Foto: Priscila Loch/Notisul
Foto: Priscila Loch/Notisul

Com 16 anos de carreira como bombeiro militar, o comandante do 8º Batalhão, com sede em Tubarão, foi peça fundamental na operação de resposta ao vendaval que causou muita destruição na região no último dia 16. Natural de Florianópolis, o tenente-coronel Barcelos instalou-se no sul do estado em 1995, quando entrou para a Polícia Militar, mais especificamente em Criciúma. Em 99, transferiu-se para o Corpo de Bombeiros e seis meses depois passou a atuar na área do 8º BPM, onde comandou o pelotão de Orleans, foi subcomandante em Tubarão, instalou as companhias em Imbituba e Braço do Norte, e voltou à cidade-sede.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Tubarão e região viveram momentos de grande tensão há duas semanas, durante o vendaval. O trabalho dos bombeiros foi essencial para restabelecer a ordem e evitar maiores danos, especialmente físicos. Quais foram as principais dificuldades e os desafios nesta ocorrência?
Comandante Barcelos – O maior desafio foi o início do processo. Até organizar a cena de desastre é complexo. Após a região ser impactada – minha casa em Gravatal também foi – me desloquei assim que possível para o batalhão. Esperei o risco passar, como todos devem fazer, e me desloquei. As vias estavam congestionadas, havia muita destruição, muito entulho nas pistas, árvores caídas… Fui o primeiro bombeiro de apoio a chegar ao batalhão. Foi uma cena de tragédia. Chegar e ver o quartel destelhado, os corredores e salas alagados, o pessoal atendendo o 193 debaixo de chuva, porque o telhado tinha voado, chocou. É uma cena que desmotiva, porque o quartel é a nossa fortaleza, é a base de onde saímos para fazer os atendimentos emergenciais. O primeiro momento foi muito complicado, tínhamos seis bombeiros de serviço no dia, e eles estavam na rua, inclusive fazendo o atendimento do único óbito do evento. Por mais experiência que se tenha, por mais que tenhamos um sistema de operação padrão para esse tipo de situação, não tinha comunicação por celular, por telefone fixo, não tinha internet, não tinha energia elétrica, a central de rádio estava funcionando dentro da viatura. Nada estava propício. Todos os bombeiros sabem que quando ocorre um evento desse têm que se deslocar para o quartel, e à medida que eles iam chegando conseguimos organizar  tudo. Os atendimentos emergenciais continuavam com a equipe que estava de serviço. Não tinha nem lugar para fazer o posto de comando. Todas as salas estavam alagadas, tanto que ativamos o posto de comando na garagem, de forma improvisada. Nem as luminárias de emergência funcionaram no dia. A partir do momento que o sistema do comando de operações foi gerenciado, conseguimos ter noção exata do que tínhamos que fazer. A resposta rápida e a pronta apresentação do nosso pessoal possibilitou que tivéssemos sucesso na operação. Levamos cerca de duas horas para colocar o sistema a rodar. Estamos na era da tecnologia, tudo é no computador, é por sistema, online. Tivemos que voltar para os formulários de papel, no quadro de sala de aula trazido para a garagem anotávamos os recursos e as prioridades, selecionávamos as ocorrências, e o posto de comando triava. A partir do momento que o posto de comando foi instalado, o comandante de operações passou a ser o capitão Diogo, subcomandante do batalhão, que gerenciou esse processo, enquanto eu gerenciava a situação macro, a operação como um todo.

