Diretor executivo da Câmara de Dirigentes Lojista (CDL) de Tubarão, Pedro Paulo Nascimento trabalha há 30 anos na casa. Este foi o seu primeiro e único emprego. Antes, serviu no exército por um ano. Quando saiu, foi convidado pelo ex-presidente da CDL, Edgar Caporal, para trabalhar na câmara. “Ele teve uma conversa comigo para que me esforçasse e me dedicasse que eu chegaria a secretário-executivo, o que hoje, equivale a diretor-executivo”, conta Paulo.

 

Karen Novochadlo
Tubarão
 
Notisul – Você trabalha há 30 com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Imagino que o sistema mudou muito… 
Paulo – Trabalhávamos com 26 atendentes. Era um sistema manual. Quando o lojista pedia uma consulta, as atendentes procuravam em um fichário de 126 mil fichas. Mas a pesquisa era rápida, em torno de um 1min20s. Tudo era organizado em ordem alfabética. Tínhamos duas centrais telefônicas. Cada conjunto de letras era um ramal. Hoje, é tudo automatizado. As mesmas informações constam hoje no sistema.
 
Notisul – Também mudou com o Código de Defesa do consumidor… Hoje, como funciona o SPC?
Paulo – Com a entrada do Código de Defesa do Consumidor, além de não podermos passar o nome de quem antes devia há alguns meses, não podemos deixar o cadastro de um devedor por mais de cinco anos. Depois deste tempo, o SPC não pode informar mais, embora a dívida continue. Hoje, você pode passar informações referentes à restrição. O SPC tem a anotação de onde a pessoa pleiteou o crédito. Essas informações não dizem se comprou ou não. Por exemplo, se você vai comprar no Boticário. Chegou lá comprou e quer pagar no crediário ou no cheque. Então, o atendente checará no SPC se você pode comprar ou não. No crediário, você comprará com a promessa de pagar no futuro. Isto gerará um código e que irá parar no cadastro. Mesmo, que você não complete a compra, no seu nome constará que foi consultado e a data. Mas, se você atrasou alguma parcela, constará no sistema. A maioria das informações é referente a compras efetuadas. Um outro exemplo: se você  tem uma loja e vai vender uma roupa. Fará uma consulta ao SPC. Afinal, não conhece o cliente. Olha no SPC, e ele tem várias consultas. E se as consultas forem no mesmo dia? Na verdade, é um conjunto de informações que o lojista deve ter para efetuar uma venda. O lojista precisa ter um cadastro bem completo do cliente. Na hora de pegar os documentos, é preciso prestar a atenção e ver se são realmente da pessoa. Tivemos um caso nesta semana, em que a madrasta usou a identidade da enteada para fazer compras. Ela furtou a identidade e trocou a foto. Houve, provavelmente, negligência dos lojistas. E quando a verdadeira foi comprar, ela negou que havia feito outros gastos. E descobriu-se, pelas descrições, de que era a mulher do pai dela. Prejuízo grande. Em uma loja, foi R$ 500,00. Na outra, mais R$ 500,00.
 
