Tubaronense, formado em medicina veterinária pela Udesc de Lages. Juliano Menezes Battisti e o irmão, Eduardo, também veterinário, administram a Animed Clínica Veterinária, sediada na Cidade Azul. Voluntário em organizações de defesa e auxilio aos animais de rua da região, Juliano abriga, hoje, dez bichos em sua casa. A maioria deles vivia na rua. Nina é a gata. Um dia apareceu pela clínica e ficou por lá! Tem também o Hércules e a Mégara, dois labradores. O restante da cachorrada veio da rua: Bola, Bia, Tetê, Perneta, Lucy, Willy Caolho (sim, eles viam Os Goonies!) e Van Persie (isso mesmo, aquele holandês do Manchester United). As opiniões, as vezes incisivas, refletem os anos de experiência e o coração de voluntário!

Zahyra Mattar
Tubarão

 

Notisul – Existe uma crescente humanização dos animais domésticos. Deixaram de ser cães e gatos para se tornarem filhos. O que você acha disso?
Juliano –
Existe um limite. Eu também tenho animais em casa e me pego tratando como filho. Desenvolvemos um amor tão verdadeiro por eles e isso é uma consequência quase que natural. Mas o resultado pode ser desastroso se não atentarmos que o pet é um animal e ele tem necessidades e instintos que precisam ser respeitados. Um exemplo bem prático são os banhos. Nenhum animal deve tomar banho semanalmente. Esta prática diminui a resistência da pele e abre a porta para várias doenças, como infecções e alergias. O problema é que o que achamos bom para nós queremos aplicar neles. Xampus com cheiro, perfumes, branqueadores, esmaltes e tinturas de pelos agradam somente aos humanos. Acredite, nossos pets detestam.

Notisul – Dar restos de comidas pode trazer que tipos de prejuízos?
Juliano
– Pode desenvolver várias doenças, inclusive algumas que podem ser transmitidas para os humanos, como é o caso da toxoplasmose. Os danadinhos veem a gente comendo e vêm pedir. É normal. Alguns alimentos devem ser proibidos, como carnes cruas, cebola, molhos, frutas cítricas, chocolate, açúcar, resto de churrasco (por causa do sal). Mas um pedacinho de mamão ou de maça, por exemplo, não faz mal. Mas isso é um agrado e não deve ser a alimentação principal. O que pode ser feito é a troca do sabor para que eles sempre estejam estimulados a querer a ração. O correto é buscar uma ração boa, preferencialmente uma super premium e de uma marca renomada.

Notisul – Na sua opinião, o que leva uma pessoa a abandonar um animal?
Juliano –
O verão é a época de maior número de abandonos. O pessoal vai para a praia e deixa o bicho para trás. Meu irmão (Eduardo) trabalhou um tempo no Centro de Controle de Zoonoses de Tubarão e viu muitos casos de abandono ou de pessoas que levavam cães idosos e doentes para lá porque não querem mais cuidar. Sempre a mesma desculpa: um familiar está doente e não tem mais tempo, vai se mudar ou o gasto é muito alto. Não consigo entender como uma pessoa que passa dez anos ganhando amor daquele cachorrinho tem coragem de doá-lo  ou abandona-lo porque ele está velho. Claro que não se pode julgar, mas particularmente é difícil entender isso. Tem gente que joga o cachorro na rua até porque é feio. No voluntariado vejo coisas inacreditáveis. Tornamos os gatos e cachorros nossos dependentes e depois queremos que eles se virem sozinhos.

Notisul – Na sua visão, como solucionar a questão dos cães e gatos de rua?
Juliano –
Acredito que isso só vai melhorar quando houver leis mais rígidas e punições mais severas. Infelizmente o brasileiro somente respeita a lei quando o bolso dói. Se depender só da consciência, não acredito que terá mudança significativa. A lei atual é boa, mas não é aplicada com rigor. Além disso, a castração é o melhor caminho para acabar com a população de cães e gatos de rua. Além de evitar a reprodução desenfreada, a castração ajuda a prevenir doenças, em especial nos felinos.

Notisul – Como identificar maus tratos quando não existe nada aparente?
Juliano –
É bastante difícil. Até mesmo quando o animal está em uma situação ruim pode ser complicado afirmar que aquilo é maus tratos. Pela lei, um cachorro de porte médio que fica preso em uma corrente curta, no tempo e recebe comida apenas uma vez ao dia já é vítima de maus tratos. A questão é você provar. E a maioria das pessoas tira o corpo fora quando a polícia é chamada. É a tal da lei do esforço mínimo. Todo mundo pega o celular para fazer o vídeo, mas ninguém toma a frente para defender o animal que está sendo agredido, ninguém fica para registrar a ocorrência sob a argumentação de que não tem tempo ou não quer se incomodar.

Notisul – O que fazer em casos de envenenamentos?
Juliano
– Correr para o veterinário. Quem mora muito longe, pode tentar dar água salgada para estimular o vômito ou tentar dar uma dose de carvão ativado, se tiver em casa. Isso vai ajudar a retardar a ação do veneno. Mas isso não substituição ou elimina a necessidade de um exame clínico. Além disso, os procedimentos necessários para tentar salvar a vida do bichinho só podem ser feitos por um médico veterinário graduado e em uma clínica, pois o animalzinho precisará ficar internado.

Notisul – A nova moda é dar filhotes de gatos, cães, peixes, tartarugas, hamsters e até galinhas como lembrancinhas de festas de crianças. O que você acha disso?
Juliano –
O maior absurdo do mundo. Animal não é presente, mesmo que seja para um filho. Antes de mais nada, os pais – ou qualquer outra pessoa – devem pensar muito bem se um bichinho não vai alterar a rotina familiar a ponto de virar um incomodo. Porque se for um incomodo, não adote, não compre. A maioria das pessoas que faz isso sem pensar acaba por abandonar o animal depois.

Notisul – Como você avalia a modificação genética para o suposto melhoramento das raças?
Juliano –
A moda não deveria existir quando o assunto é animal, seja os de estimação ou não. A estética só agrada aos humanos. Os animais sofrem com isso. E sofrem muito. A seleção que a natureza faz é a mais perfeita do mundo. 

Notisul – Por que você acha que a chipagem de animais ainda não deslanchou no Brasil?
Juliano –
Difícil responder o motivo, mas é mais do que benéfico implantar o microchip nos pets. Principalmente para servir como prova da posse responsável. No chip vai estar computado o nome do proprietário, o endereço e até mesmo um histórico do bichinho. Seria de grande valia se a microchipagem fosse obrigatória e houve um cadastro. O maior interesse é do poder público, mas não vejo isso ocorrer por aqui tão cedo. O grande problema é quer cachorros e gatos não são eleitores. Se fossem, pode ter certeza que já teria lei e fiscalização.

Notisul – Ações como a de dar desconto no IPTU para quem adota animais de rua, a exemplo do que está sendo feito em Araquari, no norte do estado, pode trazer algum resultado positivo por aqui?
Juliano –
Não só aqui, mas em todo o estado, em todo o país. Hoje, as pessoas, os voluntários, fazem o trabalho que deveria ser encabeçado pelo poder público. Tem gente que cuida de 30, 40 cães sem qualquer ajuda. Nada mais justo do que ter um desconto no imposto.

"Quem quer ter um animalzinho somente para mostrar, é melhor que tenha um de pelúcia".