Notisul – A falta de energia e de comunicação atrapalhou demais o trabalho de todos os envolvidos. Existe um outro tipo de sistema, um plano B, para evitar esse tipo de transtorno?
Comandante –
O Corpo de Bombeiros tem como padrão um sistema de comando de operações com processo modular que vai se ativando de acordo com o tamanho da emergência, organiza a cena e os recursos, faz com que se tenha um controle geral, e ele é todo no papel. É claro que tem um sistema computadorizado que facilita a nossa vida, mas todos os formulários são no papel e já sabemos todos de cor, não precisa nem do impresso. Foi um desastre de impacto muito forte e sofremos um pouco de letargia até cair a ficha de que tinha que responder e responder rápido. A grande sacada foi a utilização do sistema de comando, estávamos treinando há muito tempo, e resolveu a nossa situação. Os recursos estavam disponíveis. O pessoal, à medida que ia chegando, ficava disponível. Nós conseguimos acionar reforço externo, com vinda de efetivo de Garopaba, de Imbituba, Braço do Norte, Orleans e das forças-tarefas. Uma situação dessas gera aprendizados. Nosso sistema de geradores não comportava fazermos as ligações do quartel inteiro e já estamos planejando para que nos próximos dias dois sistemas de geradores funcionando em duas salas. Dessa forma, já não vamos ficar sem energia. O plano de chamada que acabou não funcionando porque é baseado em telefone já está sendo refeito. São situações que só os desastres nos ensinam, pois não estamos preparados. Temos planejado para fazer uma central de operação 193 muito mais moderna, com início da construção ano que vem. Isso vai facilitar a nossa vida, porque vai ser um local mais blindado, os sistemas vão ser mais fortes, não vamos sofrer com o próprio temporal, se a telha cair vai ter uma laje segurando, a estrutura será bem melhor. Mesmo assim, o resultado foi muito positivo e a comunidade está aí para dizer como foi o nosso trabalho. 

Notisul – Temos que levantar as mãos para o céu por não ter sido em dia de semana…
Comandante –
Não gosto nem de pensar na hipótese de ter sido em dia de semana. Poderíamos estar sofrendo um impacto de proporção bem maior. 

Notisul – O trabalho em relação ao evento climático continua?
Comandante –
Na sexta-feira após o desastre encerramos a operação de resposta. Temos as fases de prevenção, resposta, avaliação e de retorno à prontidão. Quando encerramos a resposta, voltamos com o atendimento ordinário e passamos a nos preocupar com outra situação, a certificação das edificações comerciais e industriais que foram atingidas, para ter um documento oficial. Imediatamente, entramos em contato com o comando do Corpo de Bombeiros solicitando que houvesse um tratamento diferenciado para as empresas impactadas, quanto a análise de projetos ou vistorias a serem realizadas. Algumas empresas vão mudar de endereço, precisarão de uma nova estrutura, novo cadastro. O comando geral já sinalizou que vai facilitar principalmente no que diz respeito ao andamento dos processos, como liberação de alvarás provisórios, autorizar o início da construção sem o projeto estar analisado. De forma que as pessoas sofram o menor impacto possível com a burocracia do Corpo de Bombeiros. Fora isso, vamos colocar no papel o que deu certo e, principalmente, o que deu errado e precisa corrigir. Uma das coisas que temos que corrigir é o sistema de comunicação, especialmente o de internet e telefonia. O estado tomou uma decisão faz algum tempo que centralizou em uma única rede, através de um sistema voipe. Nossas ligações são todas através da internet. Caiu a internet, acabou o contato externo. A nossa internet está lincada na ADR, que ficou sem energia três dias e nós ficamos três dias sem internet no quartel. Temos que ter autonomia de resposta e fazer com que o estado entenda que as equipes que trabalham com resposta não podem ficar dependentes de outras. Temos que ter independência.

