Carlos Augusto Lopes é casado a mais de 20 anos com a pastora Cida Soares Lopes. Tem dois filhos, Gabriela e Vitor Augusto, e está desde o ano 2000 em Tubarão. Carlos é teólogo e professor no Seminário Teológico do Sul e pastor da Igreja Assembleia de Deus Independente, do templo sede. Formou-se em teologia na Faculdade Sul Americana de Londrina e completou os estudos de mestrado no Instituto Batista de Educação, em Florianópolis, e Seminário Teológico de Betânia, em Altônia (PR). Carlos tem pós-graduação em história social e é escritor com formação pela editora Betânia, de Belo Horizonte. É coordenador da aliança evangélica brasileira e secretário-geral do conselho de pastores evangélicos de Tubarão (Conpet).
 
 
Eduardo Zabot
Tubarão
 
 
Notisul – Como surgiu a Igreja Assembleia de Deus Independente (ADI)?
Carlos – A igreja surgiu em 1983, a partir de um grupo de irmãos que saíram da Assembleia de Deus. Há 30 anos começou com um grupo pequeno e, hoje, a igreja tem um templo sede aqui em Tubarão para mais de 12 mil pessoas. Temos igrejas em Jaguaruna, Capivari de Baixo, Armazém, Florianópolis e ainda em Tubarão nos bairros Mato Alto, São Martinho e São Cristóvão.
 
Notisul – Por que esse grupo criou a ADI?
Carlos – Esse grupo saiu em virtude de uma visão um pouco mais aberta naquela época e, por isso, foi formada esta igreja. Hoje, a ADI está em várias cidades de Santa Catarina e fizemos parte do conselho das assembleias de Deus (Cade), que tem em várias partes do Brasil. A igreja também faz parte da aliança evangélica brasileira.
 
Notisul – Qual a diferença hoje entre as assembleias?
Carlos – Talvez, há 30 anos poderia ter uma diferença. Antes, a Assembleia de Deus tinha o dogma dos usos e costumes, mas hoje não existe mais isso, então essa diferença é mínima. Tanto nós da ADI quanto os frequentadores da assembleia de Deus somos herdeiros da reforma protestante e somos considerados pentecostais clássicos, que é uma diferença do neopentecostalismo, onde a ênfase das outras igrejas é mais nas coisas materiais do que no reino de Deus.
 
Notisul – O que é a reforma protestante?
Carlos – A reforma protestante seria aquilo que Lutero e Calvino fizeram no século 15, levantando alguns pilares como sola gratia, somente pela graça, sola fide, somente pela fé, sola deuglória, somente a Deus e à glória, sola Cristo, somente Cristo e sola scriptura, que é somente as escrituras. Essa é a base fundamental de uma igreja reformada.
 
Notisul – E o pentecostal clássico?
Carlos – O pentencostal clássico é crer nos dons espirituais, mas ele está totalmente conectado com a Bíblia, com a reforma protestante. O fundamento da igreja é a Bíblia e não o pragmatismo que tem o neopentecostalismo. Muitas práticas do movimento neopentecostal nós não concordamos. O neopentecostalismo está na Igreja Católica e em algumas igrejas evangélicas que, às vezes vende fé, ou seja, usa a fé como trampolim para ganhar dinheiro. Deus é Deus e nós somos nós, então temos que vir à igreja para adorar, servir a Deus e não negociar. Deus não é banco,  ele é soberano e é a vontade dele que deve prevalecer nas nossas vidas.
 
Notisul – O que difere um culto da ADI para um culto de outra igreja evangélica?
Carlos­ – Temos uma ordem de culto e nessa ordem as pessoas vêm à igreja para louvar e adorar a Deus. O nosso foco é adoração e não de pedir dinheiro nem fazer negociatas. Existe a abertura do culto, quando alguém lê a bíblia, depois temos um momento de louvor com músicas de adoração a Deus. Em seguida, há uma  pregação expositiva da palavra de Deus, onde fizemos a exposição do texto bíblico e do texto da palavra de Deus, que vai falando ao coração das pessoas, sem levá-las a um emocionalismo barato. A própria palavra de Deus é que vai trabalhando no coração, chamamos isso de exposição bíblica.
 
Notisul – Mas as pessoas sentem uma emoção diferenciada?
Carlos – As pessoas, ao receber uma oração que é feita nos cultos, ficam muito emocionadas. Por isso que os nossos cultos têm sido abençoados, onde muitas pessoas chegam para ouvir a palavra de Deus e receber a oração, adorar a Deus na beleza da sua santidade e, à medida disso, Deus é que vai abençoando. Ele é o nosso Salvador. A graça de Deus é que se derrama sobre nós e nos alcança em nossa casa, nossa família e assim por diante.
 
