As dúvidas que podem surgir aos jovens ao pensarem em sua carreira profissional, para alguns, por muito tempo, são uma incógnita. Mas, para Sebastião Salésio Herdt, nascido em 1952, na pequena cidade de Rio Fortuna, o caminho pode ter sido predestinado. Em março do ano passado, ele tomou posse como reitor da Unisul e, talvez, as lembranças da juventude lhe vieram à mente. Já que ser um reitor na origem latina, linguagem que estudou no curso de letras, significa, além de ser um dirigente máximo, também um sacerdote responsável por um santuário, basílica ou catedral. Nomenclaturas que conhece muito bem por ter na família uma forte presença religiosa católica com três irmãos padres e uma irmã freira. Direção que também poderia ter seguido se a sua vocação para o magistério não fosse mais forte. Como “magnífico”, Salésio ficará no cargo até janeiro de 2017. Após este período, pretende se dedicar mais à esposa Carmem, aos filhos Gustavo e Thaísa, e à neta Ana Clara. Hoje, quando consegue um tempo livre, nos fins de semana, prefere passear pela região, em locais que considera um privilégio morar perto. No entanto, ele é categórico ao afirmar que a Unisul faz parte da sua vida e que não ficará longe da universidade tão cedo. 

Silvana Lucas
Tubarão

Notisul – Este ano, a Unisul completará 50 anos. Iniciou como faculdade, passou para universidade e agora é uma universidade  comunitária. O que significa esta nova mudança?
Salésio – O cinquentenário da Unisul tem uma simbologia muito forte do ponto de vista de espaço regional. Primeiro, pelas características do nosso estado, onde as nossas instituições comunitárias nasceram dentro de uma necessidade. Elas são comunitárias porque nasceram de uma necessidade. O mecanismo de criação não foi um instituto privado ou um empreendimento privado, foi um empreendimento público. Nasceu como instituto de educação, criado pelo prefeito da época, Dilney Chaves Cabral. Ser uma fundação foi o passo seguinte, em 1967, quando novamente esta fundação surgiu de um caráter público. Nos estatutos da Fundação Unisul, mantenedora da universidade, está bem caracterizado pelo patrimônio público. Então, não tem um dono. Naquela época, a juventude não tinha opções de curso em ensino superior. Quem podia se deslocava para fora da região ou até para fora do estado. Na capital catarinense, somente havia a Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc). Isto significa que o estudante saía e não voltava. Do ponto de vista de sustentabilidade de uma comunidade, quando você tem um jovem saindo, não tem perspectiva. Esta foi a necessidade de criar uma instituição de ensino superior para atender a esta necessidade. A Unisul nasceu deste foco, de uma necessidade da comunidade.

Notisul – O que significa para ser uma instituição comunitária?
Salésio –
O ser comunitária, pela característica do Sistema Acafe, com leis municipais criadas pelo executivo, mas geridas pelo instituto do direito privado, isto significa que ao longo desta história estas instituições – como foi o caso da Unisul – eram em um momento confundidas como públicas e em outro momento com caráter privado. Não porque tivessem um dono, não era isto, mas porque cobrava e cobra mensalidades. Porque se sustenta pela mensalidade dos alunos. Este era o princípio de fazer a relação das privadas e isto, de certa forma, criou um corpo que o próprio setor público, o governo estadual e federal, passou a entender que não deveria confiar a estas instituições projetos ou recursos públicos, por entender que eram instituições privadas. O que mudou com a nova lei das comunitárias, a partir do ano passado, onde tivemos um marco legal, foi que permitiu que estas instituições começassem a ter acesso a programas oferecidos pelo governo federal. Um exemplo é o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que antes não tínhamos acesso. Os outros projetos que agora temos acesso, por exemplo, são para aquisição de equipamentos para nossos  laboratórios, como o programa Pró-equipamentos. Além de todos os recursos de extensão, de pesquisa, que dificilmente antes tínhamos direitos de acessar. O fator comunitário tem um elemento fundamental que é oportunizar aos jovens de nossa região, mas não restrito ao sul do estado, cesso aos nossos cursos. Com a lei das comunitárias, poderemos intensificar alguns programas e passar a oferecer um melhor financiamento ao estudante. O próprio Programa Universidade para Todos (ProUni) que já tínhamos incorporado e o programa de Financiamento Estudantil (Fies) agora passam a ser ofertados em uma escala maior. Não são atos isolados, são resultados da lei das comunitárias. São instituições que não têm caráter particular e privado, mas sim caráter público comunitário.

Notisul – O que podemos esperar da Unisul nos próximos anos?
Salésio –
O que muda daqui para frente são as ofertas de melhores oportunidades. Eu diria que, passado este semestre, teremos um próximo ano com novas oportunidades, através de bolsas do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento das Instituições de Ensino Superior (Proies), através da retomada das bolsas do ProUni, que é a parte filantrópica da universidade, e também através do próprio Fies. Com perspectivas claras para os estudantes da região, advindos principalmente da escola pública, em sonhar cursar o ensino superior na Unisul.

