Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Por que estudar o regime das águas na Bacia do Rio Tubarão? Qual a importância deste estudo?
Rafael
– Desde 2005, quando eu comecei a cursar uma especialização e procurei alguns dados de chuva, tive muita dificuldade de conhecer os dados climáticos da região. Não apenas os de chuva, mas também os de temperatura, pressão e, depois da especialização, fui fazer o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) e resolvi dar continuidade às pesquisas. A minha dissertação é sobre a precipitação na Bacia do Rio Tubarão. Foi um estudo misturado com prazer, porque tinha curiosidade e não tinha respostas. Fui atrás das perguntas e hoje estou conseguindo dar algumas respostas. A importância é buscar dados que possam servir de base para entendermos estes fenômenos que são cíclicos. Não podemos evitar uma nova enchente, mas podemos minimizar os problemas.

Notisul – A sua formação é em engenharia química. Como isso o levou a estudar as mudanças climáticas?
Rafael
– Porque a engenharia química é muito relacionada com o meio ambiente e com as alterações da natureza com os seres humanos. A especialização que eu fiz foi em gestão ambiental na Unisul, e eu sempre fui muito preocupado com as nossas condições ambientais e um professor, que também trabalha na Ufsc, e conversando ele me incentivou a continuar os estudos e fazer o mestrado na federal. Não foi uma relação comercial, mas de realização pessoal, porque sempre tive curiosidade em conhecer mais a região onde moro, até porque sou de Tubarão.

Notisul – Você vivenciou a enchente de 1974?
Rafael
– Sim. Eu tinha 14 anos e foi exatamente no local onde estamos (risos), na Vila Moema. A água chegou a 1,30 metro dentro de casa. Enfrentei aquele problema e isso ficou muito latente em mim, tentar compreender o que tinha ocorrido. Na época garoto, ouvia o que os mais velhos contavam, e agora, depois que comecei a estudar, passei a entender o que ocorreu. Procuro encontrar dados para minimizar as futuras enchentes, porque elas certamente ocorrerão.

Notisul – E como está a coleta de dados para a pesquisa?
Rafael
– A parte de dados está completa. São praticamente dois anos e meio coletando informações e transformando estes valores em algo consistente, estão tabulados e agora falta concluir a escrita. Deveria apresentar em agosto, não sei se conseguirei terminar, porque faço parte de um grupo que está desenvolvendo um trabalho de medição do nível do Rio Tubarão e isso tem me ocupado muito tempo. Espero que até setembro eu consiga defender (risos).

Notisul – A instalação de uma estação meteorológica em casa foi para facilitar a coleta de dados para a pesquisa?
Rafael
– Os meus estudos são baseados em dados pluviométricos e, neste sentido, a Bacia do Rio Tubarão está, digamos, relativamente atendida. Existem dez estações, mas são todas manuais e tem que ir que atrás das informações. E, com este meu estudo, todo fim do mês tinha que ir às estações e buscar os dados, e surgiu a ideia de tentar automatizar isso. A primeira que veio foi montar uma estação meteorológica. Porque os dados pluviométricos têm nestas dez estações, mas dados meteorológicos não existem. Exceto agora, há menos de um ano, foi instalada uma estação meteorológica no Farol de Santa Marta. Até então, não tínhamos nenhuma. A região teve estações, mas elas tiveram as atividades encerradas na década de 1980, era uma em Laguna e outra em Orleans. Então, na necessidade de dados, usava as informações de Urussanga, que é uma estação completa, com dados históricos desde 1930, porém, o município não faz parte da Bacia do Rio Tubarão e, como eu quero fechar o trabalho com dados da bacia, por isso, eu adquiri uma estação meteorológica. Os dados da estação serão pouco utilizadas na dissertação, porque tenho dados de apenas um ano. Acredito que ela terá um maior valor daqui a alguns anos.