Notisul – Qual a diferença entre a bíblia da ADI e das outras religiões?
Carlos – A nossa bíblia é a protestante, a bíblia evangélica tem uma diferença da católica, porque essa inclui alguns livros a mais que a nossa bíblia não tem, nós chamamos isso de cânon bíblico. Na igreja protestante é um pouco diferente do cânon bíblico da igreja católica, que acrescentou no concílio de trento alguns livros a mais que nós não consideramos como livros inspirados. Nós consideramos até como livros históricos, mas não inspirados em Deus que fazem parte do cânon. Macabeus é um exemplo, que serve para entendermos um pouco mais da história da Macabéia naquele período interbíblico. O livro de Macabeus serve para nós como um “adendo” histórico, mas isso não quer dizer que ele é inspirado, que faz parte do cânon, porque nem mesmo os judeus nem mesmo a torá, a bíblia hebraica tem esses livros.
 
Notisul – O é o cânon bíblico do protestante?
Carlos – Cremos nos 39 livros do antigo testamento, que vai de Gênesis até Malaquias, e também nos 27 livros do novo testamento, que vai de Mateus até Apocalipse, que somam 66 livros. Esses são os livros que nós cremos inspirados por Deus, que a comunidade cristã do mundo inteiro e até mesmo alguns teólogos católicos sabem que esses livros são inspirados por Deus, tanto é que eles estão na bíblia católica, o que não está na bíblia protestante evangélica são os outros livros que a igreja católica colocou no conselho de trento, mas esses 66 livros são inquestionáveis. Já a bíblia dos judeus, a torá, é de Gênesis a Malaquias, eles não creem  no novo testamento porque não acreditam no Messias, não acreditam que o Messias veio, que Jesus Cristo é ele, eles creem que Jesus era mais um profeta, mas nós pertencemos à aliança do novo testamento feito na cruz do calvário, pelo sangue de Jesus nós cremos.
 
Notisul – Como o pastor vê a criação de novas igrejas?
Carlos – A criação de novas igrejas é inevitável, as gerações estão aí, o mundo vai mudando, mas o grande problema é quando essas novas igrejas que surgem não tenham como regra a fé e a conduta da palavra de Deus. Essa é a regra para todas, tanto no passado, igrejas históricas, como aquelas que surgiram. Por exemplo, no Brasil, o primeiro culto foi realizado em 1558, 58 anos depois da primeira missa no Brasil realizada por Coimbra, onde foi erguida a cruz. Vieram para o país os crentes huguenotes, eles eram da França e estavam sendo perseguidos naquele sistema e João Kalvino, um grande teólogo e reformador enviou os crentes para cá e fizeram o culto na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, onde, inclusive, existe uma homenagem a eles no local, onde fizeram a primeira pregação protestante no Brasil citando o salmo 27:4, que diz: “que eu sempre habite a casa do Senhor”, então esses crentes huguenotes morreram, foram os primeiros mártires no país pela sua fé, deixaram um legado teológico, deixaram um testemunho de vida. A partir desta data, o movimento evangélico foi varrido do Brasil. Muito tempo depois, no século 18, Robert Keller foi quem começou a pregar o evangelho e criou um movimento que até hoje existe, que é a escola bíblica dominical.
 
Notisul – Como foi a história da religião no Brasil?
Carlos – As igrejas históricas criaram raízes no Brasil, então o país é divido em três partes: o primeiro é com o movimento católico, depois o movimento protestante e em 1911 chega ao Brasil o movimento pentecostal. O catolicismo veio catequizar as pessoas que estão aqui com o movimento jesuíta, que começou com Luiz Inácio de Loyola, isso chamamos de contra reforma, a resposta da igreja católica contra a reforma protestante, que levou muitas pessoas a saírem da igreja católica.  No século 17 vem os protestantes das igrejas históricas como, os anglicanos, batista, metodista e luterana. Um século depois chega o movimento pentecostal, que é uma forma diferente de servir a Deus. Então são três segmentos do movimento cristão no Brasil.
 
Notisul – Qual a participação da ADI dentro da sociedade?
Carlos – Esse é um ponto importante porque a igreja não está fora da sociedade e também não está mergulhada na sociedade. A igreja faz parte da sociedade e fazendo parte, não tem somente uma visão de olhar para o alto, para o céu e pensar só em Deus. A igreja pensa no próximo porque o suprassumo de toda a bíblia está focada em dois mandamentos: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”. Logo, a igreja que ama a Deus é a igreja que estende a mão para o próximo. Fizemos agora o “Inverno sem frio”, onde arrecadamos mais de mil peças de roupas, abençoando as pessoas que passam por dificuldades. Temos uma assistência social com pessoas competentes que ajudam famílias carentes, não só da nossa igreja, mas de outras igrejas também, ajudando com cestas básicas, com orientações. Temos também o ministério atalaia que trabalha com a educação de crianças e jovens para respeitar os seus pais e ser um bom cidadão, todos os sábados aqui na nossa igreja. Temos também a associação braço amigo (ABA), que trabalha com crianças de baixa renda e o SOS Vida, liderado pelo pastor Nicodemos, que atende pessoas com problemas psicológicos.
 
