Com uma responsabilidade tão grande quanto o nome do cargo que ocupa, o superintendente geral da Agência Reguladora das Águas de Tubarão (AGR), Afonso Furghestti, é o homem que sempre esteve à frente do desafio iniciado ainda na gestão do ex-prefeito Carlos Stüpp: municipalizar o sistema de água e esgoto. Em junho de 2005, nos bastidores, ele já era “o cara” que tratava de organizar esta grande mudança na cidade. Agora, ele segue como “o cara” do prefeito Manoel Bertoncini para garantir que o começo tenha o desfecho desejado. E, quem sabe, se é permitido opinar, não exista melhor nome para isso. Afonso é bacharel em administração e especialista em gestão administrativa. Apesar dos livros ajudarem, ele tem algo que é mais importante do que a teoria: sabe lidar com pessoas.

 
 
Zahyra Mattar
Tubarão
 
 
Notisul – Como fica a gestão do sistema de água e esgoto agora?
Afonso Furghestti – Fica com o município. O consórcio Tubarão Saneamento, vencedor da licitação, está amarrado em um contrato. Não cumpriu, está fora. E garanto: a empresa vai ter que cumprir, porque estaremos lá fuçando, cobrando. A fiscalização fica a cargo da Agência Reguladora (AGR) e da população. E esta é a grande novidade neste sentido, pois é esta gestão participativa que garantirá o cumprimento daquilo planejado para nos tirar este atraso absurdo neste setor. Há 30 anos, existia uma lei com objetivos excelentes, dinheiro garantido. Deu no que deu porque houveram desvirtuamentos. O contrato firmado com o consórcio, de 30 anos, será analisado anualmente. Além disso, temos a prerrogativa de cancelar (o contrato) a qualquer momento. E é assim que será.
 
Notisul – Qual o planejamento para o primeiro ano da concessão? 
Afonso Furghestti – Na realidade, o primeiro ano será de transição, mas, quando se fala em água, não podemos pensar somente nisto porque o cidadão quer abrir a torneira e ter água. E o povo somos nós. Se falta água na minha casa, acredite, também passo a mão no telefone e ligo: cadê minha água? (risos). O grau de satisfação nunca será 100%, mas estamos aqui para fazer o melhor, para prestar um serviço honesto e transparente.
 
Notisul – Qual a meta a curto prazo?
Afonso Furghestti – Trabalhar para que em no máximo seis anos não existam mais residências sem água no perímetro urbano. Até o ano passado, tínhamos contabilizado seis mil pessoas que não recebiam água como deveriam. Mas, mesmo que fossem mil, no meu conceito isto é inadmissível. Os primeiros investimentos, algo na casa de R$ 10 milhões, serão feitos para atender todas as reclamações de falta de água recebidas pela ouvidoria, nos últimos 24 meses. Já iniciamos o levantamento para descobrir que tipos de obras serão necessárias. Não falo de paliativos, mas de investimentos que serão feitos em curto prazo, com durabilidade de longo prazo.
 
Notisul – A reserva de água sempre foi um problema. Esta questão está solucionada?
Afonso Furghestti – Não. Ainda é um problema. Mas isso será melhorado no próximo ano. Parte dos investimentos iniciais também é destinada para isso. Hoje, por exemplo, a reserva de água é suficiente para atender a cidade por apenas três horas, enquanto deveria suportar a demanda em, no mínimo, seis a oito horas. Este é um ponto urgente a ser solucionado.
 
Notisul – Ainda há muitas reclamações de falta de água?
Afonso Furghestti – Não como nos primeiros anos da municipalização, mas ainda tem. Na maioria dos casos, é porque a rede não atende mais a atual demanda da região, especialmente nas localidades onde as casas não têm caixa d’água. A falta de investimento, de planejamento para que o sistema de água acompanhasse o crescimento da cidade é um desafio enorme a ser vencido. Esta é uma das prioridades neste começo de concessão.
 
Notisul – Quais os pontos mais problemáticos em relação ao abastecimento de água?
Afonso Furghestti – Em 2006, fizemos um levantamento na cidade para saber onde faltava água. A primeira preocupação foi criar a ouvidoria, porque escutar reclamação é ótimo. É a partir daí que planejamos. É por meio destes dados que conseguimos descobrir onde estão as falhas, onde precisamos investir primeiro. Foi por meio das reclamações que viabilizamos as novas redes da Congonhas e do Andrino, por exemplo. Hoje, existem lugares que apresentam problemas sérios de falta de água, como  Taió, algumas áreas do São Martinho, São Bernardo, Passagem, Andrino, Rio do Pouso, Madre. A Madre é o pior deles. Lá teremos que fazer mais de 23 quilômetros de rede nova. A que atual é de péssima qualidade, rompe facilmente. É difícil o dia em que a rede da Madre não rompe três ou quatro vezes.
 
Notisul – A captação de água bruta sempre foi um problema. Haverá mais investimentos?
Afonso Furghestti – Por enquanto, não será necessário. Hoje, temos quatro bombas para captação. Duas funcionam 24 horas e as outras quando necessário. Colocamos uma quinta bomba para captar água de um ponto mais profundo. Além disso, compramos mais um conjunto de moto bomba reserva. Com isso, dificilmente vai faltar água em Tubarão nos próximos cinco anos. Mas aí é que está, temos que antecipar este tempo. Não podemos esperar cinco anos para reavaliar este tipo de necessidade. Por isso falo tanto em planejamento. Parece discurso batido, mas não é.
 
Notisul – Quando começa a implantação do sistema de esgoto?
Afonso Furghestti – A partir da construção da estação de tratamento. Temos três áreas que podem ser aproveitadas para isso: a região do Campo de Êra, o Rio Seco e Congonhas. Tecnicamente, a mais viável é o Campo da Êra. Os projetos começam a ser feitos no próximo ano e estes estudos devem estender-se por pelo menos um ano e meio. Obras somente em 2013, quem sabe 2014.
 
Notisul – A água do Rio Tubarão continua como uma das piores do país?
Afonso Furghestti – Não. O Rio Tubarão recebe cargas de químicos, orgânicos e metais pesados. Fazemos no mínimo 30 análises de água por dia. São 126 pontos de coletas na cidade. Nos últimos dois anos, a água do Rio Tubarão, por incrível que parece, tem melhorado. Hoje, temos todos os parâmetros seguidos rigorosamente e a qualidade da água está totalmente garantida.
 
Afonso por Afonso
Deus – Começo, meio e recomeço.
Família – Sem ela, não existe gosto pela vida.
Trabalho – Talvez uma das coisas mais importantes da minha vida.
Passado – Importante. Me fez o que sou.
Presente – Satisfação de ter um passado bom.
Futuro – Com certeza, será melhor do que hoje.
 
Nunca tive água mineral na minha casa. Nem mesmo na época da Casan. Só comprava água mineral para um cachorrinho que tive. Ele era alérgico ao cloro. Era até engraçado. Eu e minha esposa tomávamos água da torneira e o cachorro mineral. As pessoas não acreditam que a água da torneira seja boa, por mais que a gente demonstre que seja. E eu tenho como comprovar isso. No Brasil, vendeu-se esta ideia, e bem. Uma pena. A pessoa paga duas vezes: pela água da torneira e pela água mineral. Quem mantém a caixa d’água limpa tem água boa em casa.