Bancário aposentado do Banco do Brasil (em 98), ex-vereador e ex-vice-prefeito de mandato único por opção e convicção, o atual secretário de desenvolvimento econômico da prefeitura de Tubarão, Celso Meneghel, sabe usar o conhecimento a seu favor. Paciente e estrategista, coube a ele a missão de estruturar tudo que diz respeito ao fomento econômico. Aos 63 anos, ele anuncia uma decisão que definitivamente não será bem-vinda para quem aplaude seu estilo de trabalho: fica até o fim do mandato do prefeito Manoel Bertoncini. “Em dezembro do próximo ano, já vou ter 64 anos e meio. E com esta idade não há joelho que aguente. O meu só melhora quando vou pescar na lagoa de Garopaba do Sul, em Jaguaruna (risos)”.

 

 

Zahyra Mattar
Tubarão
 
Notisul – O prefeito Manoel Bertoncini criou uma super secretaria e pegou Celso Meneghel, que é governo, mas não estava no governo, para descascar o abacaxi. E agora?
Meneghel – Foi o que eu pensei na época (risos). Não é fácil, garanto. Acho que, quando o prefeito me escolheu para esta pasta, ele deve ter pensado em não colocar um político. E o motivo que relevo para ter este pensamento é que o político tem que ter resultados para se eleger. Aqui, nesta secretaria, é preciso ter em mente que agricultura, turismo, indústria e comércio não são setores que crescem em meses. Na verdade, pode levar anos. Acho que os resultados do que faço hoje não serão vistos enquanto eu estiver aqui, somente depois. Acredito que, se fosse político, estaria em uma ansiedade desgraçada, bem maior do que estou hoje.
 
Notisul – Não é perturbadora esta demora de resultados?
Meneghel – Quem falar que não, mente. Mas é preciso ter paciência. Os resultados são importantes e virão, mas é gradativo. Ninguém cresce do dia para a noite. Tive sorte porque peguei um trabalho excelente já feito. Soratto (da Silva Júnior, seu antecessor) entregou-me a secretaria redonda. 
 
Notisul – A indústria sempre foi um calo para Tubarão. Por mais que se tente, é difícil expandir o setor. O que falta?
Meneghel – Uma identidade. Tubarão não tem uma vocação anunciada. A cidade ainda não sabe em qual setor pode destacar-se e não foca investimento. Fazemos de tudo um pouco, mas nada muito concentrado. Parte é porque se acredita que a indústria é que puxa o desenvolvimento. Na verdade, o pensamento deve ser: onde há indústria forte, há progresso; onde há turismo forte, há progresso; onde há agricultura forte, há progresso. Entende a diferença? Todas as áreas estão conjugadas, não é possível trabalhar isoladamente.
 
Notisul – Como está a questão do condomínio empresarial?
Meneghel – Esta é uma dívida do governo do Dr. Manoel que será paga em breve. Para mexer no terreno, precisávamos dos projetos hidráulico, elétrico, das ruas, esgotamento sanitário. A novidade agora é que estes projetos estão totalmente finalizados e vamos começar a executá-los. Acredito que a primeira etapa, que é a retirada das árvores, comecem a ser feita ainda neste mês. A segunda fase é o processamento do terreno, que está dividido em 21 lotes.
 
Notisul – Como será feita esta cessão?
Menenghel – Com critérios, porque o município precisa garantir o retorno. Vamos ceder o terreno por dez anos. O empresário tem dois anos para colocar o seu negócio em funcionamento. Nos outros oito anos, ele precisa exercer a atividade pleiteada. Se no fim deste tempo a empresa estiver em funcionamento como proposto, recebe a área como doação. Se ocorrer o contrário, o município volta a ser o dono da área.
 
Notisul – Quantos projetos de instalação de empresas foram apresentados?
Meneghel – Já tenho 30 processos. Destes, 21 serão selecionados. O espaço que iremos dispor é destinado para micro e pequenas empresas. Dependendo da atividade, não poderemos ceder. Por exemplo: se o negócio pretendido é uma transportadora, já não dá. Mas é possível uma fábrica de móveis, uma serralheria.
 
