Foto: Divulgação/Notisul
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Perfil
Por onde ele passa, reúne verdadeiras multidões. Padre Sérgio Jeremias despertou para a vocação religiosa aos 8 anos, quando foi coroinha, e depois descobriu que sua mãe já havia o consagrado a Nossa Senhora ainda durante a gravidez. Hoje, celebra 25 anos de sacerdócio com a fé inabalada e trabalha incansavelmente para fortalecer a crença dos fiéis. Ele também é escritor, colunista, vice postulador do processo de canonização da beata Albertina Berkenbrock e crítico do que considera errado e injusto na sociedade, principalmente quando o assunto é política.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – O senhor completa 25 anos de ordenação. O que mais marcou a sua vida nesse longo período de sacerdócio?
Padre Sérgio –
Marcaram minha vida profundamente as experiências que me demonstraram o carinho de Deus em meu favor desde o meu nascimento. Deus sempre foi providente e, creio, a partir de minha história de vida, me chamou a partir do ventre de minha mãe. Marcou também a generosidade e o carinho de tantas pessoas que me ajudaram na obra evangelizadora por onde trabalhei todos estes anos.

Notisul – Como estão sendo as comemorações do seu jubileu?
Padre Sérgio –
Tive a alegria de celebrar os 25 anos com minha atual Paróquia de Oficinas, no dia 15, e em Braço do Norte, onde nasci, no dia 16 de novembro. Ainda celebrarei com minha querida Vargem do Cedro no dia 23 de dezembro. Têm sido momentos de profunda reflexão vocacional junto a nossos jovens. Tem valido a pena poder tocar o coração deles.

Notisul – A Igreja Católica passou por mudanças nesse tempo. Quais as mais significativas, na sua visão?
Padre Sérgio –
Creio que há uma volta ao sagrado atualmente, um redescobrir as coisas de Deus. Nossos jovens, por exemplo, mostram-se super sensíveis às coisas do Espírito. Creio que a igreja está constantemente tentando perceber os sinais dos tempos para levar o Evangelho da Salvação a todos os povos. Este não muda, o que muda é a forma de expressá-lo, de se anunciá-lo.

Notisul – Como o senhor descobriu que tinha vocação para ser padre?
Padre Sérgio –
Aos 8 anos, senti profundamente um gosto pelas coisas de Deus, ao ingressar como coroinha em Braço do Norte. Mas só depois fui descobrir que, desde o ventre materno, minha mãe já havia me consagrado a Nossa Senhora. Há uma série de fatos em minha vida pessoal, como partilhei em meu jubileu, que demonstram o chamado e a condução da Misericórdia Divina em minha vida.

Notisul – Que conselho o senhor daria para quem sente o chamado de Deus mas ainda tem dúvidas sobre a sua vocação?
Padre Sérgio –
Não fique com suas dúvidas para si mesmo. Busque conversar com um padre, uma religiosa, uma liderança da igreja. Fale sobre isto com Jesus diante do sacrário, na igreja. Leia os evangelhos e apaixone-se sempre mais por Jesus. Ele quer o melhor de nossas vidas, não o resto, Ele conta conosco.

Notisul – As suas missas são sempre muito procuradas pelos fiéis. Qual o diferencial?
Padre Sérgio –
Não sei. O que sei é que falamos e rezamos a partir do que acreditamos profundamente. A palavra, neste sentido, tem sempre uma resposta para o ser humano em todas as suas necessidades e realidades existenciais. O que fazemos é orar sobre ela e, aí sim, depois pregá-la com a ousadia do Espírito Santo.

Notisul – As missas carismáticas são as alternativas para chamar de volta à Igreja os fiéis afastados?
Padre Sérgio –
Pessoalmente, não gosto muito do título “missas carismáticas” (risos). Mas se, ao citá-las, você se refere às missas bem preparadas, animadas com belos cânticos e com forte pregação a partir da Palavra de Deus encarnada, aí concordo com você: esta é uma forma de buscar as ovelhas feridas e afastadas, como disse Jesus.

Notisul – Na sua avaliação, a queda no número de ordenações poderia ser evitada se o celibato não fosse obrigatório?
Padre Sérgio –
Pessoalmente, não creio que seja este o problema. Há dioceses como a vizinha Criciúma que têm muitas vocações. O fenômeno deve ser analisado mais amplamente. Mesmo outras igrejas onde o celibato não existe também passam por escassez de ministros ordenados. Creio que a crise é sempre de fé e de resposta da fé ao chamamento de Deus. Quando oramos pelas vocações profundamente e quando nos entregamos a uma vida no Espírito, não falta generosidade por parte dos chamados. 

