Bertoldo Weber
Braço do Norte

Notisul – Quando de fato começou a luta para a emancipação de Braço do Norte?
Xuxa
– A luta começou em 1943, com lideranças políticas e comunitárias de Braço do Norte, São Ludgero, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima e Grão-Pará, comandada pelo intendente distrital, Bernardo Francisco Locks (pessoa responsável pela região nomeada por Tubarão). Muitas reuniões foram realizadas e tinha ainda o fato da 2ª Guerra Mundial, e considerando que a região tem suas raízes na origem alemã, a situação era um pouco mais delicada. Discursos elogiáveis ao presidente Getúlio Vargas e ao interventor federal Nereu de Oliveira Ramos, necessários para que o objetivo fosse alcançado.

Notisul – É verdade que o município foi emancipado, logo após declarado inconstitucional e que prefeito e vereadores foram cassados?
Xuxa
– Sim. Esta é uma parte da história de Braço do Norte que a maioria não sabe. Após dez anos de luta, em 31 de dezembro de 1953, foi criado o município de Braço do Norte, sem a participação de Grão-Pará, e nessa mesma época foi nomeado o primeiro prefeito provisório, o tenente Pedro Nogueira de Castro, cabendo a ele a grande tarefa de preparar o município recém fundado para o primeiro pleito eleitoral. Feitas as convenções dos dois maiores partidos da época e fortes na região, União Democrática Nacional (UDN) e Partido Social Democrático (PSD), cada qual com seus candidatos partiram para a campanha. Considerando que a região de São Ludgero, Braço do Norte, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, a comunidade de Pinheiral, que eram redutos eminentemente da UDN, o PSD, achando que iria perder as eleições, entrou com um projeto na assembléia legislativa, declarando inconstitucional a criação do município.

Notisul – O que ocorreu após o pleito?
Xuxa
– Então, terminada a eleição, com a vitória inesperada do PSD, liderado por Dorvalino Locks, imediatamente o partido solicitou a retirada do projeto de inconstitucionalidade. Neste momento, a UDN, aproveitando este fato ter sido motivado pelo próprio PSD, exigiu o julgamento e uma decisão favorável. Nem chegada a dez meses de administração, em 22 de junho de 1955, a criação do município foi declarada inconstitucional e Braço do Norte voltou a ser distrito de Tubarão. Prefeito e vereadores foram cassados.

Notisul – O que aconteceu depois disto?
Xuxa
– O povo, não satisfeito e não concordando com a decisão de voltar a ser distrito de Tubarão, apresentou novo projeto demográfico e, em 22 de outubro de 1955, foi novamente criado o município, sendo nomeado como prefeito provisório Daniel Bruning.

Notisul – Naquela época já se comprava e vendia votos?
Xuxa
– Mesmo não sendo o correto, já se fazia este tipo de negociação. Existia, sim, na época, eleitor vendendo e candidato comprando, principalmente através dos cabos eleitorais.

Notisul – A forma de fazer política da época continua a ser a mesma em Braço do Norte?
Xuxa
– Não. Na época, existiam três partidos políticos: UDN, PSD e PTB. Nessa época, havia bares e locais comerciais que eram somente frequentados por integrantes de determinadas siglas partidárias. Não existia mistura, a rivalidade ia além da polícia, atingia diretamente outros assuntos. Não existia conversa. Existia uma verdadeira perseguição, até tiroteio acontecia. Em época e dia de eleição, era preciso apoio do exército. Hoje, é uma maravilha, todo mundo fala. Podemos dizer que os adversários respeitam-se, conversam, e existem negociações comerciais fora da política. Melhorou significativamente, apesar de ainda existir a venda e a compra de votos.

Notisul – E os primeiros passos do desenvolvimento, como foram?
Xuxa
– Foi difícil, mas era preciso abrir as estradas, inclusive com picaretas. Todos os governos estaduais contribuíram para o progresso. Cada um de sua forma e baseado na necessidade da época.

