Médico veterinário, Márcio Freccia é um apaixonado pela agricultura. Na maior parte da sua vida, o profissional de 54 anos, formado em Lages, trabalhou na Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc). Fora da entidade há dois anos, Márcio dedica-se à atividade de cirurgia e clínica de pequenos animais ao lado dos dois filhos, também veterinários.

 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – O senhor fez parte de uma comitiva que visitou Cuba. Como surgiu esta oportunidade?
Márcio – Era um sonho muito antigo. Uma curiosidade até. Durante todo o tempo em que trabalhei no serviço público, fui dirigente sindical. E surgiu o convite porque em Florianópolis existe uma subsede do consulado de Cuba. E a partir da saída do Fidel Castro, com a entrada de seu irmão Raúl, Cuba passou por um novo processo de alinhamento político, e isso deu eco no exterior, com os consulados tentando fazer um trabalho de resgate da imagem. Os consulados começaram a fazer contato com entidades que têm alguma afinidade com o sistema de vida de Cuba. Sindicatos, associações de funcionários, ONGs. E, como foi feito um convite ao sindicato, eu me escalei e fiz parte de um grupo chamado Brigada de Solidariedade a Cuba. Isso entre 21 de janeiro e 7 de fevereiro. E fizemos turismo a convite do governo de Cuba. Participei de um grupo com 80 brasileiros, todos com alguma militância político-social. E estar em Cuba por 18 dias foi muito mais que um simples roteiro turístico. Dentro da minha atividade profissional, eu conheci a agricultura, a pecuária, como funciona a vida na cidade e no campo, o transporte, turismo, como o turista é recebido. Todo aquele leque de informações que a gente aqui no Brasil não consegue nem imaginar. Viver em uma ilha. E quando se fala Cuba se pensa em uma ilha muito pequena. Cuba é um território de 1,2 mil quilômetros na sua extensão mais longa. É como ir de Tubarão ao Rio de Janeiro. Não é um lugar pequeno. Vivem de forma isolada dos grandes blocos, grandes nações. Especialmente do bloco americano. 
 
Notisul – O senhor falou que muita gente no Brasil não tem ideia de como é a realidade de Cuba. Como viu essa realidade?
Márcio – É um país isolado, com praias exuberantes, com uma gente muito alegre, muito desapegada, porque tem uma economia completamente diferente do mundo capitalista, em que a principal atração é o shopping center, fast food, revendas com carrões. Não é nessa linha que se vive em cuba. Vive-se de uma forma muito simplista. Eles têm uma frota de carros da década de 50. Mas a identificação é tão grande que virou patrimônio nacional. Chegaram a falar que eu iria para Cuba ser assaltado ou passar fome. E a surpresa que eu tive foi que eu comi bem, andei por rodovias extraordinárias, tive uma impressão muito boa sobre a segurança pública. Havana é uma cidade com 3,5 milhões de habitantes e você anda por qualquer lugar de dia ou à noite sem nenhum risco de ser assaltado. É uma sensação muito boa visitar uma cidade histórica como Havana e andar tranquilamente, como se andava em Tubarão há 30 anos. E o que chamou muito a atenção no povo é que eles são muito alegres. É um povo muito musical. A música está à flor da pele. A dança está à flor da pele. É muito bonito. É uma mistura entre a alegria e a ingenuidade.
 
