José Roberto Martins, o Beto
José Roberto Martins, o Beto

Amanda Menger
Imbituba

José Roberto Martins, o BetoNotisul – Você foi eleito presidente da Amurel em uma eleição tumultuada. Seis prefeitos do PMDB pediram a desfiliação da entidade. Como avalia isso? Surpreendeu-lhe a atitude deles?
Beto
– Recebi com surpresa. Acho que essa reação é movida por outras coisas. Não é momento para dar depoimentos fortes, de se ampliar esse estado de visão que se estabeleceu na Amurel. Meu papel agora é utilizar a minha experiência e conversar com cada um destes prefeitos. Uma certeza eu tenho: a minha consciência é de que fiz tudo corretamente, respeitei o processo democrático. Não é a primeira vez que tento ser presidente da Amurel. Houve um outro momento que quis ser e fui informado por amigos: “Beto, recolhe que não é a tua vez”. E não fiz nenhuma atitude de represália, não me ausentei da Amurel. Inclusive, ajudei o prefeito que se elegeu, porque se ele conseguiu a maioria, mérito dele. Agora, no momento, tenho a maioria a meu favor e é uma expressiva maioria, porque é só um partido que se posiciona assim. Só depois de eu conversar com cada um deles, porque quem deve alguma explicação agora são eles, e não eu.

Notisul – Eles alegam que você não os procurou para compor a chapa, isso ocorreu?
Beto
– Tive uma atitude respeitosa com cada um deles, liguei para praticamente todos, só com o Tonho (Antonio Felippe Sobrinho), de Pedras Grandes, não consegui falar. Eu disse que respeitava a decisão deles de apoiar Nei (Rudinei Fernandes do Amaral, de Gravatal), porque não queria criar embaraços dentro do partido, não teria essa leviandade e gostaria de prestar a eles uma justificativa da lisura e da legitimidade da minha candidatura. E o que eu ouvi deles foi uma posição de respeito à minha candidatura. Eles dizem que eu não procurei para compor a chapa, porém, como propor uma composição se havia um posicionamento solidificado em torno da candidatura de Nei? Não vou convidar para fazer parte da minha chapa quem faz parte da chapa do Nei. No Notisul, e em todos os veículos de comunicação da região que me perguntaram sobre a eleição, eu disse que o meu sonho era buscar o consenso. Agora, resgata as entrevistas do meu adversário, do Nei, e o que ele diz? Que teria disputa, que ele concorreria de qualquer jeito. Agora, como vou buscar consenso com alguém que já estabelece um estado de embate prematuramente como ele fez. Teremos muitos prejuízos para a Amurel caso esses prefeitos não venham a rever seus posicionamentos e esses prejuízos também se refletirão nas cidades deles.

Notisul – De que forma você acredita que isso possa prejudicar a região?
Beto
– Imagina o prefeito de Jaguaruna: a Amurel tem sido o epicentro da busca incessante do apoio, com ajuda de outras entidades, para o Aeroporto Regional Sul e o prefeito se desfilia da Amurel? Falarei com cada um dos prefeitos, respeito cada um, mas espero que possamos ter de volta a harmonia na Amurel. Volto a frisar. Só formei a chapa no último dia, sem a presença dos prefeitos do PMDB, por respeito à candidatura do Nei. Ele nunca retirou a candidatura e nem me procurou para alguma composição. Foi em respeito à posição dele que formei a chapa com o apoio de outros prefeitos. Se os prefeitos do PMDB tivessem vindo à reunião de quinta-feira, não tenho dúvida que os demais teriam sido favoráveis à recomposição da chapa. Mas o que houve foi uma reunião na calada da noite, para apresentarem em uma ação orquestrada a saída da Amurel. Buscarei esses prefeitos para que retornem. Se isso não ocorrer, vamos nos posicionar oficialmente e ver quais serão as reações necessárias a essa rebelião.

