Fabíola de Souto tem 37 anos, é casada e tem um filho de 6 anos. Formada em direito na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), atua há 17 anos em um escritório de advocacia. No universo alternativo, Fabíola encontra o equilíbrio como instrutora de Iyengar Yoga – para lidar com as adversidades e urgências do mundo moderno. Doula há um ano, encontrou no ofício uma paixão e, por meio dele, se doa às futuras mamães ao proporcionar conforto físico e emocional em um momento tão especial da mulher.

 

Letícia Matos
Tubarão

 

Notisul – O que é ser uma doula?
Fabíola –
Doula é uma palavra que veio do grego e significa aquela que serve. É uma profissional que atende as gestantes e a parturiente e lhes oferece conforto físico, emocional e muita informação. É uma acompanhante. No ambiente de parto sempre existiram mulheres que acompanhavam outras mulheres – que era a mãe, a tia. Hoje não existe mais isso. E o ambiente hospitalar não tem este apoio físico e emocional. A doula veio como esta profissional. 

Notisul – É considerada uma profissão?
Fabíola –
É uma profissão, porém não está regulamentada no Brasil. Não existe uma lei que diga o que precisa para ser uma doula. Mas é reconhecida como profissão. Em algumas cidades já está em fase de regulamentação, como em Blumenau, que criaram uma lei sobre as doulas. Pelo código de ética das associações nacional e internacional, a doula deve ter uma formação. Eu tenho esses cursos, mas a lei não exige. Então qualquer pessoa pode ser… a princípio.

Notisul – Quando você sentiu a necessidade de atuar como doula em Tubarão?
Fabíola –
Veio como uma busca pessoal. Eu tive uma gestação e fui submetida a uma cesariana. Queria o parto normal, mas acabei caindo no conto da necessidade do parto cesárea. Na época, há quase sete anos, eu não tinha ninguém para contratar, mesmo que eu quisesse. Passou um tempo, criei meu filho, ele cresceu e resolvi voltar a estudar o assunto. Entrei em alguns grupos no Facebook sobre amamentação, criação de filhos, e uma coisa foi puxando outra. Acabei voltando para a discussão da história do parto e comecei a estudar. Resolvi fazer um curso, em Porto Alegre, da Associação Nacional das Doulas (Ando) e achei tudo ótimo.

Notisul – Em que fase da gestação a mulher deve procurar uma doula?
Fabíola –
Em qualquer fase. Pode contratar uma doula no começo da gestação, no final. Quanto mais cedo melhor. Como dou aula para gestante, de yoga, vou meio que ‘doulando’ elas durante as aulas. Trocamos muitas informações. Porque a doula estuda para esta troca de informação. Para orientar: vai estudar em tal lugar, tal livro é legal, o profissional é bom para isso. A doula conhece a fisiologia da gestação, porém não faz nenhum procedimento médico ou de enfermagem. Nada! Não encosta na mulher para a questão de saúde. Mas posso fazer uma massagem, ensinar um movimento para melhorar um desconforto da gestação ou do parto. Se vier antes, melhor. Terá mais consulta pré-natal e mais tempo para conversar e tirar as dúvidas. 

Notisul – Qual a maior preocupação das gestantes hoje?
Fabíola –
Elas se preocupam com tudo e querem saber sempre mais. Mas, por exemplo, hoje em um atendimento médico a pessoa se consulta e fala que está com dor. Eles dizem que é normal. São desconfortos naturais. E são mesmo. Mas de onde que vem isso? O que eu faço para mudar? O que ocorre com meu corpo? Onde o bebê fica e o que acontece com o resto que está lá dentro? A doula troca informações sobre isso. É um assunto mais amplo que em uma consulta médica não ‘dá tempo’ de conversar tudo. Passa muita coisa na cabeça de uma gestante, ainda mais se é o primeiro filho. Todas devem ter o acompanhamento médico, mas o conforto emocional também é primordial para a saúde da mamãe e do bebê.