Notisul – Quantas bolsas serão oferecidas no próximo ano dentro destes programas?
Salésio –
Internamente, costumamos dizer que este é o momento que vamos abrir uma perspectiva crescente de novas oportunidades. Nós iniciaremos com o Proeis, com algo em torno de 250 bolsas no primeiro semestre, e no segundo com mais 250 bolsas. No Prouni, com certeza, teremos mais de mil bolsas, e o Fies com número ilimitado de bolsas. Isto muda a configuração da Unisul. Onde ainda continuaremos com as bolsas do Artigo 170. Se somarmos o Artigo 170, que beneficia em torno de mil estudantes, o Prouni mais mil, Proies mais 500 e o Fies com infinitas bolsas, então teremos mais de três mil bolsas. Número que considero bastante significativo para uma comunidade regional. Efetivamente, a Unisul comunitária se consolida através destes acessos. Isto é um processo. A Fundação Unisul entrou agora com o programa de reestruturação e a universidade está se preparando para cumprir com este programa, porque na verdade estas bolsas do Proeis nada mais são do que pagamento de dívidas tributárias através de bolsas de estudos. Num percentual de 90% em bolsa e 10% em recolhimento em espécie, mas isto em um universo de 15 anos, tempo totalmente viável para a Unisul cumprir com este cronograma. 

Notisul – Muito já se comentou sobre as dívidas milionárias da Unisul. Como estão as contas da universidade atualmente?
Salésio –
Eu diria que, com o programa de reestruturação, estão reestruturadas. Aqui faço um parêntese onde não concordo com o termo de que dívida tributária seja uma dívida da universidade, por uma questão muito simples: o início do processo da universidade. A Unisul se configura como outras instituições do sistema Acafe por ser uma instituição criada pelo município. Independente de direito público ou privado, quando tem este vínculo municipal é beneficiária de uma receita advinda do Imposto de Renda retido na fonte dos empregados. Então, tudo aquilo que a lei prevê descontar do funcionário a título de imposto sobre a renda do funcionário era revertido para o orçamento da própria universidade, amparado em uma lei municipal que possibilitou realizar e amparado num parecer da própria Receita Federal, que reconheceu que esta era uma receita que ficava no município, portanto, pertencia à fundação municipal. Esta foi uma situação de anos. A partir de outro momento, a Receita não reconheceu mais e começou a notificar as instituições por falta deste pagamento aos cofres da união. A fundação contestou esta mudança na justiça, ao buscar eliminar o processo. O governo, usando seus instrumentos de leis, não concedeu mais certidão de negativa de débito para as instituições e inibiu todo o acesso a qualquer programa. Isto fez com que a crise financeira se instalasse em várias universidades. O fato do executivo federal agora fazer a remissão desta dívida do Imposto de Renda é um sinal claro que isto não era uma dívida, e sim um instrumento de inclusão social. Atualmente, a Unisul recolhe o Imposto de Renda e o passado está redimido. O que sobrou, ainda que esta também não seja considerada dívida, foi uma pendência tributária referente ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em um período que o governo não renovou a filantropia. Só que a instituição continuou e continua a realizar filantropias.  A Unisul continuou a oferecer bolsas de estudos e a fazer serviços filantrópicos na região. Se formos enumerar os serviços somente na área da saúde, extrapolam muito o valor que o governo estipulou como dívida. O que reconhecemos para o Proeis é esta dívida que será revertida em bolsas estudantis. 

Notisul – Acertadas estas dívidas, existe mais alguma pendência financeira?
Salésio –
Não. Estamos nos readequando a uma nova realidade. Como estaremos oferecendo muitas bolsas estudantis, a nossa estrutura tem que ser melhor equacionada. Então, reduzimos o número de pró-reitorias, equacionamos e centralizamos a própria reitoria e descentralizamos para campus. Melhoramos também um pouco esta relação da estrutura administrativa com o próprio corpo docente. Em outras palavras, reduzimos o custeio no número de pessoal para que o processo no oferecimento de bolsas fosse dentro da viabilidade econômica da própria instituição. Com estas medidas, o equacionamento financeiro da universidade está bem encaminhado. Depende da sua execução, de ter atitudes de novas receitas, de melhorar a otimização dos recursos e de focar nas prioridades em cima do que chamamos dos nossos ambientes de aprendizagens. Temos que ter foco no aprendizado do aluno, no processo de pesquisa e no processo de extensão. Nisto se estabelece a viabilidade, a sustentabilidade da Unisul.