Notisul – O prefeito Nei fez várias críticas. Disse que a entidade poderia ser melhor administrada. Para você, a Amurel é bem administrada?
Beto
– Só acho lamentável que as críticas venham agora e não no decorrer dos mandatos dos ex-presidentes. Acho um desrespeito à prefeita Leonete Back Loffi (DEM), de São Martinho, ao ex-prefeito José Schotten (PP), de São Martinho, e aos demais que passaram pela Amurel. Sempre digo que Imbituba é uma das cidades que menos usou a Amurel, mas não porque eles não podiam me ajudar, mas porque tenho ferramentas próprias que me desobrigam, às vezes, de procurar a associação. Falaremos especificamente de Gravatal: a informação que tive é que foi uma das cidades que mais usou a Amurel para elaborar projetos na área de engenharia e outras assessorias. Jaguaruna tem cabimento falar da Amurel? Foi através da associação que conseguiu a colaboração regional para ajudar na construção do aeroporto. Eu fui um dos primeiros prefeitos a pagar à vista o apoio ao aeroporto através da Amurel. Acho que não é momento para fazer estas críticas.

Notisul – Quais são os seus projetos?
Beto
– Temos que buscar novas formas de melhorar a arrecadação dos municípios. Cerca de 70% das prefeituras da região têm financiamento com o Badesc. Nossa ideia é conversar com a direção do banco e renegociar as dívidas. Além disso, incentivaremos a realização de consórcios intermunicipais em diversas áreas, como na saúde, que será presidido pelo doutor Manoel Bertoncini (PSDB) de Tubarão.

Notisul – Essa decisão de desfiliação dos prefeitos do PMDB pode ter consequência na tríplice aliança? Pode influenciar no cenário para 2010?
Beto
– Sempre fui leal à tríplice aliança e o governador Luiz Henrique sabe disso. Em 2006, eu era presidente da Associação dos Prefeitos do PSDB de Santa Catarina e tinha muitos focos de resistência à aliança com o PMDB, porque em muitas cidades o maior adversário do PSDB é o PMDB. É assim em Imbituba, em Tubarão, em Criciúma, Balneário Camboriú, Caçador, entre outros. Em 2006, com as minhas próprias despesas, viajei com os presidente das associações de prefeitos do PMDB e do Democratas para buscar a harmonia entre os partidos. Eu dizia que os prefeitos deviam esquecer o pleito municipal porque o estado era outra coisa. Sempre fui leal com a tríplice. Agora, se essa situação que está acontecendo se consolidar, é evidente que tomarei isso como uma posição de retaliação ao meu mandato. Entendo que sou um representante legítimo da tríplice aliança, porque sou secretário-geral do PSDB no estado e ajudarei a aliança a se compor e tomarei isso como um posicionamento contrário do PMDB da região à minha liderança e, aí, poderemos ter desdobramento na política regional.

Notisul – Quais os desafios de um segundo mandato?
Beto
– Segundo mandato é realmente diferente do primeiro. No primeiro, você é a novidade, é a surpresa. No segundo, é que nem casamento de longo prazo, às vezes a população já não tem a mesma paciência com as ações que levam tempo para acontecer e na cabeça deles é uma continuidade. Para mim, é um novo começo, porque você tem novos atores no processo. A primeira eleição foi ganha com certos apoios, a segunda com outros. Em 2005, vivíamos um estado de euforia na economia global e nacional, era uma linha ascendente, muitos investimentos, capital estrangeiro sendo investido no Brasil e isso se reflete diretamente na arrecadação do município. Assumimos em um período de crescimento e isso ajuda a governar. Agora é bem diferente. Assumimos as prefeituras em um período de recessão. A crise está aí e já sentimos os primeiros efeitos no país, basta ver as notícias de demissões em massa. Produções obviamente serão diminuídas e consequentemente vem a diminuição das receitas e as prefeituras têm menos dinheiro. Tem que ter cautela, sapiência e criatividade para enfrentar o momento. Espero que o meu segundo governo, mesmo com todo esse quadro, seja melhor do que o primeiro.

Notisul – Como está a situação política em Imbituba? Você tem o apoio dos vereadores?
Beto
– Acho que uma das grandes vantagens é que já fui vereador, então, entendo o sentimento deles em relação ao governo. Fui vereador nas duas condições, de apoio ao governo e de oposição. Tivemos a alegria de eleger sete dos nove vereadores, isso por si só já garante a governabilidade. Além disso, tenho boa relação com os vereadores de oposição, sabendo compreendê-los e ouvi-los naquilo que precisamos melhorar e aceitando as boas ideias. Minha relação com a câmara é ótima.

