Luiz Davenir Duarte é natural de Laguna. Filho do meio entre nove irmãos, tem 77 anos. É casado há 47  anos. Tem uma filha e um neto. É professor de ensino religioso em Tubarão. Veio para a Cidade Azul no fim da década de 40. Trabalhou como alfaiate e contabilista. Até que decidiu por estudar letras na Unisul. Licenciado, passou a dar aulas de língua portuguesa. Foi uma das vítimas da enchente de 74, e foi acolhido com a sua família pelos padres, com quem morou por cerca de um ano e meio. Nesse tempo, foi convidado a dar aulas de ensino religioso, foi quando descobriu a sua verdadeira vocação. Retornou para a universidade e graduou-se em ciências religiosas. Hoje, atua como professor em cinco escolas municipais e está às vésperas de se aposentar. Mesmo assim, continua apaixonado pelo que faz.
 
 
Fernando Silva
Tubarão
 
Notisul – De onde veio a escolha por ser professor?
Luiz – Éramos uma família com nove pessoas e morávamos em Laguna. Não me recordo da minha infância lá, mas lembro me que havíamos nos mudado para Gravatal. Minha mãe, quando meu pai faleceu, deixou uma escada de filhos, nove filhos, sem garantia financeira nenhuma. De Gravatal, viemos para Tubarão em uma carroça, no fim da década de 40. Felizmente, nossa mãe sempre nos orientou e meu primeiro trabalho foi como alfaiate. Ela mesmo procurou alguém para eu aprender a costurar. Aprendi com Antonio Medeiros, que tinha uma alfaiataria no centro da cidade, na antiga Santa Fé, em cima. Trabalhei cerca de dez anos costurando, mas não era aquilo que eu queria, depois eu entrei na ETCT, onde fiz um curso técnico de contabilidade. Trabalhei na área cinco anos e, não me encaixando bem nessa profissão também, procurei, logo que a Unisul abriu as portas como faculdade, o curso de letras. Fiz uma licenciatura curta. Aí dei aulas alguns anos com a matéria de português, mas também não me adequei muito. Então, surgiu outra oportunidade de estudo e fiz o curso de ciências da religião, também na Unisul, e encontrei meu caminho.
 
Notisul – O senhor foi de uma das primeiras turmas de letras da Unisul?
Luiz – Logo que abriu, eu entrei. Não me lembro se foi a primeira, a segunda ou terceira. Minha primeira função como professor foi na escola Pequeno Príncipe, como professor de língua portuguesa. A duração lá foi curta, logo eles encerraram as atividades, hoje não existe mais. Aí eu ingressei sem concurso, convidado para trabalhar, no colégio Gallotti. Trabalhei também na escola que época era Escola Técnica Leoclides Zandavali. Depois, eu me fixei no Gallotti. 
 
Notisul – O senhor vivenciou a enchente?
Luiz – Nessa época, eu não trabalhava na escola, estava na contabilidade. Eu dei aula no Pequeno Príncipe entre 72 e 73. Em 74, fiquei fora, estava estudando. Mas foi importante para o rumo que tomei. Minha casa ficou submersa, tudo foi perdido. Eu fui acolhido com minha família na casa dos padres de Tubarão. Lá, permanecemos mais de meio ano, e foi exatamente de lá que fui indicado a dar aula de ensino religioso. Ainda estava me formando. Eu me dedicava muito às atividades pastorais da Catedral, e talvez por isso fui convidado a morar lá por um tempo. E aí depois disso passaram dois anos mais ou menos e eu fui para a universidade fazer o curso de ciências religiosas e ali eu me fixei mesmo na área do ensino, em que permaneço até hoje.
 
Notisul – Professor, existe muita diferença entre o aluno de hoje e o aluno de 20 anos atrás? 
Luiz – Temos coisas parecidas e outras muito desiguais. Infelizmente, a nossa educação é regida de cima para baixo, a classe que executa a função do magistério tem menos voz. Então, tudo o que é ordenado de cima par abaixo tem que ser aceito. Infelizmente, quem dita as normas parece que não passou por uma sala de aula como um professor para vivenciar as dificuldades de um. Antigamente, não era tanto, mas hoje está muito difícil. Muito difícil. A questão disciplinar está horrível. E bota horrível nisso. Os alunos não têm muito interesse, porque a própria administração dentro dessa área facilita as coisas. De uns quatro anos para cá, depois da criação do nono ano, eles passam automaticamente. E o aluno tomou o conhecimento disso. Para ele, tanto faz estudar como não estudar. Tanto faz respeitar o professor como não respeitar. Tudo virou esse balaio de anormalidades. O ensino fundamental principalmente.  Antigamente, tinha mais respeito por parte dos alunos. Não havia essa coisa de passar de qualquer maneira. Os alunos levavam com mais seriedade e respeitavam muito mais também.
 