Notisul – O senhor pôde perceber a visão que eles têm do mundo?
Márcio – Pude. Em uma cidade de 3,5 milhões de habitantes como Havana, tem um fluxo de turistas muito grande. Eles recebem europeus de todo o naipe, americanos de todas as Américas. Pessoal do Oriente Médio. Você anda na rua, no centro, e ouve muitos idiomas diferentes. Então, é um país acessível. A moeda deles é muito barata para nós. O que é difícil é o povo cubano sair para fazer turismo no exterior. Eles têm vontade de conhecer o mundo. Eles deixam transparecer isso. Se nós retrocedermos, na nossa economia, na década de 80, que foi uma década perdida na história brasileira, nós não podíamos sair nem para ira até a Argentina, mas éramos invadidos pelos argentinos. Isso porque ganhávamos muito pouco. E da década de 90 para cá, tivemos um crescimento na capacidade financeira. A renda per capita subiu muito e ficou para trás a história do brasileiro não conhecer o mundo. Hoje, com R$ 500,00, você vai até Buenos Aires e fica um fim de semana. Mas eles não atingem essa capacidade de sair para viajar. Conhecem o exterior através das imagens que veem pela televisão. O Brasil eles conhecem através das telenovelas e programas culturais. A comunicação é um ponto fraco. A internet é muito precária, muito lenta. Para falar por telefone, tive dificuldades. É um pais diferente. Se é melhor ou pior, eu não sei, mas é diferente. Não sairíamos daqui para viver em Cuba, e talvez um cubano não saísse para viver no Brasil. Viver daquela forma por 18 dias foi muito leve. Estar distante dessa corrida capitalista, desse desespero de ter um carro mais bonito do que o do vizinho, de usar uma roupa de grife. Lá, não existe esse tipo de ideia.
 
Notisul – E que tipos de diferenças temos de Cuba para o Brasil? 
Márcio – A indústria, por exemplo. Se você for em uma loja de lá, não tem a quantidade de produtos que você compra aqui no Brasil. Nos veículos, a reposição da frota é muito pequena. Acho que apenas uns 5% da frota seja de veículos modernos. Então, para continuar rodando, é preciso fazer uma indústria de fundo de quintal, que produz peças para que esses veículos sigam em circulação. Um adolescente em Cuba sonha ter um telefone celular, que tira fotos. Nós já passamos longe disso. Aqui em Tubarão, tem um veículo para cada dois habitantes. Eles estão longe dessa realidade. Por outro lado, o transporte público funciona melhor. Com uma frota limitada, usa-se muito ônibus. Nas rodovias, existe uma tranquilidade muito grande. São poucos veículos nas rodovias. É como se rodava na BR-101 na década de 1960.
 
Notisul – O que o Brasil poderia pegar como exemplo de Cuba?
Márcio – Educação e segurança pública. O povo de lá é muito culto. Fomos recebidos em várias escolas. Lá, quando tocava o hino nacional, todas as crianças levantavam em ato de respeito e não se ouvia uma mosca. Vimos manifestações culturais de muitas crianças. Fomos apenas em escolas públicas, e vi que eles estão muito acima do Brasil. Lá, é muito próspero o sentimento de crescer, de estudar. As bibliotecas estão sempre cheias. E, quando Cuba foi tomada pelo Fidel, aquelas mansões que eram de americanos viraram ambientes públicos, como teatros, escolas de arte. Então, eles têm a vida pública muito forte. Tudo é público. A iniciativa privada não tem muito espaço. Todos os dias nas esquinas víamos apresentações das mais diversas. Isso mostra que a escola vai bem, que a educação é um ponto forte. Também existe um sentimento de praticar esporte. Você vai em uma praça e tem muitas crianças brincando. Em que lugar de Tubarão você vê isso? Vê poucas, e sem segurança. E não é raro o tráfico de drogas neste ambiente.
 
Notisul – A saúde também é um exemplo lá?
Márcio – Sim. A primeira preocupação que tive quando acertei os detalhes da viagem foi expandir o plano de saúde para atendimento 24 horas, translado para o Brasil, para ter um direito de saúde a mais, pois ia a um lugar que eu não conhecia. O que foi um ledo engano. Em cada local que íamos, tinha um médico, um posto de saúde próximo. A saúde pública é o ponto forte deles. Sei que eles são muito bons na medicina de massa. Tanto que muitos estrangeiros fazem tratamentos lá. Em Tubarão, passamos por esse período da gripe H1N1, e precisamos pagar R$ 50,00 por uma vacina. Em uma cidade em que o prefeito era médico. Absurdo. Aqui, a medicina é elitista. Lá, é voltada para a massa.
 
Notisul – Como eles enxergam Fidel?
Márcio – Fidel é um ídolo ainda. Tive a oportunidade de participar do aniversario da revolução cubana, e fazem uma caminhada de tochas. Posso afirmar que milhares que estavam na marcha eram jovens. Se o jovem ainda idolatra um evento que ocorreu há 50 anos, imagina quem saiu de um regime ditatorial sanguinolento, o quanto o idolatrava. Então, eu tenho certeza absoluta que a grande maioria é admiradora do regime.
 