Notisul – Como estão as finanças da prefeitura? As medidas tomadas no fim do outro mandato de economia ajudaram?
Beto
– Sempre digo que quem não se antecipa ao fato paga um preço mais alto. Não adianta esperar estourar para depois tentar resolver. As minhas atitudes neste início de governo não são das mais simpáticas. Só nomeei 10% dos cargos comissionados. Isso tem oferecido algumas dificuldades na prestação de serviços, eu reconheço. Não vivo no melhor momento do meu mandato. Mas, essa cautela era necessária para apurarmos os verdadeiros efeitos da crise. Depois de contratar todos, demiti-los depois é pior. O melhor é ter cautela. Essas minhas atitudes são justamente porque prefiro perder popularidade do que credibilidade. Quando a prefeitura atrasa folha de pagamento e fornecedores, causa um verdadeiro caos na cidade, e isso não quero que aconteça. Aos poucos, o município vai ampliando e reassumindo a sua posição e o seu compromisso com o bom atendimento.

Notisul – De que forma a crise tem afetado Imbituba? Quais setores sentem mais?
Beto
– O turismo tem vivido uma linha de crescimento nos últimos anos, porque antes era inexistente, graças à divulgação com grandes eventos, como o WCT, Encontro das Baías mais Belas do Mundo. Mas, este ano, já tem certamente algum prejuízo assinalado porque muitas pessoas cancelaram as suas reservas em função da crise. As pessoas ficam com medo, começam a trabalhar mais a ideia da poupança do que o gasto. É evidente que o nosso município, como outros da Amurel, vivem em dependência das receitas estaduais e federais e, a partir da queda dessas receitas, o impacto é grande no repasse aos municípios. Quando assumi em Imbituba, a cidade tinha apenas 19% de receita própria, 81% vinha do estado e União. Já consegui mudar um pouco, passando para 33% de receita própria. Isso ajuda, mas é insuficiente. Qualquer queda na arrecadação de impostos tem reflexos nas prefeituras. O que recebemos em janeiro deste ano é menor do que janeiro de 2008, e isso é ruim, porque as despesas aumentaram.

Notisul – Quanto Imbituba arrecada por ano?
Beto
– Em 2005 eram R$ 23 milhões por ano. Conseguimos praticamente dobrar isso em quatro anos e, em 2008, fechamos com R$ 42 milhões. O que prova que conseguimos dar velocidade à economia do município, mas não é suficiente para dar conta das necessidades de Imbituba. Espero que o crescimento que a cidade terá com as obras no porto se reflita na receita própria para contrabalançar as perdas da receita vinculada. Temos problemas na área da saúde, não conseguimos atender a demanda, temos dificuldade em dar manutenção às ruas porque ainda tem muitas não pavimentadas, em fazer novos investimentos porque estamos sempre comprometidos com a folha de pagamento e os investimentos constitucionais em saúde e educação. Precisamos crescer para atender melhor.

Notisul – Além do porto, há possibilidade do município receber mais recursos federais?
Beto
– O único efeito direto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Imbituba está relacionado ao porto. Neste momento, há uma obra privada sendo realizada do terminal de conteiners, da empresa que venceu a licitação. O governo federal, através do PAC, faz as obras nos molhes que corriam o risco de romper e fechar o porto de Imbituba. A verdade é que muitos programas do governo federal estão atrelados a índices, como o de Desenvolvimento Humano (IDH), outros à quantidade de habitantes, muitos bons projetos são voltados para cidades com mais de 50 mil habitantes e, nesse sentido, saímos prejudicados. Aí, a necessidade de sermos criativos. Agora, através da Amurel, buscaremos apoio dos deputados, do governador, para que a gente possa suprir um pouco os problemas causados pela queda na arrecadação. Dinheiro novo no caixa é dinheiro a fundo perdido das esferas estaduais e federais.

