso. Porque a regra é de que político não presta. Mas eu sou diferente, porque venho de uma escola de formação. Tive a formação necessária. Os dois alicerces principais da sociedade são a família e os políticos. 
 
Notisul  – Você é contra a reeleição? 
Deka – Lógico. Política não é carreira. Tem que abrir espaço. Quando todo mundo tem o dever de fazer a sua parte, como vai fazer se eu ficar 20 anos sendo vereador, ocupando uma cadeira. O poder corrompe. Não é o poder que deve servir os políticos, e sim os políticos têm que servir o poder. As pessoas se elegem. Com o voto de quem está aqui fora. Quando estão lá dentro, parece que esquecem quem está aqui fora. E aqui fica sem representante. Estou lá exercendo o mandato, mas estou aqui fora. Não vê o exemplo do Sarney? Para se manter no poder, tem que ter uma estrutura. E ela vai ficando cada vez maior, e o poder deixa de ser público, fica privado, em vários segmentos, interesses, ou às vezes até facções. Porque o crime como está aqui fora também está dentro da política. E o grande problema é essa corrupção que existe, caminha paralelamente ao poder. Se tu não tiver formação, valores, se desvia.
 
Notisul – Há 20 anos, o PP não lança uma candidatura para prefeito. Como o partido vai buscar a vitória?
Deka – Todas as administrações do nosso partido nos dão muito orgulho, e as pessoas que fazem parte do partido têm que ter uma identificação muito forte. As pessoas de bem se unem naturalmente. O que muda são as pessoas. Em duas lojas, você tem os mesmos produtos, mas as pessoas são diferentes. O comprometimento das pessoas é que fazem que um projeto tenha sucesso ou não. Em um partido, é a mesma coisa. O grau de comprometimento do nosso partido em Tubarão me faz acreditar que faremos sim uma grande administração. E, além disso, não vou administrar sozinho. Meu pai dizia que você tem que se cercar de pessoas mais capazes, e isso foi o que de mais importante ele fez. As pessoas fazem a diferença. E o nosso partido tem isso, esse compromisso.
 
Notisul – Acha que faltam essas pessoas qualificadas na atual administração?
Deka – Acho que faltam pessoas comprometidas. Tem um detalhe que define isso. O comandante do processo. O chefe do poder executivo não manda, comanda. O líder vem naturalmente. Quando um líder nato é eleito, a administração é boa. Quando alguém é feito líder, sem ser líder, a administração é um desastre. Por isso, nós estamos tão mal servidos, porque as pessoas que estão em cargos, não são líderes porcaria nenhuma. São pessoas que só tiram proveito do poder, e não têm competência para isso, não têm a visão que eu tenho.
 
Deka por Deka
Deus – O motivo de tudo.
Família – Tudo começa na família. É a coisa mais importante da vida.
Trabalho – Fundamental para a formação do ser humano.
Passado – Dele eu só guardo as coisas boas.
Presente – Construir um futuro melhor.
Futuro – Um sonho, pois quando ele chega, vira presente.
 
"Todos vamos envelhecer. Tem muito idoso sem ninguém na vida, ou que sustenta a família inteira. O idoso, como a criança, precisa de atenção diferenciada. A cidade foi construída por essa gente. Eu quero fazer com que o município faça uma coisa que já deveria ter sido feita. Esse tratamento não precisaria de uma lei, naturalmente isso deveria acontecer, porque o idoso foi quem construiu a cidade. Ela foi feita com o suor dessa gente. E, lá na frente, haveremos de pagar um preço muito alto se não respeitarmos essa gente. O que negligenciarmos agora, talvez, aconteça com a gente depois. Essas pessoas não podem ser abandonadas. Qualquer pessoa que procure um posto de saúde ou a Policlínica deveria ser atendida por um enfermeiro ou um médico, que já faz um diagnóstico antecipado. Esses idosos deveriam ter um serviço onde seriam pegos em casa, trazidos para o atendimento e levados de volta. Se eu for prefeito, faço isso. Assumo a responsabilidade". 
 
"Político não pode ter mérito. Ele tem o dever de fazer as coisas. Eu acho que eu tenho responsabilidade de ter aberto a possibilidade da comunidade se manifestar”.
 
“No exercício interino da presidência, eu abri a possibilidade da comunidade se manifestar. Eles queriam a ponte de Congonhas reaberta e foi o que ocorreu”.