Notisul – Frequentemente, fala-se sobre possíveis mudanças nas regras da igreja. Qual a sua avaliação a respeito?
Padre Sérgio –
A igreja sempre mudará naquilo que é acidental. Naquilo que é essencial, sua doutrina de fé, não mudará, pois a verdade evangélica não muda. Para se adaptar aos tempos, a igreja sempre deixou-se conduzir pelo Espírito Santo, que a orientou o que fazer e o que viver nos diferentes períodos da história.

Notisul – Estatísticas gerais apontam que o número de casamentos também tem caído e o de divórcios aumentado. Quais os motivos?
Padre Sérgio –
Na verdade, o número de casamentos religiosos tem se mantido constante em nossa diocese. Temos investido muito em Pastoral Familiar e na preparação de jovens namorados e noivos. Com isto, esperamos poder conduzir casais cada vez mais maduros ao altar, evitando feridas abertas pela imaturidade ou pelas infidelidades. É a velha regra: prevenir para não precisar remediar.

Notisul – Como o senhor avalia a participação dos jovens na Igreja?
Padre Sérgio –
Olha, em nossas missas aqui em Oficinas, fico espantado com o número de jovens nas missas de quarta-feira à noite e nos finais de semana, sobretudo aos domingos à noite. Nossos Grupos de Oração Jovem e Grupos de Jovens estão cheios, graças ao bom Deus. O jovem tem sede das coisas de Deus, basta sabermos como apresentá-las a eles.

Notisul – Muitos católicos continuam fiéis à religião, mas um pouco afastados da igreja. Essa fé pode estar abalada? Como fazer para trazê-los de volta?
Padre Sérgio –
Não existe seguimento verdadeiro de Jesus sem vida de comunidade. Ele mesmo disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”.  A vida da fé nós recebemos pelas mãos da igreja, não importa a que comunidade cristã pertençamos: precisamos formar comunhão com nossos irmãos e irmãs. Somente isto nos retira do abismo doentio da solidão e do desespero. Dar o primeiro passo é essencial. Aproximar-se sem medo. Deus nos ama do modo como estamos para nos tornar do modo como Ele deseja.

Notisul – O senhor já passou por algumas paróquias. Qual a diferença de administrar as maiores e as menores?
Padre Sérgio –
Os problemas são de diferentes intensidades e o ritmo também não é o mesmo. Mas em todas há sempre pessoas, seres humanos necessitados do perdão de Deus, da Eucaristia, do conforto e da direção da fé. Seja celebrando para duas pessoas ou para milhares, precisamos realizar bem cada ato evangelizador.

Notisul – Como está o processo da Beata Albertina, da qual o senhor é vice postulador?
Padre Sérgio –
Estamos acompanhando alguns casos de milagres. Tão logo surjam exames trazidos pelas pessoas ou atestados médicos, nós os encaminharemos a Roma para análise. Esta tem sido a maior dificuldade: ter em mãos a documentação dos milagres. As pessoas os perdem ou não trazem.

Notisul – O senhor é também escritor. Quantos livros escreveu e quais os próximos projetos?
Padre Sérgio –
Escrevi em torno de 70 livros. Alguns menores e outros maiores. Escrevi sobre fé e atualmente voltei a escrever para crianças e adolescentes. Estamos lançando em dezembro mais uma história em quadrinhos toda desenhada em Tubarão. E, para início do ano que vem, mais um livro infantil. Evangelizar pela arte é mais que necessário.

Notisul – Como os católicos devem interpretar a Bíblia?
Padre Sérgio –
A Bíblia é sempre uma resposta de Deus, atual e única para cada ser humano. Nunca a leia fora de contexto, mas procurando saber ontem e hoje o que o Senhor lhe diz. É a voz viva de Deus e bússola para nosso mundo tão adoecido.

Notisul – Uma última mensagem aos leitores de Notisul.
Padre Sérgio –
Tenho um grande carinho pelo Notisul. Escrevo no jornal desde o ano de fundação. Creio que sou o colunista mais antigo da casa. Só tenho tido alegrias junto aos leitores do Notisul. Deixo meu abraço, minha bênção e gratidão.