Notisul – Falando de ocorrências atendidas pelos bombeiros de uma maneira geral, qual a realidade de nossa região hoje?
Comandante –
O nosso batalhão é um comando regional, atende 21 municípios em 11 unidades operacionais. São 193 bombeiros militares, mais bombeiros civis profissionais contratados pelos municípios e os bombeiros comunitários, que são voluntários e capacitados para prestar serviços. Nosso leque de atividades inclui todos os tipos de desastres. O carro-chefe de atendimento é o pré-hospitalar. Mas a atividade que mais desenvolvemos em toda a área do batalhão é a preventiva, são as análises de projetos, vistoria de edificações. Os resgates e combates a incêndios, embora tenham dado origem ao Corpo de Bombeiros, não temos uma demanda tão grande. Até o salvamento aquático tem mais ocorrências que incêndios. Temos uma média de 45 ocorrências diárias em todo o batalhão. Só em Tubarão são cerca de 15 ocorrências todos os dias. Atuamos também na Operação Veraneio, em toda orla da Praia da Gamboa até a Praia da Esplanada. São quatro municípios, 31 praias, 44 postos de salvamento e chegamos a colocar 200 guarda-vidas de serviço durante o ponto alto da temporada. É uma área bem extensa e demanda um cuidado especial, são praias muito movimentadas. 

Notisul – E como estão os preparativos para a Operação Veraneio?
Comandante –
Os preparativos já começaram. Todos os cursos de formação de guarda-vidas civis, de recertificação de guarda-vidas civis que já atuaram em outras temporadas já começou. Estamos em fase final de reformas dos postos de guarda-vidas. E a partir do primeiro fim de semana de dezembro já teremos guarda-vidas nas praias, não de maneira integral ainda, mas proporcional à frequência. Nossa temporada começa mesmo no dia 17 de dezembro, com efetivo completo em todas as praias. Este ano, temos a meta de continuar com os índices atingidos em 2015-2016 e 2014-2015, duas temporadas seguidas que não registramos mortes em áreas do 8º batalhão protegidas por guarda-vidas. Somos o único batalhão do estado que está conseguindo bater essa meta. 

Notisul – Há sempre por parte da corporação um grande engajamento na semana do trânsito, até porque atendem muitas ocorrências desse tipo. As estatísticas apontam que a maioria dos acidentes poderia ser evitada se houvesse mais prudência?
Comandante –
Uma boa educação no trânsito faz reduzir os índices significativamente. Muitos acidentes ocorrem por falhas humanas mesmo. São cuidados básicos olhar para o lado, prestar atenção na via, parar nos locais corretos. Se tivéssemos uma educação para o trânsito mais voltada à prevenção, para a direção defensiva, com certeza não teríamos tantas vítimas. Os números são alarmantes e temos que focar mesmo em prevenção. Por isso que fizemos os acidentes simulados, onde, além de mostrarmos a nossa capacidade técnica, queremos alertar que um descuido pode ser o causador de acidentes que podem deixar sequelas.

Notisul – O bombeiro, de certa forma, precisa ter frieza para conseguir atender a todos os tipos de ocorrências, principalmente quando há mortos ou feridos graves. É uma questão de vocação ou experiência? 
Comandante –
Costumamos dizer que quando entramos no bombeiro temos que primeiramente endurecer a pele e esfriar o sangue para poder atuar. Mas somente a experiência vai formar uma pessoa mais fria, o dia a dia de trabalho com pessoas mais experientes. A maneira que eu abordava uma ocorrência quando eu era tenente, quando entrei nos bombeiros, hoje é muito diferente. Se eu fosse tenente comandando uma operação como a do vendaval, tenho certeza que eu não ia saber o que fazer. Tem muito também a questão da vocação. Quem tem vocação percebemos já durante a formação. Geralmente, eles têm como características calma, atenção, são detalhistas. São “n” situações que temos que avaliar antes agir. 

