Natural de Capivari de Baixo e vinda de uma família simples, a professora Marilene da Rosa Lapolli sempre acreditou que o estudo lhe abriria portas. Formada em filosofia pela Unisul, com qualificação em sociologia e psicologia, ministra aulas há 30 anos. É doutoranda em história contemporânea pela Universidade de Leon da Espanha. Ministra aulas nos cursos de administração e pedagogia da Unisul. É coordenadora do projeto de extensão do curso de administração “Quem não lê, não escreve”. 
 
 
Karen Novochadlo
Tubarão
 
 
Notisul – Como surgiu a ideia para a criação de um projeto de extensão para incentivar a leitura no curso de administração, em escolas e empresas? 
Marilene – A ideia do projeto surgiu quando discutíamos a proposta pedagógica do curso de administração, em 1999. Nos deparamos com a frase “quem não lê, não escreve”. Pensamos: por que não fazer um projeto com esse título? Fizemos um projeto de leitura, a partir da necessidade de incentivar a leitura de temas transversais para desenvolver talentos e formar líderes, lema do curso, e aperfeiçoar as produções textuais dos acadêmicos. O projeto tem o objetivo de desenvolver gestores, gerentes, líderes, nas comunidades e nas empresas. Em 2001, começamos em Tubarão e 2002 em Araranguá. O desafio era fazer a leitura de um livro por semestre, por uma base transversal. Vários livros foram trabalhados, como, por exemplo, O Monge e o Executivo, o Ócio Criativo, o Segredo de Luísa, os Dez Mandamentos da Ética. A parte da obra que falasse sobre ética ficaria a cargo do professor da disciplina. O trecho sobre finanças seria de responsabilidade do professor de gestão financeira ou estatística. O projeto foi criando corpo, estrutura. Todos os professores se engajaram. No fim do semestre, realizávamos um fórum para discutir temas. Em um destes fóruns, participou um gestor da empresa Anjo Tintas (de Criciúma), que gostou do projeto e queria que fosse aplicado na empresa. Nós aceitamos esse desafio. O projeto de ensino também se tornou de extensão. Ele ficou intitulado “Quem não lê, não escreve: Parceria Interinstitucional de Responsabilidade Social”. Dentro da empresa, nós e os gestores refletimos que devíamos estender o projeto a uma escola. Escolhemos a que estudam os filhos dos funcionários. A nossa rede de relacionamentos foi ampliando.  No fim de 2007, a direção da escola sentiu a necessidade de registrar poemas dos alunos feitos durante o projeto. Conversamos com a Unisul a possibilidade de custearmos um livro. Ampliamos a ideia. Publicamos o primeiro livro, com as experiências da universidade, da empresa e da escola.
 
Notisul – O projeto foi estendido a outras empresas?
Marilene – Com a divulgação do primeiro livro, a Livraria e Papelaria Marielle, de Tubarão, conheceu projeto. A segunda parceria firmamos com a papelaria em 2008. Muitos filhos de clientes e de funcionários da papelaria estudam na Escola Henrique fontes. Resolveram adotar algumas turmas da escola. Desta vez, começamos a trabalhar com escritores da Academia Tubaronense de Letras (Acatul). A rede aumenta e o marketing social também. Isso nós denominamos de responsabilidade social, que é o comprometimento de todos na busca de resultado social.  Na segunda edição, fizemos uma publicação mais completa. A Gráfica Humaitá se ofereceu para editar e patrocinar parte do livro. Em 2010, começamos a trabalhar com a Gráfica. Interessante destacar que mesmo após o fim da parceria com a Anjo Tintas e a Papelaria Marielle, os dois continuaram a tocar o projeto. Nosso papel como universidade foi fazer esta assessoria. 
 
