Para o fotógrafo e proprietário do Foto Vieira, Gurini Vieira, 67 anos, todo evento que participava era importante. Não importa se era um casamento fino ou elegante. Não é para menos que está na profissão há mais de 50 anos, 35 anos em Tubarão. Na próxima semana, ele irá ‘aposentar-se’ e se dedicará aos hobbies, como a pescaria. Gurini, casado com Dalva, tem dois filhos: os também fotógrafos Patrícia e Douglas. Começou com uma loja de fotografia em Criciúma. Depois, veio para Tubarão, onde vive atualmente. Ele conta como começou na profissão, curiosidades e muito sobre a sua carreira.

 

Karen Novochadlo
Tubarão
 
Notisul – Como o senhor começou na carreira?
Gurini – Não comecei a trabalhar em um estúdio de fotografia. E sim na praia, em Balneário Camboriú e Capão da Canoa (RS). Eu fui um dos criou a fotografia com bodes. Tinha um bodinho com uma carrocinha em miniatura. No lado, estava escrito “Táxi Bodense”. Eu colocava as crianças em cima e fotografava. Vivia disso.
 
Notisul – E por que o senhor se interessou por fotografia?
Gurini – Eu me interessei por fotografia quando tinha 17 anos. Meu pai e meu irmão eram fotógrafos. Na próxima semana, vou parar de fotografar. Meus filhos irão inaugurar a nova loja e darão sequência ao Foto Vieira. Agora, eu vou pescar. Sempre gostei de fotografia. É uma profissão que não dá rentabilidade, mas dá prazer. É prazeroso entregar um book para uma moça, uma jovem de 15 anos. Eu nunca procurei outra profissão.  
 
Notisul – Eu já acompanhei bastante mudanças no ramo da fotografia. Imagina o senhor, com mais de 50 anos de profissão…
Gurini – Profissionalmente, foi ruim para mim. Mas não para meus filhos. A tendência é acabar a loja de fotografia. Como a fotografia digital, as pessoas deixam tudo no computador. Esquecem que podem pegar um vírus e perder tudo. No Rio Grande do Sul, fecharam todas as lojas. Em Santa Catarina, as 32 lojas da Realcolor fecharam. Restou  uma em Florianópolis. Hoje, montamos um novo estúdio, mais estúdio que uma loja de fotografia. 
 
Notisul – O senhor tem saudade do processo de revelar fotografia? 
Gurini – Sim. A fotografia de negativo depende muito mais do profissional atrás da máquina. Você não vê o resultado na hora. Com a digital, qualquer pessoa compra uma máquina e sai fazendo fotografia. Com o negativo, você precisa sentir o que está dentro da máquina. 
 
Notisul – O senhor já fotografou várias autoridades…
Gurini – Sim, fiz a foto oficial de vários prefeitos. Desde Paulinho May até Carlos Stüpp. 
 
Notisul – O senhor trabalhou também com fotojornalismo?
Gurini – Em Criciúma, fui free-lancer do jornal semanário Tribuna Sulina, quando existiam poucos fotógrafos. O fotojornalismo era completamente diferente do estúdio. Tinha que conhecer muito a técnica. Por exemplo, tem que fotografar um acidente à noite, tinha o cuidado de registrar a freada do carro. Os filmes do fotojornalismo tinham 36 poses e os de estúdio 12. Em festas, tínhamos um carretel sempre no bolso. Hoje não. Um cartão de memória bom rende duas, três mil fotos. Antes, cuidávamos para o noivo ou outras pessoas não piscarem. Não podia perder muita foto.
 
Notisul – O senhor tem saudade da fotografia em preto e branco?
Gurini – Tenho. A fotografia preto e branco é bastante artística e bonita. O retoque era manualmente, não tinha computador. Quando você ia fotografar, eliminava na hora o fundo e limpava a área. Hoje, se tira no computador. 
 
Notisul – Já ouvi expressões de  passar vaselina na lente para deixar a pessoa mais bonita…
Gurini – Passávamos saliva (risos), vaselina na lente para embaçar e suavizar a foto. Para fazer as fotos envelhecidas, colocávamos uma meia de mulher esticada amarrada na lente. As perfurações davam um ar diferente na fotografia. Eu usei muito, em casamento, festa de 15 anos. Na verdade, não tinha recurso. Aprendi em seminários em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, na Bahia. Hoje, o computador faz isso. Hoje, em dez minutos você retoca um casamento. Antes, para fazer um casamento inteiro retocado à mão ia, no mínimo, 20 dias. 
 
Notisul – Como faziam os retoques?
Gurini – Usávamos um lápis bem fininho no negativo. Era feita manchinha por manchinha. Tirávamos até oleosidade da pele. Somente dois fotógrafos tinham o retoque no negativo: o Foto Vieira em Tubarão e o Zapelini em Criciúma. Escondíamos muito bem essa técnica que escondíamos. O retocador ficava em um quartinho separado e ninguém entrava lá para falar com ele. Hoje está uma barbada. Hoje, bate a fotografia de qualquer jeito, tira a cabeça de um e coloca no outro. 
 
Notisul – Ocorreu alguma coisa interessante quando o senhor foi fotografar?
Gurini – Muitos tombos. Já levei uns dois tombos violentos. Já caí de ficar embaçado por 30 minutos. Uma vez, meu irmão veio fazer um casamento aqui em Tubarão. E ele estava com um casaco curtinho. A igreja estava decorada com arranjos de velas no chão. Pegou fogo no casaco. Ele estava andando para trás, abaixado, para pegar os noivos de fora da igreja e encostou na vela. Por pouco, não chamaram o Corpo de Bombeiros.
 
Gurini por Gurini
Deus: É tudo. 

Família: É tudo.
Trabalho: É muito importante. Traz prazer.
Passado e presente: Foi uma infância difícil. E uma vida de muito trabalho.
Futuro: Pescaria e usufruir do que construí. A minha parte eu fiz.
 
Fui fotógrafo presidencial. Quando o presidente Emílio Garrastazu Médici vinha de Florianópolis até a divisa com o Rio 
Grande do Sul, eu que fazia as fotos oficiais. O que na época era muito difícil, porque tinha uma segurança doida. Eu 
não podia chegar perto, era um protocolo extenso. Tudo era vistoriado.