Notisul – Como foi montar a estação?
Rafael
– Existem hoje no mercado diversas estações, com os mais variados preços, mas variadas precisões. Quanto mais caras, mais precisas. Não tive a ajuda de ninguém para a compra, eu procurei uma estação que tivesse qualidade e que eu pudesse ligar ao computador e com a internet para poder divulgar estes dados à sociedade. Fiz uma pesquisa e consegui encontrar esta estação, que é produzida nos Estados Unidos, modelo Oregon. No Brasil, tem assistência técnica que possibilita a troca e a manutenção das peças. Eu comprei completa, com os quatro sensores: temperatura, pressão, umidade e vento, além da chuva. Ela está instalada desde março do ano passado.

Notisul – Neste um ano e pouco, o que você observou de diferença no clima?
Rafael
– É muito cedo para traçar uma tendência (risos). A série de dados é pequena. Posso comparar, por exemplo, dados de maio do ano passado com maio deste. Choveu menos este ano. Este mês agora, junho, tem sido mais seco do que o mesmo mês em 2008. Aliás, junho é o mês que menos chove na região. A temperatura deste ano está mais baixa do que a do ano passado. Mas é um intervalo de tempo muito pequeno. Certamente, com o passar do tempo teremos mais dados e poderemos fazer outras avaliações.

Notisul – Você falou que no Farol a estação foi instalada há um ano e em Urussanga existe desde 1930, por que esta dificuldade de obter dados? A instalação desta estação é em decorrência do furacão Catarina? O governo está mais preocupado em observar estes dados meteorológicos?
Rafael
– O Catarina despertou as atenções, mas não o suficiente. As nossas autoridades ainda não têm a consciência exata do que representam as condições climáticas e que isso pode alterar a condição de um povo. Esta do Farol de Santa Marta foi montada em função do Catarina, ela está bastante perto da costa. Mas deveríamos ter instalada mais umas quatro ou cinco no litoral, onde eventualmente adentraria um novo furacão. Além desta do Farol, a Epagri reinstalou uma em Araranguá, que estava desde 2003 desativada. No nosso caso, em que o maior problema é o de inundações, esta estação no Farol pouco ajuda. Precisamos ter estações montadas acima, na região serrana, porque elas é que nos avisarão o quanto o nível do rio já subiu e outras informações meteorológicas. Este, aliás, é um dos objetivos da pesquisa, montar esta estação meteorológica em Tubarão e sensibilizar as autoridades, ou empresas, para instalar estações em outros pontos da Bacia do Rio Tubarão. A intenção é que esta estação na Vila Moema seja um embrião, começamos esta estação só com os dados meteorológicos e creio eu que, a partir da próxima semana, sejam disponibilizados no site os dados do nível do Rio Tubarão. Esta estação é importada, mas o sensor de nível do rio é desenvolvido por uma empresa genuinamente tubaronense, a Evoluma. Estamos fazendo testes para conferir a transferência de dados, por telefone celular.

Notisul – Onde está instalado o sensor?
Rafael
– Está no Rio Tubarão, próximo ao Quartel do Exército, nas margens do rio. No site, vamos depois divulgar as coordenadas geográficas exatas do local, para que todos conheçam. Eu vejo como o grande diferencial das medições anteriores, que eram feitas nas margens do rio, com uma régua, na frente da antiga Souza Cruz.

Notisul – Mas as pessoas continuam conferindo o nível do rio na régua…
Rafael
– Por ser o único referencial da cidade. Tem uma outra régua, instalada embaixo da ponte Orlando Francalacci, a do Quartel, mas ela já está com a marcação bem fraca. As pessoas não conhecem muito, porque não existia em 1974.

Notisul – Tubarão já teve uma estação pluviométrica, perto do Quartel. Por que foi desativada?
Rafael
– Na Orlando Francalacci, existiu, de 1984 até 2003, uma estação fluviométrica que media o nível do rio. Mas foi desabilitada. Os únicos dados oficiais de nível do rio no centro da cidade eram o daquela estação, mas hoje não é feita mais a medida. Ela não era automática, tinha um operador que fazia a leitura, todos os dias, às 7 horas e às 17 horas e mandava isso para Brasília.

