Dâner Mairon tem 30 anos e é natural de Nova Palma, no Rio Grande do Sul. Desde os 12 anos de idade foi incentivado a realizar atividades físicas por um dos sete irmãos, que o levava para a academia. Ainda garoto, jogou futebol amador. Chegou a fazer teste para a base do Grêmio, aonde chegou a treinar, mas retornou para o futebol de sua cidade. Apaixonado pelo esporte ingressou na Universidade Federal de Santa Maria, no curso de Educação Física, focado em trabalhar com o futebol. Mudou a sua visão já no terceiro semestre, onde decidiu atuar na área da musculação e laboratório de fisiologia, onde foi pesquisador. Trabalha no Clube 29 e é um dos fundadores da Tubarão Personal, equipe que atende atletas da região e pessoas que buscam uma melhor qualidade de vida. Mora longe da família há oito anos e encontrou, na esposa, um aconchego. “Acolheram-me muito bem. Minha sogra é minha segunda mãe. É incrível”, declara. Agora, mesmo longe de casa, a família de Dâner aumentará. A sua primeira filha, Alice, está para nascer nos próximos dias. “É emocionante pensar nisso. Traz muita alegria para mim e para a minha mulher”, revela sorridente.
 
 
Fernando Silva
Tubarão
 
 
Notisul – Como é o trabalho de um personal trainer e como iniciou a Tubarão Personal?
Dâner Marion – Somos uma equipe de cinco profissionais. Fernando Oliveira, Tiago Gomes, Keller e a Rafaela. Depois, vieram outros estagiários e desses, três se efetivaram aqui no clube. A Tubarão Personal já existe a muito tempo. Era o Keller e eu. Este ano, incluímos os outros. A procura na região é grande. Nossa equipe, hoje, atende cerca de 120 clientes. Tubarão é um grande mercado para essa área. O sul do Brasil cresceu muito neste ramo. Uma grande procura que atendemos é a reabilitação pós-cirurgia, alguma lesão que tenha a muito tempo e vem trabalhar, aí por exemplo a osteoporose, que daí fazemos um trabalho de recuperação muscular – na musculação mesmo -, que é ganho de massa óssea, no caso o fortalecimento.
 
Notisul – Esse trabalho é diferente do que se realiza na fisioterapia?
Dâner – Na verdade é a sequencia da fisioterapia, que trabalha nas primeiras sessões, quando a pessoa acomete a lesão, e após a liberação do fisioterapeuta, entramos com um trabalho de finalização desse tratamento e uma continuidade para a pessoa não vir a sofrer mais com esse problema. Normalmente o que acontece. A pessoa fazendo ou não uma cirurgia, ela trabalha em torno de dez a 15 sessões com o fisioterapeuta, depois, conosco, passa de um a dois meses. 
 
Notisul – Com que idade uma pessoa pode começar a fazer academia? 
Dâner – Então, existem pesquisas que mostram que a partir dos 9 anos já começa a ter benefícios importantíssimos com exercícios localizados de fortalecimento. Só que a gente recomenda que se comesse com 13 ou 14 anos, porque é uma idade que o adolescente já sabe o que quer. Uma criança de 9 anos na academia, se não for com trabalho individualizado, ela acaba desconcentrando, faz movimento errado, e pode acabar se lesionando. Mas não é o problema da musculação, é o problema da criança ser dispersa na atividade. Se ela tiver concentração, já é recomendado a atividade. Em uma intensidade baixa, mas já é recomendada para o fortalecimento. Não é o exercício para ganhar massa muscular, é para fortalecer tendões e ligamentos. Se ela for fazer com intensidade moderada, é liberado qualquer atividade.
 
Notisul – E quando são pessoas com mais idade? 
Dâner – A principal atividade é de treinamento de força na musculação. Depende do tipo de trabalho que ela procurar. Mas o idoso, em via de regra, é força. Nem sempre eles fazem isso, às vezes fazem uma hidroginástica para redução de impacto. É interessante para conciliar com o treinamento de força, mas a hidroginástica sozinha não é interessante. Treinar força aumenta a tensão muscular, que faz com que o cálcio seja melhor absorvido pelo osso e garanta uma maior densidade óssea. A estrutura óssea fica mais forte. 
 
Notisul – Como funciona o atendimento de um atleta com vocês na Tubarão Personal?
Dâner – Hoje, nós já trabalhamos com os atletas da Associação Tubaronense de Ciclismo e os nadadores da Associação Tubaronense de Natação. Boa parte dos atletas já faz musculação aqui desde adolescentes e continuam na fase adulta. Temos um caso, como a Fernanda Delgado, ela faz trabalhos em um estúdio, de musculação, porém voltados para a área dela, a natação. Quando fala-se em esporte, os trabalhos são sempre direcionados para a atividade de cada atleta. Então, fazemos treinamentos de força, porém funcionais.
 
