A um mês de completar 82 anos, Dona Jurema Igreja Gomes Farias tem duas paixões na vida além de sua família: futebol e política. Moradora do bairro Santo Antônio de Pádua, em Tubarão, ela é aquele tipo de pessoa politizada em que o papo pode fluir durante horas e horas, exemplo principalmente para os seis filhos vivos, 10 netos e 7 bisnetos. Filiada há muitos anos ao PMDB, seus candidatos são escolhidos a dedo, após avaliar vários requisitos, independente de partido. Neste domingo, Dona Jurema exercerá sua cidadania mais uma vez, quem sabe a última vez, revela, mas quem a conhece duvida muito que isso aconteça…

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – O que motiva a senhora a votar mesmo não tendo mais essa obrigação por lei?
Dona Jurema –
Eu adoro futebol e política. Me passa até a dor na coluna (risos). Sou Fluminense e Tubarão F.C desde o tempo do Ferroviário. Ah, e não gosto do Flamengo. Lembro de todos em que votei na vida. Todo mundo me conhece, mas nunca gostei de aparecer. Me envolvo porque adoro. Mas deu muito nojo essa estripulia que está o nosso país. Em Tubarão, com essa prefeitura falida do jeito que está, pra que tantos vereadores? Cinco vereadores já estaria muito bom. É uma cidade pobre. Cada um deles tem três assessores. Precisa disso?  E esse ordenado que eles ganham? Estou com vergonha. Nunca vi escola fechar, mas isso está acontecendo no governo do estado atual. Por que isso agora?

Notisul – De onde surgiu essa paixão pela política?
Dona Jurema –
Vem de família. Meu pai sempre nos ensinou a sermos sérios. Quando ele ia vender um animal, sempre falava se tinha algum problema. Não se tira proveito de ninguém. O meu imposto eu pago direitinho e nunca pedi ‘bexiga’ pra ninguém. O voto tem que ser limpo, sério. Hoje, digo de boca cheia que não vou votar em ninguém do PMDB. 

Notisul – E a senhora dá pitaco no voto dos filhos?
Dona Jurema –
Já dei. Agora eles se mandam. Quando eles eram menores, seguiam tudo o que dizia. Mas se decepcionaram e deixei eles mais livres. Tanto que nas últimas eleições votamos em candidatos diferentes, de partidos diferentes.

Notisul – A política mudou muito no decorrer das últimas décadas?
Dona Jurema –
Muito. O Michel Temer, por exemplo, não deveria ter feito o que fez contra a Dilma. Fiquei com uma raiva. Defendo ela. Na hora que decidiram tirar ela, até chorei. Fizeram uma injustiça muito grande, foi um golpe. Tenho conhecidos que não vão votar mais por causa disso. Estão decepcionados.

Notisul – Como a senhora vê todos esses escândalos de corrupção descobertos nos últimos tempos no país?
Dona Jurema –
Essa estripulia já vem de muitos anos, já existia bem antes da Dilma. Não gosto nem de falar, deixou os brasileiros muito tristes. É uma desgraça no país, estão sujando a bandeira. Só que a bandeira não podemos sujar. Todos têm que ter orgulho da nossa bandeira. O problema é que não dá mais para acreditar. Hoje, é até vergonhoso pedir voto. No caso dos candidatos a vereadores, não vale nem a pena colocar o número do candidato a prefeito no peito. 

Notisul – Que requisitos um candidato precisa ter para ganhar o voto da senhora?
Dona Jurema –
Eu dou o voto para o candidato ganhar. Mas nem sempre dá certo, é claro. Tem que colocar na câmara de vereadores candidatos que tenham cursos, que sejam formados, que sejam ladinos. Mas muita gente ainda não se decidiu em quem vai votar porque está com nojo. Não estou decidida, mas essa pode ser a última eleição em que voto.

Notisul – Concorda que o voto seja obrigatório ou deveria ser facultativo para todos, independente de idade?
Dona Jurema –
O Brasil tem uma bandeira tão linda. A única solução para o brasileiro é pensar em respeitar a bandeira. É muita sujeira. A pessoa que vota se sente melhor, ganha mais coragem, principalmente para os mais velhos. Pra mim, isso funciona. E se deixar de ser obrigatório o voto, muita gente vai deixar de ir, afinal, a decepção com a situação do país é geral. Mas deixar de votar não é a solução.

Notisul – A senhora tem algum ídolo na política?
Dona Jurema –
Tenho, o Miguel Ximenes. Eu fiquei doente, ele veio me ver, ajudou meus filhos. Sou uma pessoa do bem e ele é uma pessoa do bem, de bom coração. Conheço ele desde antes de ser candidato. 

Notisul – Dá para ter fé na política ainda?
Dona Jurema –
Não. Daqui para frente, não sei se vai entrar muita gente séria. O que vejo parece o fim do mundo. Tem muita coisa errada nesse nosso país. Não se acredita mais em lei. Eu passei trabalho para criar os meus filhos, lavava roupas para fora, fazia salgados, cuidava de flores e plantas. Sempre corri atrás e meus filhos nunca passaram fome. Mas nem por isso já pedi alguma coisa em troca de apoio político. Mas muitos eleitores ainda fazem isso, infelizmente.

Notisul – A queda no número de títulos eleitorais de adolescentes de 16 e 17 anos tem sido maior do que a redução da população na mesma faixa etária. Na sua avaliação, por que os jovens estão cada vez mais desinteressados da política?
Dona Jurema –
Muito roubo, muita gente está com vergonha de ser brasileiro. A roubalheira está por tudo, nas prefeituras, nos estados… Hoje, os jovens param de estudar, tem muito desemprego, e vão ‘morrendo’ no caminho. Está tudo ligado e reflete na política. Gosto de fazer o bem, não o mal. Por isso estou tão decepcionada. 

Notisul – Falando de Tubarão, o que o próximo prefeito tem que estabelecer como prioridade?
Dona Jurema – Tem que investir em muitas áreas. Principalmente melhorar as estradas. A saúde também precisa de atenção. Não pode um médico de posto entrar de férias e o governo não colocar ninguém para substituir. Sobre os remédios, tem muita gente que reclama, mas antigamente nem tínhamos tudo isso à disposição. Hoje temos muitos medicamentos de graça. 

Notisul – Se a senhora pudesse conversar com todos os eleitores hoje, que conselho daria? 
Dona Jurema – Que pensem bem antes de votar, não votem em gente burra. Vereadores e prefeitos têm que ser inteligentes e formados. Tem que votar em pessoas sérias, de caráter, honestos.

"Estou sempre 
ligada e fui aprendendo muito sobre política".