Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Qual a expressão deve ser utilizada em referência ao início da ditadura militar no Brasil, revolução ou golpe?
Marilda Coan
– É um golpe. Revolução era o que o povo pretendia fazer. Nas décadas de 50 e 60, no Brasil, vinha desenvolvendo-se movimentos sociais em prol da mulher, da reforma agrária, de barateamento dos alimentos básicos, de estudantes que lutavam pela universidade pública. É, por isso, um golpe, porque o povo estava se revolucionando. E foi um momento em que os militares aproveitaram e, em nome da “ordem nacional”, tomaram o poder. É preciso entender como esse processo culminou no golpe.

Notisul – E como foi este processo?
Marilda Coan
– Depois da Segunda Guerra Mundial, gerou-se um mundo bipolar. De um lado, a Rússia, com as idéias socialistas; do outro os Estados Unidos, capitalista. Foi o período da guerra fria, que foi uma guerra intensa e que motivou conflitos reais entre outras nações. Gerou também a corrida espacial, por parte da Rússia e dos Estados Unidos. A disputa durou muito tempo, até 1989, que foi um ano considerado por alguns historiadores como sem fim. Até porque já havia um predomínio das idéias capitalistas sobre as socialistas. A ditadura militar na década de 60 e 70 não foi exclusividade do Brasil, ocorreu na América Latina toda: Chile, Argentina, Uruguai. E isso tudo foi motivado pela guerra fria e também pela Revolução Cubana, em 1959, realizada por Ernesto Che Guevara e os irmãos Raul e Fidel Castro. Cuba antes era domínio dos Estados Unidos. E isso gerou preocupação nos estadudinenses, que começaram a criar estratégias para manter a América Latina na sua área de influência e isso foi possível com o fortalecimento dos Exércitos nestes países. Era preciso frear o “temor vermelho”, o comunismo.

Notisul – Alguns historiadores afirmam que o golpe ocorreu no dia 1º de abril. Mas ainda é comum encontrar livros que citam o dia 31 de março. Por que esta diferença?
Marilda Coan
– O golpe concretizou-se no dia 1º de abril, mas, como esta data é conhecida como o dia da mentira, isso poderia abalar a legitimidade da ação dos militares. Por isso (risos), o dia 31 aparece nas bibliografias, todos os registros, tem essa data como a do início do regime militar. Poucos historiadores esclarecem esta confusão, que o golpe ocorreu no dia 1º de abril de 1964.

Notisul – Qual foi a maior atrocidade da ditadura militar? Foram as torturas?
Marilda Coan
– Eu considero que o pior deste período foi o cala-boca. O desenvolvimento da cidadania, os movimentos sociais foram paralisados, calados, e até hoje. E ainda temos outro fator, que é a política neoliberal, deixou o povo acanhado, apático. Claro que nós não podemos esquecer das famílias que perderam os seus filhos e que muitas, até hoje, não encontraram. Temos um grupo grande, entre 18 e 25 anos, formado por estudantes, que foram torturados e muitos morreram e desapareceram. Eu não saberia elencar o que seria pior, mas esse cala-boca, essa sociedade apática diante de tantos problemas é reflexo da ditadura. Basta ler os jornais. São denúncias do início ao fim, mas nós vemos o povo em um marasmo. A ditadura serviu como anestesia, porque as pessoas ficaram amedrontadas diante das prisões, exílios e torturas. A tortura deixava marcas não apenas em quem sofria, mas também nos familiares e nos amigos que participavam indiretamente.