Notisul – Do seu ponto de vista, o treinamento físico dos atletas de Tubarão é incentivado?
Dâner – Há muita procura, sim, mas incentivo não. Eu converso muito com o treinador do ciclismo e da natação. São eles que batalham por recursos e enfrentam bastante dificuldades. A natação está alguns passos na frente de outros esportes aqui na região, mas porque conseguiu resultados melhores, mais expressivos. Há recursos privados. Por parte do município, hoje, ajuda-se no que pode, não sei como funciona, geralmente se dá o transporte, sempre dão auxílio, mas, infelizmente, nunca é o suficiente.
 
Notisul – Como funciona a questão de suplemento hoje? Têm pessoas que entram na academia e tomam uma série de produtos, é necessário?
Dâner – Existem pesquisas que provam que 95% das pessoas que vão para a academia não precisam tomar aquele suplemento, pois somente com a alimentação que elas já têm é o suficiente. Agora, quando falamos em atleta, estes sim precisam tomar a suplementação porque não conseguem por  meio da via alimentar ingerir tudo o que precisam. Então, o praticante de academia, que treina uma hora por dia durante cinco dias da semana, em via de regra, ele não precisa de suplementação.
 
Notisul – E como a pessoa pode ver se precisa tomar ou não?
Dâner – Nutricionista. São os profissionais que podem fazer um balanço do que a pessoa ingere, do que ela gasta e do que ela precisa. Ou melhorar a alimentação, ou buscar o suplemento. O personal pode até dar dicas, mas não indica, o veredito mesmo é do nutricionista. É quem sabe realmente recomendar e avaliar cada caso. Hoje, temos parceiros, mas não nenhum na equipe da Personal, porém indicamos os profissionais.
 
Notisul – E quais órgãos podem ser afetados por esse consumo errado de suplementos?
Dâner – Rim e fígado. São os mais prejudicados. Mas também o coração pode ser afetado, no caso do uso de anabolizante pode-se prejudicar o pulmão, aumentar os riscos de câncer. Partiu para o anabolizante já se aumenta o risco em vários setores.
 
Notisul – Como funciona o uso do anabolizante hoje? Quando a pessoa sabe que precisa ou não usar?
Dâner – Por meio de exame hormonal. Usa-se o hormônio para repor um déficit, ou uma melhora de performance, no caso do pessoal da academia o uso é estético, porque aumenta o ganho de massa muscular. Não é nem ganho de força. Quando se fala em atletas que usaram, geralmente é para fins de performance. Mas se for tomar, só com indicação médica. Aí é avaliado se não está sobrecarregando o rim, fígado. Aí se faz os exames específicos para ver. 
 
Notisul – Mesmo com esses riscos, o anabolizante é facilmente encontrado para comercialização?
Dâner – Não é para ser. Mas hoje é. Mercado negro não é difícil. Hoje, se a academia é pega vendendo algum hormônio desse tipo, ela é fechada. Mas não há fiscalização. Não há uma fiscalização nem do CREF – órgão regulamentador -, nem da vigilância sanitária. 
 
Notisul – E na questão do suplemento? Hoje existem diversas lojas especializadas nesse comércio, você acha que também deveria ser melhor controlado?
Dâner – O suplemento é liberado. Mas devia ter uma fiscalização maior. Do anabolizante até o suplemento. Não deveriam ser vendidos tão indiscriminadamente. Hoje, é um mercado que gira muito dinheiro e sabemos de produtos que já foram proibidos, surgem com nomes diferentes e continuam no comércio normalmente. 
 
Notisul – Entrando na questão do personal, como funciona o treino?
Dâner – Orientamos que o cliente treine duas vezes por semana, ou três, que é o número de vezes ideal, e a gente tenta sempre unir o trabalho do personal, com as atividades ao ar livre. Por exemplo, se a pessoa faz musculação duas vezes por semana, tentamos unir com o pessoal que pedala, corre, que nada, que são as atividades em alta agora. Indicamos três dias de atividades, pelo menos uma hora cada, isso é básico. Quem pode fazer um pouco mais na semana, melhor, pois alterna o tipo de exercícios para não ter sobrecarga específica, por exemplo.
 
Notisul – Como as pessoas podem averiguar se encontraram um bom profissional e uma boa academia hoje?
Dâner – Primeiro, verificar o currículo do profissional. Via de regra, as pessoas chegam às academias e nem sabem se os profissionais são formados, graduados, se tem mestrado ou doutorado. Essa é uma indicação de qualidade. Não que o profissional que tenha doutorado seja o melhor, mas indica que a pessoa procurou se aprimorar mais, tem mais tempo de trabalho, é uma grande indicação.
 