Notisul – O senhor passou por alguma situação com aluno mal educado em sala?
Luiz – Ah como teve! Esse ano que estamos atravessando, parece que os alunos foram orientados a deixar o barco seguir sem rumo. Eles não estão nem aí para o aprendizado nem para ouvir. Trabalho em cinco escolas municipais. Teve escola de um dia alguém bater na porta e ser uma delegada buscando um aluno para inquirir sobre determinadas ocorrências nessa escola. Além de muitas outras anormalidades. É lamentável, mas é real.
 
Notisul – E o que o professor pode faze dentro de sala para contornar uma situação desse tipo, com um aluno agressivo, por exemplo?
Luiz – Olha, existe o blá blá blá de que o professor até pode ir diante de uma autoridade reclamar, fazer uma denúncia, mas também sabe-se que hoje as nossas leis com referências aos adolescentes não funcionam. Ficamos à mercê deles.
 
Notisul – E o que pode ser feito para melhorar um pouco mais a situação?
Luiz – Nosso país hoje quem hoje comanda está bastante eufórico em relação à economia. Somos o sexto país do mundo em desenvolvimento de economia. Em compensação, a educação não acompanha isso. Hoje, nosso país, entre 100, está em quase 90º lugar. Estão de olho nos bolsos, mas não nos cadernos. Então, se houvesse a atenção da economia na educação, seria melhor. O governo não faz o que deveria fazer. 
 
Notisul – Como o senhor avalia a determinação de que as turmas sejam unidas no estado?
Luiz – No meu modo de ver, vai tornar pior. Eles não querem aplicar dinheiro na educação. Não é aumentando o número de alunos em sala que vai se melhorar o ensino. De maneira nenhuma. Tu é mais ouvido falando para menos pessoas. Isso confronta o interesse dos alunos nas matérias, a atenção que ele vai dar, o respeito que vai ter pelo professor. Se tiveres 40 alunos em sala, dois ou três te respeitam e o resto está sujeito a não respeitar. Eu costumava trabalhar no Gallotti, tínhamos em média de 25 a 30 alunos. Até 33 alunos. Infelizmente, a nossa escola pública é mais desrespeitada por parte do alunos. Escolas particulares, por exemplo, têm um modo de cobrar diferente das escolas municipais e estaduais. E sabemos que esse modo de cobrar diferente, essas exigências acabam às vezes fazendo os alunos irem para a escola pública. E sentimos a diferença entre os alunos. Quem vem da escola particular, justamente por essa cobrança maior, tem um aproveitamento e um desempenho nos estudos também maior. Lá, não se passa o aluno automaticamente. Claro, a escola particular não é perfeita. Temos universidades que vendem diploma. Acontece.
 
Notisul – Hoje também faltam professores em sala. Juntar as turmas é uma forma de cortar gastos nessas novas contratações?
Luiz – Sim. Já foram demitidos dezenas de ACTs no estado em virtude dessas junções de turmas. Eu trabalhei como ACT no estado por dez anos, e fui admitido por uma lei que permitiu-se efetivar professores não pela idade, mas sim pela constituição brasileira.
 
Notisul – Quais são as principais características do professor de ensino religioso?
Luiz – Olha, nos últimos tempos, é possível perceber um interesse maior dos alunos pelas aulas de ensino religioso. Alguns anos atrás, quem dirigia as escolas não dava um apoio ao professor de ensino religioso. É uma matéria facultativa. Não é obrigado a fazer. Houve tempo em que bastava o pai e a mãe irem na escola assinar um documento e o aluno não assistia às aulas. Hoje isso acabou. O catolicismo imperava antigamente, hoje é inter-religioso, portanto, a aceitação dos alunos é maior, porque as ideias colocadas não são direcionadas a apenas um tipo de ideologia. Nós conseguimos apagar a maioria das divergências.
 