Notisul – O efetivo e os recursos repassados são suficientes para suprir as necessidades?
Comandante –
A falta de efetivo hoje é nosso grande calo. Até dez anos atrás, reclamávamos da falta de equipamentos. Hoje, temos equipamentos sobrando, desativados, porque não temos condições de operacionalizar por falta de efetivo. Embora busquemos sempre as soluções trazendo comunitários, civis cedidos pelas prefeituras, temos uma carência muito grande. Temos 193 bombeiros para 11 unidades. Só em Tubarão, são 43 bombeiros. Temos três escalas, 24 por 48 horas. Tem o serviço de atividade técnica para cidades com mais de 100 mil habitantes, mais de sete mil vistorias para serem feitas todos os anos, análises de projetos que têm que ser executados, toda a área administrativa que precisa ser gerenciada. O estado está cada vez mais bloqueado, tudo requer uma quantidade grande de pessoas para dar conta do serviço. Tem pessoal de férias, afastados… Então, quando colocamos esses 43 bombeiros em escalas de serviço, ficamos até envergonhados. Seis bombeiros de serviço por dia em uma cidade como Tubarão é de envergonhar. Um caminhão para trabalhar precisaria de quatro bombeiros: um condutor que opera a bomba, um comandante para gerenciar o processo e dois bombeiros para combater o incêndio. Nós temos dois no caminhão. A ambulância tem que trabalhar com três, não podemos baixar disso. Isso dificulta o nosso trabalho. Precisaríamos, no mínimo, do dobro do efetivo que temos hoje. Não vemos nenhuma chance de melhora nesse sentido. Quanto aos recursos, cada vez mais estamos sobrevivendo dos fundos municipais, resultado das taxas de vistoria e de análise de projetos. Hoje, somos responsáveis por alimentação, combustível, que eram do estado antes. Nossa capacidade de investimentos diminuiu. Está quase municipalizando os bombeiros. Mas não podemos reclamar, pois temos um controle muito forte de nossas finanças, conseguimos pagar o custeio e ainda sobra capacidade de investimento. 

Notisul – O senhor está à frente do 8º batalhão há oito meses. Que tipo de avaliação é possível fazer sobre este período de trabalho?
Comandante –
Como subcomandante, sempre tive muito acesso ao comando do batalhão. Sempre discutíamos muito e trabalhávamos em conjunto, temos uma linha de continuidade. Esse ano, já montamos nosso planejamento estratégico para definir onde queremos chegar até 2019, temos todas as unidades trabalhando muito autônomas, focadas na missão principal dos bombeiros. Nosso objetivo é até o fim do ano termos 100% do efetivo com seu equipamento de proteção individual, o que não é muito comum. Fomos o único batalhão que passou 100% por treinamentos de atendimento pré-hospitalar, combate a incêndios e resgate veicular em 2016. Só dois batalhões do estado têm centro de treinamento de combate a incêndios, somos um deles e nos transformamos em referência. 

Notisul – Já houve muitas divergências com os profissionais do Samu, faltava inclusive diálogo para o atendimento de ocorrências. Como é esta relação hoje?
Comandante –
Toda novidade gera um primeiro impacto. E o trabalho de bombeiros e Samu no começo foi disputa de espaço, as duas instituições querendo mostrar serviço e muitas vezes entravam em atrito. Mas o tempo fez com que todos amadurecessem. O grande problema de relacionamento entre bombeiros e Samu foi muito mais relacionado a gestões, e não às equipes de resposta, que sempre trabalharam muito integradas. No quartel, quando o suporte avançado estava aqui, estávamos custeando toda a estrutura sem receber nada em troca. Quando o suporte avançado, custeado pelo estado, resolveu sair, as coisas acabaram se acalmando. O município, responsável pelo suporte básico, ficou devendo um tempo, mas depois decidiu que seria melhor permanecer aqui. Hoje, temos um excelente relacionamento com o Samu. Inclusive, esse sistema pode ter mudanças a partir do ano que vem. O governo do estado fez uma proposta para que o Corpo de Bombeiros assuma o Samu. Temos experiência de 28 anos de atendimento pré-hospitalar em Santa Catarina e podemos contribuir. Quem sabe no ano que vem as duas marcas se juntam. Tudo que vier para melhorar o atendimento à comunidade tem que ser levado em consideração.