Ailton Nazareno Soares, 71 anos, é reitor da Universidade do Sul de Santa Catarina desde 2009. Tem graduação em geografia, estudos sociais e ciências econômicas pela Unisul, Foi diretor do Centro Intercolegial Integrado de Tubarão (Cicit), secretário de administração do governo de Tubarão. Trabalhou como coordenador do curso de ciências econômicas, secretário geral de ensino, diretor administrativo, assessor de planejamento, pró-reitor acadêmico, pró-reitor de administração e diretor do campus da Grande Florianópolis. E este ano prepara-se para assumir a direção da Fundação Unisul.
 
 
Lily Farias
Tubarão
 
Notisul – De que forma você contribuiu para o crescimento da Unisul?
Ailton – O grande trabalho que tentamos realizar neste período foi dar continuidade ao trabalho que a Unisul desenvolve desde  1989, quando foi criada a instituição, tendo na sua base um planejamento estratégico. Quando assumi, em 2009, me preparei para elaborar o plano de gestão até 2013, estava alicerçado em quatro pilares: educação, ensino pesquisa e extensão, sustentabilidade, pessoas, e o pilar da cultura. Em função disso, elaboramos uma proposta para reorganizar todas as áreas dos curso de graduação da universidade. Fizemos um grande movimento de quatro anos. A partir de março de 2013, os novos alunos terão uma proposta curricular diferenciada. Passamos este período preparando um novo modelo de gestão. Foi exaustivamente analisado e concluído para pôr em prática em 100% dos cursos já neste ano. Tivemos uma equipe específica trabalhando. O novo modelo será avaliado semestralmente pelo próximo reitor e sua equipe. Essa gestão terá um trabalho bastante importante na implementação do projeto, pode se caracterizar bastante inovador, mesmo não sendo novidade no mundo.
 
Notisul – O que esta mudança vai trazer de benefícios para quem entrar na universidade este ano e para quem já é acadêmico?
Ailton – Vai ter uma grande flexibilização nas grades curriculares. Se um acadêmico durante o curso de graduação tem interesse em estudar um conteúdo na área de gestão, poderá fazer sem precisar fazer outro vestibular. Isso agrega na diplomação, o aluno sai do curso com a certificação de um conteúdo extracurricular. Não vai aumentar o tempo de curso porque será possível fazer em outro período. Outra proposição é a linha da pesquisa aplicada, trabalhamos desde 1997 com este serviço e hoje o aluno pode, através de projetos acadêmicos, inserir um novo projeto para um produto ser vendido no mercado.  Para nós, é interessante, porque vinculamos àquele seleto grupo de universidades brasileiras que trabalha com essa linha de pesquisa. Porque a maioria trabalha com pesquisa acadêmica, que realiza pesquisa para poder concluir o curso e sobre isso recebe avaliação. É uma visibilidade que a universidade tem de se projetar não só como academia, mas ter alunos para serem diplomados e ter professores para capacitar estes alunos. Estamos tentando colocar tudo isso numa dimensão além dessa de conhecimento científico e também do conhecimento tecnológico voltado para o mercado de trabalho. É interessante porque é uma nova visão para nós, mesmo que exista há bastante tempo.
 