Notisul – A profissão de personal é regulamentada? Tem piso salarial, sindicato?
Dâner – Tem o CREF, que fiscaliza, é regulamentada, se não me engano, desde 2007. É bem nova e teve um crescimento enorme de 2002 a 2013, o profissional passou a ser muito valorizado. Muito por causa da mídia, e grande parte pelos profissionais da educação física que fizeram pesquisas e conseguiram levar isso para a mídia. Hoje, por exemplo, um profissional de educação física não precisa fazer propaganda. Quem faz a propaganda dele é a mídia, a televisão está toda hora mostrando os benefícios das atividades físicas. 
 
Notisul – Hoje o que você avalia como dificuldade da profissão?
Dâner – A carga de trabalho é alta. Eu trabalho de 14 a 16 horas por dia. Autônomo, mas, regulamentado, são 44 horas semanais, por exemplo, aqui no clube ninguém tem mais do que isso, temos 20 ou 30 horas cada um. Mas como autônomo… é porque quer, porque precisa né? Outro problema seria um piso de hora aula, tanto na parte de funcionário de academia quanto como personal, porque não existe isso. Varia muito de região para região e cada um cobra o que quer. Poderia haver uma fiscalização maior e melhor sobre isso. Tem gente que cobra, aqui na nossa região, em torno de R$ 30,00 a 60,00 reais a hora-aula. Que não necessariamente chega a uma hora exata, podem ser 30 ou 40 minutos e pode ir até uma hora e meia. Há aluno que não consegue fazer uma hora inteira de atividade, outros que passam um pouquinho. Então, depende de uma adaptação de cada um. Mas então, seria essa luta do piso. Acho que a fiscalização deveria ser feita pelo CREF, eles que deveriam avaliar de região para região, de repente, até mesmo discriminar de uma região para outra. Sabemos que existem regiões mais ricas. Mas teria de ser pelo CREF porque o profissional que cobra um valor mais baixo não vai querer cobrar mais caro, pois vai perder a clientela, e quem cobra mais caro não vai querer dar desconto no preço também, então tem muito disso. Pelo menos, um piso de hora aula seria muito interessante. Até para promover uma concorrência mais justa.
 
Notisul – Falamos muito na questão da qualidade de vida, mas e na parte estética? Como é o pessoal que procura para ficar com corpo definido, bonito?
Dâner – É grande também. Mais pelo público feminino. Os homens vêm com restrição de outros esportes, estresse do trabalho também. As mulheres são sempre mais voltadas para a estética. Muita preocupação com o peso. Hoje temos alunos que vieram por questões médicas e acabaram ficando depois por questões estéticas e de qualidade de vida. Alunos que vieram obesos e hoje que treinam com 70 ou mais quilos. O que é muito legal, porque são caras que fazem meia maratona e outras atividades.
 
Notisul – Sobre a obesidade, hoje em dia algumas pessoas procuram o recurso da cirurgia bariátrica para emagrecer, do seu ponto de vista, é válido?
Dâner – Pelo menos tem que tentar realizar um acompanhamento com nutricionista, com um personal. Tentar. Na realidade, é o que chamamos de tratamento convencional e o cirúrgico. É a mesma questão da lesão. Às vezes, você chega e tenta o convencional e depois a cirurgia como último recurso. Na obesidade, deveria ser a mesma coisa. Normalmente, o pessoal procura por ser mais fácil. Quer atingir o resultado rápido, mas tem muitas restrições. É muito interessante, dá bons resultados, mas aumenta o risco de voltar a ser obesa, aquisição de algum vício como álcool ou drogas, para suprir a falta da comida. Independente, o ideal é sempre procurar, antes e após a cirurgia, o acompanhamento de profissionais para atividades físicas. O mesmo vale para as cirurgias articulares. Tem que ter o fortalecimento. Se não tiver, aumenta-se a chance de dar errado e voltar a sofrer com a lesão e no caso da perda de peso, de voltar a ser obeso.
 
Dâner por Dâner
Deus – Tudo.
Família – Alicerce para trabalhar e voltar para casa.
Trabalho – Um lazer, me divirto muito.
Passado – Inspiração.
Presente – Vivo o presente.
Futuro – Meus sonhos, do passado.
 
"Há muitos suplementos que não trazem benefícios, somente fazem mal para a saúde”.
 
“Existe fiscalização, mas não é o suficiente para banir o comércio irregular de anabolizantes”.