Notisul – E como foi viver neste período? Como foi crescer, ser estudante, ainda mais de história, um curso que sempre teve fama de formar profissionais com forte senso crítico?
Marilda Coan
– Eu considero que é a mesma sensação que os estudantes do fim da década de 50 e início de 60 sentiram. Era a possibilidade de, por meio da universidade, ter acesso a idéias novas. Porque a universidade te faz pensar, abre portas, janelas. A universidade com disciplinas como sociologia, filosofia e a própria história contada em suas diversas versões mostra a possibilidade, um mundo diferente, que é possível lutar pela transformação. Eu estudei as minhas duas universidades no período da ditadura militar e também participei dos movimentos estudantis. E, aqui na região, nós tínhamos dificuldade em reunir as pessoas para discutir, acreditar nesta proposta de mudança. Eu tive um papel significativo neste movimento. Eu ia às salas, nos cursos considerados mais fechados, que eram os de cálculos, e fazia discursos. Víamos a possibilidade de uma sociedade melhor, de uma universidade melhor. Porque nós desenvolvemos o senso crítico em relação ao tipo de aula, de professor. Não aceitávamos tudo o que nos diziam. Fazíamos passeatas, abaixo-assinados. Nos reuníamos nos grêmios estudantis, que na maior parte da ditadura foram ilegais. A bandeira que defendíamos era de um mundo melhor, de uma universidade melhor e de dizer não às hipocrisias.

Notisul – Como era a Amurel neste período da ditadura? As pessoas tinham noção do que estava ocorrendo no Brasil?
Marilda Coan
– Poucas pessoas sabiam e tinham o verdadeiro significado do que foi este período. Até hoje, em sala de aula – nesta semana mesmo eu trabalhei este assunto com os alunos -, eu percebo que os alunos mais velhos não sabem qual é o sentido da ditadura. Alguns, ainda por influência de outras pessoas e informações, acreditam que a ditadura era algo bom e que deveria voltar. Isso porque todo mundo às 20 horas ia para casa, não tinha movimento de tipo nenhum. A maioria das pessoas da região não sabia o que estava ocorrendo. Embora alguns jovens, estudantes, foram torturados e mortos. Eu lembro de alguns, um rapaz de Braço do Norte, outro de Orleans que era estudante na USP. Algumas pessoas me contaram, em entrevistas, pesquisas, que foram presas, torturadas, por conhecerem outras pessoas, por participarem de sindicatos, por participarem de partidos que tinha na sigla a palavra socialista ou comunista. E aqui na região ainda tivemos a influência da igreja.

Notisul – Como era esta influência?
Marilda Coan
– Na cidade onde eu vivi, Orleans, o padre fazia todo dia 31 de março uma procissão e uma missa de agradecimento pela revolução não ter acontecido e dava graças aos militares por terem entrado no poder, o que evitou uma matança generalizada. Dito pela igreja o que o povo fez? Acreditou que realmente a entrada dos militares no poder evitou uma matança generalizada. Só que eles não sabiam que por detrás desta ditadura muitas pessoas eram torturadas, desapareciam e morriam.

Notisul – A ditadura enfatizava o uso da bandeira, o canto do hino nacional, as paradas militares. Isso pode ter influenciado o povo a não gostar de demonstrar o patriotismo?
Marilda Coan
– As pessoas passaram a repudiar a bandeira, o hino porque os militares usavam por exemplo, nos jogos de futebol. Os jogadores cantavam o hino em posição militar e as pessoas passaram a associar esse aparente amor à pátria a uma verdadeira negação. Porque, por trás da bandeira, do hino, estavam matando jovens, estudante que pensavam diferente dos militares. E isso criou uma antipatia. Antes, éramos obrigados a saber o hino e hoje reclamamos que os nossos alunos não conhecem a letra, e isso ocorreu porque foi feito um mau uso. Eu, como professora de história, acredito que os símbolos de uma nação, apesar de hoje não representarem mais a nação, fazem parte da identidade do grupo. Nós temos que questionar que o verde não é da mata, e sim da casa de Bragança (família dos reis portugueses), e o amarelo da casa da Áustria (família da primeira imperatriz do Brasil, Leopoldina, que casou com D. Pedro I), e não do ouro. A ditadura acabou prejudicando e criando essa confusão. A marcha dos desfiles de 7 de setembro também fez com que as pessoas criassem antipatia pelas paradas. Os alunos tinham que ensaiar a marcha, três, quatro meses antes. Por isso aquela cantiga: “Marcha soldado, cabeça de papel. Se não marchar direito vai preso quartel”. Ou seja, se você não fizer o que o regime queria iria preso, torturado e morto. Ainda vamos levar, creio, mais de 200 anos, para superar todas as influências da ditadura.