Notisul – Como é a estrutura da Unisul hoje?
Ailton – Há a estrutura da grande Florianópolis, em Pedra Branca, e duas unidades no centro de Florianópolis. Temos uma estrutura física que começa aqui em Tubarão, com esse campus. Fazem parte desse as unidades de Braço do Norte, Içara, Araranguá e um escritório em Imbituba. As perspectivas que temos nesse campo é o desenvolvimento regional. Somos parceiros das prefeituras, secretarias de desenvolvimento regional, associação comercial e industrial, clube de dirigentes lojistas. Colocamos à disposição o nosso conhecimento científico para transformar em propostas de desenvolvimento para a região. Trabalhamos em 2009/2010 com o projeto Prosperidade Sul Catarinense, em parceria com a Unesc, em Criciúma. Este projeto abriu portas para uma série de projetos que foram incorporados por candidatos a deputado e prefeito da região. Foi identificado  por esse e trabalhados alguns pontos fundamentais da infraestrutura e estrutura que o sul de Santa Catarina tem que ter para poder alcançar um nível de crescimento melhor. Uns exemplos, o porto de Imbituba, o aeroporto, a rodovia Interpraias, a conclusão da BR-101. Nada disso é inovador, mas a maneira como discutimos a partir de um documento, e como foi socializado para todas as entidades políticas, empresariais e públicas dá um fundamento científico para que tudo isso transforme o processo. Não entra na linha do “achismo”, mas identifica proporções muito claras a respeito disso. Outro documento que os profissionais da Unisul entregaram no fim do ano na Fiesc, em Florianópolis, foi sobre os prejuízos causados pelo atraso da BR-101. Quantos bilhões de reais tivemos de atraso na nossa vida política, social? São documentos que estruturalmente estão dentro desse nosso campus e servem de perspectiva para projetos futuros. 
 
Notisul – Tem também a Unisul Virtual.
Ailton – Trabalhamos nesta linha há 13 anos e hoje temos quase 15 mil alunos. Nossa sede é na unidade de Pedra Branca, com abrangência nacional. Temos polos em 93 cidades, um polo em cada capital. Para isso, fizemos parcerias com instituições e empresários que têm sua estrutura física montada e num contrato abrem a Unisul Virtual. Ao todo, são 25 cursos que contemplam até alunos do exterior: Estados Unidos, Londres e alguns países da África do Sul. Não dá para negar que a aula virtual é o presente que já é futuro. Começamos aqui estruturados, em 1964, com 40 alunos de economia, primeiro curso da Unisul. Depois, migramos até 1988 e conseguimos a liberação para sermos uma universidade. No início da década de 1990, fomos para Araranguá, evoluímos e fomos para Florianópolis em 1996, e hoje estamos em 93 cidades. Então, é um crescimento constante que é parte não de uma linha de entusiasmo, mas de uma linha de estratégia estruturalmente montada na universidade desde que foi criada e é implementada gradativamente com perspectiva de crescimento para poder se manter por um tempo. Óbvio que mantemos oscilações financeiras porque dependemos do mercado. Temos curso que não vende mais porque não tem atrativo. Estamos sempre atentos às inovações para não ficarmos amarrados a estruturas que não causam mais impacto na percepção dos futuros alunos.
 
Notisul – Seguindo essa linha  de planejamento, onde a universidade pode chegar?
Ailton – Nossa perspectiva é a concretização do nosso planejamento, que começa a funcionar na nova gestão, que tem quatro anos para consolidar o novo modelo. Isso é um passo fantástico. Agora eles terão que fazer uma avaliação, um ajuste do processo de flexibilização que nos permite pela Unisul Virtual entrar fortemente na educação continuada. Necessariamente, para o aluno se posicionar no mercado. Claro que não irá deixar de lado uma pós-graduação, entretanto, ele poderá ter áreas de conhecimento que, ao longo do trabalho, necessita e poderá ter conhecimento agregado à graduação. A tecnologia que oferecemos está disponível para qualquer um. De um lado, o novo modelo tem uma pesquisa aplicada como referencial para ingressarmos no seleto mundo de universidades brasileiras que fazem pesquisa aplicada, e de outro lado temos a educação permanente fundamentada na Unisul Virtual. Certamente, não teremos mais fronteiras.
 
Notisul – E as dificuldades que a universidade enfrenta?
Ailton – Uma delas é que determinados cursos não têm mais demanda como tinham antes. E, quando isso acontece, tem que rever a oferta. Posso não ter uma grande quantidade de alunos para abrir uma turma, mas posso ter um número grande deles se oferecer a possibilidade de matrícula virtual. O curso de economia em Tubarão foi o primeiro e não existe mais. Colocamos na Unisul Virtual e hoje o curso tem mais de 300 alunos. O curso de filosofia também não tem mais aula presencial e na Unisul Virtual temos mais de 600 alunos no Brasil.   
 
