Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Como está o processo de implantação do Caps-AD em Tubarão?
Bráulio –
Acredito que em 60 dias estaremos em operação. O Caps-AD tem o mesmo funcionamento do outro (Caps), mas o foco são pacientes com problemas com álcool e drogas. No momento, é trabalhada a formação da equipe. A cidade precisa deste investimento. Estes problemas, em Tubarão, são gravíssimos.

Notisul – É muito diferente tratar uma pessoa com problemas psiquiátricos “normais” de um dependente químico?
Bráulio –
É. Muito. O tratamento é diferente. Estas pessoas vão se apresentar de uma forma diferente, são pessoas que, muitas vezes, têm outras doenças psiquiátricas. Quando há associação de várias doenças de psiquiatria, chamados de comorbidade. Os dependentes químicos, muitas vezes, têm comorbidade. Por exemplo, um paciente ansioso ou deprimido, geralmente segue para o álcool. Mas também existem dependentes sem isso. Porém, o tempo de dependência provoca alterações a nível cerebral, alterações estas já comprovadas e que surgem na dependência química. Então, é preciso saber quais são estas alterações, como o cérebro e o paciente irão comportar-se, tanto durante a dependência, na fase de abstinência e, na recuperação, inclusive na cerebral, na qual muitas vezes não é possível.

Notisul – Então, é muito mais difícil…
Bráulio –
Não é que seja mais difícil trabalhar com um dependente químico, mas é mais difícil trabalhar com uma pessoa que está intoxicada. Em nível ambulatorial, fica complicado porque imagina tentar convencer uma pessoa que está bêbada 24 horas que ela tem que mudar e largar do álcool. Você faria uma sociedade com um bêbado? É a mesma coisa tentar fazer um acordo com dependentes. O cérebro da pessoa está completamente alterado. Por isso que muitas vezes há as chamadas recaídas, falhas no tratamento. É importante saber também lidar com isso.

Notisul – E esta história onde é dito que para sair do vício o dependente primeiro tem que querer. É isso mesmo?
Bráulio –
Não. Primeiro, o médico não é juiz, nem carcereiro. Mas existem vários trabalhos fora do Brasil onde as internações forçadas funcionam bastante. Muitas vezes, o dependente tem a necessidade da droga e não vai parar para pensar como está. Só quer a droga. Por exemplo, aqui em Tubarão, houve várias mortes por conta de drogas. Quando chega neste ponto, estas pessoas não têm mais capacidade de raciocínio normal. É o exemplo que falei antes do alcoólatra. O cara bêbado não vai pensar. Quer o álcool. Tem uma necessidade física e psicológica da droga. Estas pessoas, quando são internadas de forma forçadas, precisaram ter tempo para desintoxicar e conseguir ter uma percepção melhor de tudo isso, desta realidade e do problema que esta droga traz para ele. Na verdade, não é o dependente que controla as drogas na maioria das vezes. Ele é controlado pela droga.

Notisul – E a família? Também deve buscar tratamento?
Bráulio –
É importantíssimo que a família participe deste processo, porque todos terão que mudar juntos. Imaginemos o seguinte: toda família tem uma estrutura, existem posições definidas. Digamos que o pai trabalhe fora, a mãe seja a responsável pela criação dos filhos. De repente, o pai começa a querer ficar em casa e manda a mãe trabalhar fora. Desorganiza tudo. É o mesmo com o dependente. Ele é sempre colocado como um bode expiatório, de repente, ele quer mudar e a família não está preparada para isso, mesmo sendo (a mudança) positiva. Tudo isso precisa ser trabalhado.

<b.Notisul – É possível a pessoa deixar de usar drogas por conta própria, sem ajuda profissional?
Bráulio – Sim. Mas isso vai depender muito da droga que esta pessoa usa, da sensibilidade deste paciente, da genética e como está o organismo desta pessoa.

Notisul – Como assim a genética?
Bráulio –
Por exemplo: em famílias de alcoolistas, os filhos têm uma tendência genética a serem dependentes de álcool. Se começarem a tomar, ficarão dependentes com maior facilidade. É como se tivessem uma propensão ao álcool. E para estas pessoas (largarem o vício) será muito mais difícil. Então, uma pessoa pode sair do vício sozinha? Pode, mas temos que observar a existência da capacidade e da individualidade de cada um. Não se pode pensar que todos terão o mesmo tratamento, isso se chama pareamento: as pessoas são diferentes, as drogas agem de maneira diferente em cada um, o sujeito responde de maneira diferente à mesma droga. Não podemos generalizar. Quase 95% dos alcoolistas não precisam de internação, mas existem os outros 5% que sim e podem, inclusive, morrer se não forem tratados em nível hospitalar. Se o cara toma uma garrafa de cachaça por dia, não adianta trancar ele em um quarto e mandar parar de beber porque ele pode morrer. Então, mesmo ele querendo parar, é preciso uma avaliação neste caso. É diferente do tabaco, a pessoa fica sem o cigarro, mas não vai morrer por conta da abstinência. Cada caso é um caso.

