Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Como você chegou à presidência do sindicato?
Elizandra
– Desde que foi montada a chapa de oposição à antiga diretoria do sindicato, eu participo da executiva. Mas esta questão de presidenta não gosto. Para nós, o presidente é apenas uma figura. O que importa é a união da equipe, as opiniões são respeitadas. O presidente não diz o que será feito, todos decidem. A gestão é extremamente democrata.

Notisul – Como você avalia a atuação da mulher no mercado de trabalho, hoje?
Elizandra
– Nós, mulheres, ocupamos um espaço bastante significativo no mercado de trabalho. Mas ainda há muito diferença salarial entre mulheres e homens. Eles ainda continuam a ocupar os melhores cargos e com salários muito superiores. Nós também chegamos ao topo, ainda que seja mais difícil, mas não ganhamos o mesmo. Porém, isto está mudando. Tanto é que temos representantes mulheres no parlamento brasileiro, na política municipal e à frente de grandes empresas.

Notisul – O mínimo regional está aprovado. Qual será a grande bandeira do movimento sindicalista agora?
Elizandra
– Sem dúvida, a redução da jornada de trabalho. A matéria já tramita há bastante tempo e é um projeto tão polêmico quanto o mínimo regional.

Notisul – Qual o próximo passo para a implantação do mínimo regional?
Elizandra
– O projeto foi, na verdade, articulado pelos sindicatos representativos do estado. A intenção era, no entanto, que o governador (Luiz Henrique da Silveira), enviasse a matéria. Mas, como ele não se manifestou, decidimos enviar o projeto como uma iniciativa popular. Colhemos mais de 45 mil assinaturas e, neste ponto, o governador foi bastante esperto. Quando viu que o projeto seria encaminhado, ele tomou a frente e protocolou antes. Mas isto é o que menos importa agora. O importante é a aprovação. A implantação inicia no próximo ano, no dia 1º de janeiro. A medida é válida para quem está empregado em categorias sem representação sindical. Os comerciários, por exemplo, não integram esta lei porque têm sindicato organizado e já têm um piso mínimo.

Notisul – A lei ficou dentro das expectativas dos sindicatos e trabalhadores?
Elizandra
– A única questão que não ficou como queríamos foi a implementação do salário mínimo regional. Queríamos que lei passasse a valer já neste ano. Porém, como houve um acordo, resolvemos abrir mão para não correr o risco de ter o projeto recusado. No restante, ficou como prevíamos. No momento da votação, houve uma tentativa para retirar a participação do governo do estado nos dissídios, mas não foi aceita.

Notisul – O projeto contempla algo mais além do piso salarial regional?
Elizandra
– Não. É restrito aos valores de cada categoria sem representação sindical. Direitos trabalhistas como horas extras, por exemplo, não integram a lei. De qualquer forma, a aprovação do projeto é uma vitória histórica para todos os trabalhadores catarinenses.

Notisul – É possível já prever o reflexo do salário mínimo regional?
Elizandra
– É. Quem ganha mais gasta mais também. Vive melhor. No Rio Grande do Sul, em 2001, quando o salário mínimo regional foi aprovado e instituído, houve muitas reclamações: diziam que as taxas de desemprego e informalidade poderiam chegar a patamares nunca antes vistos. Mas ocorreu justamente o contrário. Pesquisas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostraram que houve reflexo direto na economia do estado, gerou renda para todos os setores. É o que vai ocorrer aqui também, com toda certeza.

Notisul – Os empresários dizem que será complicado arcar com as despesas. Avaliam que será preciso cortar pessoal, por exemplo. Como você avalia isto?
Elizandra
– Da mesma forma que analiso a pergunta anterior. O projeto será bom para os dois lados. Mas tudo que é para o benefício da classe trabalhadora os empresários sempre são contra e reclamam. Foi assim neste projeto do mínimo regional, é assim no debate em torno da redução da jornada de trabalho. A matéria tem de forma direito e já anunciam que não será possível. É preciso ter calma e estar aberto para o diálogo. Os valores pensados para o mínimo regional não surgiram aleatoriamente. O Dieese fez estudo e chegou a valores possíveis. Não haverá quebradeira, como dizem.

Notisul – Por que houve a tentativa de retirar o governo da mesa de negociações nos dissídios?
Elizandra
– Tirando o governo, ficaria muito mais difícil conseguir um avanço em qualquer negociação salarial. Com o governo junto, a coisa muda de figura. Além disso, o projeto é este, é do governo do estado. Além disso, para garantir esta questão, asseguramos abrir mão das negociações deste ano e asseguramos que não haverá pedido de aumento salarial e a validade do salário regional será no próximo ano. Se não tivéssemos aberto mão desta questão, o mais provável é que a matéria não fosse aprovada sob a argumentação da chuva e da nova gripe, que se tornaram desculpa para tudo (risos). Mas vai valer a pena.

Notisul – Como ficará a data-base do salário? Esta parte ainda é uma lacuna na lei aprovada?
Elizandra
– Foi o que faltou. Já queríamos ter votado a lei com tudo definido, mas também abrimos mão desta questão. Uma emenda deverá ser apresentada assim que houver consenso. Creio que isso deverá ficar para janeiro do próximo ano, quando a lei começará a vigorar.