Notisul – Essa dificuldade a reitoria driblou facilmente. E a respeito do imposto de renda, como ficou a situação?
Ailton – Não aceitamos a medida do governo em pagar parte de um montante de aproximadamente R$ 983 milhões com a oferta de bolsa de estudos para alunos de baixa renda. Porque, se entrássemos no sistema deles, não teríamos condições de pagar. Então está em processo. Dentro do sistema Acafe, somos 12 universidades, todas têm o mesmo problema, só quem entrou foi a Unesc, de Criciúma, e a Univali, de Itajaí, porque tinham parte do patrimônio indo a leilão, foram abrigadas a aderir ao pagamento. Não temos nem o reconhecimento da dívida. É um processo jurídico que irá se arrastar por algum tempo.
 
Notisul – E como estão as contas da universidade hoje?
Ailton – Estamos andando sempre atrás de melhores condições de caixa. Dizer que trabalhamos em mar de rosas não existe. A universidade passa por períodos estáveis, mas não dá para esquecer que somos uma empresa. Chega fim de ano, tem que pagar férias, 13º e salário de funcionários. Mas, economicamente, temos uma estabilidade forte, temos um patrimônio bom, e um excelente modelo de trabalho. As variações financeiras às vezes nos atrapalham, como o caso dos cursos que não vendem. Quando abrimos o curso, montamos uma estrutura, temos um custo fixo de até quatro anos e, como não há demanda, vem o prejuízo. A universidade não é um bar onde você coloca uma bebida à venda e depois de alguns meses sem retorno tira da prateleira. A instituição é  conhecimento, e o artífice desse conhecimento é o professor. Não se pode simplesmente tirar uma leva desses professores e botar outra na universidade. 
 
Notisul – Para ter todo esse entendimento, é preciso um bom relacionamento com os alunos, não é?
Ailton – Aí tem uma certa hierarquização da gestão. O reitor não pode estar semanalmente ao lado dos acadêmicos. Mas lá estará o diretor e o gerente do campus, além do coordenador do curso. Este sim ter que ter um contato diário com os estudantes. O processo não funciona numa linha vertical direta. Tudo resolve-se na área gerencial.
 
Notisul – Há alguma forma de reduzir as mensalidades e o aluno não sentir tanto no bolso?
Ailton –  O que é caro e o que é barato? Somos um país emergente, onde a educação deveria ser prioridade, junto com a saúde. Mas, infelizmente, não é. Se fosse, não estaríamos discutindo valor de mensalidade, estaríamos discutindo participação,  integração conceitual e assim por diante. A realidade é que ainda estamos discutindo preço, que é apenas um fato dentro desse processo. Já tivemos experiência de baixar mais de 50% do valor da mensalidade e, mesmo assim, não teve procura em determinado curso. O preço não é uma variável isolada porque tem cursos que se vende a R$ 120,00 por mês e não tem aluno e tem curso que se vende a R$ 4 mil por mês e tem 40 alunos por vaga. O problema está no preço ou na perspectiva do teu futuro? Há aumento na mensalidade apenas para acompanhar o mercado, mas sempre aumentando dentro de uma perspectiva inflacionária, nunca fora disso.
 
Ailton por Ailton
Deus – Amparo.
Família – Fundamento.
Trabalho – Nem demais, nem de menos.
Passado – História.
Presente – Começo da história.
Futuro – Não existe.
 
"Somos um país emergente onde a educação deveria ser prioridade".
 
"Ingressarmos no seleto mundo de universidades brasileiras que fazem pesquisa aplicada e de outro lado temos a educação permanente fundamentada na Unisul Virtual”.

"Sobre a fundação Unisul, garanto que não há como gerar conflitos entre o futuro reitor da universidade, Sebastião Salésio Herdt. Iremos trabalhar em conjunto, como fizemos até hoje."

"Em 2006, Manoel Bertoncini foi candidato a deputado estadual. O apoiei e entrei no PSDB. E conheci um dos homens que mais admirei, pela sua lealdade, integridade, comprometimento. Tenho muita saudade."

"Cada gestor que entra sabe que tem uma proposta para ser trabalhada e um futuro a ser dimensionado."