Professor e presidente do Conselho de Segurança (Conseg) de Tubarão, Maurício da Silva faz uma breve avaliação dos dados contidos no Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil. O documento, elaborado pelo Instituto Sangari em parceria com o Ministério da Justiça, traz um diagnóstico da violência no Brasil, que tem causado mortes, principalmente de jovens, nos grandes centros urbanos e no interior. “Uma das causas mais evidentes deste aumento da criminalidade é a desigualdade. O indivíduo é pobre e sente-se humilde. Daqui a pouco, o indivíduo pobre começa a se sentir humilhado. Então, ele torna-se o protagonista de um filme de polícia e ladrão. A sociedade já deveria ter gritado quando teve que erguer o muro meio metro. Hoje, temos um problema que parece sem solução. Mas há uma ainda: a educação”, desabafa Maurício.

Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – O Mapa da Violência mostra que os homicídios ocorridos no país têm como ‘motor’ o jovem. Como você avalia isso?
Maurício
– O jovem, hoje, está abandonado pelo poder público, pela família e pela sociedade. Em que aspecto? Na questão dos valores, dos limites e, principalmente, na questão da proteção. Acredito que se, de fato, quisermos retomar a vida saudável dos jovens, temos que fazer com que a família assuma sua responsabilidade, que o estado supletivamente faça sua parte e que a sociedade também faça a sua parte. Observo que a sociedade relegou esta parte, principalmente aos mais podres: ‘Deixa lá na periferia porque não estão incomodando’. O problema é que, uma hora ou outra, a periferia estoura no centro da cidade. Isto ocorre hoje em Tubarão, por exemplo. Então, ninguém pode ficar fora, de braço cruzados. Todos são responsáveis.

Notisul – Conforme o relatório, a criminalidade em Santa Catarina cresceu vertiginosamente. Um aumento de quase 100%. Hoje vemos a interiorização do crime. Como você avalia esta questão?
Maurício
– Avalio como a nossa triste realidade. Podemos, inclusive, trazer esta questão para Tubarão, porque o problema daqui é o mesmo do grande centro urbano. A Polícia Militar fez um mapa das áreas de risco da nossa cidade. O que teria que ocorrer nestes locais? A urbanização, abrir as ruas. Hoje está tudo batizado: Beco do Quilinho, Beco da Valdete. As pessoas que vivem ali estão excluídas. O poder público não chega até elas. Não entra o carro de polícia, a ambulância do bombeiro nem a máquina da prefeitura para arrumar a rua. Ali moram pessoas boas, mas também é o melhor lugar para o bandido se esconder. É nesses locais que o investimento do poder público deve ser feito. É preciso abrir as ruas, colocar escolas, creches e postos de saúde de qualidade. Obviamente, esbarra na questão financeira. Não uso de discurso demagogo, mas esta é uma questão que os prefeitos devem atentar antes que a situação inverta-se de vez. É preciso a presença do poder público para que o cidadão, até então de bem, não veja o traficante como o salvador da pátria, como bem-feitor que paga o gás, o médico e o remédio. É óbvio que a polícia vai levar pedrada, porque o ‘herói’ é o bandido. É a ausência do estado, é a ausência do poder público que reforça a presença da bandidagem.

Notisul – Hoje, Santa Catarina tem uma população carcerária de 12 mil pessoas e outras 12 mil aguardam vaga. São mandados de prisão abertos que não podem ser cumpridos por falta de espaço. O que fazer?
Maurício
– Só existe uma saída: trabalhar a prevenção e a repressão. Há muitos jovens já envolvidos no mundo do crime, mas a grande tarefa é não deixar que outros sigam este mesmo caminho. A matemática explica isso: se o poder público investe R$ 1,00 para educar, vai gastar R$ 2,00 para prender e R$ 3,00 para manter o indivíduo preso. Claro que é mais barato prevenir, mas é um trabalho com resultado a longo prazo. O desafio é resolver o imediato. O próprio sistema prisional não cumpre seu papel, que é o de ressocializar. Tem jovens que são conhecidos da polícia de Tubarão porque foram tantas vezes presos que até a PM já perdeu a conta. Isto é muito preocupante. A raiz do problema em todas as cidades do país: à medida que a criança cresce em situação de abandono, dá nisso. A família é a maior responsável, porque é neste espaço que a criança recebe os primeiros ensinamentos de cidadania, ou pelo menos deveria receber. O resultado é o nascimento do anti-herói: o bandido que dá o leite e recruta a criança, especialmente ao tráfico de drogas. Em Tubarão, praticamente todos os homicídios que ocorreram neste e no último ano estão ligados ao tráfico de drogas.

Notisul – A falta de tolerância não seria um agregador a esta situação?
Maurício
– Com certeza absoluta. O diferente sempre buscará outro diferente para conviver. O problema é que nem sempre este outro diferente é a melhor referência. A grande bandeira do mundo deveria ser a bandeira do diferente, seja esta diferença sexual, estética, econômica, social, religiosa, de raça. Você não precisa amar o diferente, mas é preciso respeitá-lo. Com isso, já é possível, sim, reduzir a disparidade entre as pessoas.

Notisul – Na sua opinião, por que um jovem entra no mundo do crime?
Maurício
– Falta de oportunidade e péssimo exemplos na infância. Não existe outro caminho para ser dar a um jovem senão o da escola e do trabalho. Todos estes jovens envolvidos na criminalidade têm uma característica em comum: saíram cedo da escola. Quanto mais conseguirmos mostrar o valor de que ganhar seu dinheiro com seu próprio suor, suas próprias mãos, é melhor e mais valoroso, mas conseguiremos afastá-los do caminho maligno.

Notisul – Na sua opinião, o que precisa ser feito em Tubarão para conter esta onda de criminalidade?
Maurício
– Acho que neste exato momento, em Tubarão, o tratamento tem que ser de choque. Tem que dar um choque de polícias. O bandido perdeu o medo. Nos últimos assaltos, vimos isso. Eles nem cobrem mais o rosto. Não se intimidam por ver um policial, um guarda municipal fardado na rua. A não presença da polícia faz com que a bandidagem se sinta autorizada a agir. O grande motivador para quem já está na marginalidade é justamente a impunidade. Esta seria uma frente de trabalho. Mas é preciso dar um segundo choque, que seria o de serviço social. Isto mostraria às pessoas que elas têm outra alternativa além da criminalidade. É preciso urbanizar, levar boas escolas e postos de saúde aos bairros.