Notisul – E era de qual órgão?
Rafael
– Era da Agência Nacional de Águas (ANA). Sendo que quem cuidava era a Epagri, um trabalho terceirizado. Aliás, é a Epagri que cuida de outras estações da ANA na região. Aqui em Tubarão, temos uma estação de chuvas no bairro São João.

Notisul – Como funciona a medição do nível do rio?
Rafael
– Já existe na estrutura da ponte uma régua metálica com a graduação em centímetro, semelhante à da Souza Cruz, porém, metálica. Em outros locais, são fixadas nas laterais. Algumas são de madeira pintada.

Notisul – E a chuva, como é medida?
Rafael
– Em Tubarão, é feita no São João uma série de 1980 para cá. Existe uma outra também de chuva e de nível do rio, desde a década de 40, no Rio do Pouso, logo depois da confluência do Rio Braço do Norte, que vem de Orleans, com o Rio Tubarão. Estes é que são os dados que usamos de comparação. A pluviométrica é feita todo dia, às 7 horas. Existe um pluviometro, semelhante a um balde, com 26 centímetros de largura e 40 de profundidade, então, a chuva cai ali e fica retida. Todo dia de manhã, o operador leva uma proveta de vidro ou plástica graduada em milímetros e eles transferem com uma torneira e aí tem a informação de quantos milímetros choveu. É manual, sujeita a erros.

Notisul – Qual o número de estações meteorológicas que deveriam ser instaladas na região?
Rafael
– Depende da condição geográfica. Se é uma região plana, pode ter menos estações, a cada 100 quilômetros quadrados ter uma estação, porque as condições são parecidas. Isso é a mínima, não a ideal. Como a nossa região é bastante acidentada, é apregoado que tenhamos uma estação a cada 40 quilômetros quadrados. Claro que isso é o ideal, estamos longe, não temos nenhuma ainda. No projeto que enviamos a Brasília, pretendemos no mínimo 21 estações.

Notisul – Este projeto é o mesmo aprovado pela secretaria estadual de desenvolvimento sustentável (SDS)?
Rafael
– Desde dezembro, mantenho contato com o diretor de recursos hídricos da SDS, Flávio Victoria, e com Hamilton Justino, responsável pela instalação das estações, no Ciram/Epagri, e não tenho retorno. A última correspondência, de dezembro, eles disseram que o projeto, de um valor bem grande, tinha sido aprovado para todo o estado e que as nossas estariam contempladas. Talvez não todas meteorológicas, mas pluviométricas, e algumas com nível também, mas de forma automatizada. Confirmaram no fim do ano passado que o estado faria compra e instalaria durante o ano, mas até o momento não tivemos mais respostas. O de Brasília foi enviado para um deputado federal, para que através de emenda conseguisse recurso para as estações. Esse processo está em Brasília, dizendo que estava pré-aprovado, mas depende de terceiros.

Notisul – O recurso viria para o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão?
Rafael
– Também para o Comitê. Mas o projeto foi feito em conjunto pela Plantar Agronomia, com a Copagro e outras associações de rizicultores. Seria por meio de um consórcio, que o comitê faz parte. Mas são verbas que dependem de terceiros e a tramitação é lenta, por isso, resolvemos montar o projeto aos poucos, com estação aqui na Vila Moema e com a medição do nível do rio, perto do Quartel. A intenção é sensibilizar o poder público e empresas para que possamos instalar algumas outras estações.

Notisul – Qual a diferença deste projeto para o da prefeitura de Tubarão, que deve funcionar em 60 dias?
Rafael
– Eu não sei exatamente o que eles pretendem. Pelo que o Notisul inclusive divulgou, a intenção deles é monitorar o rio, é similar ao que pretendemos. A princípio, estas estações deles também serão importantes, porque irão monitorar o Rio Tubarão. Tomara que eles montem as estações e que consigamos as outras 21.