Notisul – Quais são as dificuldades atuais da Unisul?
Salésio –
A dificuldade é a limitação nos novos investimentos. O nosso esforço vai ser cada vez maior em gerar recursos para aplicar na qualidade. No que compreende este investimento, primeiramente, é aplicar crescentemente na formação de novos doutores, mestres e na capacitação dos professores. O sucesso da Unisul vai estar ligado à qualidade que nós estabelecermos aos nossos produtos. Além dos investimentos em recursos humanos, o qual considero ser o principal, temos que investir em novas tecnologias. Os nossos laboratórios precisam ser implementados com novos equipamentos. O processo de aprendizagem dos alunos tem que ter elementos de tecnologias. O estudante que entra hoje em uma universidade é um cidadão acostumado a lidar com novas tecnologias, aliás, ele nasce já neste meio. E a universidade necessariamente não somente precisa acompanhar, mas entender qual é o processo de aprendizagem deste novo acadêmico. O nosso foco atual é os ambientes de aprendizagem, porque o foco do ensino está na aprendizagem e não no ensinar somente. A primeira pergunta que temos que fazer é se os nossos estudantes estão aprendendo. É claro que eu tenho que perguntar se o nosso professor ensina adequadamente. O ambiente de aprendizagem hoje se confunde com a vida real, o ambiente escolar não corresponde mais somente a sala de aula e laboratórios. A vida real é o estágio que o estudante faz na empresa, na organização, enfim, no contexto social. E o que precisa ser entendido na universidade é a forma que nossos ambientes de aprendizagem sejam também atrativos, para que o estudante possa dizer que aqui ele aprende e que aqui é motivado a buscar conhecimento. Então, a universidade tem que estar muito mais preocupada em criar este ambiência, para que este aluno possa sair depois do ensino superior questionável e conhecedor. 

Notisul – Qual é a atual estrutura da Unisul? 
Salésio –
Temos 2,5 mil colaboradores diretos – 1,5 mil são professores e mil servidores. Os indiretos são mais uns 300 colaboradores. Temos três campi. O campus sul, que compreende a sede Tubarão, as unidades de Araranguá, Içara e Braço do Norte; o campus Universitário da Grande Florianópolis, com a Unidade Pedra Branca e a Unidade Florianópolis; e o campus da Unisul Virtual, com a sede em Florianópolis e mais 77 polos espalhados por todo o Brasil. Em número de alunos, ao todo temos 30 mil, nove mil à distância.

Notisul – Como está atualmente o ensino à distância?
Salésio –
Com a lei do Proeis, estamos migrando para o sistema federal, ou seja, a nossa avaliação perante os órgãos fiscalizadores não vai ser mais feita  pelo conselho estadual, e sim pelo conselho nacional. A nossa referência será o Ministério da Educação. Como desvantagem, eu diria que com este novo sistema temos um pouco mais de burocracia e de distância, mas os indicadores de qualidade são os mesmos em exigências. Em vantagem, o ensino à distância está credenciado. Significa que os cursos à distância vão ter chancelas do MEC em nossos cursos em todo o país. Um grande diferencial, apesar de que nossos cursos serem todos legais. Agora isto mudará e muito nossa referência.

Notisul – Na sua opinião, o que falta para o desenvolvimento de nossa região?
Salésio
– Eu continuo a acreditar que quanto mais pessoas estiverem acessando a educação superior maior o desenvolvimento de qualquer região. Se obtemos sucesso ou relativo sucesso até os dias atuais, é graças a um contingente acima da média brasileira na região que tiveram acesso à universidade. O primeiro fator é continuar a buscar um maior número de estudantes para as classes universitárias. E temos também um  outro fator: a logística do sul está em fase de melhoras, do ponto de vista da circulação. Vamos ter uma BR-101 duplicada, o Aeroporto Regional Sul, em Jaguaruna, e o Porto de Imbituba, que, se este estiver reestruturado adequadamente, pode fazer esta mobilidade dos bens produzidos. Assim vamos estar bem servidos do ponto de vista logístico. O fundamental para o futuro será ter pessoas capacitadas para agregar valor nas iniciativas de produção. E conhecimento você gera com ensino superior. Não é possível adicionar valor se não há pesquisa, e somente cursos superiores bem estruturados é que permitem esta realização. Temos que investir em um vocacionamento regional, ter um foco, definir como a região quer ser reconhecida nacionalmente. Então, o primeiro ponto é infraestrutura e educação. Somente isto também não basta, tem que ser investido em uma vocação. Como ser reconhecida como região produtora de algum  bem ou serviço, sem ser notadamente  referência? Este será o fator indutor do desenvolvimento sustentável da região. 

Salésio por Salésio
Deus
– Referência.
Família – Meu chão.
Trabalho – Desafio.
Passado – Experiência.
Presente – Vida.
Futuro – Esperança

"Esperamos um ano de 2015 bem favorável para a academia".

"Não se agrega valor se não houver conhecimento".