Notisul – Sobre a utilização de tecnologia dentro da sala de aula, o senhor passou do giz até a lousa digital. Como avalia esse avanço?
Luiz – Ainda estamos incipientes nisso. Mas percebemos muita diferença. Nós, de Tubarão, fazendo um paralelo com uma cidade menor, que tenha dificuldades de adquirir essas inovações, temos uma certa facilidade. Já nos alunos é muito mais fácil. Nós tivemos que aprender depois de adultos, eles já nasceram em meio a tudo isso. Esses tempos, perguntei quem tinha computador em casa e, para minha surpresa, menos de 15% dos alunos não tinham. Então, isso ajuda muito, e as escolas adotaram muito bem essa tecnicidade. Hoje, eu, na minha idade, tenho muito menos conhecimento cibernético do que os alunos, mas temos sempre que nos adaptar.
 
Notisul – E do seu ponto de vista, o computador é um facilitador para a educação?
Luiz – Eu contesto muito isso, porque hoje você senta em frente a uma tela e fica de uma a cinco horas. Como sabemos que tem alunos, que chegam em sala bocejando, porque usaram a noite inteira, e percebemos algumas vezes a dificuldade racional desses alunos. Isso porque a facilidade de apertar o botão e obter uma resposta é tão grande que eles acabam pecando na hora de passar por todas as etapas de um problema, por exemplo. Além disso, a escrita é uma das que mais sofre com a linguagem utilizada na internet. E percebemos isso quando recebemos trabalhos de alunos com erros gramaticais horríveis. Eles acabam não lendo, e com isso não sabem como se escrevem as palavras. Infelizmente, hoje também a maioria dos nossos jovens que lidam com computador quer é diversão. Na semana passada, eu encontrei um artigo que fala a grande dificuldade dos nossos alunos está exatamente na lexia, eles têm dificuldade de ler, escrevem errado, e são muito descalculados, não dominam muito bem a matemática, e isso dificulta a educação. Tu encontra hoje em uma redação erros gramaticais de colocar a mão na cabeça, e alunos de nível médio já.
 
Notisul – Os professores têm se mobilizado constantemente em busca de melhores salários, melhores condições de trabalho. O senhor vê essas manifestações com bons olhos?
Luiz – As nossas escolas municipais têm muita carência. Temos escola que não tem sistema de sanitários adequado, não tem salas de aula, tem goteira a todo instante quando dá uma chuva mais grossa. E mesmo escolas reformadas há menos de dois anos têm os mesmos problemas, parece que só passaram um pincel, colocaram um prego. A gente percebe que são raras as escolas que têm praças de educação física. Falta espaço e material. A estrutura total da escola essa deixa a desejar.
 
Notisul – E quanto à questão salarial?
Luiz – Infelizmente, no estado o governo ainda não atendeu. É muito difícil o governo do estado atender a estas ordens federais. O professor hoje faz movimentos grevistas exatamente por isso. Não é que ele trabalhe só em função do dinheiro, mas ele precisa. Fico irritado quando vejo um governante vir para a frente das câmeras de televisão para dizer que o país está lá em cima na questão salário. Até houve algumas melhoras, mas o nosso salário não corresponde à capacidade física de uma pessoa, imagina ter uma família com um, dois ou três filhos. Um salário mínimo não dá. 
 
Notisul – O senhor concorda com as passeatas para cobrar publicamente?
Luiz – Os nossos governantes não aceitam com muita facilidade a reivindicação verbal. Os sindicatos que representam vão, pedem audiência, reclamam, e não acontece nada. Em geral, para se fazer valer uma reivindicação, tem que se apelar para as greves, atitudes que eles não consideram boas. 
 
Luiz por Luiz
Deus – Quanto mais se nega, mais se declara a sua existência.
Família – É o berço do aprendizado, do amor, da fraternidade.
Trabalho – Dignifica o ser humano.
Passado – As coisas boas devem ser memorizadas, mas não deve ser um peso a ser carregado.
Presente – Alegria de estar vivo.
Futuro – Nós construímos, e temos estar sempre regando e adubando.
 
"Os países mais evoluídos do mundo aplicaram muito em educação. China, por exemplo. E o resultado é positivo.”
 
“Eu gosto muito da minha profissão. Apesar das divergências e adversidades, eu sempre procurei fazer com muito gosto”.