Notisul – Regime que para eles funciona…
Márcio – Funciona. A saúde funciona. A educação funciona. O que a população busca é comida. Observamos poucos carros na rua. O indivíduo, para comprar um carro, precisa ter quatro vezes o valor monetário guardado para ter aquele carro. Para comprar um carro de 10 mil, eu preciso ter 40 na poupança. Isso porque existe um apelo para não ter um bem individual. Eles pregam o uso do coletivo. A sociedade ganha com isso. Esse espaço para multinacionais virem aqui explorar e vender carro não existe lá. Com isso, o trânsito é organizado. Tem um baixo consumo de petróleo. 
 
Notisul – E na sua área?
Márcio – Na parte da veterinária e da agropecuária, vi muitas diferenças. Aqui, somos reféns de sementes híbridas, importadas na maioria das vezes dos Estados Unidos. Somos dependentes ao extremo de pesticidas e herbicidas. E, agora, dependentes de sementes transgênicas em que ocorre uma venda casada. Eles não têm isso. Em Cuba, eles mantêm as próprias sementes. Sob pena de produzirem um volume menos por área, mas não usam herbicidas. E adotam a agricultura do cultivo mínimo, que é o que a Epagri tenta passar ao agricultor. Aqui, temos o conhecimento de um número enorme de pessoas infectadas por insumos agrícolas que são descartados dos países ricos. Eles têm uma agricultura como a do Brasil antes da década de 70. Ganham muito menos que nós, brasileiros, com certeza. Mas em qualidade de vida não perdem em nada.
 
Notisul – Qual é a sua experiência como veterinário?
Márcio – Formei-me em 1982. Trabalhei dois anos como veterinário da prefeitura de Jaguaruna. E de 1984 até 2010 trabalhei na Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc). Mas eu sempre tive uma atividade paralela. Nunca deixei de lado os pequenos animais. Montamos um pequeno grupo familiar. Dois filhos são veterinários e acredito que eles devem dar continuidade a isso.
 
Notisul – E de tantas áreas, porque a veterinária?
Márcio – Eu me criei na roça. Então, tenho uma verdadeira paixão pela agricultura. Para mim, ser um veterinário ou ser um agrônomo significava ser um agricultor culto, experiente, bem informado. Mantivemos a propriedade com bovinos e produzindo arroz. Ser veterinário significou continuar aquilo que o meu pai fazia. Meu pai criava gado, suíno. Meu filho foi veterinário, não copiando o avô, mas o pai, voltada para a medicina da cidade, de pequenos animais, do cão amigo.
 
Márcio por Márcio
Deus – Arquiteto de tudo.
Família – Célula mais importante da sociedade.
Trabalho – Paixão.
Passado – Só boas lembranças.
Presente – O que tem de melhor.
Futuro – A Deus pertence.
 
"Cuba é dos cubanos realmente. Eles têm suas próprias marcas de cerveja, bebidas alcoólicas, refrigerantes, sucos naturais, cigarros e charutos, sem ter que pagar royalties sobre produtos que eles detêm toda a tecnologia. Aqui, nós tomamos água, sucos naturais com marcas internacionais que muitas vezes só têm nome. Plantam suas próprias sementes sem ter que importar híbridos, e, por conseguinte, os herbicidas. Praticam uma agricultura com cultivo mínimo imprimindo pouca degradação ao meio ambiente. A saúde da nação é amparada por uma rede de 23 faculdades de medicina. Educação em tempo integral, com ensino de artes, música, dança, teatro nas escolas, é o normal. Nenhuma escola depredada ou pichada observei por lá. Comerciais de televisão incentivam as crianças à prática dos esportes. Permanecer grudados todo o dia na internet é missão impossível. Museus e praças públicas são lotadas de estudantes". 
 
"Quando se pensa em países de esquerda, vemos com a visão da extrema direita. E essa visão é muito míope, distorcida.”
 
“A nossa engenharia, construção civil, caminha a passos largos. Eles estão distantes desta realidade”.