Notisul – Ainda sobre o porto: como estão as obras, estão em andamento?
Beto
– O desenvolvimento do Porto de Imbituba é irreversível. A empresa que venceu a licitação pagou com o maior cheque que já vi na minha vida, R$ 120 milhões para ter acesso ao negócio. Esse dinheiro foi depositado na conta do porto e foram pagas muitas dívidas, R$ 20 milhões só de ações trabalhistas. E esse dinheiro foi injetado na economia de Imbituba com reflexo direto no comércio. Fora isso, a empresa assumiu o compromisso de investir, em 20 anos, mais de R$ 400 milhões e esses 20 anos são reduzidos a cinco. Só este ano serão investidos R$ 100 milhões na obra de construção de um novo berço que já começou. A Andrade Gutierrez, que é a empreiteira, já está em Imbituba fazendo essa obra. A geração de empregos e, inclusive, uma matéria publicada nesta semana no Notisul com dados estatísticos, mostra que Imbituba é a cidade que mais cresceu no índice de emprego. A tendência é continuar a crescer. Neste momento, Imbituba vive intensamente as obras do porto. Não no movimento de navios, porque estava sucateado e não tinha condições de receber a navegação moderna. Depois dessas obras, que estarão concluídas em três, quatro anos, e fartos investimentos em equipamentos, poderemos receber navios e movimentar cargas.

Notisul – Em janeiro de 2008 foram gerados apenas dez novas vagas de emprego em Imbituba. Neste ano, foram 90 postos, ou seja, nove vezes mais. O senhor acredita que, para janeiro de 2010, os números serão ainda maiores?
Beto
– Não tenho a menor dúvida. Não tem como crescer uma cidade se não tem projeto definido por prioridade. Desde que assumi, defini a prioridade como o porto, porque é o caminho mais curto. O turismo é a segunda prioridade, porque o caminho é mais longo, a cidade carece de infraestrutura para o turismo. Imbituba tem praias que a natureza foi pródiga, mas a estrutura da noite é deficiente, de restaurantes e similares é ineficiente, enfim, tem que melhorar. Isso é a médio e longo prazo. O porto é uma jóia rara. O Brasil não terá Imbituba como opção, ele precisa de portos e o nosso tem uma capacidade natural que, auxiliada aos investimentos, pode se transformar em um dos melhores terminais de cargas do país. Essa estatística é resultado direto da grande movimentação que o porto gera na cidade, é consequência. São 400 novos empregos, ou seja, 400 novos consumidores que precisarão comer, ter um local para dormir, roupas para vestir, calçados, tem o pessoal que vem para vistoriar a obra e fica em hotéis, enfim, toda a cidade ganha.

Notisul – Como está a situação da Icisa?
Beto
– Procuro ser sincero nas minhas colocações e ainda vejo com muita desconfiança o processo da Icisa. Temos procurado apoiar da melhor forma possível aquilo que os trabalhadores nos pedem, que a direção da empresa pede. Fiz várias reuniões com o governador para que ele considerasse os créditos do ICMS para o pagamento da energia elétrica. Mas ainda vejo com desconfiança porque o quadro é ruim. O passivo é de R$ 70 milhões, R$ 80 milhões e hoje você faz uma cerâmica nova daquele porte por menos da metade deste valor. Não é que eu desconfie da empresa que assumiu, mas é que a missão deles é difícil. Há uma promessa de que, nos próximos dias, eles coloquem as folhas de pagamento em dia, em cima de um seguro que foi negociado com o Bradesco. Já é uma boa notícia. Quem sabe eles consigam colocar a fábrica para funcionar, conseguem preservar se não todos os 350 empregos, pelo menos a metade. E a outra metade tentaremos recolocar no mercado com as oportunidades que virão.

Notisul – O WCT está confirmado?
Beto – Sim e, para nós, a mudança de novembro para o fim de junho é ótimo. É a baixíssima temporada e isso movimenta o setor hoteleiro em um período em que está vazia. O WCT deixou de ser um evento segmentado, só para os amantes do surfe. Com a entrada da RBS na organização do evento, eles regionalizaram. Antes, tínhamos que contar com a sorte, porque Imbituba era a penúltima etapa. Quando não estava decidido o título, era uma maravilha porque todas as estrelas do surfe vinham à cidade para a disputa. Agora, quando já estava decidido, muitos nem apareciam. Como será em junho, todos ainda disputarão o título e teremos a garantia de que as estrelas do surfe e as atenções do mundo inteiro estarão voltadas para Imbituba.