Notisul – Qual a pior droga?
Bráulio –
Todas. A gente fala em potência de droga: é algo que uso agora, o efeito é grande e cai rápido. Esta droga vicia mais fácil. O crack é um exemplo. Este derivado da cocaína age mais rápido e tem um tempo de efeito muito curto, então, vicia mais que a cocaína. Estas drogas que agem de maneira rápida, ou seja, têm uma potência maior, viciam mais facilmente. Não existe esta história de droga pior que a outra, todas são ruins, não existe droga boa. Não existe esta história do álcool ser bom. Não existe nenhum estudo científico validado que aponte que o álcool é bom para alguma coisa.

Notisul – Pois é. Vez ou outra, circulam informações onde se fala que um cálice de vinho faz bem para o coração, por exemplo. Isto é falso então?
Bráulio –
Isto é comprar briga, mas não existe. Quando vamos observar a metodologia deste trabalho, não tem nenhum estudo científico validado que comprove isso. Nos Estados Unidos, tem um cientista que tem um segmento que chamamos de follow-up (o termo significa acompanhamento), de 65 anos. Eles pegaram uma vila e estudam este lugar há 65 anos somente em relação ao álcool. Isto sim é um estudo científico validado. Pois eles não chegaram a nenhuma coisa boa do álcool nestes 65 anos. Não existe nada bom em tomar uma taça de vinho ou um copo de cerveja. Estas notícias surgem porque a indústria do álcool é muito grande e forte. Ocorria o mesmo com o tabaco há alguns anos. A indústria escondia informações e colocavam o que queriam na mídia. Depois que se descobriu, proibiram a propaganda. Tenho um material que trabalho em aula onde há uma propaganda de cerveja muito interessante. Como proibiram de usar bichinhos e mulheres nos negócios de bebida, colocaram tudo em mensagens subliminares. É muito rápido e ninguém vê, mas o cérebro capta.

Notisul – É o consumo de drogas ilícitas, existe algum levantamento ou estudo válido no país?
Bráulio –
O sul do Brasil é a região onde se consome mais crack, cocaína e maconha proporcional à população. Estas informações são do Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas. Isto porque o sul tem uma renda econômica boa e tem mais acesso às drogas.

Notisul – Agora se discute muito a liberação da maconha. Isto não seria uma forma de “largar” o problema para outro setor público: passar da segurança para a saúde?
Bráulio –
Isto é uma estatística. Por exemplo: se pegarmos o Presídio Regional de Tubarão, entre 80% e 90% das pessoas que estão lá têm envolvimento com droga ou estão presos diretamente por conta da droga. Paralelamente, existe toda esta briga na cidade para construir um prédio novo. No Rio Grande do Sul, tem gente soltando preso, no país, não há mais onde prender ninguém. O sistema está no limite. É muito caro para o estado manter um preso por mês. Então, o que resolveram fazer: pegaram exemplos de outros países como o Canadá. Lá, as autoridades prendiam pelo menos 20 mil pessoas por ano por causa da maconha. Como observaram que não teriam onde colocar tanta gente, liberaram a maconha e colocaram como problema de saúde pública. A mesma coisa no Brasil. Querem dizer que o drogado não é mais um bandido. Ele é um dependente e querem tratá-lo na saúde pública. Então, deixa de ser problema do estado para ser um problema médico. O porém é que no Brasil foram fechados manicômios, hospitais e não há onde tratar. Vejo como uma forma do estado livrar-se do problema. É muito complicado.

Notisul – Mas o senhor é a favor ou contra a legalização?
Bráulio –
Eu sou completamente contra a legalização da maconha ou de qualquer outra droga. Completamente contra. Não deveriam nem discutir um absurdo deste. Hoje, o país não consegue dar conta nem da demanda do serviço público, como e onde tratará os dependentes? A maconha não é uma droga inocente como alguns pregam. O uso de maconha funciona como porta de entrada para outras drogas. Falam coisas absurdas. O problema é que quem está falando isso são políticos, não a classe médica.

Notisul – Mas a classe médica é unida, tem voz, não deveria intervir de alguma forma?
Bráulio –
A classe médica, a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead) não é favorável ao uso de drogas. Nenhuma droga. Não existe esta força. Temos um vice-presidente (José Alencar – PL) e um ministro (do meio ambiente, Carlos Minc) fazendo propaganda. É muito difícil isso. Só que as pessoas não percebem que se trata de uma jogada política. É uma questão seríssima. O simples fato de proibir cigarros em locais fechados e propaganda de tabaco, que é bem menos prejudicial que a maconha, já deu uma melhora considerável na saúde brasileira. Por que liberar a maconha?

Notisul – O mesmo poderiam aplicar-se ao álcool?
Bráulio –
Eles não proíbem a propaganda de álcool porque a indústria é forte e tem outro problema: 11% da população brasileira são dependentes de álcool. Isto dá cerca de 22 milhões de brasileiros. Onde vão tratar isso tudo? Não tem onde tratar. Então, nem se discute. Deixa o cara beber. Existe a política do “fecha os olhos” e nada é feito.

