O engenheiro civil Rogério Bardini, 47 anos, participou de vários movimentos ambientais em Tubarão e no estado. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar com inspeção de projetos sobre energia eólica, financiados pela Caixa Econômica Federal, agarrou a oportunidade. Hoje, ele atua na gerência de desenvolvimento urbano e rural do órgão federal. “Aliei a vocação de ambientalista com a de engenharia”, ressalta Bardini.

 

 

Karen Novochadlo
Tubarão
 
Notisul – A energia eólica pode ser considerada uma das melhores que existe em termos de custo-benefício?
Rogério – Bom, teríamos de analisar a matriz energética brasileira, que está em momento de diversificação. Antes era muito concentrada nas hidroelétricas. Cerca de 70% da nossa matriz é voltada às fontes hídricas. A partir de 2003, o governo federal criou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). Com isto, fontes alternativas começaram a desenvolver-se, como a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). De uns três a quatro anos para cá, a energia eólica passou a ganhar força. Com o desenvolvimento tecnológico, a indústria eólica consegue fornecer aerogeradores de grande porte o que torna viável o parque eólico. Consegue produzir energia com um menor custo. Hoje, o Proinfa foi substituído pelos leilões de energia.
 
Notisul – O que são os leilões?
Rogério – No leilão de energia, é oferecido o projeto do parque eólico e o preço por quilowatt/hora. Se o projeto for aceito pelo governo, é garantido que, por 20 anos, que toda energia gerada será comprada pela União. Para participar dos leilões, há uma série de procedimentos, como ter o projeto aprovado na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que é um órgão do Ministério das Minas e Energia, ter o estudo do local onde o parque será instalado. O projeto precisa garantir, atestar, que naquele ponto poderá ser gerada energia. Não adianta fazer um investimento e não ter retorno. 
 
Notisul – E o Brasil tem tecnologia para isso?
Rogério – O Brasil nacionaliza esta tecnologia, isto faz parte do programa do governo federal. E é por isso que as fontes alternativas são ampliadas dentro da matriz energética do país. A energia térmica nunca irá deixar de ser necessária. Até porque a energia eólica não estará sempre disponível, afinal não é todo dia que tem vento suficiente para gerar energia. As fontes de energias devem ser vistas como complementos uma das outras, e não como substitutas. Como o Brasil tem grande potencial para a geração de energia eólica, é óbvio que o setor será ampliado. Investidores e grandes grupos, inclusive estrangeiros, estão sentindo-se atraídos.
 
Notisul – Em Santa Catarina, quais os locais ideais para a instalação de parques eólicos?
Rogério – São três pontos mais propícios para a geração de energia eólica: a região de Bom Jardim da Serra, onde começaram a construir um parque eólico, em Água Doce, no meio oeste, e na região de Laguna.
 
Notisul – Em Laguna existia um projeto. Como está?
Rogério – Tem dois parques com licença ambiental liberada, mas existe algum outro impedimento para a construção. O maior parque é de um grupo de investidores de Florianópolis. O outro é uma parceria entre uma fábrica alemã e a Celesc. Os outros dois parques em construção no estado, em Bom Jardim da Serra e em Água Doce, são da mesma empresa. Os recursos são do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas quem operacionaliza é a Caixa Econômica Federal.
 
Notisul – Como funciona a questão do armazenamento no caso da energia eólica?
Rogério – A energia não se armazena. O que é gerado é colocado na rede e distribuído.
 
Notisul – Então não existem perdas?
Rogério – Existem. Se há uma capacidade instalada de 1,5 mil quilowatts, na prática o equipamento gera 30% disso.
 
Notisul – Então a maioria dos parques gera 30% da capacidade instalada?
Rogério – Em média sim. Mas se for um local como o Ceará, por exemplo, onde venta mais, a geração de energia pode chegar a 40%. 
 
Notisul – E se não houver vento? Não gera nada?
Rogério – O equipamento tem uma velocidade de partida para começar a gerar energia. E também tem uma capacidade máxima de rotação. Um sistema de freio mantém a velocidade constante.
 
Notisul – Produzir energia eólica é caro?
Rogério – Existem fatores que contribuem para que o investimento seja maior ou menor. Em Bom Jardim da Serra, apesar de ser um único empreendimento, ele é dividido em quatro parques. Três de 20 torres e um com duas torres. Em Água Doce são seis parques, com 86 torres. As duas áreas foram orçadas, juntas, em R$ 1.250.587 bilhão. No Ceará, a mesma capacidade instalada custa R$ 930 milhões. O preço por quilowatt foi menor lá porque não precisou ser construída uma subestação e não foi necessário  transporte para longas distâncias, já que a fábrica de peças é próxima.
 
Notisul –  Quais são as vantagens da energia eólica?
Rogério – A primeira é que é uma energia limpa, não poluente. Também não tem custos de matéria-prima, a fonte de energia é renovável e é complementar a energia hidráulica. Nos períodos do ano em que os reservatórios estão mais baixos, a energia eólica é um ótima opção.
 
Notisul – Existe algum impacto ambiental?
Rogério – Seria mentira se dissesse que não. Só que o impacto, quando comprado a outras fontes, é muito pequeno. Um deles é a construção de ruas internas nos parques, para que os equipamentos possam chegar ao local. Antes também tinha a questão do zumbido, que melhorou bastante.
 
Rogério por Rogério
Deus: Meu chão.
Família: Tudo.
Trabalho: Realização.
Passado: Aprendizagem.
Presente: Realização
Futuro: Uma incógnita.
 
"A energia eólica também tem perdas, mas cresce no país. Somente para se ter uma ideia, a Tractebel Energia, em Capivari de Baixo, tem capacidade instalada de 830 megawatts. Só os parques implantados em Bom Jardim da Serra e em Água Doce terão, juntos, capacidade de gerar 222 megawatts. Isto é o equivalente a 25% do complexo elétrico de Capivari".