Zahyra Mattar
Orleans

Notisul – Como nasceu a Librelato?
Lussa – Na verdade, herdamos alguma coisa do meu falecido pai (Berto Librelato). Em 1969, iniciamos a fabricação de carroçaria de madeira. Meu pai já era empresário no interior, no tempo em que a indústria era tocada a água. Tínhamos engenho de farinha, de açúcar e serraria. Em 1964, quando as águas estavam diminuindo, viemos para a cidade, para Orleans. O pai, a mãe e os 11 filhos. Iniciamos uma madeira e fabricávamos casas de madeira. Viemos até em Tubarão construir casa. Alguns anos depois, percebemos o crescimento rodoviário e foi onde mudamos o foco da fábrica e começamos a construção de carroçarias de madeira. Levávamos uns 30 dias para fazer uma. Hoje, é uma hora e meia, duas horas.

Notisul – Mas o senhor que fabricava?
Lussa – Sim! Olha aqui (mostra o dedo torto), isto aqui foi em uma das máquinas de processar a madeira. Esmagou meu dedo em 13 de agosto de 1973…

Notisul – O senhor é bom de data…
Lussa – Ah, mas essa data não tem como esquecer. Na verdade, as datas boas e ruins a gente nunca esquece, né!?

Notisul – A empresa continua familiar, como no início?
Lussa – Italiano adora uma família (risos). Somos em 11 irmãos: oito homens e três mulheres. Mas sabe que o italiano tem uma encrenca com mulher, então, somente os homens administram os negócios. Não sou ao mais velho, mas sempre me coube ter o comando. Acho que é uma questão de perfil. Com 9 anos, já escrevia cartas para as embaixadas, para buscar informações do país e do mundo. Morávamos no interior e não tinha outra forma de comunicação. Bem, depois chegou o rádio. Sempre fui ambicioso. Mas não aquela pessoa dinheirista. Só queria ter uma vida boa. Até porque a gente teve uma educação do pai que era assim: “Não adianta ser rico, rodeado por miseráveis. Tem que ser rico e quem o cerca também estar bem”. E foi o que segui. Sempre fui muito persistente, obstinado. Quando fiz 17 anos, fiz uma lista com 17 objetivos na minha vida. Dentre eles, era ser prefeito da minha cidade (risos). Já sou o vice.

Notisul – A empresa do senhor fazia parte destas 17 metas…
Lussa – Faz parte.

Notisul – O senhor não cumpriu todos ainda?
Lussa – Não. O último é comprar um avião. Ainda não deu (risos).

Notisul – Um avião?
Lussa – É! Um aviãozinho. Não um Boing né! Um monomotor só para passear um pouquinho! (risos).

Notisul – Nossa! Qual é o penúltimo?
Lussa – (risos) É ser o presidente do meu time preferido de futebol, que hoje é o Criciúma. Antes, era o Santos. É quando chegou na meta 13, já não tinha mais o que botar. Tinha 17 anos e, naquela época, ter um avião era algo completamente impossível. Graças a Deus, o tempo foi passando e fui vendo que o impossível está na nossa cabeça. Tudo é possível quando se trabalha com determinação e honestidade.

Notisul – O senhor é um homem de sucesso. Qual o segredo?
Lussa – Não tem segredo. É trabalhar mesmo. Trabalhar com honestidade e determinação. Mas não somente para si. Para quem te cerca, como ensinou o pai. Na minha empresa, por exemplo, a telefonista está lá há 25 anos. O financeiro há 28 anos. Você tem que ter o respeito por quem trabalha com você. Acho que vem daí o nosso sucesso. Mas também o empresário tem que descobrir o perfil do trabalhador e incentivar a equipe. Não pode ter vergonha de querer ganhar dinheiro. Eu não tenho e não deixo meus trabalhadores terem. A gente vive em uma sociedade capitalista. Não pode ser hipócrita.

Notisul – O senhor tem alguma formação em nível superior?
Lussa – Tenho um ano e meio em administração de empresas, na Unisul de Tubarão. Não consegui terminar porque minhas atividades eram fisicamente muito forçadas. Eu vinha de ônibus em estrada de chão. Claro que o estudo é algo importantíssimo. Mas também não é isso que divide aqueles que chegam lá dos que não chegam. A força de vontade e a persistência que são decisivos. Meus pais tiveram oito homens e os transformaram em oito líderes.

