O médico Benhur Xavier Porto, é natural de Passo Fundo (RS). É um apaixonado pela profissão, atua na área há 18 anos. Antes de se tornar profissional da psiquiatria, Benhur atuou por dez anos como clínico na emergência do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão. Depois, estudou em Porto Alegre, no instituto Abuchain de Psiquiatria, onde se especializou na área. Há sete anos trabalha como psiquiatra e atua no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Tubarão. Agora, ele cursa outra especialização, a de dependência química, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
 
 
Angelica Brunatto
Tubarão
 
Notisul – Como o senhor começou a trabalhar no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Tubarão?
Benhur – Eu já trabalhava na prefeitura e, depois que me especializei em psiquiatria, queria trabalhar nesta área. Então, fui transferido para o Caps. 
 
Notisul – Como é a rotina de trabalho no Caps?
Benhur – Lá existe um ambulatório, onde eu trabalho. Ele atende a demanda encaminhada pelos postos de saúde, quando o clínico não pode resolver, por ser um caso psiquiátrico. Somos uma equipe de quatro psiquiatras. Do lado do Caps, existe o Caps 2, que é local onde as pessoas que precisam de um acompanhamento maior passam o dia. Elas entram pela manhã e saem à tarde. E existe também o Caps AD. Lá, uma equipe responsável atende dependentes de álcool de drogas. 
 
Notisul – Quais são as maiores desafios encontrados nesta área?
Benhur – A demanda é muito grande. Às vezes, não temos a possibilidade de oferecer uma assistência como deveria. Uma pessoa se consulta e só tem vaga para retornar em dois meses. Outro problema é a medicação. Existe um nível de medicação boa no SUS, mas às vezes a gente necessita de outras, um pouco mais caras, e temos que nos ater aos remédios disponíveis.
 
Notisul – Quais os principais problemas apresentados pelos pacientes quando chegam ao Caps?
Benhur – Sem dúvida, a depressão e o transtorno de ansiedade são os dois motivos mais frequentes. 
 
Notisul – Como a depressão se manifesta?
Benhur – Os sintomas são tristeza, falta de energia, humor deprimido, perda do prazer das atividades normais, desânimo, alteração do sono, falta de energia, que são diários por mais de 15 dias. A doença ocorre em algum momento da vida do paciente. Às vezes, porque obteve tem um fracasso profissional ou familiar, perdas, brigas, e passam por um período de tristeza. Geralmente, a pessoa consegue passar por esse momento. Mas algumas pessoas continuam com o desânimo. É neste momento que precisa se tratar, porque passa do tempo normal. É comum todos sentirem em algum momento uma tristeza.
 
Notisul – Esta doença tem recebido mais atenção nos últimos tempos…
Benhur – A depressão é discutida mais agora porque vivemos em um mundo competitivo. As pessoas não conseguem aquilo que elas querem, não alcançam seus objetivos. A sociedade cobra muito, e não conseguem lidar com essas frustrações. 
 
Notisul – O que causa a depressão?
Benhur – As causas da depressão são multifatoriais. Ela tem um fundo genético que pré-dispõe as pessoas. E, quando elas se defrontam com problemas sociais, familiares, no trabalho, perdas, não conseguem lidar com estes sentimentos, e após algum tempo começam a apresentar os sintomas depressivos. 
 
Notisul – Tem alguma idade específica para aparecer?
Benhur – É mais frequente na terceira e quarta década, entre os 30 e 40 anos.
 
Notisul – A depressão pode levar à morte?
Benhur – Pode, mas é raro. Às vezes, quando é algo muito grande, pode aparecer uma ideação suicida.
 
Notisul – Mas muitas pessoas cometem suicídio por causa da depressão. 
Benhur – Não, o que mais gera é o transtorno bipolar.
 
Notisul – O que é o transtorno bipolar?
Benhur – São aqueles pacientes que apresentam oscilações no humor. Às vezes, eles passam por períodos em que apresentam extrema depressão, tristeza, e as intercalam com humor eufórico, com ideias de grandiosidade e pensamento acelerado, que seriam os momentos de mania.
 
Notisul  – E por que essa doença leva ao suicídio?
Benhur – Porque a pessoa fica muito impulsiva. Tem uma impulsividade muito grande e entra em uma psicose. É um transtorno que se apresenta de uma forma muito grave. 
 
Notisul – O senhor também falou que a ansiedade é um transtorno que leva as pessoas a procurarem ajuda. O que é o transtorno de ansiedade?
Benhur – É quando a pessoa fica trêmula, com a sensação de que algo ruim vai ocorrer. A pressão sobe, o coração tem tremores, a pessoas apresenta falta de ar. A ansiedade tem várias divisões. O mais comum é o transtorno de ansiedade generalizada, em que a pessoa possui ansiedade sem ter um motivo, ela não se preocupa com nada. Existe também o transtorno de pânico. Esta está se tornando a terceira causa de procura nos consultórios. É uma crise de ansiedade em lugares muito abertos ou muito fechados, a pessoa não consegue ir ao mercado ou ao banco, por exemplo. 
 
Notisul – E as pessoas procuram ajuda por que querem ou por que a família insiste? 
Benhur – Geralmente, quem tem depressão ou ansiedade procura por vontade própria. Já quem possui o transtorno bipolar, geralmente, é levado pelo familiar. Isso porque eles percebem que a pessoa fica muito irritada, começa a falar muito, também quer fazer um monte de coisas e não faz nada, troca de ideias de hora em hora. A pessoa nesse momento não se acha doente.
 