Notisul – Você participou diretamente da maioria das administrações municipais. Qual foi o melhor prefeito?
Xuxa
– Na minha avaliação, não existiu melhor ou pior prefeito. Cada um fez aquilo que estava a seu alcance, dentro de suas capacidades e possibilidades. Não existe prefeito que entra na prefeitura sem a vontade de querer fazer melhorias. Todos buscam fazer algo para melhorar a vida das pessoas.

Notisul – Qual a maior perda de Braço do Norte nestes 53 anos?
Xuxa
– Muitos não sabem, mas Braço do Norte teve um grande projeto elaborado, que foi a BR-475, ligando diretamente a BR-101 com a BR-282. Esta BR saía de Tubarão, passando por Gravatal, Braço do Norte, Grão-Pará e Urubici. Na época, a grande luta foi do deputado Edhemar Ghizi, o dinheiro tinha sido incluído no orçamento da União e, no valor da época, eram 65 milhões de cruzeiros destinados para a construção da rodovia. Representantes do povo de Braço do Norte, inclusive, participaram da assinatura de convênio para a construção das primeiras pontes sobre o Rio Laranjeiras e Canoas em Urubici. Estas pontes foram construídas. Tudo isso na década de 60.

Notisul – O que houve? A BR-475 não existe hoje…
Xuxa
– É bem aí o ponto que gostaria de chegar. Considerando que as lideranças de Criciúma e do sul do estado sabiam deste grande projeto, mobilizaram-se para convencer a União a destinar os recursos para outras finalidades, como, por exemplo, o apoio para a estrada da Serra do Rio do Rastro, em Lauro Müller. Resumindo, o deputado Adhemar Ghizi pediu apoio das lideranças destes municípios que iriam ser beneficiados, inclusive Braço do Norte, não obteve, ficou sozinho. E o final da história é triste, ficamos sem o dinheiro e, consequentemente, sem a tão sonhada BR-475. Se conversar com as pessoas mais antigas, em muitas propriedades foram abertas picadas no traçado onde passaria a rodovia federal.

Notisul – Quais são as maiores necessidades da cidade atualmente?
Xuxa
– A abertura de novos negócios, tanto no setor industrial como no comercial, com a finalidade de gerar empregos, e muitos empregos. No que se trata de obras, Braço do Norte necessita urgente do anel viário, maior investimento em pavimentações de acessos. Nestes 53 anos, muitas coisas foram realizadas, não por visão futura dos administradores públicos, e sim por pura necessidade real das pessoas e pressão popular. É preciso esclarecer isso. Cito como exemplo o problema da avenida Getúlio Vargas. O prefeito que resolver vai por pressão popular, o problema está aí, é antigo, e não pelo fato de ter visão futura.

Notisul – O município está atraso em quê?
Xuxa
– Falta muita coisa. Dinheiro não falta e, se falta, tem nas esferas estadual e federal. É preciso respeitar cada administração que passou pela prefeitura, mas, de forma geral, faltam incentivos nas áreas como cultura, turismo, esporte, inclusive para setor privado. Nosso município tem inúmeros potenciais a serem explorados, está ficando para trás, falta aquele empurrão público de verdade.

Notisul – Cite um momento de união das lideranças.
Xuxa
– Após a segunda e última emancipação, a união e o empenho das lideranças para criar a comarca de Braço do Norte. Foi marcante realmente.

Notisul – Os braçonortenses têm motivos para comemorar mais um aniversário da cidade?
Xuxa
– Têm. Apesar dos problemas, das falhas, existiram inúmeros sacrifícios, pessoas que passaram noites acordadas, empenho individual ou em grupo através do voluntariado, ou seja, dedicação de muita gente para que as coisas melhorassem e o desenvolvimento acontecesse o mais saudável possível. E isso não pode ser esquecido. Tenho orgulho de morar aqui e sou apaixonado por esta terra.