Notisul – Como está a inadimplência hoje? Cresce em comparação aos outros anos?
Paulo – Há uns três, quatro anos, vimos a inadimplência aumentar consideravelmente. Saímos de 3% para 5,5%. Hoje, estamos em 8,10%. A cada 100 pessoas que compram no crediário, oito deixam de pagar as contas. E o que leva elas a isso? As lojas vendem ao cliente sem fazer a consulta ao SPC, tudo na base da confiança. Falta a análise de crédito mais rigorosa. Há um excesso de vendas para uma pessoa sem que ela tenha um limite de crédito ou condições de pagar, porque se oferece a loja inteira. As pessoas têm um limite de crédito máximo de 30% do que ganham. Outros fatores são os empréstimos consignados, que levam as pessoas a se endividarem. É um dinheiro fácil, que não tem consulta ao SPC, porque é descontado na folha de pagamento. Você tira R$ 5 mil fácil do banco e compra uma TV bonitona, quase maior que parede da sua casa. As pessoas têm direito a usufruírem dessas coisas boas. Mas poderia ser uma dívida menor se tivesse consciência que ali na frente o dinheiro poderá fazer falta. O que você ganhou? Uma bela televisão e um parcelamento de uma dívida no banco. Isto faz a diferença quando tiver um problema de saúde ou qualquer outro em casa. O dinheiro já está comprometido. Para os lojistas, é juridicamente inviável cobrar essas contas, porque os custos judiciais são maiores do que foi vendido. Se a pessoa deve R$ 200,00, uma cobrança vai custar esse valor ou mais. É por isso as pessoas deixam às vezes de pagar porque só vão para o SPC. Outro fator é o programa Minha Casa Minha Vida. É ótimo, mas vai mexer mais uma vez naquele dinheirinho. E a pessoa ficará uns bons anos pagando a dívida. Cartão de crédito é o pior de todos. A impressão é de que  se você não tem dinheiro pode usar o cartão. E você não tem a folhinha do cartão carimbada, como no crediário, para se controlar. A questão não é o número de parcelas que faz, mas quantos compromissos tem parcelados. Você junta R$ 50,00 de um e de outro, e de outro. No final, pode ter um compromisso de R$ 500,00 por mês. Se você ganha R$ 600,00, sobra R$ 100,00 para alimentação, saúde, água e luz. Falta a educação do consumidor em conviver com esses financiamentos e parcelas.
  
Notisul – Hoje, compra-se mais a prazo do que há 20 anos? 
Paulo – Mais classes passaram a ter acesso a bens. O financiamento facilitou. Hoje, qualquer um pode ter um carro zero quilômetro. Antes, não era assim. Quem comprava um carro é porque tinha condições de pagar à vista. Hoje, as pessoas que não podem comprar à vista podem parcelar. Mas, o que acontece é que você não vai deixar de pagar o carro, porque precisa dele, mas vai deixar de pagar a loja que te vendeu o calçado.
 
Notisul – O problema então é uma questão de planejamento?
Paulo – Isso faz uma falta grande às pessoas. E a sociedade, a cada dia, cobra para que você possua esses bens. Hoje, todos de uma família têm um celular. Também será alto o juro do financiamento. Quando o cadastro positivo for colocado em prática, mudará a questão do financiamento. No México, se reduziu em 30% o juro do financiamento para quem tem o cadastro positivo. Hoje, nos produtos, são emitidos uma taxa a mais, um percentual em razão da inadimplência. Quanto mais alta a inadimplência, maior é essa taxa. Hoje, o bom pagador arca com o prejuízo dos devedores. Alguns não pagaram porque tiveram alguns problemas de ordem pessoal, ou por descontrole no orçamento, outros por má-fé.
 
Notisul – O que é o Cadastro Positivo?
Paulo – São as anotações de clientes que pleiteiam compras, mostrando a efetividade dessas compras. E a regularidade de pagamento das pessoas. O cadastro positivo vai possibilitar fazer uma avaliação de acordo com as condições das pessoas ou com os hábitos de compras das pessoas. O cadastro positivo deve ser autorizado por cada consumidor. Com o cadastro positivo, o lojista vai poder separar direitinho os 92% dos clientes positivos e saber até que ponto cada um desses clientes pode levar mais ou menos produtos de acordo com a oferta e interesse. 
 
Notisul – Existe um perfil do devedor?
Paulo – Na federação, consta que a maioria dos devedores é do sexo feminino. Eu não concordo com esses dados. A mulher, muitas vezes, é a responsável pelas compras em casa. Eu quero saber esses dados, proporcionalmente pelas compras feitas. 
 
Paulo por Paulo
Deus: Esperança. 
Família: Tudo.
Trabalho: Equilíbrio. 
Passado: Recordações.
Presente: Vivido.
Futuro: Incertezas.
 
"A ideia do cadastro positivo é separar o joio do trigo. No lado direito, nós temos as pessoas que honram com 
o pagamento e compromisso. Nós podemos vender mais para ele e não cobrar tanto, tirando a taxa de inadimplência. 
Já sabemos que eles vão honrar o compromisso".