Notisul – O que será feito com os projetos que não se encaixarem?
Meneghel – Mesmo que tenhamos somente 21 lotes e 30 projetos, não deixaremos de atender a todos os empresários que nos procuraram. Se não se encaixam no condomínio industrial, vamos ofertar outras áreas que temos à disposição. Por isso que gosto de dizer que teremos 30 novas empresas na cidade, e não 21.
 
Notisul – A maior reclamação de 11 em cada dez empresários (risos) é a falta de mão-de-obra qualificada. Quais os planos para mudar esta realidade?
Meneghel – Deveria ser levar todo mundo de volta para o banco escolar. Mas não podemos fazer isso. É quase um paradoxo: Santa Catarina tem hoje cerca de oito mil vagas de emprego em aberto. Deve ter pelo menos o trilho de pessoas desempregadas. O problema é que a maioria não tem qualificação e também não busca aprender. Tem gente que tem vergonha de voltar a estudar. Temos várias ações que serão desempenhadas ainda este ano, a exemplo do Projovem, parceria com o governo federal. Ainda há muito por fazer, mas falta interesse das pessoas em participarem.
 
Notisul – Há algum tempo foi divulgada a possibilidade do município efetuar parcerias público-privadas. Como está a questão?
Meneghel – Bem avançada. Acredito que conseguiremos viabilizar uma no valor de R$ 22 milhões. Tudo para investir na nossa principal carência: infraestrutura. Esta é uma questão nova nas cidades, mas que pode beneficiar e agilizar a solução para ter desenvolvimento efetivo. Hoje, as prefeituras passam por dificuldades. Não é apenas Tubarão. O dinheiro vai para Brasília e voltam apenas migalhas. Deveria ser o contrário. E foi por isso que pensamos na PPP. Estamos em negociação com uma empresa de Joinville há cerca de um ano.
 
Notisul – Como funciona?
Meneghel – São investidores da iniciativa privada que realizam obras no município. Funciona como se fosse um empréstimo com um banco ou viesse uma verba da União. Eles vêm, realizam a obra com o dinheiro deles e a gente paga depois. No nosso caso, o recurso que negociamos será para esgotamento sanitário, drenagem, construção de pontes  e pavimentação. O interessante é que o trabalho feito por estes investidores é refeito depois de um certo tempo. Por exemplo: se firmamos um contrato de 20 anos e eles asfaltam a rua hoje, daqui dez anos eles retornam e refazem a pavimentação, como se fosse uma manutenção. Tudo isso é previsto em um contrato.
 
Notisul – Não é arriscado para o município?
Meneghel – Não, desde que o contrato seja cumprido. Obviamente, o empresário não é tolo. Neste contrato há um fundo garantidor, que funciona de forma semelhante a um cheque calção. Por exemplo: pegamos R$ 22 milhões para injetar na cidade. Além de demonstrar a capacidade de pagamento da prefeitura, temos que ter um fundo que garanta o pagamento deste valor em um determinado prazo. Este fundo pode ser feito por meio de um seguro ou do empenho de patrimônio.
 
Meneghel por Meneghel
Deus: Se ele não existisse, nós não existiríamos.
Família: É a maior e principal estrutura do homem. Se a família está desestruturada, o homem está destruído. É uma pena que é uma instituição que decretou falência.
Trabalho: Sofro do trabalho. Se levantar depois das 6 horas e for dormir antes da meia-noite, me sinto um vadio.
Passado: É passado. Azar dele (risos).
Presente: Viver o presente é o que se deve fazer, ainda que seja difícil porque a gente quer sempre o que está no futuro.
Futuro: Preocupante, especialmente por conta da classe política e da impunidade. Parece ser endêmico no nosso país. O país do maldito jeitinho. Mas ainda é possível reverter.
 
Quando falamos em condomínio empresarial, focamos o investimento no micro e no pequeno empreendedor. Em Tubarão, onde é baixo, alaga. Onde é morro, desliza. Mas isso não quer dizer que existam locais apropriados. Temos outras áreas em avaliação, onde temos a intenção de implantar um parque industrial. Ah, não olha com essa cara porque não vou dizer onde fica esta área. Quando a gente adianta, a coisa mela (risos).