O comandante Nazareno Marcineiro é policial militar há 35 anos. É mestre em engenharia de produção e sistemas e faz doutorado em engenharia de produção e sistemas. Assumiu o comando geral em Santa Catarina no dia 3 de janeiro deste ano. Foi muito tempo professor na Academia de Polícia Militar e atuou como comandante em outros cargos nas cidades de Joinville, Lages e Criciúma. Sua última função foi como chefe do estado maior geral, encarregado geral do planejamento no estado.
 
 
Mirna Graciela
Tubarão
 
 
Notisul – Em que linhas o seu trabalho tem se baseado para projetar alternativas ou medidas de combate à criminalidade, em meio às dificuldades?
Marcineiro – Tenho focado muito em parâmetros científicos, na análise da criminalidade, na concentração populacional, na malha viária, nos indicadores de DH (direitos humanos) e de produção econômica. Isto por todo o estado. Temos que atuar tecnicamente para ver onde há mais necessidade. Se não for assim, vamos acabar privilegiando lugares por outros critérios não técnicos. E nos mostra que há efetivamente a necessidade de policiais.
 
Notisul – Quais são as perspectivas sobre este caso?
Marcineiro – Incluímos este ano 1,5 mil novos policiais no estado. Assim, chegaremos em torno de 11,8 mil no final do ano, perto de 12 mil para o próximo semestre. Nossa meta é chegar em 2014 a 14,5 mil policiais, é um objetivo definido, que seria o ideal hoje para obtermos melhores resultados. 
 
Notisul – E para a região de Tubarão? 
Marcineiro – Tenho muito carinho pela região sul, nasci em  Criciúma, me criei em Urussanga, minha mulher é de Tubarão. Mas esta atenção não pode ultrapassar os limites da tecnicidade. Estamos cientes de que Tubarão tem necessidade e providenciamos melhorias. Este ano, são 33 novos policiais a partir de outubro. Em março, vamos formar mais policiais, não sei precisar quantos, mas alguns também virão para cá.
 
Notisul – Há projeção de um maior incremento no próximo ano em relação a este? 
Marcineiro – A tendência pelo nosso planejamento é que será necessário manter o mesmo padrão.
 
Notisul – Quais são as cidades de SC que apresentam o maior índice de criminalidade?
Marcineiro –  Hoje, a região mais preocupante é a da Grande Florianópolis, nas cidades de São José, Biguaçu, Palhoça e Santo Amaro. Também no Vale do Rio Itajaí, com Navegantes e Itajaí. 
 
Notisul – A que fatores o senhor atribui tanto este aumento da violência?
Marcineiro – Realmente, há sim um aumento dos indicadores de criminalidade. Um dos fenômenos é uma migração dos grandes centros para os menores, especialmente nos últimos cinco anos. A razão deve-se a um conjunto de elementos, que começaria por aquele que julgo, o mais importante de todos: a crise comprometedora de valores que passa o cidadão brasileiro, as pessoas não têm mais constrangimento em atentar contra a vida alheia, seja no trânsito, com armas de fogo, objetos cortantes, não se preocupam com a morte, como se fosse natural. A vida e as relações foram banalizadas, o filho não tem mais respeito, fala alto com o pai, com a mãe.
 
Notisul – Então, a questão social, a família também implicam? 
Marcineiro – Sim, mas não é só aí. É a relação do jovem com o professor, com o idoso, do homem com a mulher. Tudo motivado pelo desrespeito a valores. Isto é um resultado que começa por esses detalhes, da educação da pessoas, da falta da religião, que sempre foi um freio importante, a educação familiar, a repressão do pai sobre o filho. Quando o pai aplica um chamado verbal com mais firmeza para dizer que o filho está errado sobre alguma coisa, aquela atitude tem um reflexo pela vida toda. A verbalização não pode ir para a agressão física, pois isso colocará sempre nas mãos dos mais fortes o poder de ganhar a discussão. Mas vai muito mais além, nas relações políticas e econômicas, ninguém mais tem limites, o seu objetivo está acima de qualquer outro valor ou obstáculo. Tudo isso gera um salve-se quem puder na sociedade. E que conduz para posturas alternativas, onde as drogas entram no contexto como a opção para consumir álcool, cocaína, a maconha, o crack e outros.
 
Notisul – Qual sua avaliação sobre as mudanças do código penal?
Marcineiro – A legislação penal está fazendo uma evolução para salvaguardar os que eram injustiçados e diminuir a população carcerária que o estado não tem conta de acolher. Por outro lado, acaba transformando em uma máquina de punir com o cerceamento de liberdade. É preciso evoluir sim, mas tem que ser de tal maneira que as pessoas possam se sentir puníveis. Elas têm que ter a sensação de punibilidade.
 
Notisul – O senhor trabalha muito a questão da polícia comunitária.
Marcineiro – Trabalho com isto há 15 anos. Escrevi dois livros sobre o assunto e disseminado pelo Brasil afora através de palestras. A ideia é fazer com que o policial esteja colocado na comunidade, com uma área restrita de responsabilidade, para que possa conhecer a realidade das pessoas e do ambiente, o possível agente antes que ele venha a atuar, para que possa interagir e evitar o crime. 
 
Notisul – E os investimentos em equipamentos? 
Marcineiro – Estamos fornecendo equipamentos e viaturas, investindo na proteção individual, na tecnologia, na implantação de câmeras de vigilância nas cidades, na aquisição de tablets dentro das viaturas, onde tudo é filmado para que, em uma ocorrência, não haja denúncia vazia de abuso, o policial sabe que sua ação está sendo gravada. 
 
Notisul – Questão salarial dos policiais militares. Terá melhora?
Marcineiro – O nosso policial da linha de frente ganha menos do que merece. Pelo risco que corre, pela exigência de capacitação, pela importância social, pela necessidade de ser capaz de resolver os problemas com desenvoltura. O comando geral da corporação é ciente e não está inerte. Há 15 dias, elaboramos uma proposta de revisão salarial que foi encaminhada ao secretário de segurança pública. Nosso governador é preocupado com isto, está sensível a nossa melhoria salarial e vamos para a mesa de negociação. Tenho lutado por isto. 
 
Marcineiro por Marcineiro
Deus: A mão condutora. 
Trabalho: Objetivo de vida.
Família: Fundamental, é a retaguarda, é a razão de ser. 
Passado: É referencial.
Presente: É o aqui e agora. É preciso fazer realmente. É o real.  
Futuro: A ser programado, cada um constrói o seu. 
 
A percepção do catarinense é de que está havendo um aumento muito grande da criminalidade, mas o crescimento é mais discreto em alguns tipos penais. Muitas vezes, a coisa parece maior do que é porque tem um avanço da criminalidade no Brasil. A mídia noticia e as pessoas transferem a realidade de outros locais para sua própria vivência. No ranking, em termo de crimes e violência, SC é o melhor estado.