<b.Notisul – O senhor considera que o Brasil tem a cultura do vício?
Bráulio – A sociedade, o ser humano tem a cultura do vício. Ninguém convida o amigo para ir à sua casa para comer um pão. Geralmente, o convite é para tomar uma cerveja. O ser humano, na maioria das vezes, é um ser insatisfeito. E, como não sabe lidar com os seus problemas, busca uma droga para tentar anular estes problemas como se tudo fosse se resolver magicamente.

Notisul – É como o cigarro em casa, por exemplo. A criança desenvolve o hábito por ver os pais fumarem…
Bráulio –
Exatamente. Lembra o que foi feito nas Copas do Mundo? Tinha a tartaruguinha, o siri, o cachorrinho. Estas propagandas não eram mais para pegar o adulto, o foco eram as crianças. Associavam o bichinho, a festa da Copa do Mundo e a bebida. Como a criança não iria achar aquilo bonito? É isso que falo: como um ministro, como um vice-presidente falam de droga, querem liberar as drogas? Os pais, a educação e mídia têm um papel muito importante. A mídia tem um grande problema. Só parou de divulgar porque o governo proibiu.

Notisul – Ainda sobre o cigarro, muito fumantes dizem que usam a substância porque os acalmam. Qual a relação?
Bráulio –
O cigarro não é calmante, é excitatório do sistema nervoso central. Ocorre que a minha cabeça, como é dependente, precisa daquilo. O que acalma é o vício, não a pessoa. A cocaína é o mesmo. O cara faz qualquer coisa, é capaz de matar para ter sua dose, não porque a substância faz bem ou acalma, mas porque supre a necessidade orgânica.

<b.Notisul – Estas campanhas preventivas surtem efeito?
Bráulio – Surtem. O cigarro, por exemplo. Morrem cinco milhões de pessoas por ano por conta do tabaco. Então, temos que fazer com que se pare de fumar em locais fechados e públicos. As crianças são as que mais sofrem, especialmente as que convivem com fumantes. Claro que (a campanha preventiva) funciona, e muito. Tem que aumentar esta divulgação porque é a única forma de tentar controlar, alertar. Por exemplo: se eu colocar um relógio que faz o barulhinho tic-tac aqui, hoje ele me chama atenção, amanhã já nem tanto e daqui uma semana nem lembro mais que o objeto está ali. E é isto que ocorre em relação às drogas. Estamos em uma sociedade completamente, entre aspas, drogada. Usa-se droga em qualquer faixa etária e níveis sociais e nós nos acostumamos. As pessoas estão se matando, morrendo e a gente trata como normal. Se eu levar um tiro, é normal. Se eu for assaltado, é normal. Se o cara morre por causa de droga: É, morre mesmo. O que é isso? Não é nada normal. Isto afeta a mim, às famílias, ao ser humano. A incidência é grande e muitas vezes não queremos ouvir, ver ou falar. Hoje em dia, tem tratamento para muita coisa, depende de como é feito.

Notisul – E funciona?
Bráulio –
Funciona. Vou dar um exemplo no alcoolismo porque é a maior incidência e é a droga que dá mais problema. Brigas e acidentes ocorrem mais no fim de semana. Não é por causa da festa, é porque existe o álcool. Tanto que se tentou fazer algo em Tubarão. Hoje, já existem medicamentos que tiram a vontade de beber e de fumar. É caro? É. Mas existem alternativas. E isto é importante divulgar.

Notisul – Hoje, é mais comum o senhor atender pessoas com que tipo de dependência?
Bráulio –
Hoje, o mais comum são pessoas que usam várias drogas. Lícitas e ilícitas. Pessoas que bebem e cheiram cocaína, fumam maconha e cheiram cocaína, bebem e fumam maconha e tabaco. A maioria das pessoas é assim. É difícil as que chegam com dependência de apenas uma droga. As pessoas que procuram o serviço público hoje são por conta do crack. Elas já chegam, entre aspas, arrebentadas física e psicologicamente e na própria dependência da droga. Há pacientes que chegam desesperados: “Me interna que senão vou me matar”. Isto já ocorre com frequência no serviço público de Tubarão. Já tive pacientes que chegaram: “Doutor, esta noite troquei minha moto por droga. Faz alguma coisa que não consigo parar”. E o problema é que não há onde internar, para onde encaminhar, não existe uma rede de hospitais, não existem clínicas. É muito complicado. Por exemplo, existiu esta luta anti-manicomial, que fizeram uma coisa toda errada, fecharam hospitais e vagas, só que não abriram nada. Hoje, temos esta população que precisa de internação e vai colocar onde? Mesmo abrindo este Caps-AD em Tubarão, não conseguiremos tratar nem 3% da demanda da cidade. Imagina se abrir isto para a região. É algo muito complicado, especialmente se liberarem a maconha ou outras drogas. A realidade em Tubarão é assustadora. Terrível.