Certamente uma das figuras mais emblemáticas da região, José Grasso Comeli, 69 anos, tem uma história de dedicação ao próximo, seja por meio do cooperativismo ou de entidades que presidiu. Nascido e criado na comunidade de São Miguel, saiu da cidade por um ano, por causa do serviço militar. Voltou, casou com seu amor, dona Terezinha Wronski, cuja família é de Tubarão. “A única polaca de Gravatal é a minha (risos)”. Desse amor, nasceram dois filhos, depois três netinhos. “Cheguei na velhice com o bem mais valioso que um homem pode ter: uma família de valores”, emociona-se.

Zahyra Mattar
Gravatal

Notisul – Em uma de suas entrevistas ao Notisul, em 2009, o senhor disse que a Celesc era o filé mignon e as cooperativas eram a carne de pescoço. Ainda é assim?
Comeli –
Sim (risos)! Mas deixa eu explicar: a analogia diz respeito às áreas de atendimento da Celesc e das cooperativas. A estatal atendia as cidades e as cooperativas surgiram para levar energia elétrica para locais ermos, no campo. A própria Cooperativa de Eletrificação Rural de Gravatal (Cergral), em sua criação, em 17 de dezembro de 1961, construía três, quatro quilômetros de rede para atender dois ou três consumidores. A Celesc, em dois quilômetros de rede, atendia 200 casas, por exemplo. Uma não desmerece a outra, mas foram as ações das cooperativas de eletrificação rural que fizeram com que nenhuma família ficasse sem o conforto da energia elétrica. 

Notisul – O senhor sempre foi entusiasta região em relação ao cooperativismo. Depois de uma vida dedicada a isso, pelo visto, nada mudou!
Comeli –
Ah, esse troço é uma cachaça (risos). E eu tomo minha dose todos os dias há 49 anos! Tive a honra de presidir a Cergral por quatro mandatos. Acredito piamente que o cooperativismo é a solução para muitos dos problemas sociais que ainda existem no nosso país. O capitalismo sabe gerar lucro, mas é burro para distribuir. O socialismo é burro para gerar lucro, mas distribui como ninguém. O cooperativismo gera lucro e distribui com justiça. É a gestão do futuro!

Notisul – Cinquenta anos? Mas quando o senhor começou na Cergral?
Comeli –
Minha vida profissional começou em 2 de janeiro de 1966, logo após eu voltar de Blumenau. A cooperativa foi fundada em 17 de dezembro de 1961. Eu era guri, mas lembro do meu pai (Ernesto Comeli) me levar para as reuniões no Clube 7 de Setembro. 

Notisul – O que o senhor estava fazendo em Blumenau?
Comeli –
Eu servi o Exército em Blumenau, de 1964 até o fim de 1965, quando dei baixa e voltei para a minha terrinha. Só fui porque, vou te confidenciar, estava com o coração partido. Eu e minha polaca tínhamos terminamos o namoro na época. Bebi todas (gargalhadas). Hoje eu dou risada, mas na época estava um trapo. Assim que cumpri meu dever com a pátria, voltei para Gravatal decidido: reatei o namoro e casei logo em seguida para ela não escapar mais de mim. São 48 anos de muito amor, companheirismo. Às vezes, a gente se estranha, mas faz parte e é bom para sempre ter aquele friozinho na barriga.

Notisul – Então o senhor estava cumprindo o serviço militar quando ocorreu o golpe de 1964. Viveu a ditadura e a democracia. Como o senhor encara os pedidos de intervenção militar?
Comeli –
Ainda que a nossa democracia esteja manca, não consigo imaginar viver em um país que castra os direitos mais básicos do cidadão. Vi lideranças democratas desaparecerem, perecerem na ditadura. Nosso país não precisa disso. Não creio que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) seja necessário ou mudará alguma coisa na prática, muito menos uma intervenção militar. Acredito na democracia, acredito que ainda há espaço para o diálogo franco e honesto. Por outro lado, ainda não consigo enxergar grandes nomes, grandes líderes para fazer o saneamento político que o nosso Brasil precisa.

Notisul – O seu nome é cotado para duas eleições: a da Cergral, em 2018, e a municipal, no próximo ano. Em qual o senhor se candidata?
Comeli –
No que depender da minha polaca e dos meus familiares, em nenhuma delas. Sinceramente, também não é a minha vontade. Tenho 69 anos e a idade começa a pesar no corpo. A mente está boa, mas as pernas já não acompanham. Não faz parte do meu projeto de vida participar de nenhum processo eleitoral, mas se meu nome for uma unanimidade, um clamor das bases do PSDB, eu não fugirei do embate. Até porque isso não faz parte da minha personalidade. Um homem tem que encarar de frente os chamados da vida. E eu vivo assim. Tentei, pelo menos. Obviamente, sinto-me absolutamente honrado de ser lembrado, mas já servi minha terra, minha gente. Sem contar que uma eleição pesa financeiramente, mas o futuro a Deus pertence.

Notisul – Como o senhor observa o atual cenário econômico e político nacional?
Comeli –
Com muita preocupação. Na minha visão, as instituições políticas estão um tanto apodrecidas e sem qualquer vislumbre de lideranças confiáveis. Na economia, o cenário nacional exige cautela, em especial para aqueles que investem na produção. Mas, independente de qualquer coisa, a solução deverá ser democrática.

Notisul – Qual a sua leitura da atual conjuntura nacional para o cooperativismo?
Comeli –
O cooperativismo nacional vai muito bem. Apesar da crise, o agronegócio surpreende pela sua pujança, sempre motivada pela alta tecnologia empregada no setor produtivo. No ramo da infraestrutura, no qual as cooperativas de eletrificação estão inclusas, ainda existem muitos entraves. As exigências do órgão regulador assustam a todos. Mas, desde o nosso começo, sempre tivemos muitas dificuldades e superamos todas elas. O que nos conforta é que hoje temos uma situação mais confortável, pois produzimos 10% da energia que distribuímos.

Notisul – A cobrança das bandeiras tarifárias o preocupa?
Comeli –
Muito. Especialmente porque, além da cobrança das bandeiras tarifárias, em 1º julho, temos a previsão de um aumento em 28 de agosto. A estimativa é que as cooperativas fiquem com uma tarifa até 10% superior à cobrada pela Celesc atualmente. A indústria e o próprio associado não vão comportar isso por muito tempo.

Notisul – O senhor acredita que isso pode ser o começo do fim das cooperativas de eletricidade?
Comeli –
Sim, acredito. O ramo do cooperativismo de infraestrutura, infelizmente, caminha para isso. A realidade hoje é um funil e já estamos quase passando pelo gargalo. A extinção das cooperativas de eletricidade, tanto as grandes quanto as menores, pode começar a ocorrer em cerca de dez anos se não houver massivo investimento em geração de energia por estas cooperativas. Obviamente, é uma avaliação sob a ótica da atual conjuntura econômica e se a produção de energia continuar como é atualmente. Se houver mudança, quem sabe o cenário volte a ser um pouco mais otimista.

"O cooperativismo transformou muitas vilas catarinenses em grandes cidades".