Notisul – O monitoramento do rio é importante para tomar decisões em casos de enchentes. Mas, além disso, o que é possível fazer para minimizar os efeitos?
Rafael
– A primeira atitude é uma Defesa Civil ativa. Um novo grupo foi formado com a nova administração municipal, mas é preciso que eles façam reuniões. São mais de 50 integrantes e é preciso trabalhar, desenvolver estratégias em eventuais desastres, não apenas em inundações, mas em um avião que venha a cair na cidade, um acidente com produtos tóxicos na BR-101, por exemplo. Tubarão tem Defesa Civil, mas outros municípios da região não. E isso é importante alertar. A Defesa Civil é para o momento ou pós catástrofe. Há outras medidas, inclusive estruturais, que precisam ser tomadas.

Notisul – E quais seriam estas medidas?
Rafael
– Uma delas é a ecobatimetria do Rio Tubarão, para sabermos qual é o nível de assoreamento do rio. Outra medida que não vejo efetividade, ainda, é com relação aos desmatamentos. As nossas encostas estão sendo agredidas, ocupadas por loteamentos irregulares. E precisa ser prevenido. Se chove e tem mata, a água vai passar gradativamente ao solo, demora mais para chegar aos rios do que as regiões que não têm cobertura vegetal. Além de provocar erosão e assoreamento, pode provocar ainda desmoronamentos. Em 1974, 40 pessoas morreram na região por causa dos desmoronamentos. Alguns trabalhos começaram a ser feitos com as matas ciliares, inclusive um do comitê com a Tractebel para a recuperação de nascentes. Mas é preciso fazer mais. E agora há um conflito com a mudança da legislação ambiental. Eu vejo isso como um retrocesso muito grande. Vejo que em alguns locais não poderia se cumprir a legislação, poderia haver uma flexibilização, mas acho que não deveriam baixar tudo para cinco metros. Outra atitude que não tem mudanças é as pessoas jogarem lixo nas margens do rio, nos terrenos baldios, nas ruas, entupindo bueiros e causando outros problemas. Isso é questão de educação. A iniciativa do vereadores Maurício da Silva (PMDB) de apresentar um projeto na câmara de vereadores instituindo o Dia da Memória da Enchente de 1974, lembrado no dia 24 de março, é importante. Porque a ideia é que as escolas realizem eventos para lembrar a data. É para rememorar isso, é importante que as pessoas saibam disso, tenham consciência e tomem atitudes para que não vejam ocorrer nos mesmos níveis. Uma inundação destas não depende do homem, é de condições atmosféricas, e a gente sabe que os problemas climáticos são cíclicos, teremos uma nova inundação, não sabemos se no mesmo nível, maior ou menor. O que sabemos é, que se for a mesma quantidade de precipitação daquele período, hoje, os problemas serão maiores. A população é maior, o número de residências também. Além disso, o esgoto não é tratado e é jogado no rio, com certeza, teremos problemas de epidemias pós-enchente muito grandes.

Notisul – A comunidade tem feito a sua parte, ou seja, tem cobrado estas atitudes por parte do poder público?
Rafael
– É muito pouco. Este é um dos motivos do meu estudo. Tenho apresentado as minhas pesquisas através do comitê, dos órgãos de imprensa, porque as pessoas têm que ter a noção que uma nova enchente pode ocorrer e que precisamos mudar algumas atitudes. Há coisas que nós podemos fazer em nossas casas, mas há outras que dependem do poder público e, como cidadãos, temos que fazer a nossa parte, que é cobrar que eles assumam a sua responsabilidade. Agora, parece que Tubarão está despertando para isso, até porque, no início deste novo governo, eles pegaram dois eventos de fortes chuvas e vários alagamentos e acho que isso os sensibilizou. Espero que não fique só na promessa, que as ações sejam concretizadas. Se a população não cobrar, certamente eles não o farão.