O médico Reginaldo Boppré é mais que apaixonado pela profissão. O tubaronense veio de uma família humilde e não mediu esforços para conseguir estudar medicina. Tem os títulos de especialista em angiologia, cirurgia cardiovascular periférico, cirurgia endovascular e radiologista. É professor do curso de medicina da Unisul há 11 anos. É diretor do corpo clínico do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) e presidente da Associação de Angiologia e Cirurgia Cardiovascular na Regional de Santa Catarina.  Inspirou-se no avô Hugo Boppré para se tornar médico. O avô estudou medicina no Rio de Janeiro, mas não chegou a concluir o curso. 
 
 
Karen Novochadlo
Tubarão
 
Notisul – As doenças cardiovasculares são as principais causas de morte? 
Boppré – Sim. Hoje, as maiores causas de morte súbita são as doenças cardiovasculares. Em primeiro lugar, é o infarto agudo do miocárdio; em segundo, são os acidentes vasculares cerebrais (AVCs) isquêmicos ou hemorrágicos; e, em terceiro, o tromboembolismo pulmonar. 
 
Notisul – Sempre foi assim ou é um fenômeno da atualidade?
Boppré – Normalmente, as doenças cardiovasculares são desencadeadas por vários fatores. Na doença cardiovascular periférica, como por exemplo a trombose de membros inferiores, onde se corre o risco de amputar uma perna, o principal fator de risco é o tabagismo. Quem é fumante tem um risco altíssimo de ter doenças coronarianas, cerebrais, como o AVC, e aterosclerose (entupimentos das artérias). Outro fator de risco é a hipertensão não tratada e as dislipidemias, que são as gorduras no sangue, principalmente o colesterol e os triglicerídeos. Um grave  problema é a proteína LDL, que é um colesterol ruim. Essa proteína, junto a outras condições, pode levar a um enfarto agudo, um acidente vascular cerebral ou uma trombose na perna. Outros fatores como a obesidade, a falta de exercícios físicos e os enzimáticos podem levar à formação de aterosclerose. O infarto agudo do miocárdio causa cerca de 300 mil morte por ano no Brasil. 
 
Notisul – Como é este infarto?
Boppré – O sangue sai do coração no lado esquerdo e espalha-se pelo corpo a cada pulsação, a cada sístole ventricular. Esse sangue é oxigenado. Ele voltou dos pulmões. É um sangue bem vermelho e vivo. Ele circula pela artéria aorta e espalha-se por todo o corpo, levando o alimento, o oxigênio e a glicose para as nossas células e tecidos. O sangue vai até as extremidades do nosso corpo e retorna pelas veias ao lado direito do coração. Ele vai aos pulmões, onde troca o gás carbônico pelo oxigênio. Por vários fatores que já apontamos, pode formar-se uma placa de gordura nas artérias, que nós chamamos de ateroma. Este é composto por tecido fibroso, cálcio, colesterol, triglicerídeos. Um dia, por estresse ou atividade física exagerada, essa placa pode sofrer uma hemorragia e levar a oclusão aguda da artéria. Ou crescer e ocluir a artéria coronária. Quando acontece isso, o músculo do coração que se chama miocárdio fica sem nutrição e infarta. Isso também é comum nas pernas. Quando tem uma trombose aguda nas pernas, o pé fica com sinal de isquemia, com  palidez e hipotermia, dor, parestesia (pé dormente), às vezes chega a perder a motricidade. Isso pode levar a uma amputação. Quando ocorre nas carótidas, é um infarto cerebral agudo. 
 
Notisul – O infarto cerebral é o AVC?
Boppré – Recentemente, tivemos a morte prematura do jornalista Ênio Batista, que teve um infarto agudo cerebral. Não foi por arteriosclerose. Ele teve uma dissecção aguda da artéria carótida interna. A dissecção é diferente. Ocorre porque, às vezes, já nascemos com um defeito chamado necrose cística da camada média ou temos algum pique hipertenso de uma hora para outra. Não há a formação de uma placa. O que ocorre é que o sangue entra no meio das paredes da artéria, levando a uma oclusão. Foi o que aconteceu com Ênio, teve uma dissecção aguda do carótida interna. 
 
Notisul – Existe alguma causa? 
Boppré – Não se sabe a causa. É escrito que às vezes nasce com esse problema na artéria. Já ouvisse falar de uma pessoa que morre de aneurisma cerebral? A pessoa chega na emergência com dor de cabeça, desmaio, crise convulsiva e vai para UTI . E é diagnosticada com aneurisma cerebral. Acredito que 15% ou 20% da população nasce com isso, que é uma dilataçãozinha numa artéria. É como se fosse uma bolinha. A pessoa pode viver muitos anos e sem nenhum problema. Se aquela pessoa tem uma hipertensão grave ou fatores de risco associados a aterosclerose ou é fumante, diabético, tem uma crise hipertensiva, o aneurisma pode romper. Quando rompe, o sangue cai dentro da cabeça e a pessoa morre. Esse é um outro defeito. Alguma alteração Ênio tinha. Conversei com o médico dele, Arthur Furlanetto. A carótida estava toda dissecada. O cérebro estava morto e infartado. São defeitos congênitos que às vezes não aparecem, você pode viver 100 anos e não ocorrer nada. 
 
Notisul – Mesmo se a pessoa tiver uma vida sadia, não tem como evitar uma dissecção?
Boppré – Às vezes, não temos como fazer o diagnóstico. Nosso sistema vascular é muito grande. Você não tem como determinar qual o fator determinante ou defeito congênito que essa pessoa pode ter no seu corpo. Quando aparece, é uma catástrofe. O tratamento de dissecção é clínico.  
 
Notisul – O número de diabéticos tem aumentado muito nos últimos anos?
Boppré – Acredito que sim. Existem dois tipos de diabetes, o 1 e o 2. O tipo 1 é o que o pâncreas não produz a insulina ou produz pouco. Esse é mais comum nos jovens. Às vezes, crianças já nascem diabéticas. O diabetes 2 é o do adulto. Ele produz insulina insuficiente para o metabolismo das células. Acredito que esta epidemia está relacionada principalmente ao fator alimentar. Hoje, come-se muita coisa industrializada, gordura e açúcar. Temos muitos pacientes que não fazem os exames. Não consultam médico. Muitos têm que passar por amputações. Temos aquele paciente que machuca o pé e 48 horas está com necrose.  Tem gente que nem sabe que é diabético. 
 
Reginaldo por Reginaldo
Deus: É a força maior que me inspira. É um ser perfeito infinito e criador do universo. 
Família: É o alicerce da vida. 
Trabalho: É que o dignifica o homem durante sua existência na terra.
Passado: Experiências vividas.
Presente: É o que me dá alegria. Quando luto pelos meus sonhos.
Futuro: A concretização dos meus sonhos e do dia a dia. Acima de tudo, a Deus pertence.
 
"O principal fator que leva à dissecção é a hereditariedade. Um exemplo é um orientador meu, doutor Langer. O pai dele havia morrido aos 53 anos, de infarto agudo. O doutor era magrinho, jogava bola. Quando ele fez 54 anos, falou para nós que passou o grupo de risco do pai. Disse que não tinha nada e fez todos os exames. Nas férias, ele foi passear em Fernando de Noronha com outro colega. De manhã, os dois foram correr na praia. O que é fator hereditário? O doutor passou mal ao caminhar na praia, e teve um infarto. Chamaram um carro, fizeram choque com a bateria do carro. Na autopsia, descobriram que estava todo infartado".