Notisul – E quem sofre de depressão ou ansiedade sabe que está doente?
Benhur – Sim. Eles sentem que não têm energia, que não conseguem trabalhar. Hoje, a psiquiatria é a primeira ou segunda causa de procura do benefício do auxílio doença pelo fato da pessoa não conseguir trabalhar.
 
Notisul – Essas doenças são tratadas só com remédios ou há um tratamento alternativo?
Benhur – Existem os dois tipos de tratamento. Os alternativos são para os transtornos passageiros, e pode ser só psicoterapia, ou terapia interpessoal com aconselhamento. 
 
Notisul – Como se sabe se um paciente precisa de tratamento psiquiátrico? 
Benhur – Em psiquiatria, não existe um exame que indica se você está com esta ou aquela outra doença. Então, descobrimos quando os sintomas que as pessoas sentem trazem prejuízos para algum setor da vida dela.
 
Notisul – O que seria a psicoterapia?
Benhur – É um acompanhamento com psiquiatra ou psicólogo. Serve para tentar resolver os problemas através de conversas.
 
Notisul – O que é a dependência química?
Benhur – Este é um problema grave. Por que uma pessoa procura a droga? Esta é a grande questão! As causas são multifatoriais. São fatores genéticos, que criam uma vulnerabilidade na pessoa. Mas existem outros fatores, como o ambiental e o social. Se a pessoa mora em locais em que há muita droga, se os amigos dele usam, ou se a droga está muito perto dele, contribui. E tem os fatores psicológicos, que inclui a família desestruturada. Há estudos que indicam que filhos de pais que eram alcoólatras têm altos índices de adquirir o alcoolismo também. Depois que a pessoa experimenta, pode entrar numa dependência, que é difícil de sair. Porque a droga cria uma dependência, o corpo precisa da droga, da química da droga. E tem que usar cada vez mais. E ela perde o efeito, obrigando o usuário a continuar a consumir. Cria uma síndrome de abstinência.
 
Notisul – A droga é um problema geral?
Benhur – A gente vê nos jornais que mesmo em cidades pequenas a droga está se infiltrando. 
 
Notisul – Como está a situação em Tubarão?
Benhur – O problema é bem grande. 
 
Notisul – Qual a pior droga, em sua opinião?
Benhur – Ah, o crack, sem dúvida, é a mais destruidora.
 
Notisul – Qual o efeito de cada droga em uma pessoa?
Benhur – O álcool, todo mundo sabe, deixa a pessoa eufórica. A maconha mais calma. E a cocaína e o crack deixam a pessoas mais agitadas. Mas a gente nota que a pessoa faz o uso de drogas pela alteração de comportamento no meio familiar, no social, ocupacional e educacional. Entretanto, tudo isso depende da quantidade usada.
 
Notisul – Tem lugares suficientes na região para internar estas pessoas? 
Benhur – Antes de tudo, a pessoa tem que querer ser ajudada. Mas é difícil encontrar lugares para internar, são poucos. Aqui em Tubarão, não temos a ala psiquiatra, tinha antigamente, mas foi fechada. É muito comum, mas eu não recomendo, as comunidades terapêuticas, onde o paciente apenas fica lá e não recebe tratamento psiquiátrico, nem psicólogo, e nem medicação. Mas há outras clínicas, no Rio Maina, São José, mas são poucas. E pelo SUS então é difícil. Laguna possui uma ala psiquiátrica.
 
Notisul – Tubarão precisa de uma clínica deste tipo.
Benhur – Precisaria de um hospital que tivesse uma ala psiquiátrica. Claro que se estivesse um hospital seria melhor.
 
Notisul – Se um dia todas as drogas – sejam elas lícitas e ilícitas – fossem extintas. O que melhoraria na sociedade?
Benhur – Eu acredito que iria diminuir o número de acidentes de carros. Em pelo menos 70% dos acidentes com mortes os motoristas estavam com álcool no sangue. Outro ponto: 70% dos crimes de homicídios tinham álcool e droga no meio. Fora a violência contra a sua pessoa, porque a droga é uma violência contra si próprio.
 
Notisul – O que é possível fazer para melhorar a situação?
Benhur – Cada pai e mãe deve cuidar melhor dos seus filhos. É importante ter um acompanhamento, conversar para que eles não tomem o caminho errado. A polícia deveria atuar mais para conter o tráfico. O governo também poderia criar leis melhores no país, para diminuir o alcoolismo.
 
Benhur por Benhur
Deus – Seria as pessoas serem corretas durante a sua vida
Família – É a base da educação
Trabalho – Realização profissional
Passado – aprender com o ele
Presente – o momento atual
Futuro – olhar para o passado e para o presente visualizar o futuro
 
"A demanda é muito grande. Às vezes, não temos a possibilidade de oferecer uma assistência como deveria. Uma pessoa se consulta e só tem vaga para retornar em dois meses. Outro problema é a medicação. Existe um nível de medicação boa no SUS, mas às vezes a gente necessita de outras, um pouco mais caras, e temos que nos ater aos remédios disponíveis".
 
"É difícil encontrar lugares para internação, são poucos. Em Tubarão havia, uma ala psiquiátrica. Existem clínicas no Rio Maina
e São José”.
 
“Vinte e cinco por cento dos pacientes que têm transtornos bipolares tentam o suicídio. Destes, 20% acabam morrendo”.