Notisul – Vocês percebem o desenvolvimento de perfil de lideranças durante o projeto?
Marilene – Esse projeto não apenas incentiva a leitura, como permite o planejamento interdisciplinar, que é o sonho dos grandes pesquisadores da educação. Nestes 30 anos em salas de aula, eu vejo como os alunos ganham, quando três ou quatro professores conseguem fazer um trabalho interdisciplinar. Isto envolve uma pesquisa. É bem gratificante. No começo, eles ganham os livros e depois passam a comprar livros. Em um dos desdobramentos do projeto, nós fizemos a leitura do livro 50 anos de jornalismo, do membro da Acatul, Edgar Nunes. Os alunos leram e compraram o livro do autor. Depois, fizemos uma mesa redonda com todos os representantes da imprensa. Nessa mesa, eles materializaram o que leram. Na empresa, o que me emociona é ver os profissionais no horário de trabalho pararem para estudar. 
 
Notisul – Como são feitas as escolhas dos livros?
Marilene – O tema do livro é sempre escolhido a partir da necessidade da empresa. A Gráfica Humaitá, por exemplo, está em um processo de mudança, com a expansão do espaço físico da empresa, com máquinas novas. Nós optamos pela leitura de Quem Mexeu no Meu queijo. O pessoal brincou que Quem não lê, não escreve mexeu conosco. Começamos a discutir no encontro que a mudança realmente mexe com a gente.
 
Notisul – Tem algum exemplo de alguém que participou do projeto e te emocionou? 
Marilene – Vários exemplos. Na empresa Anjo Tintas, foi lido o livro Fernão Capelo Gaivota: Voar mais alto. Um funcionário com apenas o ensino fundamental fez uma fala sobre a liberdade que, para mim, que sou profissional da filosofia, foi uma fala filosófica. Ele pergunta se nós podemos nos sentir livre quando ainda buscamos o sentido da liberdade. Foi uma reflexão muito profunda. Na Gráfica Humaitá, também há muitos exemplos. Os funcionários trouxeram a música Metamorfose Ambulante. Nós cantamos acompanhados de um violão dentro da empresa no horário de trabalho. É uma mudança grande em relação ao período pós-revolução industrial. Até a década de 80, os profissionais eram extremamente escravizados no ambiente de trabalho. Hoje, eles estudam, discutem, levam questões para os gestores. 
 
Notisul – O perfil das empresas está mudando…
Marilene – Neste histórico, da revolução industrial até agora, imperou o capitalismo selvagem, onde o grupo privilegiado explora a maioria. Esse era o modelo social. Hoje, nós estamos conseguindo entender que não é necessária este tipo de relação. A Anjo Tintas, por exemplo, já colocou redários no descanso dos funcionários. São empresas que estão à frente do tempo. Percebemos que nestes locais a produção é maior e melhor. As relações interpessoais também se fortalecem, quando os gestores superam aquela relação de cobrança e passam a uma relação de cooperação. Nessa relação, percebemos que os gestores são verdadeiros líderes e não mandatários. O líder é aquele que tem o poder de persuasão. 
 
Notisul – Como os funcionários veem o projeto “Quem não lê, não escreve”?
Marilene – O depoimentos dos funcionários são bem significativos. Eles têm acesso à universidade. Muitos voltam a fazer capacitação. Veem como é importante voltar a ler e escrever. Falta muito trabalho de conscientização. Há muito trabalho assistencialista. Os outros trabalhos de responsabilidade social também somam. 
 
Marilene por Marilene
Deus: Energia do amor.
Família: Grupo social de luta.
Trabalho: Ambiente de aprendizagem e crescimento contínuo.
Passado: Luta, buscas. 
Presente: Muitas realizações, sonhos realizados e muitas lutas.
Futuro: Busca contínua.
 
"Falta criar o hábito de uma leitura numa rede, por exemplo. Sempre pergunto em uma sala de aula, 
com 50 ou 60 alunos, quem é que tem uma rede em casa. Quase ninguém tem. Depois, pergunto quem ao menos uma vez por semana costuma ler numa rede? Nem televisão, que as pessoas são viciadas, assistem, principalmente a classe média".