Notisul – A igreja costuma realizar missões em outros estados ou fora do país?
Carlos – A igreja evangélica tem ajudado muito no desafio jovem, ajudando crianças com a visão mundial. A minha esposa esteve no Haiti depois de toda aquela desgraça, ela e a missionária Cleusa estiveram na República Dominicana levando assistência da nossa igreja para eles, ajudando-os no aspecto da reciclagem de garrafas pet, levando dinheiro para abençoar os professores, levando apoio, ajudamos mais de três mil órfãos. Temos uma missionária nossa no Amazonas trabalhando com os índios.
 
Notisul – O que leva uma pessoa a trocar de religião?
Carlos – São duas situações que podemos pontuar: a questão migratória, de uma pessoa que sai de uma religião para outra, a translocal, onde sai de uma igreja evangélica para ir para outra evangélica, e hoje tem também os desagrejados, que são pessoas que afirmam ter Deus no coração, mas não vão em igreja nenhuma. A verdade é que a religião não muda ninguém, aliás, a palavra religar e de religião, significa ligar, então a religião não liga ninguém, quem liga alguém a Deus é Cristo, ele mesmo disse: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Jesus fala para Nicodemos, que era um judeu, um fariseu, uma autoridade judaica na época. Em João capítulo três: “Nicodemos necessário é nascer-te de novo”, ou seja, você tem que mudar de vida, mudando de vida você muda o foco, a sua visão de mundo é outra, aí você procura pessoas com a mesma visão. Essa mudança de coração é uma mudança de Deus na vida das pessoas, é Deus que faz essa obra, não é o homem.
 
Notisul – E quem muda da igreja evangélica para outra evangélica?
Carlos – Isso pode haver dois aspectos, um pela onda do momento, quando a pessoa vai e não sabe porque vai, e também a pessoa procura outra igreja para suprir as suas necessidades. Isso é um problema porque, na verdade, a gente não vai para igreja para suprir as necessidades, nós vamos para servir a Deus. A igreja não é perfeita porque ela é composta de homens. Perfeito é Deus na igreja. Os teólogos dizem que a igreja é santa e ao mesmo tempo é pecadora, é santa porque foi comprada e remida pelo sangue de Jesus e é pecadora porque é composta por homens que estão trabalhando e vivendo em santidade, na graça do Senhor, nós não somos perfeitos, nós temos as nossas falhas.
 
Carlos por Carlos
Deus – É o nosso criador, é soberano, é tudo para nós.
Família – É a base fundamental da sociedade.
Trabalho – Uma vocação que Deus deu a todos.
Passado – Deve servir como escola, para projetar o futuro em Deus.
Presente – É um presente de Deus.
Futuro – Devemos colocar nas mãos de Deus.
 
"Doutor Grunen diz, no livro de teologia, que a mudança de vida para Deus é uma obra secreta do espírito, a mudança de coração, a metanoia. A transformação é algo que vem de Deus. Chamamos isso de “ordo salutes”. Quer dizer a ordem da salvação. Ocorre a conversão, há um novo nascimento quando Deus, por meio do espírito, muda o seu coração e depois começamos a viver uma vida de santidade".
 
"A igreja não é só aquela que adora, mas aquela que serve, não é só aquela que vem para o templo adorar, mas sim aquela igreja que, vindo ao templo adorar, serve aos pobres, serve a quem sofre, serve àquelas pessoas que estão excluídas da sociedade, serve até as pessoas que se acham donas da sociedade, mas que vive com a alma ferida, com a alma vazia, que tem tudo, mas, ao mesmo tempo, não tem nada".
 
"Respeitamos o papa
como líder católico, 
mas para nós o grande 
líder da igreja é Cristo”.
 
“O católico olha o papa e o evangélico o pastor, para buscar neles um exemplo de vida. O que não pode é olhar para esses líderes e buscar a perfeição”.
 
 
A série de entrevistas sobre religiões iniciou em março. Já foram abordadas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Mórmons, publicada na edição de 9 e 10 de março; Testemunha de Jeová, em 30 e 31 de março; A Igreja Evangélica A Verdade que Liberta, em 20 e 21 de abril; a instituição Nosso Lar, em 18 de junho; e a Assembleia de Deus em 29 e 30 de junho.