Notisul – Então, oito donos de uma fábrica de carroçaria. Como vocês conseguiram administrar isso?
Lussa – Com o tempo, percebi que era mesmo muita gente em um único lugar. Foi então que fomos diversificando e criamos o Grupo Librelato. Hoje, temos uma cerâmica de tijolos refratários, em Lauro Müller, uma madeireira e fazenda de gado em Alta Floresta, no Mato Grosso, uma indústria de plástico em Orleans, um britador e uma empresa de terraplanagem também em Orleans. Temos ainda a Rádio Cruz de Malta, fundada em Lauro Müller, em 1949, a Rádio Guarujá, em Orleans, que foi alugada e temos uma proposta de compra para este ano, um jornal semanário, o Hoje, também em Orleans. Também somos sócios do Jornal da Manhã, em Criciúma. Em Içara, temos um distribuidor da Marcopolo (empresa do ramo rodoviário) e uma oficina que dá assistência técnica para os produtos que fabricamos e depois as duas unidades (em Orleans e Capivari de Baixo) da Librelato Implementos Agrícolas e Rodoviários, que eu administro e é o ramo em que mais somos conhecidos, porque é o segmento mais antigo em que a família atua. Em breve, teremos mais uma filial da implementos em Içara.

Notisul – Então é a Implementos que está no roll das empresas que mais cresceram em 2008?
Lussa – É. Hoje, a Librelato Implementos Rodoviários é a quinta maior empresa do ramo no Brasil. A revista Exame de agosto nos apontou como 58ª empresa brasileira que mais cresceu no país em 2008. Em Santa Catarina, somos a terceira empresa que mais registrou crescimento no ano passado, conforme o roll da revista Você S/A. Traçamos o objetivo de crescer 50% em 2008 e conseguimos atingi-lo em novembro. Em dezembro, fomos pegos por essa crise.

Notisul – Pois é. A crise. Como senhor avalia este fim de ano com crise e o começo de 2009 não muito diferente?
Lussa – A crise chegou, mas como o ano foi ótimo para a Librelato, os efeitos foram pequenos. Do Grupo, o setor que mais sentiu foi a Librelato Implementos (Agrícolas e Rodoviários), porque dependemos 100% de financiamentos. As outras ainda não sentiram os reflexos.

Notisul – Mas o senhor chegou a ter reflexos diretos no caixa da empresa?
Lussa – Direto. Tanto é que antecipamos as férias coletivas. Antes da crise, o juro era de 1.1%, o bem era financiado em 36 ou 60 meses e o valor era de 90% a 100% financiado. Aí veio a crise. O juro foi para 2%, o financiamento passou para 24 ou 48 meses e o valor permitido para financiar ficou em 70% a 60%. O suficiente para dar um baque. Um pouco foi psicológico, as pessoas ainda não entenderam de onde veio a crise e onde ela está. O mercado se retraiu. Esta insegurança também refletiu o preço dos insumos e por ser fim de ano.

Notisul – E qual a expectativa para 2009, em virtude deste momento de crise?
Lussa – Continua positiva. Em agosto, fizemos um planejamento estratégico para crescer 30% em 2009 e não abro mão de um número até que me provem o contrário. Sou persistente como todo bom e digno brasileiro, não desisto nunca! (risos). E agora não é momento de grandes análises, porque o caminhão para no fim do ano. Como costumo dizer: o Brasil anda somente depois do Carnaval. No meu setor, é bem isso que ocorre. Acredito que em março tudo comece a entrar, novamente, nos eixos.

Notisul – O senhor não é nem um pouco pessimista.
Lussa – Não. Veja bem. Qual o país do mundo que tem tudo que o nosso tem? Um clima tropical, quatro safras de grão por ano, somos quase autossuficientes em petróleo. Não tem outro país. Não tenho dúvidas de que se os governantes, o congresso fossem mais ágeis, nos tornaríamos a maior potência do mundo em dez anos. A questão ambiental, por exemplo, como somos atrasados. A duplicação da BR-101. Que dilema foi para trazer esta obra.

Notisul – Tem algum ramo que vocês não atuam?
Lussa – (risos) A família tem esta característica. Um sócio descobre um negócio novo e todos vão na onda. Até minha mãe, no alto dos seus 84 anos, tira o dinheirinho da poupança e ajuda. Somos todos sócios e todos do mesmo partido, para não dar briga (risos).