Notisul – Há bastante procura por este serviço?
Fabíola –
Está começando a aumentar. Quando fiz o curso pensei que não daria certo. Liguei para alguns profissionais e falaram que era loucura. O hospital não aceita muito. Depende do plantão. O hospital está num processo de humanização, até por causa das exigências do Ministério da Saúde. Em conversas dá de notar que a direção quer muito, mas existem muitos profissionais resistentes a mudar. E eles veem a doula como uma fiscal. Eu que sou advogada, pior ainda (risos). 

Notisul – E essa resolução para estimular o parto normal? Você acha que ajuda mesmo?
Fabíola –
Ajuda. Porque é muito uma questão comercial. Envolve muito dinheiro. Tanto para o hospital quanto para o médico. Não é rentável ser um médico que atenda parto natural. As mulheres querem ter o direito de escolha, mas elas não têm quando não sabem o que vai acontecer. Elas acham que é assim mesmo. Chegam ao hospital e se o médico fala: – vou colocar o soro. Ela concorda. – Vou fazer cortes… A mulher não sabe e deixa tudo. Ela só quer que o filho nasça vivo e bem, e isso está bom. O processo não importa muito. Mas o que percebemos com as nossas gestantes é que são experiências bem satisfatórias, bem mais emocionantes. Elas se sentem muito mais poderosas porque fizeram do jeito que desejavam, da forma que estava bom para elas. 

Notisul – Qual o tipo de parto seria o ideal?
Fabíola
– É o parto que a mulher escolhe fazer. O ideal é aceitar a escolha da mãe. Na água, sentada, em pé. A mulher sente o momento e sabe o que é melhor para ela e para o bebê. Instintivamente ou não. Inconsciente ou não. Mas ela sabe! 

Notisul – Quais os benefícios do parto normal?
Fabíola –
A recuperação rápida. É natural. Não tem intervenções, a mulher não recebe nenhum tipo de droga, não tem o corpo cortado, não precisa passar por uma cirurgia de risco (infecção hospitalar). O bebê tem menos incidência de doenças, porque ele é colonizado pelas bactérias da barriga da mãe, então tem menos chance de ter alergia, asma, infecções. A mulher se sente mais capaz. A incidência de depressão pós-parto é menor. A amamentação é mais fácil no parto natural, porque na cesariana o leite demora a descer. A amamentação se dá muito na primeira hora de vida e um bebê que nasceu com anestesia, ele fica mais lento (molinho) e não vai mamar tão bem na primeira hora de vida. Nas cesarianas eletivas, as agendadas, a incidência de desmame antes dos três meses é muito maior que um parto natural ou uma cesariana intra-parto.

Notisul – E como foi a sua gestação?
Fabíola
– Eu estava de 40 semanas e o médico já tinha agendado três cesarianas para mim e não fui a nenhuma. Ele só fazia as cirurgias nas sextas e segundas-feiras. Em uma sexta-feira ele ligou e disse: – Se tu não vieres na segunda eu não sou mais teu médico e se teu filho morrer a culpa é tua. Daí veio a interferência da mãe, do marido e acabei cedendo. Falavam que já havia passado do prazo e tal. Mas sei que as evidências científicas falam em até 42 semanas. Mas fiz a cesariana. 

Notisul – Onde as pessoas podem encontrar o seu trabalho?
Fabíola –
Trabalhamos em uma equipe. O nome é Zoe – nascer divino – apoio perinatal. Somos eu, uma enfermeira, mais uma doula e uma educadora perinatal. Quem tiver dúvidas pode entrar em contato pelo email zoenascerdivino@gmail.com. Também promovemos rodas gratuitas para gestantes, mamães, homens, profissionais de saúde. É toda a última quarta-feira do mês, às 19 horas. Escolhemos um tema e discutimos. 

Fabíola por Fabíola
Deus – Namastê
Família – Tudo
Trabalho – Diversificação
Passado – Caminhada
Presente – Adoro
Futuro – Resultado

"A mulher sente o momento e sabe o que é melhor para ela e para o bebê. Instintivamente ou não. Inconsciente ou não. Mas ela sabe"!