Notisul – Pois é! Como foi esta candidatura de última hora?
Lussa – O candidato que nós apoiávamos (Valmir Bratti – PP) foi impugnado na quinta-feira, dia 2 de outubro. Minha candidatura foi registrada na sexta-feira, às 18 horas. A eleição foi domingo e ganhamos (Lussa como vice e Jacinto Redivo – DEM – como prefeito) nas urnas com 71 votos (risos).

Notisul – E prefeito? Quando o senhor se candidata?
Lussa – Já poderia ter concorrido, mas não podia abrir mão da empresa. Mas agora já vou começar a preparar a empresa para ficar quatro anos sem mim. Deus me deu sabedoria e força e eu quero contribuir mais diretamente com a minha cidade. Hoje, sou vice e ainda vou concorrer a prefeito. Quero transformar meu município em um pólo, como são Criciúma e Tubarão.

Notisul – O senhor começou na política quando?
Lussa – Sempre gostei de política. Sempre coordenava as campanhas, há mais de 30 anos. A nossa família é terrível para a política. Se não tiver alguém para puxar o freio, eles fecham a empresa e vão tudo para a rua pedir voto (risos). E os filhos já vêm com o mesmo ímpeto.

Notisul – O senhor, pelo visto, é bem ligado à família…
Lussa – Ah, sou sim! É uma mistura. Herdamos a agregação familiar dos nossos pais italianos e o carisma do brasileiro (risos). Italianos não são muito de abraçar, reunir a família, ir visitar. A raça é ruim mesmo. A gente costuma dizer que o italiano só se encontra em casamento ou enterro (risos). Mas nossa família mudou isso. Somos muito unidos. Algumas coisas mantemos. Um exemplo são as mulheres. Mulher de sócio não trabalha nas empresas. É proibido porque complica tudo.

Notisul – O senhor é machista?
Lussa – Não. Tanto que nas nossas empresas, a maioria dos colaboradores são mulheres. Eu acredito nas mulheres no trabalho. No nosso governo em Orleans, que assumimos no dia 1º, nomeamos duas mulheres secretárias (saúde e educação), no departamento jurídico também será uma mulher. Mas, nas empresas, temos que evitar porque já somos todos família. Aí fica gente demais e estraga o casamento. Depois, os dois chegam em casa e vão falar de quê?

Notisul – E o futebol. O senhor segue com os patrocínios este ano?
Lussa – Sou santista de coração, Criciúma por opção e agora tubaronense, porque também patrocinaremos o Atlético Tubarão este ano. Este ano, vamos patrocinar o Criciúma e o Atlético Tubarão. Fechamos um contrato de seis meses com as duas equipes. Adoro futebol. É um vício. E também porque tinha o meu sobrinho, Maycon Librelato (jogador do Internacional gaúcho, falecido em 2005, em um acidente de carro), então, sempre fui ligado ao esporte. Futebol é uma das coisas que me tiram do sério. Brigo e xingo (risos). Acompanho os jogos. Coisa de louco. Fui na copa da Argentina com a Brasília emprestada do meu irmão, e na da França, onde vi a seleção perder naquele jogo de dar ódio a qualquer torcedor. Que absurdo!

Notisul – O senhor pode adiantar alguma coisa do contrato?
Lussa – Não. Cifras não vêm ao caso. Só posso dizer que não é barato. Mas o investimento maior é na socialização com a população, tanto em Criciúma quanto em Tubarão. O futebol tem a façanha de unir todos, independente de situação financeira, raça, credo. E é disso que gosto. Estar no meio do povo. Além disso, no domingo, não tem nada melhor do que ver um futebolzinho na TV. É melhor do que o mala do Faustão (risos).

Notisul – O senhor joga?
Lussa – Não. Meu negócio é ser torcedor. Morávamos no interior e não tinha essa de brincar de futebol. Naquela época, se começava a trabalhar muito cedo. Com oito anos, eu saía do interior e ia para a cidade vender leite. Era quatro quilômetros a pé, descalço. Não tinha dinheiro para comprar sapatos. Não é a facilidade que é hoje. Íamos à missa com o sapato na mão, chegava na igreja, lavava o pé, e colocava o sapato. A volta: pé no chão. Se chegasse em casa com o sapato calçado, apanhava. E isso ocorreu ontem. Por isso que eu digo: o Brasil começou ontem, há 30 anos. As pessoas têm mania de comparar com a Europa, mas a Europa existe há séculos. Temos que dar mais crédito para nós mesmos. Confiar mais no nosso país e lutar por ele. Quem fabricou esta crise, por exemplo, foram os poderosos do mundo. Não podemos pagar a conta.